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	<title>Tribuneiros.com - humor, crônicas, contos, literatura, jornalismo, cultura, arte, comportamento, samba, carnaval, juventude, esportes, amor, política, economia, futebol, Flamengo, crítica, ensaio, artigo, folhetim, sátira, poesia, soneto, Bruna Demaison, Carlos Andreazza, Felipe Moura Brasil</title>
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	<pubDate>Sun, 08 Aug 2010 15:24:58 +0000</pubDate>
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		<title>Amigos, cinco minutos</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Aug 2010 21:34:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe Moura Brasil (Pim)</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><em>Texto publicado no livro </em>Contra a Juventude - As melhores crônicas tribuneiras<em>.</em></p>
<p>Meus amigos têm ciúmes dos meus livros. Na praia, avesso a conversas com mais de três pessoas, leio-os ao longe: os livros e os amigos. Vão dizer que é arrogância minha acusá-los de ciúmes – hoje é arrogância até ser avesso a conversas com mais de três pessoas: é anti-social -, vão me chamar de egocêntrico, eles na verdade não estão nem aí pra mim, quem sou eu para distraí-los em meio a mulheres de biquínis, resenhas sexuais, e papos de futebol e mercado financeiro? Não estão nem aí, mas reclamam. Reclamam de minha ausência da forma como costumeiramente reclamamos da nossa carência do outro: criticando o outro. Em suma: sou autista, velho e chato. Também os amo.</p>
<p>Nada mais incompreensível para quem não lê do que ser trocado por um livro. Que palavras escritas substituiriam as gargalhadas cafajestes de um domingo no Leblon? Que autores conquistariam meu tempo em detrimento à távola redonda de marmanjos em cadeiras de praia? Não, eles não me perguntam. Ninguém gosta de saber muito sobre aquele por quem foi trocado. Caso soubessem, poderiam quiçá avaliar, como o chefe diante do atraso do estagiário, se minha ausência se justificaria ou não: “Olha, tudo bem ser trocado por um Rubem Fonseca, mas por um Paulo Coelho, assim você me insulta, anda, vem sentar com a gente”. Seria ao menos engraçado, embora talvez eu argumentasse o quão necessário também me é (é?) ler os autores sem graça.</p>
<p>Muita gente tem a mania ultrapassada de estabelecer a quantidade de tempo dedicado como parâmetro oficial para o grau de importância concedido. Diz-se que devemos escolher melhor a profissão do que a mulher, porque passaremos mais tempo no trabalho do que com ela. Uma bobagem. Já assisti muito mais vezes a Um grande dragão branco do que a O poderoso chefão, e considero este infinitamente mais importante. Já li muito mais vezes a Turma da Mônica do que Dom Quixote, e, muito embora reconheça o inestimável valor de Maurício de Souza, sobretudo como incentivador do hábito de ler, ainda prefiro Cervantes. Já cantei muito mais vezes Trem das onze do que Coisas do mundo, minha nêga, e não me imponho por isso qualquer remorso.</p>
<p>Todo mundo tem amigos com os quais gostaria de passar mais tempo, aqueles de sair para almoçar de seis em seis meses, e contar as maiores intimidades recentes. Aqueles diante dos quais se pergunta o mesmo que me perguntei sábado ao pisar a quadra da Mangueira para o primeiro ensaio do carnaval: “Como pude ficar um semestre inteiro sem você?”. A única diferença dos amigos de todo dia para os bons amigos semestrais é que podemos esnobá-los mais amiúde, fingir ausência em sua deles companhia, quando na verdade apenas nos aproveitamos do conforto de estarmos próximos para fazer o que na solidão seria por demais&#8230; solitário. Cada um tem um limite de tempo para suportar qualquer atividade, inclusive conversar com os amigos. E são inúmeros fatores que contribuem para o estabelecimento desse limite, como, por exemplo e principalmente, a quantidade deles. (Três, volto a dizer, é um bom número.)</p>
<p>Pobre daqueles que ficam com peso na consciência por não dedicar à turminha o tempo devido, como se devido fosse, principalmente quando começam a namorar e deles ouvem reclamações de distância: fulano mudou, está diferente, não aparece mais&#8230; Claro que mudou, claro que está diferente, claro que aparece menos. As coisas mudam e, com elas, o tempo de cada um – o que não quer dizer importância. Alguns perdem as namoradas porque têm medo de ser chamados de autistas, velhos e chatos (adjetivos tão bacanas&#8230;) e se sentem numa forçada obrigação de manter o mesmo tempo dedicado aos amigos, o que, como se sabe, é matematicamente impossível. Certas relações amicais beiram o homossexualismo, e as namoradas têm todo o direito ao ciúme e ao pé na bunda, bem como à mais brilhante pergunta que uma mulher pode fazer: “Com licença, onde é que eu me encaixo aí?”.</p>
<p>Tentar extrapolar o tempo-limite de dedicação ao outro só porque um dia já foi maior soa como “tentar remendar uma obra defeituosa para levá-la à perfeição que não teve em sua primeira forma”. Como escreveu Huxley: “é vão e infrutífero”. Por isso, na praia, há um momento em que fecho o livro e os jornais e, durante cinco minutos, sacaneio um por um meus amiguinhos: a barriga, a careca, o nariz, a depilação peitoral, a voz afeminada, a cor da sunga e, como não poderia deixar de ser, o recorde de duas embaixadinhas - ao que, evidentemente, todos quase em coro me sacaneiam de volta: eu, o cabeçudo. Pronto. Eu nada seria sem esses cinco minutos. Agora já posso voltar a ler.</p>
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		<title>Um sóbrio em Salvador</title>
		<link>http://www.tribuneiros.com/2010/07/31/um-sobrio-em-salvador/</link>
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		<pubDate>Sat, 31 Jul 2010 03:18:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe Moura Brasil (Pim)</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Coluna da direita]]></category>

		<category><![CDATA[Bahia]]></category>

		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>

		<category><![CDATA[crônica]]></category>

		<category><![CDATA[Felipe Moura Brasil]]></category>

		<category><![CDATA[Me Abraça]]></category>

		<category><![CDATA[Nanda Banana]]></category>

		<category><![CDATA[Tribuneiros]]></category>

		<category><![CDATA[Um sóbrio em Salvador]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="left"><strong><em>Nota dos Tribuneiros: </em></strong><em>Originalmente publicado no site <a href="http://www.tribuneiros.com" target="_blank">Tribuneiros.com</a> após o carnaval de 2004, este texto de Felipe Moura Brasil (Pim) rodou o país por e-mail, tornando-se um dos maiores sucessos da internet, e acabou citado em reportagens de diversos jornais. Foi publicado no livro </em>Contra a juventude - As melhores crônicas tribuneiras<em>.</em></p>
<p align="left">*****</p>
<p>Tem que beber! Tem que beber! É a apologia geral. Carnaval em Salvador a seco? Cê num vai güentá, bróder, pago pra ver. Dei de ombros, disfarcei o susto meu de cada dia no campo de concentração, ordens superiores e exclamadas, a alta patente da folia, veteranos de blocos, eles bebem sim, estão vivendo, eles e a turma da persuasão em confidência, a mão no ombro e o ponto final: vá por mim, beba. Por você, não vou, obrigado, e meus botões, pouco antes das férias na gaveta, me alertaram com a experiência dos que já perderam muitos semelhantes no roça-roça de outros carnavais: cuidado, se tem que beber, deve ser muito ruim.</p>
<p>Não é, pensei, ou é, titubeei, mas acreditar neles seria como deixar de ver Rocky IV porque o Micky morre no III, ou Rocky V porque o Apolo morre no IV, de modo que, além da culpa de trair minha Mangueira, me expiei de preconceitos – conclusões somente a posteriori, sim? Boas férias, meus botões, e que venham os abadás! Tatuagem temporária é ruim de tirar, tô fora. Já as bandanas, vão a gosto: há quem use de munhequeira, véu, realce a bíceps e panturrilhas (a la Chong Li) ou mesmo para fins menos exemplares, como já se verá. Enrolei a da Mangueira no pulso, que se todo traidor fizesse propaganda, mulher divorciada não morreria solteira.</p>
<p>Alegria, alegria, meu povo! “Vamo nóis”, com lenço, mas sem documento, a não ser o passaporte no corpo pra mostrar na imigração – os seguranças conferem os abadás a qualquer altura do bloco antes de levantar a corda que carregam em fila perimétrica. Sejam bem-vindos ao ringue: um caminhão leva em cima os músicos, outro serve de apoio e ambos dividem em três partes o mundaréu monocromático de foliões no asfalto, uma horda de solteiros em sua, literalmente, esmagadora maioria. Fala, compadre. Oba, tudo bem? Beleza. E aí? Tranqüilo. Qualé? São Sebastião tirou o chapéu de palha e se fantasiou de São Salvador, nunca me senti tão popular noutra cidade. Apresente as meninas, rei. Com prazer. O Rio desembocou na Bahia, com direito a pororoca no Nana Banana e no Me Abraça.</p>
<p>É a sua primeira vez? Ih, peralá, neguinho tem cada pergunta&#8230; A principal delas é o placar. Quantos? Quantas? Nem a calcinha da Ivete desperta tamanha curiosidade. Será trinta um número exorbitante? Alguns perguntariam: para uma vida ou para uma noite? Mas ninguém se importa, porque imagem não é nada, sede é tudo, obedeça a sua sede, pegue geral! Parece até que a lei foi sancionada: quaisquer atos vivenciados no carnaval soteropolitano, condenáveis ou não pela sociedade, serão proscritos da memória coletiva tão logo finde o mesmo. Assim, concluo, com o indulto antecipado, o pecado iminente para o qual haverá perdão sem a necessidade de sujar os joelhos no confessionário, a maioria cai em tentação e até mesmo a cria para depois nela mergulhar de cabeça. (Convenhamos que trinta tentações na mesma noite, nem em camarim de Miss Universo.)</p>
<p>Bell Marques canta o amor eterno lá de cima, a saudade presa no coração, o amor perfeito no peito, o vôo para o ninho, pois ninguém vive sozinho, tudo dentro de uma receita de letras simples e melodias empolgantes – até mesmo para sambistas conservadores –, enquanto no chão, empapuçados de álcool e suor, uns beijam as outras, as outras beijam os outros e os outros beijam as amigas das outras. Rodinha, fila, suingue, arrastão de beijos, ora por vontade consentida, ora à força, ora sem querer tamanho o aperto e ora sem saber graças à inalação providencial (seja diretamente ou depois de embeber uma bandana) de lança-perfume, a droga contrabandeada da Argentina para atender à demanda da sempre indignada classe média brasileira. Quem tá solteiro aí? Quem ainda não beijou vai beijar agora! Assim gritam Bell, Durvalino, Ivete e companhia, e assim se faz o marquetingue tribalista dos espetáculos de axé.</p>
<p>Rapaz, aquela menina ali não é da PUC? É, tá passando o rodo&#8230; E aquela tua amiga, hein? Pois é, tá fazendo fila, por que tu num tenta a sorte? Não, não, tô numa de pensamento. Por quê? Ex-namorada na área, manja? Ih&#8230; E não sou só eu, Salvador virou o recanto das ex-namoradas: você paga o fondue durante anos, ensina qual é o De Niro e qual é o Pacino, e depois ela tá aqui pegando um cara tatuado, sem camisa e deixando ele passar a mão na bunda. E tu, num tá pegando geral? Ah, mas eu sou homem. Qual é a diferença? Existe diferença, sim, você sabe disso. Isso não é machismo? Machista é a sociedade, quer ver, ô clarividente? Manda. Então me diz qual é pior: a mulé que pega uns vinte no bloco ou a que pega um e dá pra ele depois do bloco? O que isso tem a ver com a tua mulé? Não interessa, responde. Ih, sei lá, me tira dessa, mete um ponto parágrafo aí, ô de casa!</p>
<p>Tá metido. Tão metidos. O ponto parágrafo e os cariocas, segundo as moças do meu tempo, meu caro Zé Kéti. Eles acham que a naturalidade é suficiente pra merecer beijo na boca, veja só que pretensão. Você não vai me beijar? Eu sou carioca! Não é bem assim, conterrâneos, as moças de família andam mais ressabiadas. Mas que os guerreiros não se preocupem: são só as de família. Uma pesquisa boba mostrou que a maioria dos entrevistados esperava encontrar um grande amor no carnaval. Não em Salvador, aposto, onde a sedução alcança os maiores índices de banalização, tornando ainda mais difícil conhecer alguém para ouvir junto às águas de março baterem no vidro da janela. E, se por um acaso se conhece, difícil é fazê-la acreditar em deslumbre e encantamento, principalmente se você tiver o azar de ser carioca. Muita calma e lábia numa hora dessa.</p>
<p>E muita calma também ao término dos blocos. Ou pressa, não se sabe ainda o que é recomendável. Bell avisa antes da saideira: galera do Nana, junte-se aos amigos e voltem pra casa atentos. Juntei-me aos amigos, voltamos pra casa atentos, a tropa arregimentada para percorrer o trajeto a contrapelo, e mesmo assim nossos bolsos viraram corrimão de quartel. Um amigo mal avisado viu seu colar indo embora em mãos ariscas. Outro, cansado de ter o bolso revolvido na multidão, levantou as mãos e passou gritando: podem mexer, já levaram tudo – ao que alguns safardanas agradeciam o poupar de seu tempo. Eles roubam até passar a fila imponente (e insuficiente) de oficiais da polícia militar, quando, aliás, testemunhei um deles sorrindo para um bandido como quem diz: agora você pára, né? Sim, param, dão adeus e voltam a pôr a mão na massa.</p>
<p>Aos sem-teto e sem-terra, excluídos do meu Brasil guaranil, agrega-se uma nova classe, sazonal, porém revolucionária: a dos sem-abadá, vulgos pipoca. E, como em toda classe social, há os que prestam e os que não prestam. A pipoca é composta por foliões à paisana, cuja indumentária livre só permite acesso a determinadas praças do percurso, calçadas apertadas e demais locais onde são espremidos em prol do divertimento dos com-abadá – vulgos ricos. Ricos e pobres, portanto, compõem um cenário estratificado, dividido por linhas de seguranças e visto com maior nitidez dos camarotes. Finda o circuito, baixam-se as cordas, as cores das roupas e das peles se mesclam, dois mundos se fundem e o Brasil mostra a sua cara. Me arranja esse abadá por duas cervejas e uma água? Os ambulantes vêm regatear com os ricos e os não-ambulantes mendigam: você tem que entender a situação da gente, que mora aqui, é fã do Chiclete e não tem dinheiro. Me arranja esse abada aí, patrão? (Ouvem-se em média – longe de mim as hipérboles! – uns quinze peditórios como esse depois de cada bloco).</p>
<p>Fico assim meio Rocky Balboa em meio à invasão do ringue, com um monte de perguntas no ouvido enquanto grito em delírios pela mulher amada, que não aparece. Volto à realidade e peço desculpas aos pedintes, vou guardar os abadás de lembrança – eufemismo para troféu –, inclusive o do Nana de sábado, apesar do trauma. Desde minha época de cover do Michael Jackson na escola que eu não passava tanto tempo inclinado a quarenta e cinco graus. Foram quase duas horas para ir de trás do bloco para frente, com momentos de memorável agonia como ficar esmagado contra o caminhão do Chiclete, este em movimento, pensando em atravessá-lo por baixo para respirar (como faria um larápio depois de roubar um folião no trio da Ivete). Isso até Bell interromper a música para organizar a pipoca desvairada e pregar a não-violência do alto de seu púlpito. Obrigado, rei, mas da próxima vez vê se vende menos abadá, falô? Zunzumbaba pra você também.</p>
<p>É inegável o carisma do cabeludo. Ele, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Durvalino têm qualquer coisa de cativante, muito além dos vocalistas de É o Tchan, Harmonia do Samba, Terrasamba [sic], Companhia do Pagode e outras formas alotrópicas de cantores baianos. Do polêmico Camarote 2222, em frente à concentração dos blocos, com o Farol da Barra ao fundo, vi tudo. E fiquei sabendo de um certo cochicho entreouvido no mesmo camarote no ano passado, cujos protagonistas, dois grandes nomes da dita MPB, batiam palmas da varanda. Um dizia: bandinha ruim, essa. E o outro: o pior é ter que aplaudir enquanto eles babam nosso ovo. Cada um com seus compromissos e, pelo menos este ano, quem não tivesse nenhum que fosse abusar da comida, da bebida e da internet liberadas. O céu era ali, minha gente, apesar do Marcos Mion. Se Deus tivesse os patrocínios da primeira dama da cultura, o Fome Zero viria de cima.</p>
<p>Garçons, modelos, celebridades e, entre um queijo brie e outro, a reflexão foi inevitável. Quem consegue um visto para o céu merece rever a vida pregressa nem que seja em fragmentos de tudo, de todos e de si mesmo: a Ivete levanta poeira, o Asa arreia, o Chiclete gruda no ouvido, o álcool se esparge aos borbotões, os sentidos se confundem, a juventude ébria, mulheres a granel, a euforia dos libertinos incontestes, o eflúvio de lança-perfume, vamos potencializar as qualidades, viva o hedonismo!, os dialetos cantados em coro!, quem é que entende Carlinhos Brown?, emu gé gé, emu gé ge, o significante prevalece ao significado, viva a alegria verdadeira!, a alegria fabricada!, a alegria imposta!, dê um grito aí, faça a festa pra valer, isso aqui é o paraíso!, ou não, que nojo!, ah, deixa de ser chato!, eu, hein!, que gente impudica!, dandalunda, meu rei, é lindo o povo feliz, cada trio é uma jangada a sair num mar de gente, baiano trabalha sim, empregos indiretos, beijos por tabela, eu não sou igual aos outros, em que blocos você vai?, venho aqui há oito anos, troca de abadá comigo?, hoje eu saio em quatro blocos, já tem camarote?, o circuito Barra-Ondina é melhor que o de Campo Grande, alugaram apartamento?, a pipoca do Camaleão tá sinistra esse ano, te encontro na Casa de Itália, antigamente era melhor, vamo fazê o pré no Boêmia, chegou quando?, agora virou indústria, vai pra Morro depois?, vai ficar parado, seu fura-olho?, é a maior festa popular do planeta, já pagou o Catamarã?, tira o cordão, essa fila toda é pro xixi?, celular nem pensar, vou fazer lá fora mesmo, foto só na internet, demorei muito?, dinheiro na cueca, uma umburoska por favor, uma sirigüeloska pra mim, sai do chão!, prove pelo menos, é típico, já foi ao Pelô?, sai do chão!, não deu tempo, vira-vira-vira, chega na ruiva que eu vou na loira, é pra sair do chão de novo?, já pegou quantas?, levanta a mão!, entre no clima!, hoje eu tô facinho, deixa eu passar, ih, a morena mais linda do avião, já vão baixar as cordas?, você viu fulano?, tô perdido, melhor esperar, melhor procurar, gostou?, amou?, é maravilhoso, não é?, e aí?, vem ano que vem?, já começaram a vender&#8230;</p>
<p>Basicamente, o carnaval de Salvador é isso: fragmentos de tudo, de todos e de si mesmo. Agora, aos que vierem com sorrisos e olhares maliciosos quando eu disser pra onde viajei em fevereiro, aquelas mesmas expressões que enfrentei tempos atrás depois de uma viagem a Amsterdã, umas feições de quem está imaginando suas agruras em terras distantes e famigeradas onde existem algumas permissividades que muitos invejam, normalmente os mesmos que vêm com tais olhares e sorrisos, aos que se aproximarem de mim com este perfil, portanto, serei obrigado a dizer nada, nada mesmo, até porque, amante das letras que sou, não gosto de interferir na imaginação alheia. (Que tal, aliás, imaginar três homens com a mesma mulher num quarto de hotel após o bloco? Aí, ao ouvir a campainha, ela interrompe a tripla penetração e, com um grito, põe ordem na casa: “Mais um, não!”. Acertou quem imaginou o cronista como o sujeito que toca a campainha. Tudo bem, vá lá, como o sujeito que cruza com a moça no elevador, porque um outro já havia acabado com a suruba ao tocar a campainha. Pelo menos a história é verídica.)</p>
<p>Contudo, aos <a href="http://www.tribuneiros.com" target="_blank">meus leitores</a>, aos meus amigos e aos meus botões, confessarei apenas que, contaminado pelo ideal carnavalesco da transgressão, deixei o suco de frutas e a água de lado, respirei fundo, tomei coragem e quebrei um tabu de quatro anos sem beber. Refrigerante, claro. Cada um com as suas liberdades.</p>
<p>*******</p>
<p><em>LEIA TAMBÉM: </em><strong>Juveninho no carnaval de Salvador </strong><em>[2010]</em><strong> <em>- <a href="http://www.tribuneiros.com/2010/07/29/juveninho-coletanea-de-cronicas/" target="_blank">AQUI</a>.</em></strong></p>
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		<title>Colégio de São Bento</title>
		<link>http://www.tribuneiros.com/2010/07/30/colegio-de-sao-bento/</link>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 20:29:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>C.A.</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Coluna da direita]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal"><em>Texto originalmente publicado no site </em><a href="http://www.tribuneiros.com"><strong>Tribuneiros.com</strong></a><em> em 04 de abril de 2008. </em></p>
<p class="MsoNormal">*****</p>
<p class="MsoNormal">Leio que o Exame Nacional do Ensino Médio [Enem], estupidez da pragmática tucana, consagrou o Colégio de São Bento como a melhor escola do Brasil. A julgar pelas notas, talvez o seja mesmo. Notas, porém, não têm importância alguma, a não ser, claro, para a reputação do colégio deformador: uma instituição cruel, beneditinamente desumana, que humilha crianças sob a mais prematura das competições, inoculando-lhes a inversão máxima de valores.</p>
<p class="MsoNormal">Eu estudei no São Bento. Sei do que falo.</p>
<p class="MsoNormal">Aos nove anos, em fevereiro de 1989, perdi meu pai. Estava na terceira série primária. Em agosto de 1989, a senhora Samaritana, coordenadora daquela instituição do senhor, chamou minha mãe à escola para lhe dizer que eu era incapaz. Eu tinha nove anos, perdera meu pai e, segundo o caridoso Colégio de São Bento, era um fracassado.</p>
<p class="MsoNormal">Amém.</p>
<p class="MsoNormal">Saí de lá. Graças a deus. Fui para outra escola – uma que não figura em merda de <em>ranking</em> algum: o Colégio Andrews, a que serei eternamente grato. (E que aceita meninas - a rigor, a única razão acadêmica para a existência do ensino médio).</p>
<p class="MsoNormal">Jamais regressei ao São Bento. Jamais passei à porta depois. Não fiz um amigo nele. Não me lembro do rosto de um sequer – e avento se o meu pavor à Igreja não decorrerá do nojo que sempre senti por obrigado a beijar a mão daqueles padres asquerosos.</p>
<p class="MsoNormal">O Colégio de São Bento, se o quisesse resumir, poderia ser definido pela seguinte relação: os meus colegas sempre quiseram me derrubar – e eu a eles. Não que nos fosse natural. Era-nos imposto. O colégio condicionava o sucesso de uns ao tombo de outros – e era aderir ou se espatifar. Com o tempo, incorporávamos aquela vileza como coisa comum, ordinária, sentíamos prazer no flagelo escolar de outrem – e a derrota alheia era intimamente comemorada.</p>
<p class="MsoNormal">Havia um funil, como se a aprovação anual fosse um concurso, com vagas limitadas, que independiam das notas: os que pior se saíssem, ainda que com seis ou sete de média, não passariam, e seis ou sete virariam quatro ou cinco. A regra era laurear uns sobre a mazela de outros. Estimular a concorrência. A disputa. A deslealdade, às vezes. Formar potenciais porcos chauvinistas. Aprofundar a falácia de que o desempenho escolar – esta irrelevância – pudesse fazer seres humanos uns melhores que outros.</p>
<p class="MsoNormal">Nunca me esquecerei, por exemplo, de um colega erguendo o braço, pedindo autorização para falar à professora durante uma prova, e me acusando, dedo em riste, de lhe ter pedido “cola” para resolver uma questão, o que de fato fizera, eu admiti, pelo que fui de público julgado e condenado não só à nota zero, mas também a ver concedidas todas as honras ao delator.</p>
<p class="MsoNormal">A engrenagem do Colégio de São Bento funcionava assim – e é a mesma que lhe confere, hoje, pelos critérios de gabinete do Enem, status de notável instituição escolar. Que não é.</p>
<p class="MsoNormal">Aos sete e aos oito anos, fui adiante, vazei o funil como pude, desconfiando de todos, sem exceção, egoísta ao extremo, sozinho, premiado por reconhecer no colega um adversário a ser batido de qualquer maneira, por quaisquer meios, desde que não fosse descoberto. Aos nove, simplesmente, não pude mais ter adversários, eu não podia – e fui, então, um fracassado reconhecido.</p>
<p class="MsoNormal">Eu andava pelos cantos do colégio, valendo-me das sombras que o iluminavam, vista arriada, e o meu pavor supremo era adentrar a impessoalidade do refeitório – teto alto e desornado, luz fria, paredes mais vazias que austeras, mesas longas e frigoríferas –, obrigado a comer em bandeja de aço aquela comida com paladar de fermento, feita e servida com desprezo.</p>
<p class="MsoNormal">Seguia de manhã para aquela escola com duas convicções: a de que seria infeliz, maltratado, provocado, testado sem fim, incompreendido sem fim, e de que presenciaria, pela hora do recreio, uma briga, a que todos assistiriam extasiados, como se numa arena de gladiadores, todos gritando palavras de ordem, de ódio, de afirmação masculina, motes de violência, recebendo a ocorrência do confronto como o evento social possível e bem-vindo aos que vão enjaulados na Febem, reprimidos por uma incubada pederastia, que explodia em raiva e valentias e desafios e golpes e socos diários, com crianças por fim agarradas no chão, apertando-se os corpos, tateando-se umas às outras – e sortudo me sentiria se a briga não fosse comigo. (Em todo caso, andava com um canivete escondido)&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">Eu gostava das aulas de natação porque, sem por à prova o homem que era, podia fazer as minhas lágrimas se confundirem com as águas da piscina. Não se chorava naquela casa de deus - eu sabia. E improvisava. Pelos olhos vermelhos, irritados, culpava o excesso de cloro.</p>
<p class="MsoNormal">A minha lembrança mais clara daqueles anos de São Bento é definitiva: nós recebíamos alguma visita na sala de aula e imediatamente, interrompendo não importava o quê, nos púnhamos de pé, retos, impecáveis, obrigados a cantar, em uníssono sorridente, músicas de boas-vindas. Nós éramos, então, a juventude hitlerista – o que só vim a perceber naquele dia de agosto de 1989, o dia da minha incapacidade e também o meu último de São Bento, quando, entrando com a minha mãe na sala para me despedir dos colegas, vi-os todos, inclusive o que me delatara, sorrindo e cantando o hino de boas-vindas.</p>
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		<title>Juveninho [coletânea de crônicas]</title>
		<link>http://www.tribuneiros.com/2010/07/29/juveninho-coletanea-de-cronicas/</link>
		<comments>http://www.tribuneiros.com/2010/07/29/juveninho-coletanea-de-cronicas/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 29 Jul 2010 18:34:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe Moura Brasil (Pim)</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Coluna da direita]]></category>

		<category><![CDATA[amor]]></category>

		<category><![CDATA[conto]]></category>

		<category><![CDATA[crônica]]></category>

		<category><![CDATA[humor]]></category>

		<category><![CDATA[Juveninho]]></category>

		<category><![CDATA[juventude]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Da última à primeira, </em><em>uma seleção de crônicas do personagem mais querido da internet, todas elas publicadas no site </em><a href="http://www.tribuneiros.com" target="_blank"><strong>Tribuneiros.com</strong></a><em>. Incluindo: </em><strong>Juveninho no carnaval de Salvador</strong><em>. </em></p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e o e-mail ignorado</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quinta-Feira, 27 de Maio de 2010, às  			12:52</strong></font></p>
<p>Os três maiores horrores de Juveninho são: o inacessível, o  impossível e a impotência. Quando os três “is” se juntam, das duas, uma  (ou duas): ou Juveninho bate a cabeça na parede; ou Juveninho deixa o  sangue escorrer em prosa. Eis a sua arte, nascida em pleno seio (moreno)  da batalha emocional. Se as criações da pesquisa militar – como leite  condensado, microcomputador, celular e internet – viraram a base da vida  diária no mundo; tem esperanças, Juveninho, de que suas criações em  guerra amorosa também melhorem - em tempos de paz - a vida íntima de  alguém. Há quem já agradeça pelo Leite Condensado Juveninho.</p>
<p>Os amigos se lambuzam. As amigas raspam o pote. Um simples e-mail não  respondido pela morena ideal pode lhes render uma apostila completa de  como responder e-mails. Quanto mais ignorado é Juveninho, mais  intelectualmente nutridos ficam os amigos. A torcida é para que  Juveninho permaneça num eterno fracasso existencial, alternando momentos  de ilusão apaixonada, raiva incontida e desabafo literário. Juveninho  ignora. Acha que, com ou sem ele, os amigos vão fazer tudo errado do  mesmo jeito. Sua única esperança é que os filhos (dele e dos amigos)  aprendam um dia com seu legado - e digam: “Pô, pai, Tio Juveninho era o  cara!”.</p>
<p>No momento, ‘o cara’ não se conforma. Se a eternidade é o offline da  musa, enquanto não tem o telefone dela; a desumanidade é o silêncio da  musa, após seu convite pra tomar um sorvete. Que peso tem um sorvete?  250 gramas de maturidade? 300 gramas de humor? Parece-lhe natural que a  internet, à medida que embaça a fronteira entre o acessível e o  inacessível, seja o meio por excelência de paixões descabidas e  desencontros marcados; e, fosse ele um fã de fotografia, um crítico de  comunidade, um colecionador de perfil, ou um comentarista de status, até  respeitaria o silêncio como um saudável “tenho-mais-o-que-fazer”. Sim,  Juveninho é quase tudo isso; mas também é Juveninho, e conheceu a musa  ao vivo. Isso não conta?</p>
<p>Há, evidentemente, um milhão de motivos para não se responder a um  e-mail – ainda que já se tenha trocado uma porção. Após uma semana,  Juveninho pôs-se no lugar dela e enumerou uns 30. Trinta possíveis  respostas tardias da musa. Coração grande, avesso ao rancor e aberto ao  perdão, Juveninho incluiu várias opções redentoras – cuja eventual  veracidade o faria contente. Só excluiu o item “Não tinha visto a  mensagem, mas te amo!”, embora fosse o seu preferido. Como em todo caso  quem se dará mal mesmo é Juveninho, os amigos insistem que ele mande a  lista, pedindo que ela marque a opção correta. Juveninho resiste. A  resistência é a mais trabalhosa de suas obras. Milênios de sabedoria,  ele diz, separam um ‘<em>save</em>’ de um ‘<em>send</em>’.</p>
<p>Sua parte, a seu ver, já está feita – pelo menos, a virtual. Não é um  silêncio entalado no peito que fará Juveninho ignorar o impossível,  extrapolando os limites da elegância. Seja lá o que a musa tenha  entendido de suas atitudes, agora é a vez dela de tomar alguma. O  silêncio dói, é verdade. Perto dele, dá quase saudade do poder  libertador de um ‘não’. Mas tampouco viverá, Juveninho, como o viúvo  voluntário de um amor sequer iniciado. Viverá, sim, como um viúvo  tarado, dizem os amigos, divertindo-se com as moças certas (pelos sambas  da vida) enquanto espera pela errada (conferindo o e-mail no celular).  Juveninho desmente. Quanto mais maduro fica, mais exigente se torna, e  mais intolerável lhe parece quem não sabe andar e sorrir.</p>
<p>Talvez seja esta a maior dor de sua impotência ante a morena  impossível e inacessível. Saber que, doravante, e mesmo num silêncio  ausente, ela estará sempre presente em sua vida como parâmetro. Um  parâmetro à luz do qual todo recomeço soa como um eterno zigue-zague  entre insustentáveis concessões. Um parâmetro brejeiro, feminino e  lindo; difícil de ser sobrepujado. Não sabe, Tio Juveninho, por que  afinal ela não respondeu ao e-mail do sorvete. Muito menos <em>se</em> – ou <em>o que</em>  – ela responderia caso ele perguntasse isso. Mas distribuiu o ‘Quiz  Juveninho’ aos amigos (”Este é meu sangue. Tomai e bebei!”), desejando  bom proveito a seus filhos e netos.</p>
<p>O leite condensado está entregue. A múltipla-escolha está no ar. Se  estamos todos falando com o vento neste mundo digital, ele diz, é  possível que, um dia, o vento marque uma resposta.</p>
<p><strong>QUIZ JUVENINHO</strong></p>
<p>(   ) E-mail? Que e-mail? Não recebi nada, Juveninho!<br />
(   ) Opa. Desculpe a demora. Eu precisava resolver algumas coisas na  minha vida antes de tomar esse sorvete. Acho que agora já podemos.  Vamos?<br />
(   ) Não posso. Tô em outra. Sei que é só um sorvete, mas, sei lá, não acho que eu deva.<br />
(   ) Juveninho, eu tenho medo de homem. Sou meio <em>teen</em> ainda. Pra mim, um sorvete é como um convite pro motel. Eu saio correndo, sem nem querer olhar pra trás, entende?<br />
(   ) Olá. Só estou lendo esses e-mails muito tempo depois. Tive um  problemão naqueles dias; te conto na sorveteria. O convite é meu, dessa  vez. Você ainda quer?<br />
(   ) Não quero, Juveninho. E não te devo explicações. Prefiro que não me mande mais mensagens.<br />
(   ) Desculpe, Juveninho. Eu mal conheço você e não me sentiria à vontade. Vamos ver mais pra frente.<br />
(   ) Não me leve a mal, mas há muitos psicopatas por aí. Uma vez, fui  tomar sorvete com um cara, e ele botou a mão dentro da calça e… Ali  mesmo, na minha frente… Mó trauma! Deixa eu me informar melhor sobre  você.<br />
(   ) Iupiiii! Há quanto tempo não sou chamada prum sorvete! Só vi agora. Onde eu assino?<br />
(   ) Olha, eu não sei o que responder. Nunca sei o que dizer nessas situações. Ando um pouco confusa.<br />
(   ) Eu me acho - e acho que todos querem me namorar, por isso não saí  com você. Tenho certeza de que você ia querer grudar em mim feito  chiclete, e eu estou numa de ficar solteira.<br />
(   ) Ah, cara, eu até pensei em responder, mas minhas amigas falaram  que eu não podia ser assim tão fácil, que eu tinha que fazer um doce.  “Mal conhece o cara, e já vai tomar sorvete!?” Sabe como é: cedi.<br />
(   ) Pra ser sincera, eu não sinto muita firmeza em você – e ando  cansada dessa ambivalência masculina: gente que vem-mas-não-vem; que  está-dentro-mas-pode-não-ser-exatamente-assim. Eu não sou pesquisa de  opinião, não tô aqui pra ser ‘sondada’. Preciso de um homem que me pegue  pelo braço, e diga: “Vem cá: eu quero você, mulher! Não tem nenhuma  outra que eu queira nesse mundo. Procurei você a vida inteira. O que  mais vou precisar fazer, hein?”. E não vale falar isso da boca pra fora.  Eu vou perceber.<br />
(   ) Ué, Juveninho… Você acha que é assim? Não, senhor! Eu sou difícil.  Eu acho o máximo ser difícil. Se o homem me quer de verdade, ele tem  que me convidar 30 vezes prum sorvete, ouviu? Trinta! (Pra jantar, são  80).<br />
(   ) Claro, Juveninho! Por que não? Não pude esses dias, mas vamos sim, que tal sábado?<br />
(   ) Não tenho vontade, Juveninho. De minha parte, fica o carinho por você. Mas busco outra coisa pra mim.<br />
(   ) Não respondi, porque não quero agora, mas também não quero perder  você. Não quis dizer ‘não’, com medo de você partir pra outra. Quero que  você continue apaixonado, mostrando seu encanto esporadicamente, assim  posso ter sempre essa opção a meu dispor.<br />
(   ) Caramba, achei que você tinha entendido o ‘recado’… Não estou interessada em te conhecer, cara! Se toca!<br />
(   ) Preciso te contar uma coisa, Juveninho. Eu sou gay.<br />
(   ) Fui bobinha mesmo. Que mal tem um sorvete, né? (Além de algumas  calorias…) Vamos combinar sim. (Qualquer coisa, eu tomo um <em>diet</em>…) Me manda um e-mail semana que vem.<br />
(   ) Bom, Juveninho: eu não quis te dar esperança. Nem quis ser muito  simpática, que é pra ver se você me odeia, e me esquece. A minha forma  de ser boazinha é essa. Sendo estúpida.<br />
(   ) Não fui, porque ainda não esqueci meu ex-namorado. Preciso de tempo.<br />
(   ) Eu acho que você é maduro. Que quer conversar. Que tem um carinho  enorme por mim. Acho que a vida é feita desses momentos, dessas pessoas  que, de repente, se reconhecem na gente - e isso é bonito; é o que torna  tudo mais leve e, ao mesmo tempo, mais profundo. É isso mesmo? Me  ajuda, porque eu não tenho certeza.<br />
(   ) Eu sou insegura. Notei que você gostou de mim de verdade. Que é um  homem que sabe o que quer. Mas tenho medo de te decepcionar; de não ser  tudo isso que você imaginou.<br />
(   ) Achei esta múltipla-escolha uma tremenda babaquice! Eu sei fazer a minha parte sozinha! Seu mané!<br />
(   ) Por motivos pessoais, eu não tinha respondido o outro e-mail. Eu  ia responder que sim agora, mas depois desta sua mensagem – Jesus! -, um  abraço, cara!<br />
(   ) Hahahaha! Você é hilário, Juveninho! Tô rindo muito aqui dessas  opções malucas. Pelo visto, você realmente não me conhece, né! Vamos  resolver isso. Eu estava ocupada, mas é claro que posso tomar um  sorvete, seu bocó. Me liga mais tarde pro celular. O número segue aí  embaixo, na assinatura.<br />
(   ) Não vou responder este e-mail. Nem mesmo marcar esta opção! Vou continuar aqui em silêncio. Eu me sinto bem calada.<br />
(   ) Você é só mais um, Juveninho! Não distingo você dos outros. Tenho muitos assim. E vocês me cansam!<br />
(   ) Não sei se você lembra de mim, Juveninho. Há 8 anos, você me  convidou prum sorvete, e depois mandou essas opções. Nunca mais nos  falamos. Agora eu te vi na TV, soube do seu livro… Ainda não li, mas  parabéns! Anote aí meu novo e-mail.<br />
(   ) Nenhuma das opções anteriores. A verdade é que:<br />
____________________________________________________________________.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e Ela</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às  			14:29</strong></font></p>
<p>Vou casar com ela. É o que diz Juveninho. Com a literatura? Não.  Com a bola? Não. Com a cuíca? Também não. Com ela. Uma mulher? Sim. “A”  mulher. “A” morena. Com nome, sobrenome e bunda grande. Os amigos dizem  que Juveninho sempre diz isso - mas dessa vez é sério. Os amigos dizem  que Juveninho sempre diz que dessa vez é sério - mas dessa vez é de  verdade. Os amigos dizem que… Bom, os amigos não sabem de nada, diz  Juveninho. A melhor forma de emburrecer é seguir o conselho dos seus  amigos.</p>
<p>Mas quantos ex-namorados-eternos ela tem? Um, responde Juveninho com o  indicador. Ah, então ela é mais nova… Bom, alguma coisa os amigos  sabem. É a convivência virtual, ele diz. Se as moças convivessem  indiretamente com Juveninho, também saberiam de alguma coisa. Para isso  Juveninho escreve. Para que as moças se preparem pra ele. Que muitas  acabem se preparando para outros homens (ingratos, segundo Juveninho), é  o efeito colateral inevitável da escrita. Paciência. A Juveninho só  interessa uma. Não “qualquer uma, que pelo menos dure enquanto é  carnaval”. Ela. Por todos os carnavais.</p>
<p>A tarefa de Juveninho não é fácil. Há moças deslumbrantes, ele diz,  que, crescendo sob o assédio de trogloditas, preservam-se ao máximo para  não se deixar envenenar por qualquer um. E, quando à desconfiança  soma-se um namoro mal convalescido, só mesmo um Juveninho para furar o  bloqueio. A receita (sem garantias, ele antecipa) é o cortejo contínuo  em doses homeopáticas, com a perseverança gentil do homem que sabe o que  quer e ali permanece, obstinado e sorrateiro, criando raízes na alma da  moça, enquanto os demais - revelando suas facetas a cada estação - vão  caindo um a um, como folhas ao vento.</p>
<p>Pode levar anos. Nunca acontecer. Que importa? Quando o homem  vislumbra seu ideal, tem por obrigação criar as condições para que este  se realize – principalmente se o ideal tem a pele morena, e sabe andar e  sorrir. Ah, suspira Juveninho, quanta coisa se diz num passo cadente e  num sorriso envergonhado! Nas festinhas pop da cidade, sua vontade é  pegar o microfone e ensinar: “Você. É, você aí de salto maior que a  perna, e cintura nos seios, com o umbigo saindo pelo pescoço. Você se  vestiu para uma foto ou para uma festa, querida? Acha mesmo que sua  suposta beleza estática se mantém inabalável com este passo troncho?  Francamente!”.</p>
<p>Para Juveninho, o ex-namorado-eterno é uma espécie de cinto de seio,  pelo qual a moça cabeça-dura cria um apego tão grande que já não quer  saber <em>se</em> (quanto mais <em>por que</em>) não lhe cai bem. É  tanto amor, tanta saudade, tanto envolvimento que os motivos práticos da  “separação” permanecem ocultos, inominados, ausentes da consciência;  mas absolutamente ativos, e tanto mais desconcertantes quanto mais  invisíveis, do jeito que o diabo gosta. Alheia à educação sentimental,  ela segue apertando o cinto e se prendendo toda, até desaprender a  andar. O ódio ao conhecimento, segundo Juveninho, tem este efeito  tragicômico na vida amorosa: cria um monte de viúvas precoces,  voluntárias e (não raro) taradas.</p>
<p>Chega uma hora na vida da gente (e Juveninho não sabe como seria “uma  hora na morte da gente”) que as coisas vão ficando fáceis por um lado  (o da pegação, da sacanagem, do suingue) e bem difíceis por outro (o do  amor, do romance, da disponibilidade). Todo mundo já tem passado  (presente…) demais. Juveninho tem o dele – não nega. Morre de saudade de  cada ex-namorada e peguete. Até daquela que o roubou. Até daquelas que  passaram direto no dia seguinte. Até daquelas que (por um ex-namorado,  ex-noivo, ou ex-marido) sumiram assim, ó: puf! E, no entanto, poderia (e  vai!) escrever mil romances sobre as impossibilidades (sexuais,  inclusive) de cada relação. Juveninho não tem a menor dúvida de que  morrerá assassinado.</p>
<p>Até lá, cortejará real e virtualmente sua idealíssima morena. Não  sabe, Juveninho, quanto tempo ela vai demorar para terminar o namoro que  já terminou, mas – não podendo nem querendo intervir direta e  terapeuticamente no luto - só lhe resta acompanhar o processo à meia  distância, mostrando que está ali. No fundo, torcendo para que alguma  migalha de consciência lhe desperte a sede de libertar-se, em vez de  render-se ao clã das viúvas taradas, que pulam de galho em galho pela  noite, sob o compromisso único de jamais comprometer-se com ninguém a  não ser o defunto vivo dum amor impossível que já passou. E como  embarangam!, ele alerta, preocupado.</p>
<p>Os amigos, pela primeira vez, dizem que Juveninho está no caminho  certo. Que ele tem tudo para conquistar sua morena aos 95 anos, com  direito à valsinha dos bisnetos. Que nenhuma de suas colegas de quarto  saberá andar e sorrir postiçamente como ela. Que eles estarão todos  presentes à cerimônia, finalmente acompanhados de viúvas taradas  autênticas, usando autênticos cintos de seio. Que a noite de núpcias  promete. Que eles invejarão Juveninho pela única esposa realmente  disponível, livre para um futuro promissor. Que ela, porém, chorará o  assassinato de Juveninho até ler seus romances e abrir a tumba para lhe  dar mais seis tiros.</p>
<p>Juveninho, pela primeira vez, não ignora. Sabe que - perto das  histórias, dos problemas e dos desejos das moças - as capacidades do  homem são sempre limitadas. Por mais que seja sério. Por mais que seja  de verdade. Por mais que seja Juveninho. Mas, se o destino de sua  geração é a micareta no asilo, nada como contrariá-la num casamento  geriátrico. O rascunho do próximo e-mail está pronto. A fantasia de  Velha Guarda, costurada. O romance da morena ideal, iniciado. Nada é  impossível até agora – e, no que depender dele, jamais será. No amor  eterno de Juveninho, a literatura, a bola e a cuíca só aguardam por Ela.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho Quintana e a busca da intimidade</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Segunda-Feira, 19 de Abril de 2010, às  			14:15</strong></font></p>
<p>A melhor forma de saber quais peguetes seguem disponíveis é  mandar um e-mail coletivo dizendo que você perdeu o celular e precisa  dos contatos. Quem diz isso? Juveninho, claro. As primeiras a responder,  ele ensina, são as mais ouriçadas. As segundas: não queriam parecer  tanto. As terceiras: relutaram até o fim. E quem não respondeu, azar.  [Em caso de silêncio geral, diz Juveninho, não pule pela janela]. Reza a  lenda que Juveninho já “perdeu” o celular três vezes só este ano. Que  ele passa dias e noites roubando e-mails na internet para aumentar sua  lista. Que ele já conseguiu pegar de volta o telefone duma porção de  gente morena que jamais constou em sua agenda. Que seu próximo passo é  perder o celular no Twitter: “Queridas followers, roubaram meu iPhone.  Mandem de novo seus telefones. Obrigado”.</p>
<p>Tudo seria maravilhoso (e é, diz Juveninho), não houvesse uma grande  diferença entre disponibilidade de peguete e disponibilidade real. Os  amigos que se iludiram com os números e acabaram de coração partido, é  porque não ouviram Juveninho até o fim. A disponibilidade real, ele diz,  é um dos maiores mistérios do nosso tempo – e testá-la, um dos esportes  favoritos de Juveninho. Na vida adulta como na internet, há quem  coloque “ocupado” quando está “disponível”; “disponível” quando está  “ausente”; “invisível” quando está “em todas, pegando geral, no meio da  pista”; e “num relacionamento sério” quando está “na cama com  Juveninho”. Você pode sair, beijar, transar, namorar, noivar e até casar  com alguém, cujo verdadeiro status, no fundo, era “indisponível”: o  vulgo “só estava curtindo umas férias”.</p>
<p>Nada mais difícil hoje que encontrar uma morena Ficha Limpa, ele diz.  Elas vêm sempre com uma porção de ex, e a gente nunca sabe em que  instância se encontra o processo. O enredo clássico, segundo Juveninho, é  o da mocinha que deixa um rastro de aventuras pela noite, para depois  voltar ao ex-namorado, com quem passará a vida brigando em função dos  peguetes que teve naquele doce intervalo de alguns verões. Juveninho,  segundo os amigos, já fez o papel de peguete. Já saiu, beijou, transou,  namorou, e só não casou (ainda), com mocinhas “em férias prolongadas”  assim. Umas passaram direto por ele no dia seguinte. Outras – as que  transaram, parece - enrolaram mais um pouco. Algumas juraram amor  eterno. Mas Juveninho desenvolveu tantos índices de aferição (mensagens  espontâneas, <em>foot massage</em>, planos de viagem, prioridade sobre  miguxas, iniciativa sexual, pílula em dia) que, ao menor sinal de frieza  ou displicência, ele mesmo avisa: você não está interessada.</p>
<p>É de opinião, Juveninho, que quanto mais as moças revelam o perfil, o  estado civil, o que estão fazendo e quem estão amando agora, menos elas  sabem sobre si – e mais perigosas elas se tornam. Juveninho adora um  perigo. Quando as adolescentes passaram a mostrar na tal “pulseira do  sexo” qual fruta da salada mista elas desejam, Juveninho pensou: que  saudade da adolescência! Nunca foi tão radical e deliciosa aquela  sucessão de frustrações em busca de um grande amor. A pulseira do sexo,  ele diz, é o orkut de pulso. É como se sua geração tivesse inventado o  limpador de pára-brisa, e só a seguinte o tivesse colocado pro lado de  fora. [Não dá mesmo, segundo Juveninho, pra contar com sua geração pra  nada. Nem pra comprar seus livros.] Fosse adolescente hoje, porém,  Juveninho está certo de que as mocinhas o fariam de gato e sapato  (principalmente gato). Se adultas, elas não têm a menor idéia do que  querem, <em>teens</em> elas são as próprias Coringas tacando fogo no mundo, de rostinho pintado.</p>
<p>Juveninho adora brincar com fogo, mas não é o Batman. Ele sempre  preferiu o Super-Homem e a visão de raio-X. Toda sua educação  intelectual e sentimental teve dois objetivos básicos, nos quais ele  jamais deixou de investir tempo e dinheiro. O primeiro é justamente  enxergar as coisas e as moças como elas são. Agora que a ciência é toda  fraudada para uso político, e as idéias falsas e paralisantes  encontraram meios virtuais de se disseminarem universal e imediatamente,  enxergar as verdades mais simples do mundo requer uma vontade e uma  coragem super-heróicas. Da mesma forma – e, por conseguinte -, enxergar  as moças por trás de sua própria maquiagem verbal e facial requer  praticamente um Juveninho. Nenhum status declarado – seja de messenger,  de “about me”, de pulso ou de dedo (ele garante) – é confiável, a não  ser o <em>status quo</em>. Quanto mais os discursos se afastam das essências, ele diz, mais difícil se torna reconhecer verdades e morenas.</p>
<p>O segundo objetivo de sua educação é saber o preço de seus desejos.  Em outras palavras – as de Juveninho -, o quanto ele precisa crescer –  em todos os sentidos - para que a morena de bruços na praia, lendo um  livro (no intervalo da altinha), lhe peça um autógrafo na capa. A  maioria das pessoas faz o contrário. Quer que os desejos alheios paguem o  preço de se mutilarem por elas. Juveninho cresceu vendo uma porção de  amigos e namoradas repetindo a célebre frase do cabeça-dura limitado e  da suposta última mulher do mundo (prestes a embarangar): “Tem que  gostar de mim como eu sou”. Uma ova! Desejos, ensina Juveninho, não “têm  que” gostar de bulhufas. Eles não obedecem nem os donos, quanto mais  seus parceiros. Ou existe um cuidado em manter aceso o desejo do outro,  ele professa, ou é melhor procurar um “outro” menos exigente (o que  quase sempre significa menos bonito, menos inteligente, menos  interessante - enfim: menos Juveninho). Não se prende elefante em  gaiola, dizia o passarinho. Juveninho – ele admite – já foi gaiola de  muita elefanta, até que resolveu virar um Safári.</p>
<p>Se o amor já é trabalhoso para quem está disponível, Juveninho  identifica logo quem não está. Senão para pular fora, dizem, ao menos  para saber o quanto pular dentro. Reza a lenda que sua visão de raio-X  anda mais calibrada que a do Super-Homem. Que a cada celular “perdido”,  Juveninho descobre o verdadeiro status do país inteiro. Que, pelo número  de exclamações no e-mail da moça, ele diz o nome e o endereço do  ex-namorado. Que, pelo tempo de resposta, ele diz de quantos namoros  elas estão dando um tempo. Que ninguém melhor do que Juveninho enxerga  qual fruta da salada mista está escrita numa “aliança do sexo”. Que o  Batman só precisa dum holofote para socorrer as morenas, porque não tem o  talento de Juveninho. Que, sem disposição e disponibilidade, nenhuma  delas vai visitar o seu Safári e sentar no teleférico. (No máximo, ele  diz, vai sentar no pedalinho). Para Juveninho, afinal, nada dá mais  saudade que a intimidade. E esta só é possível – em todos os sentidos -  quando ele pode entrar na relação de cabeça.</p>
<p>Ninguém sabe ainda qual é o verdadeiro status de Juveninho – por mais  que ele esteja sempre “em horário de almoço”. Às morenas, contudo, ele  avisa que seu discurso e sua essência jogam até uma altinha. E às  indisponíveis, sem rancor nem sede de vingança, ele apenas deixa no  Twitter sua carinhosa versão do “Poeminha do contra”, de Mario Quintana:  “Todos estes que aí estão/ Atravancando o meu caminho,/ Eles passarão./  Eu Juveninho!”.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho N’ Roses</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Terca-Feira, 6 de Abril de 2010, às  			22:48</strong></font></p>
<p>O trânsito é a MTV de Juveninho. Quando há um engarrafamento na  cidade, ele pergunta: “De quem é o show hoje?”. Os amigos gritam: “Lenny  Kravitz!”, “Beyoncée!”, “Coldplay!”, “Cirque du Soleil!”, “Botafogo!”.   Da maioria, Juveninho nunca ouviu falar. Até outro dia, ele achava que  as moças usavam Beyoncée Secret, e que Coldplay era um concorrente do  Cirque du Soleil. Agora já sabe que Beyoncée é a concorrente do Cirque  du Soleil, e que as moças ainda não usam o Juveninho Secret. Quanto ao  Coldplay, da canção <em>God Put A Smile Upon Your Face</em>, Juveninho só tem uma dúvida: onde mais Deus colocaria o ‘<em>smile</em>’? <em>Upon your</em> bumbum?</p>
<p>A música pop, ele diz, provoca antes de tudo o engarrafamento mental. Juveninho não pode ver uma morena cantando <em>Patience</em>  que quer logo tocar sua buzina. Dos tempos em que a MTV de Juveninho  era uma emissora, a única coisa que ficou, de fato, foram os Guns N’  Roses. Ficou longe. Bem longe. Até o último domingo, Juveninho nunca  mais ouvira falar deles a não ser quando revia <em>O Exterminador do Futuro 2</em>, e cantava <em>You could be mine</em>,  de cueca, no ouvido de alguma morena. Ele estava em casa, vestindo a  mesma, quando um amigo ligou: “Tenho um ingresso para a sua  adolescência”. Ok, pensou Juveninho, vou dar uma passadinha.</p>
<p>Foi uma passadinha de 7 horas, com capa de chuva a 5 reais; Sebastian Bach falando <em>fuck you</em>  para o céu; mais 2 horas e meia de espera depois do show de abertura  com a platéia em coro xingando a mãe de Axl Rose; sem qualquer comida à  venda a partir das 23 horas, o que teria feito Juveninho ir embora não  fossem as 4 barrinhas de cereal que trazia no bolso; e outros detalhes,  segundo ele, absolutamente irrelevantes depois de um <strong><em><a href="http://www.tribuneiros.com/2010/02/24/juveninho-no-carnaval-de-salvador/" target="_blank">carnaval em Salvador</a></em></strong>;  até o show principal finalmente começar à 1:10, e Juveninho procurar  alguma razão - uma grande descoberta filosófica! - que fizesse jus ao  seu testemunho do seqüestro da Apoteose. Sempre se pode aprender alguma  coisa num show de rock, ele se dizia… Mas o quê?</p>
<p>Que dos 30 mil presentes, 29.900 não saberiam responder do que se  trata qualquer música do Guns, Juveninho já sabia. Que dos 100  restantes, 90 responderiam “Paciência!”, “Chuva!”, “Selva!” e mais uma  ou duas palavras que compõem os títulos, também. Que dos outros 10, 7  eram americanos que moram no Rio, mais ainda!, porque 4 eram morenas. O  jeito, então, foi usar o método básico: onde a multidão vê um defeito,  deve haver uma grande virtude. E, se o defeito era o atraso de Axl,  Juveninho estava certo de que o atraso continha, de algum modo, a  resposta para o maior enigma intelectual de sua carreira depois do  talher de peixe. O que depreender, afinal, de um show de rock?  Elementar, diria Juveninho: o desprezo pelo público.</p>
<p>Na abertura, além de xingar S. Pedro, Sebastian Bach leu uma porção  de frases em português; vestiu camisa do Brasil; pegou e esticou  cartazes; pediu “mãozinhas pra cima”; mandou repetir gritinhos de  “ai-ai-ai”, “ei-ei-ei”, “ou-ou-ou”; exaltou até dar vergonha alheia o  grupo principal, puxando o coro de “Guns!”, “And!”, “Roses!” com  soquinhos no ar; e detonou, segundo Juveninho, seu repertório axé de  conquistar a simpatia da “galera maravilhosa” através da bajulação  coletiva. Se Axl Rose, por outro lado, falou uma vez um “<em>Come on, Rio!</em>” foi muito, o que deixou Juveninho quase orgulhoso da sua adolescência <em>in the jungle</em>.  No homem comum, ele diz, a necessidade afetada de parecer gente boa já  sinaliza a falta de atributos. No artista, se não é prova duma obra sem  vigor, é desejo de aparecer mais do que ela.</p>
<p>Juveninho já pode imaginar Axl, antes de subir ao palco, perguntando a  um subordinado: “Já estão me chamando de filho da puta? Ótimo. Daqui a  pouco, eu entro”. E então ele entra, como se, senhor do próprio carisma,  desse três gols de vantagem ao adversário. <em>It’s so easy (easy)</em>…  Corre de um lado a outro; deixa-se ver por cada setor; canta e dança  dum jeito próprio; toca piano; assovia; domina graves e agudos; e, se  sai de cena para descansar a garganta velha, deixando aos músicos um  número instrumental, o faz com a mesma indiferença, sem avisar bulhufas  na ida ou na volta, para encanto de Juveninho. Um povo carente, ele diz,  corrompido por mãos que o afagam, sempre verá o talento como  arrogância, o inalcançável como presunçoso, o irresistível como  abominável, abrindo-se aos medíocres enquanto trava uma eterna luta  solitária de amor e ódio contra quem mais admira.</p>
<p>Para Juveninho, o artista que precisa ficar amiguinho de seu público  já renunciou à arte. Juveninho não gosta de se citar como exemplo, mas  reza a lenda que ele jamais virou miguxo duma morena. Por analogia, acha  que Axl Rose também merece as mocinhas siliconadas e maquiadas que se  enfileiram lá na frente para descobrir o tamanho de seu carisma. Está  pensando até em fundar a Escola Rose de ‘Fazer O Seu e Que Se Dane’ (já  conhecida como a “ERFOS e Que Se Dane”), para a qual convidará – como  alunos, claro – cantores baianos, roqueiros, sertanejos, lapianos,  sambistas, blogueiros, tuiteiros, pais de família, colunistas,  professores universitários e demais meninos carentes do Criança  Esperança mental brasileiro. O cordão dos puxa-sacos, ele diz, cada vez  tem mais artista. Se Wilson Simonal, precursor nacional da “mãozinha pra  cima”, fosse vivo, Juveninho também chamava. O rock nunca foi tão  educativo.</p>
<p>Às 3:20 de segunda-feira, acabou o show do Guns N’ Roses, e até agora  ninguém sabe o que colocaram na água da Apoteose. Os amigos estão  perplexos. Querem a companhia de Juveninho em todos os próximos  engarrafamentos da cidade. Há quem lhe garanta ingresso para três Lenny  Kravitz. Há quem lhe garanta cinco Beyoncée. Há quem sete Coldplay. Há  quem Soleil. E há Botafogo; sem trânsito nem nada. Alguns suspeitam,  porém, que ele bajula Axl Rose, porque sonha com a rebarba morena duma  turnê internacional. Que Juveninho se apaixonou por uma roqueira da  Pista Premium, e agora quer levá-la para a “<em>heaven’s door</em>”  fingindo gostar “do Guns”. Que Juveninho jamais falaria “o Guns” se não  quisesse que uma morena dark falasse “o Zeca”. Juveninho não dá a  mínima. Sabe que os amigos reduzem todo conhecimento humano a gostos e  paixões. Que nunca vão tirar da adolescência mais que um “sorriso no  rosto”. Que jamais aprenderão a transitar em meios diversos e roubar o  melhor de cada um. Que se danem.</p>
<p>Juveninho N’ Roses garante: sábio de quem não precisa ficar amiguinho nem de seus próprios amigos.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">O segredo dos olhos de Juveninho</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 24 de Marco de 2010, às  			21:00</strong></font></p>
<p>Não tem para Bill Gates, Gordon Moore, Warren Buffett. Em matéria  de filantropia, Juveninho é o maior. Doou seus pensamentos ao Twitter.  As morenas do mundo inteiro gritam: “Finalmente!”. As loiras: “Já era  tempo!”. As ruivas: “É meu! É meu!”. Agora (mentira, há anos), Juveninho  passa dia e noite estudando a alma feminina na internet. O Twitter, ele  diz, é como o filme <em>Do que as mulheres gostam</em>. Você pode ouvir tudo que elas pensam; até querer sair correndo.</p>
<p>Depois de assistir duas vezes ao vencedor argentino do Oscar <em>O segredo dos seus olhos</em>,  Juveninho está seguro de que as paixões não mudam. É possível encontrar  um assassino seguindo apenas seu gosto e os lugares onde se curte  aquilo. Da mesma forma – ele sempre soube -, é possível encontrar  ex-namoradas. Para precaver-se, Juveninho mapeia a cidade pelo gosto de  cada uma. Vai abrir o curso <em>Como fazer sua Planta Baixa de Amores e Peguetes</em>.  A dele, pendurada no quarto, inclui até os ambientes virtuais e – claro  – as fãs. Se algo acontecer com Juveninho, os amigos já sabem: as  maiores suspeitas estarão no Twitter na hora do BBB.</p>
<p>O sonho de Juveninho é ter um selo de <em>Verified Account</em>, que o  Twitter pendura nas páginas de pessoas e entidades famosas para atestar  que elas são elas mesmas. Com seu estilo peculiar, ele garante: “Eu sou  o Juveninho, porra!”. Mas ainda não teve resposta. Toda sua formação  intelectual foi dedicada a ter este mesmo (porém mais amplo) poder: o de  enxergar coisas, idéias, histórias e pessoas, e dizer: <em>Verified Account</em>. Até hoje, só o que conseguiu foi o telefonema diário dos amigos, pedindo a análise de suas (deles) peguetes. Fulana? <em>Verified</em>. Beltrana? <em>Fake</em>. A empregada já grita da cozinha: “Seu Twitter! Telefone!”.</p>
<p>Há boatos de que Juveninho, em breve, vai cobrar por ligação. O  serviço já teria até anúncio: “Você ainda divide o mundo entre ‘gente  bonita’ e ‘gente feia’? Suas escolhas merecem mais do que isso.  Disk-Juveninho”. “Gente bonita”, ele diz, é o eufemismo criado por  alguns ricos para, em vez de chamar pobres de pobres, chamá-los  gentilmente de pobres e feios. Começou na roça (ele enumera: Brasília,  Porto Alegre, Vitória, Niterói, São Paulo), onde a intolerância  estético-social é mais clara e declarada do que no Rio de Janeiro - cá  onde a mistura começa na praia, se estende pelo samba, acaba no motel e,  dizem as boas línguas mulatas, atende pelo nome de Juveninho.</p>
<p>Boa parte da pop-elite carioca, segundo ele, já incorporou no  vocabulário o provincianismo alheio. Só que, na roça, para  diferenciar-se da “gente feia”, as moças elitizadas saem para tomar um  chope, em pleno verão, vestidas como num casamento; aqui, a moda do  chique-despojado apenas tratou de sofisticar o shortinho, a blusinha e o  vestido básicos das cabrochas com uns babados e cintos esquisitíssimos,  dos quais Juveninho tem tanto pavor quanto de seios de borracha. A  semelhança entre roceiras e cariocas são as toneladas de cosméticos,  postas especialmente para confundir os bêbados - e avisar aos sóbrios: <em>Fake Account</em>.</p>
<p>Quanto mais Juveninho passeia pelo Twitter, mais entende por que as  patricinhas precisam tanto se diferenciar da massa menos abastada pelas  aparências. Do interior pobre de São Paulo à Zona Sul do Rio, todas  falam dos mesmos assuntos, com o mesmo grau de profundidade. Mudam só o  colorido da página e, às vezes, os erros ortográficos. Sabe, Juveninho,  que o diferencial das moças da elite tende a ser o horizonte intelectual  mais amplo, porque dispõem duma bagagem educacional capaz de absorver  melhor o aprendizado. Na maioria, no entanto, é somente horizonte,  potência abandonada pela falta de vontade persistente e pelo conforto de  já fazer parte da “gente bonita” do Bailinho.</p>
<p>Sim, Juveninho ainda procura uma morena da moda  despojada-mas-despojada-mesmo, bonita-mas-bonita-mesmo, e  inteligente-mas-inteligente-mesmo. Se é por interesse prático,  profissional ou patriótico, ninguém sabe. Mas reza a lenda que seu olhar  está cada vez mais apurado. Que basta dizer “Maestro, uma nota!” ou  “Twitter, 140 toques!” que Juveninho diz qual é a música, a moça, o  nível do português e o que ela está vestindo agora. Que, pela cor do  pano de fundo da página do Twitter, ele dá a cidade, a classe social e  os lugares dela na Planta Baixa de Amores e Peguetes. Que o  disk-Juveninho recebe mais ligações que o Criança Esperança e o Shoptime  juntos. Que ele vai conseguir o selo de <em>Verified Account</em> muito antes dos <a href="http://twitter.com/tr1buneiros" target="_blank">Tribuneiros</a>.</p>
<p>Juveninho não nega. Seu Twitter já revelou do que ele gosta e para  onde apontam seus olhos. Agora, as moças já podem ouvir tudo que  Juveninho pensa; até quererem sair correndo.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho no carnaval de Salvador</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às  			13:22</strong></font></p>
<p>Vou te comer! Vou te comer! É o que diz o Lobo Mau do axé.  Juveninho nem sabia que se comia em Salvador. Achava que era tudo “na  base do beijo”, do “vamos namorar, beijar na boca”, do “me dá um beijo  bem gostoso, só teu sabor me satisfaz”. Viveu uns minutos de esperança  no avião: teriam as coisas evoluído na Terra do Nunca? Nananá!, concluiria em terra firme. Comer, naquelas bandas, ainda é coisa de Lobo Mau. Não importa. Juveninho está sempre preparado para um conto de  fadas.</p>
<p>Histeria, histeria! - é o estado que chamamos folia, e ela começou na  concentração do Nana Banana, no Farol da Barra, onde Juveninho – mui  preocupado com sua defasagem de repertório, humilhantemente estacionado  em “cara caramba cara caraô” - conseguiu decorar, segundo ele, os  maiores hits do carnaval baiano desde 1950, incluindo os novos e os  futuros. Tutatá! Parará! Nananá! Ô, ô, ô! Em cinco minutos (ou duas  águas), Juveninho já cantava mais que o presidente do fã-clube do  Chiclete. E era como se a cidade lhe retribuísse: “Ah, que bom <em>[que] </em>você chegou” e trouxe o quê que faltava…</p>
<p>Bem-vindo a Salvador, Juveninho!, diziam suas morenas imaginárias, surgidas numa brecha miraculosa entre os facebooks cariocas de sempre.  Mas onde elas estavam de fato? Juveninho procurou na frente do trio;  entre o caminhão da banda e o de apoio; atrás do caminhão dos banheiros; na fila do banheiro feminino; e só não morreu esmagado pela multidão sudorípara porque a muitas folionas faltou malhar glúteo. Com licença: alguém sabe onde estão as bonitas? Não - Juveninho se antecipava -, não foi ele que bebeu pouco, foi a água. É de opinião, Juveninho, que a água torna o homem mais seletivo, por isso deve-se beber muita água no verão. Quer um gole?, diria às bonitas.</p>
<p>O sonho de Juveninho: encontrar a mulher de sua vida e, como sua “ídola” Beatrix Kiddo, de <em>Kill Bill</em>, “chorar de emoção” - como dizem - deitado no chão do banheiro (mas sem abraçar um ursinho de pelúcia), aliviado depois de enfrentar o <em>Deadly Viper Assassination Squad</em> de seus ex-amores. É uma cena melhor (e mais viável – ele reflete - de  se protagonizar na Bahia) que a do casal no carro conversível rumo ao  horizonte, onde os filmes terminam e os problemas começam. Juveninho queria viver esses problemas conjugais – os problemas que importam, como dizia <em>O filho da noiva</em> -, sem jamais precisar dum vale-night, ô, ô, ô. E só há uma solução pra agonia de Juveninho: procurar A Noiva!</p>
<p>O problema é que as beldades trocaram o asfalto pelos camarotes: se para as feinhas já é difícil andar incólume, para elas – sobretudo no  Nana sábado e no Camaleão domingo – é pior que desfilar de biquíni na  Av. Rio Branco. Mulher bonita no bloco, segundo Juveninho, só as que trabalham (distribuindo bandanas, leques, chapéus, cartazes de “Me beija”) e as que terminaram um namoro teen de 8 anos e estão achando o  máximo serem cortejadas e agarradas por um bando de trogloditas. [As primeiras não podem beijar durante o circuito, ele diz. As segundas não sabem o que fazer depois. Há também as que rebolam em cima do caminhão,  mostrando à massa a cor da calcinha, mas essas não interessam a Juveninho, senão como paisagem. Restam – oh, esperança! - uma ou outra exceção, quiçá chicleteiras de primeira viagem. E Juveninho adora uma  exceção morena, de preferência embrulhadinha pra viagem.]</p>
<p>Não. Nada tem, Juveninho, contra os trogloditas que agarram as moças à  força até que elas se rendam num beijo de alforria. Cada um usa os  recursos de que dispõe. Se Juveninho estivesse necessitado do orgasmo  salivar dum beijinho na boca; se não dominasse o idioma vernáculo para  arrancar uma risada morena com as mãos nas costas; se não liberasse uma  alfazema natural para despertar o rebolation das baianas; se não tivesse o menor interesse em saber o nome dos pais e o telefone das moças para  sair do balanço ao trepa-trepa; e se realmente precisasse contar aos  miguxos os placares da salada mista carnavalesca, Juveninho jura que também daria uns 15 mata-leões por bloco, com direito ao colarzinho azul e branco dos Filhos de Gandhy a cada vítima conquistada. Aliás, ele comenta em voz baixa: colarzinho meio gay.</p>
<p>Tô a-pai-xo-na-da por você há muito tempo!, confessou uma chicleteira no meio do Camaleão. Quanto tempo?, Juveninho quis saber, já famélico. Desde o início do bloco. Ah, isso em Salvador é uma eternidade…  Juveninho quase se comoveu com tamanha paixão, e quase se prostituiu pelas barrinhas de cereal que a moça levava no bolso. Como pôde esquecer as dele? Não há água que dê conta de mais de cinco horas de  quebra-costela na Av. Oceânica, e por pouco Juveninho não atravessa a corda de segurança para arriscar o abadá, a cabeça e o estômago por um delicioso “churrasquinho de bactéria”, como chamaria Ivete, no Arrastão  das cinzas. Ele leu nos manuais do carnaval: não alimente os seguranças; não alimente os cordeiros; não alimente a pipoca; mas com que alimento ele cometeria tais crimes, se ninguém os vende no percurso? Em terra de  bêbabo, diz Juveninho, sóbrio morre de fome; e ele precisaria de muito  jeito para conseguir uma barrinha sem conceder um beijo aquém de seu padrão, não tivesse a moça uma rara compaixão pelas agruras dum abstêmio  gentil. Ufa. Salvo pelas fãs.</p>
<p>Na altura do Clube Espanhol, um amigo cutucou Juveninho: ih, olha lá, não é aquele escritor? Juveninho deu de ombros. O autor de <strong><a href="http://www.tribuneiros.com/2010/08/05/um-sobrio-em-salvador/" target="_blank"><em>Um sóbrio em Salvador</em></a></strong>, não está vendo?, com nome de colírio, como é mesmo?, Felipe Moura  Brasil, acho, mas chamam de Pim. “Nunca ouvi falar”, respondeu  Juveninho. Há seis anos ele descreveu tudo isso aqui, Juveninho, você está muito atrasado. Juveninho fez uma cara de quem não queria descrever  bulhufas. Não gosta dele? Eis o que interessa a seus amigos na  literatura, pensou: a fofoca. Deixou, então, escapar que não ia com a cara do sujeito, porque ele vive falando de Juveninho pelas costas e botando palavras em sua boca. Não é o que fazem vocês escritores,  Juvenal? “Vocês escritores”, repetiu Juveninho, com escárnio: “vocês homens”, “vocês cariocas”, “vocês isso”, “vocês aquilo”, seu amigo lhe parecia uma mocinha recalcada com aquele típico discurso equalizador.  Pôs um ponto-parágrafo com sua resposta-padrão às fêmeas: Eu sou o Juveninho, porra!</p>
<p>O melhor lugar do mundo para ser confundido com qualquer um, observa  Juveninho, é o carnaval de Salvador. Basta dizer que você vai ou foi, e  pronto: você vira “vocês”. Ah, imagina só essa mistura… Quer ver a  menina a quem você deu amor tentando te beijar como se você fosse igual ao fanfarrão que ela pegou na véspera? Quer ver uma ursinha saltitante em sua direção, como se recém-nutrida duma poção gummy, sair muito  ofendida quando você vira a cara para cumprimentá-la ao invés de meter a língua que ela julgava certa boca adentro? Quer ver aqueles cupidos que  apresentam as amigas – que eles queriam, mas não conseguem pegar - perguntarem, ao vê-lo sair educadamente, se você “não gosta de mulher não, cara”? Quer ver os histéricos mais vaidosos (eles são fabricados em  série, segundo Juveninho) - do tipo que precisam ser admirados por todo mundo, inclusive pelas mulheres dos coleguinhas - dando em cima da sua mulher, como se você fosse coleguinha? Então chame-chame-chame, chame gente!</p>
<p>Para se produzirem reis e rainhas do pedaço, ensina Juveninho, basta recortar a realidade: passe uma corda ao redor da sua geração, e faça cada membro acreditar que ali dentro ele é livre, ele é free, ele é dó,  ele é mi, suas escolhas não têm conseqüências, ele está seguro do resto do mundo pela corda e de si mesmo pelo aperto, ninguém terá tempo nem espaço para usufruí-lo com profundidade, e assim, no calor do rebanho,  ele poderá receber e distribuir abraços e beijinhos e carinhos mas com fim!, salvo de maiores exigências, eximido d’outras habilidades, sem dizer patavina a não ser “sim” a seus desejos imediatos; mas por favor  não se esqueça: aumente o som pra galera sacudir! E sai do chão! Parabéns, diz Juveninho: você montou sua arena de Vale-Quase-Tudo, e agora basta esperar a poeira e a vaidade subirem. Ali, onde os fracos  têm vez (e as feias também), os belos serão deuses que, viciados nas  lisonjas do olimpo, pularão de arena em arena, bailinho em bailinho, fingindo-se tanto mais vivos e livres quanto mais deficientes e  dependentes dos bocós que os veneram. E dirão: “Foi o máximo!”.</p>
<p>Juveninho aprendeu com Olavo de Carvalho: “não há nada mais perigoso  no mundo do que um idiota persuadido da sua própria normalidade”, de  modo que sai correndo dos vaidosos machos (para que não dêem em cima de  sua mulher sem se darem conta) e das vaidosas fêmeas (para que ele mesmo  não dê em cima delas sem se dar conta). Havia vários nichos da espécie  nos mil ambientes do Camarote Salvador, o mais badalado castelo do carnaval, onde Juveninho matou saudades da comida típica do Rio de Janeiro (a japonesa); e, cansado de sair do chão, resolveu descer até o  mesmo, ao som do “Melhor DJ do Mundo” - um título intrigante para Juveninho, que não sabe como se dá tal eleição, mas imagina que seja de maneira semelhante à da “Formiga Mais Bonita”. De qualquer modo, não  gostaria de ser mesário em nenhuma.</p>
<p>Há quem diga que carnaval de verdade é sair em bloco. Que camarote é uma festa como outra qualquer. Que, se for para ir de camarote, é melhor  viajar pra Ibiza. Há quem diga que “gente bonita” só tem no camarote.  Que, chegando cedo, dá pra ver os melhores blocos passarem. Que alguns té param em frente prum show particular. Juveninho nada diz a respeito, a não ser que “gente bonita” é papo de cabeleireiro (quando não  sub-eufemismo de “ambiente exclusivo”). Que homens e mulheres falem entre si sobre “gente bonita”, é sinal, diz Juveninho, do quanto já descemos abaixo da linha do pudor. Quando uma moça lhe fala em “gente bonita” (ou dá faniquitos pelo George Clooney), Juveninho sai logo para o toalete. Ela deve tê-lo confundido com seu cabeleireiro.</p>
<p>O melhor lugar, para Juveninho, é lá na frente dos blocos (de segunda  e terça no Barra-Ondina, principalmente), colado aos cordeiros  dianteiros, onde – imagine!, ele diz – é possível até conhecer gente. Isso mesmo: gente, terráqueos – “pessoa humana”, como dizem -, aquela coisa antiga com nome, sobrenome, gostos, afazeres, infância, sonhos, graça. Juveninho só avisa aos incautos que não reparem se, no dia  seguinte, aquela pessoa com quem você passou horas, conheceu a história, sabe se os pais são casados, levou em casa e esfregou a língua lhes der  duas bochechadas apressadas ou um “tudo bom?” e passar direto. A regra é  clara: se não quer – ou não sabe se quer – ficar com fulano de novo, não fale com ele! É mais fácil! Destrua o vínculo afetivo em nome da sua imaturidade amorosa – e venha com as miguxas! Qualquer coisa, “era carnaval”…</p>
<p>Mais seis!, gritou um rapaz de dentro do banheiro masculino. Era hora de Juveninho fazer xixi, com cinco marmanjos ao lado, no mesmo mictório. Durante o ato, outros desesperados socavam as arestas do  caminhão, exigindo pressa. Juveninho nunca pensou que fosse dizer isso, mas que saudade do banheiro químico! O xixi, ele diz, é como o beijo: requer serenidade. No meio da histeria, ninguém tira dos prazeres tudo  que eles têm a dar, daí que se busque na quantidade a compensação impossível. Onde se urina mal, segundo Juveninho, beija-se mal. Também reconhece, Juveninho, a qualidade dum beijo feminino pelo carinho no  braço. Pode cair o mundo que as maduras passearão as mãos devagar, deixando os dedos (como os lábios) sentirem o sabor da pele. As mal resolvidas, ao contrário, na ânsia de mostrar serviço, parecem sempre  fazer cócegas em barriga de cachorro. Batata!, grita Juveninho: não sabem beijar.</p>
<p>É seu aniversário?, perguntou uma no Me Abraça de terça. Não, disse Juveninho. Mas você está de parabéns. Obrigado. Meia hora depois: é seu  aniversário? Você já me perguntou isso. Ah é? É. Mas você está de  parabéns. Obrigado. Juveninho se sente quase um reizinho com a criatividade das fãs, e mal pode esperar pelas próximas abordagens. O conteúdo carnavalesco o engrandece de tal forma que ele sente o coração  fazer tutatá. Quando se vê, lá está Juveninho, banhado pelos esguichos  de cerveja, o tênis destruído, o corpo (mentira, ele diz) axurriado, as virilhas e os suvacos assados, suplicando a Durval que volte logo do  intervalo, atento aos avisos em playback (ou era o irmão?) de Bell,  preocupado com mamãe Ivete, assombrado pelos dançarinos-plantas da  borboleta Daniela, perguntando ao Jamil onde diabos está a Mila das mil e  uma noites de amor com você, cantando “Eu quero uma latinha” e levando uma latada na cabeça, com milhares de reais a menos no <em>money belt</em>, a maior invenção da humanidade, segundo Juveninho, depois da barrinha de proteína, que ele também rouba da equipe de enfermagem dos Anjos da  Folia, sem deixar de contemplar ao redor, em alguma cinturinha moleca, o  rebolation que tudo justifica.</p>
<p>Agora: se Juveninho encontrou ou não uma exceção morena, com quem pudesse driblar o tempo, o som e o espaço quando eles literalmente  atropelam o corpo e a alma, e abstrair o universo em torno no momento  indelével dum beijo vagaroso, ninguém sabe. Quem ganhou o Vale-Juveninho? Há quem diga que foram as camareiras do hotel. Há quem  diga as panfleteiras do bloco. Há quem garçonetes do camarote. Há  chicleteiras de primeira viagem. Reza a lenda que Juveninho e as baianas se entendem no olhar e na pipoca, mas os amigos dizem que ele saiu liso  da avenida. Que levou um monte de “tudo bom?” pra casa. Que está até agora passando talco nas virilhas. Que fez xixi no canto do mictório, virado pro ralo, e só caíram duas gotas. Juveninho ignora. Cansou de  mandar caso perdido à terapia. São uns 5 mil por bloco em Salvador, e ele nem tinha tantos cartões de visita da doutora.</p>
<p>Depois de comer na tradicional churrascaria Boi Preto, onde os peguetes se reencontram na ressaca da folia, Juveninho foi embora na  quarta-feira de cinzas – e ninguém sabe ao certo se ele gostou do carnaval. Mas dizem as boas línguas baianas que, no banheiro do Ondina Apart, antes do check out, Juveninho sentou no trono e chorou.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e os amores impossíveis</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quinta-Feira, 28 de Janeiro de 2010, às  			12:08</strong></font></p>
<p>Juveninho recebeu uma declaração de amor de uma mulher  extraordinária. Ela tem 85 anos. Foi numa lanchonete, em Ipanema,  enquanto Juveninho comprava seu açaí com morango. “Meu filho!”, disse  ela, séria, com o dedo em riste, ao que ele anteviu uma bronca por  entrar sem camisa: “Que olhos lindos você tem!”. Juveninho agradeceu,  aliviado e tímido, sob a atenção risonha de fregueses e balconistas. “Se  eu fosse mais jovem”, gritou Dona Elza, “eu casava com você!”.  [Juveninho cogitou pedir o messenger de Dona Elza, mas temeu seu  offline]. Soerguendo-se no banco, ela deu-lhe o braço: “Anda, meu filho,  me ajude a levantar.”</p>
<p>Não sabe, Juveninho, por que as moças - especialmente as bonitas -  demoram 85 anos para ficar inteligentes assim. [Ou sabe: elas passam 40  ouvindo essas coisas e, com sorte, demoram mais 45 para aprender a  dizê-las. Não é o caso de Dona Elza, claro, mulher de atitude desde a  mais tenra e bela mocidade, segundo a imaginação de Juveninho.] Em todo  caso, a cantada das senhoras, ele diz, é como a das feias: existe para  dar confiança em encarar as bonitas. Copo na mão, Juveninho chegou à  praia de olho na morena dos panfletos: “Que linda bunda você tem! Eu me  caso com você!”. Mas desistiu. Precisava de mais 60 anos ou menos  morango no açaí.</p>
<p>Juveninho anda preguiçoso. Nada lhe dá tanta preguiça hoje quanto uma  moça bonita. As de sua idade (as feias também, mas Juveninho é rapaz de  foco), ele as divide em cinco tipos básicos (não raro cumulativos): as  anoréxicas, que não assumem a doença nem para si; as piriguetes da  night, que ficam com todo mundo; as semi-solteiras enroladas com  ex-namorados eternos; as superindependentes, que moram sozinhas e levam  homens pra casa como um sabonete; e as recém-casadas (com aquele sujeito  tão “fofo” quanto a última bolsa da moda), todas – antes dos 30 – já  com seu amante. Acha, Juveninho, que o destino de sua geração é mesmo a  micareta no asilo: comprando o abadá do primeiro lote, você já leva um  babador.</p>
<p>O abadá é o símbolo da Era das Possibilidades. E onde tudo é  possível, ele diz, nada é possível. Onde nada é impossível, tudo é  impossível. Onde ninguém termina coisa alguma, ninguém começa coisa  alguma. Onde se volta do supermercado com um mamão, um sabão em pó e um  marido, jogam-se no lixo a casca, a caixa e o compromisso. A missão de  Juveninho: colocar o impossível de volta em circulação. Seu plano:  fundar a EDECI - Escola Dona Elza de Consciência das Impossibilidades,  cujo primeiro dever de casa será analisar a brilhante frase: “<em>Se eu fosse mais jovem</em>,  eu casava com você!”. A expectativa (alta) é de que, em 5 ou 6 anos de  graduação, as moças descubram onde está o impossível na relação com seu  primeiro ex-namorado.</p>
<p>Enquanto uma aluna nota 10 não se forma, Juveninho procura uma  exceção autodidata. “Transforma-se o amador na cousa amada”, escreveu  Camões, e Juveninho não quer transformar-se num polvo. O poeta notou  que, apesar de termos em nós o que desejamos, o amor jamais se completa  sem a correspondência material, física, da amada - com o que concorda  Juveninho, embora não encontre corpos morenos e graciosos sem uma lista  de sócios-proprietários. Os amigos dizem que as bonitas é que não querem  saber dele. Que, nesse clube, Juveninho só recebe bola preta. Que ele é  apenas um peso médio, como o Rob, de <em>Alta Fidelidade</em>, e “<em>You gotta punch your weight</em>”.  Que seu destino, portanto, é ser o galã do Retiro dos Artistas.  Juveninho ignora. Aprendeu com Ovídio: “É o ápice que provoca a inveja”.  Mas, na dúvida, comprou a camisa do Retiro dos Artistas.</p>
<p>Se todo mundo está disponível e indisponível ao mesmo tempo, o  segredo é… Bem, Juveninho não sabe o segredo, e continua procurando uma  exceção morena. Na praia, segurando o panfleto de uma festa eletrônica, a  única certeza de Juveninho é que 11 DJs não fazem um verão. É preciso,  no mínimo, dispensar 10, e ensinar o outro a tocar um chocalho. Mas em  terra de mal resolvidos, ele diz, todo DJ é um rei. Sabe, Juveninho, que  a confusão mental de seus conterrâneos tem origem num ambiente cultural  onde o essencial e o irrelevante, o eterno e o efêmero, a realidade e a  moda, se misturam alucinadamente, deixando a massa perdida entre o que  presta e o que não presta, o que dura e o que não dura, o que se  sustenta e o que não se sustenta, e por quê. A onda é escolher o marido  por critérios como fofura, portabilidade e status, porque a  funcionalidade pode ficar com o amante. Amamos tanto o ecletismo, ele  diz, que nosso coração virou um DJ.</p>
<p>O primeiro passo de Juveninho para acabar com isso é proibir a frase:  “Fulano fez o impossível”. Se foi feito, não era impossível: era falta  de imaginação de quem disse - contribuindo para a crença geral de que  nada é impossível. E deduzir, do desconhecimento da coisa, a  inexistência dela aliena todo mundo. Nada – além da verdade - foi mais  difamado em nosso tempo que o impossível. Hora do direito de resposta.  Para Juveninho, o impossível numa escolha amorosa tem mil e uma formas,  dependendo do desejo de cada um: está num hálito ruim, num beijo  destrambelhado, num sexo insosso, numa beleza aquém, num humor faltante,  num charme perdido, num descompromisso existencial, num desinteresse  profissional, numa diferença intelectual, moral, de educação ou de  ambição, nos pais que você não quer como avós de seus filhos, ou –  principalmente, diz Juveninho – num excesso de blush nariz acima.</p>
<p>Sem recursos mentais para analisar essas coisas [sobretudo o blush]  até o fim, esgotando as possibilidades de um relacionamento para dele ao  menos saírem bem resolvidas, as pessoas hoje, segundo Juveninho, quando  estão diante de uma dificuldade qualquer ou já do próprio impossível em  carne e osso, o que fazem como solução? Dão “um tempo”! [De modo que há  pessoas dando um tempo em três namoros ao mesmo tempo.] São, para ele,  como o peladeiro seriamente contundido que, em vez de fisioterapia,  passa duas semanas sem jogar [ou jogando futevôlei]: quando volta, sabe  Juveninho, machuca-se mais ainda. No verão carioca, então (a estação dos  “tempos”; a farsa sazonal dos indisponíveis), achar um grande amor só  não é impossível porque a Juveninho não faltam imaginação nem atitude. A  essa hora, dizem, ele já está na internet, pesquisando se Dona Elza tem uma netinha morena.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e a paixão offline</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às  			14:59</strong></font></p>
<p>Sim, Juveninho sumiu. Sim, não deu notícias. Não, não tem um  livro para justificar sua ausência. Tem uns atestados médicos. Mas está  ótimo, “obrigado”. Escrever para ocupar a cabeça – é o que Juveninho  precisa [dizem]. Escrever para não enlouquecer. A escrita como medida  profilática é terrível, ele diz, porque você acaba revelando por escrito  qual é o seu problema. Juveninho não vai fazer isso. De vingança,  contaminará o leitor com a doença. Por uma frase, ao menos. Ou duas.  Está bem: três. Juveninho tem horror ao inacessível - eis a verdade.  Principalmente, se o inacessível tem a pele morena, queimada de sol.</p>
<p>“Ai!”, diria o Werther, de Goethe, “a distância assemelha-se ao  futuro! Uma massa enorme de trevas existe constantemente diante da nossa  alma”. Os adolescentes dizem isso hoje: trevas. É sinistro, é “trevas”.  Normalmente, sobre aquilo que não entendem. Juveninho entende os  adolescentes. Juveninho entende as trevas. O problema de Juveninho é o  intervalo entre uma treva e outra. Sentir, ele diz, a ausência de quem  você contemplou ou abordou rapidamente, mas ainda não conheceu, não pôde  conversar sem a preocupação da hora, da intromissão, da piada atonal e  mal compreendida. Não é a distância. Não é o futuro. É o inacessível. A  “entretreva”. Em outras palavras: o offline.</p>
<p>Juveninho detesta o offline. Os amigos logo o mandam trabalhar,  distrair-se, escrever – como quem presta serviços -, ocupando-se de sua  inserção social. Werther reclamava quando lhe sugeriam “amar com  moderação” e regular seu tempo, empregando uma parte no trabalho e as  horas de recreio – imagine! - “no cortejo de vossa amada”. Para salvar  seu amor e seu talento artístico da aniquilação maquinal, Juveninho  igualmente ignora essa gente, mas também não vai se matar por amor  impossível algum. A menos que morra de saudade, com a cabeça no teclado,  a mão no mouse, o cursor no <em>refresh</em> do orkut, e o barulho do messenger acordando os pais: “turururu”, “turururu”…</p>
<p>Para Juveninho, a pior coisa da morte é a certeza de que virá um  médico enumerar as causas, como se a ciência soubesse a causa de alguma  coisa e Newton tivesse explicado por que os corpos caem, e não apenas  descrito seu movimento. Juveninho preferiria que uma adolescente  vislumbrasse seu belíssimo cadáver, esculpido a muita malhação e  futevôlei, e dissesse assustada: que trevas! Seria mais honesto, ele  diz. E depois, sim, que um (seu) biógrafo, como Paul Auster, revelasse  então que Juveninho morreu porque estava “com o coração partido. Algumas  pessoas riem quando escutam essa frase, mas isso é porque elas não  conhecem nada do mundo. Pessoas morrem porque estão com o coração  partido. Acontece todo dia e vai continuar a acontecer, até o fim dos  tempos”.</p>
<p>Juveninho conhece alguma coisa do mundo, e não pretende morrer tão  cedo. Por isso agüenta as entretrevas, evitando alimentá-las. Como? É  simples, ele ensina. Evitando as <em>teens</em>. Há duas maneiras  básicas de distinguir entre menininhas e mulheres. A primeira é simples.  Menininhas não podem largar as “miguxas”. Já as mulheres dizem às  amiguinhas que vão ali com você, e pronto. A segunda é quase tão  simples. Menininhas não sabem que podem dizer não quando bem entenderem,  então acham que qualquer atenção é um supersim. Mulheres são senhoras  de si, e sabem [como ele] que podem ser educadas, simpáticas, conhecer,  conversar, interagir, sair, jantar, ir ao motel e, se decidirem que não  querem nada, basta negar o beijo ou inventar uma desculpa, porque os  desencontros fazem parte da vida. (Ok, consente Juveninho: ir ao motel,  não).</p>
<p>O problema é que não basta evitar as teens para evitar o offline - a  maior agonia contemporânea -, a dor que Juveninho passa enquanto escreve  sobre a dor que não passa. Bem-feito, dizem os amigos: quem mandou  escolher a melhor? Juveninho ignora. Só a melhor lhe interessa. Na  praia, ao avistar a morena queimada de sol, houve quem dissesse: você  não viu <em>Uma mente brilhante</em>? Não se lembra do Equilíbrio de  Nash? Da teoria de que não se deve ir logo na mais bonita que você não  vai se dar bem? Está ouvindo? Estou, respondeu: “John Nash é o caralho.  Meu nome é Juveninho, porra”. Os amigos se calaram. Sabem que Juveninho  não é de aspas nem de palavrão, muito menos de citar o cinema nacional.  Temeram o que Juveninho-Zé-Pequeno faria com quem obstruísse o caminho à  sua musa. E ninguém se dispôs a morrer pela matemática.</p>
<p>A eternidade, dizem os cafajestes, é o tempo entre o orgasmo e deixar  a mulher em casa. Juveninho despreza os cafajestes. A eternidade, para  ele, é o offline da musa, enquanto não tem o telefone dela. Há quem  pense que o offline tem o poder de aumentar ou diminuir uma paixão, o  que é mais uma bobagem <em>teen</em>. Juveninho já está bem grandinho  para saber que o sucesso de uma relação não depende do tempo em que as  coisas acontecem (inclusive – mas não só - aquelas…), mas da qualidade.  Fugir das provas práticas e (ou para) querer o maior amor do mundo é  coisa de miguxa. Só duas coisas, segundo Juveninho, merecem todo o amor  do mundo mesmo quando não demonstram a menor qualidade: os filhos e o  Flamengo. Para ter os primeiros, primeiro é preciso assistir junto a  muitos jogos do segundo. Sua musa já demonstrou várias qualidades.  Juveninho só torce para não cair de cabeça no teclado antes do seu  “turururu”.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e o apagão</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 11 de Novembro de 2009, às  			14:55</strong></font></p>
<p>Onde estava Juveninho durante o apagão? Com quem? As morenas do mundo inteiro exigem uma resposta. Ou duas.</p>
<p>Juveninho não tem blackberry. Juveninho não tem iPhone. Juveninho tem  radinho de pilha. Em quase três horas de apagão na noite chuvosa do  Rio, ficou abraçado a ele como nos tempos de cadeira azul no Maracanã.  No lugar de Zico, Edmundo. O original? Não: um genérico, da Paraíba.  Deitado na cama, com o celular descarregado, e atrás de informação sobre  o futuro da energia nacional, Juveninho foi obrigado a ouvir Vasco e  Campinense, pela série B do Campeonato Brasileiro. Morrendo de medo,  claro. Quando a única notícia da civilização é um jogo do Vasco na  Paraíba, diz Juveninho, estamos muito próximos do juízo final.</p>
<p>Aos poucos, chegavam declarações de autoridades como o ministro  Edison Lobão sobre o desligamento da hidrelétrica de Itaipu,  possivelmente devido a “tempestades”, “vendavais” e “problemas  atmosféricos” – segundo Juveninho, os maiores criminosos do Brasil  depois da “sociedade”. Juveninho também jamais perdoaria a natureza por  obrigá-lo a ouvir Vasco e Campinense, não tivesse sido este, felizmente,  um jogo cheio de tumultos, expulsões, pênalti perdido, porrada e sangue  - em sua imaginação: muito sangue. Enquanto os carros batiam nos  cruzamentos sem sinais, e os pedestres eram assaltados nas ruas escuras,  e os moradores ficavam presos nos elevadores, e os mosquitos devoravam  Juveninho no quarto sem ar-condicionado, Edmundo dava um soco em Carlos  Alberto e era expulso. Aquilo o distraiu. Quando moleque, chamaram  Juveninho para jogar no Vasco. Mas ele preferiu os mosquitos.</p>
<p>Nunca soube, Juveninho, se primeiro se apaixonou pela bola ou pelo  rádio. O futebol era divertido às vezes; o futebol no rádio, sempre. Sua  maior influência literária é o garotinho José Carlos Araújo, o melhor  locutor esportivo de todos os tempos. Juveninho deve toda a sua carreira  (lêem-se: morenas) a ele. Muito agradecido, dizem, grita em pensamento a  cada uma: “Entrou! Golão, golão, golão!”. Nos últimos meses, Andre  Agassi lançou sua autobiografia, revelando casos com drogas e doping;  Hulk Hogan lançou sua autobiografia, revelando ter pensado em suicídio.  Fora o Zico, diz Juveninho, os ídolos de infância são sempre uma  decepção. Mas vai comprar a biografia do Garotinho. Acredita que a  santidade precisa voltar à moda. Por isso anda escrevendo sua história,  no romance autobiográfico <em>Enquanto a babá trepava</em>. Se Juveninho é um “Anjo Pornográfico”? Ora, ele diz, isso é para os feios. Juveninho é o Santo Farpador.</p>
<p>Seu atual radinho de pilha, ele ganhou de brinde na assinatura de um  jornal americano. Foi o melhor presente que o jornalismo já lhe deu.  Agora, quando falta luz, ele pode saber tudo sobre a série B do  Campeonato Brasileiro. Dizem que, se os jornais americanos dessem  blackberries ou iPhones de brinde, Juveninho estaria dormindo até agora  com uma morena da série A. Há quem pense em processar a imprensa  americana por deixar Juveninho offline no apagão. Em Porto Rico, é comum  as pessoas combinarem onde vão passar o “furacão da semana que vem”. Há  quem pense em processar a natureza brasileira por falta de aviso  prévio. Todos (mentira, todas) exigem indenizações pesadas, como andar  de mãos dadas com Juveninho no Coqueirão. Entre as vítimas online mais  prejudicadas, havia até sujinhas moderninhas querendo cantar em seu  (dele) quarto-sauna: “Ô chu-vá, eu peço que cai-á devagar”…</p>
<p>Ninguém se conforma em deixar Juveninho às moscas no verão. Nem ele.  Quando a luz voltou, foi até o espelho e contou nove mordidas e três  arranhões. De onde mesmo tinham vindo os arranhões? Juveninho não  lembrava. O jeito foi desligar o radinho de pilha, fechar as janelas,  ligar o ar-condicionado e dormir. Um beijo, morenas. Dizem que Juveninho  já tem dois furacões marcados pra semana que vem.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho 2016</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Sexta-Feira, 2 de Outubro de 2009, às  			20:07</strong></font></p>
<p>Nada mais preocupava Juveninho senão a maior dúvida olímpica de  todos os tempos: estará solteiro em 2016? Atletas fêmeas do mundo  inteiro perguntam o mesmo. Um recorde. Nunca antes no esporte nadadoras e  ginastas estiveram tão sincronizadas. Dizem que os jogos <a href="http://www.tribuneiros.com/2007/07/25/onde-esta-juveninho/" target="_blank">Juveninho 2007</a>  deixaram sua marca indelével nas morenas, sobretudo as do badminton.  Juveninho é craque em badminton. Não pode ver uma peteca que já quer  marcar um Pan.</p>
<p>Tão logo foi anunciada a vitória do Rio de Janeiro na mega-sena,  Juveninho conferiu os números na identidade. Que tristeza! Em 7 anos,  Juveninho planejava estar casado, fiel à sua peteca mulata. Como  resistir até lá? Impossível. Desligou a TV, bateu a porta e saiu  inconformado: não se pode fazer nada sério nesta cidade… Dois  adolescentes, vestidos de Brasil, passaram alegremente por ele na rua.  Ambos terão uns 20 anos em 2016. Juveninho chegou perto e gritou:  “Canalhas!”. Um quase engoliu o canudo do toddyinho.</p>
<p>Consolou-se, Juveninho, com a opinião de que quem tem potencial para o  sucesso não pode casar antes deste, a não ser com uma fã profética tão  (ou mais) irresistível quanto as que virão depois. Enquanto não decola  sua carreira internacional, Juveninho vive em busca da melhor fã  profética. A mais ambiciosa. Aquela capaz de rivalizar com todas as  outras, de todos os lugares do mundo, no presente humilde e no futuro  glorioso. Agora que o COI ofereceu aos cariocas as petecas de uma  carreira internacional inteirinha sem precisar sair do lugar, a  responsabilidade das fãs aumentou. Recomenda, Juveninho, sete anos de  Flaubert e <em>leg press</em> horizontal.</p>
<p>Seu patriotismo já começou a vingar. Finalmente, alguém enxergou no  Rio de Janeiro o potencial! Foram anos e anos, segundo Juveninho, em que  insistiram em ver aqui apenas a realidade. Um absurdo, imagine: a  realidade! Agora, não. Penetraram o olhar fundo o bastante para ver que,  tirando o estado atual, sobra alguma célula sã capaz de multiplicar-se.  Quando alguém enxerga na gente o potencial e dá uma chance ou aponta um  caminho - ele diz -, só resta dar graças a Deus e correr atrás. Fizeram  com o Rio, portanto, exatamente o que Juveninho faz com as morenas. Só  teme, Juveninho, que o Rio diga ao mundo: “<a href="http://www.tribuneiros.com/2009/07/13/amor-e-mundo-uma-introducao-a-realidade/" target="_blank">Tem que gostar de mim como eu sou</a>”…</p>
<p>Não “tendo que” gostar de nada – embora sofra para largar uma peteca  -, Juveninho não se importa mais. Se estará solteiro em 2016, nem ele  nem ninguém saberá até lá. Mas, para as atletas cubanas que quiserem  fugir de Fidel, dizem que Juveninho já preparou o esconderijo.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Quem ama faz spinning</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Sexta-Feira, 20 de Fevereiro de 2009, às  			10:11</strong></font></p>
<p>Apesar dos pedidos, Juveninho não se candidatou à vaga de zelador  das Ilhas Hamilton, anunciada como “o melhor emprego do mundo” pelo  governo australiano. Nada contra os milhares de brasileiros inscritos,  vivendo o sonho de ser zelador, mas essa não é a praia de Juveninho. Se a  questão fosse apenas escolher entre conviver com brasileiros ou com  peixes, baleias e tartarugas marinhas, Juveninho não titubeava. O  problema é o salário: US$ 100 mil por seis meses. Muito alto para a  idade de Juveninho.</p>
<p>Não pretende, Juveninho, ficar rico muito cedo. Leu <a href="http://www.tribuneiros.com/2009/02/14/terapia-ja/" target="_blank">por aí</a>  que os jovens ricos viram cornos, e ficou bastante preocupado. Mas tem  jogado na mega-sena. Nos mesmos números. Alega que mega-sena é prática, e  ganhar é uma questão de tempo. Quando isso acontecer, pretende já estar  rico como escritor, e recusar publicamente o prêmio. Seu objetivo, na  verdade, é distribuir o dinheiro para todos os brasileiros que sonharam  em ser zelador de peixe. É uma política, segundo Juveninho, de premiar  quem escolhe bem as companhias.</p>
<p>Na falta de um aquário, Juveninho escolheu as dele: os livros. Os  livros e os aparelhos de ginástica. Às vezes, no caminho entre uns e  outros, escuta menininhas – literalmente – desgostosas falando mal de  academias, do ambiente, dos freqüentadores, do papo fútil. É o  suficiente para que cheguem à conclusão de que cuidar do corpo é coisa  de gente burra – e não façam exercício algum, em lugar nenhum. Nem um  levantamento de anzol, diz Juveninho, que se considera muito  inteligente. Ele, então, pergunta o que elas fazem em contrapartida para  tornar seu espírito tão elevado, sua alma tão evoluída a ponto de  dispensar os cuidados com o corpo. Lêem Platão? Aristóteles? Montaigne?  Flaubert? Não. Ouvem Chico Buarque. Para Juveninho, deve estar cheio de  titias o show do Chico Buarque…</p>
<p>“O que se instrui” – ele cita Montaigne - “não é uma alma, não é um  corpo: é um homem; não se deve separá-lo em dois. E, como diz Platão,  não se deve instruir um sem a outra, e sim conduzi-los por igual, como  uma parelha de cavalos atrelados ao mesmo timão”. Neste carnaval, os  cavalos de Juveninho são barbada. É o que andam dizendo, segundo ele, as  morenas lá do Coqueirão. Enquanto os amigos fazem suas apostas,  Juveninho - muito cuidadoso - atarraxa mais um pouquinho a carroça.  Conjuga <em>A república</em> com o leg press horizontal; os <em>Tópicos</em> com o crucifixo inverso; <em>Os Ensaios</em> com o supino reto; <em>A educação sentimental</em> com a bicicleta. Três séries de livro; três parágrafos de aparelho.</p>
<p>Sabe, Juveninho, que um grande amor não é brincadeira. Quanto mais no  ponto você estiver antes de encontrá-lo [o amor ou Juveninho, ele  avisa], melhor. Mas, como no futebol, ninguém quer saber disso. Depois  de uma pelada, os perdedores discutem, brigam, falam de marcação,  esquemas táticos, garra e outras bobagens circunstanciais. Nunca de seus  próprios preparos físicos, talentos individuais ou rotinas de  treinamento. O maior aprendizado futebolístico de Juveninho foi este: o  sincero desejo dos outros de não entender nada – a começar por si mesmos  - para evitar novos esforços solitários. Por isso o governo australiano  é burro, ele diz. Se abrisse vaga para tartaruga marinha, o sucesso  seria muito maior.</p>
<p>É de opinião, Juveninho, que quem espera o amor para descobrir como  mantê-lo, ou a desgraça para saber como evitá-la, na hora só consegue  evitar o amor e manter a desgraça. Em outras palavras – as de Juveninho  -, o melhor emprego do mundo é zelar pelos seus cavalos. Dia e noite,  ele tem feito isso. As Ilhas Hamilton são questão de tempo. Agora,  Juveninho está de corpo e alma no carnaval. Dizem que Aristóteles baixou  no Coqueirão. Que as morenas não largam os <em>Tópicos</em>. Que as  desgostosas estão correndo na areia. Que até as titias vêm ver sua  carroça passar, cantando coisas de amor. A vaga está aberta, ele pensa.  Quem não corre atrás fica pra trás. Na filosofia de Juveninho: quem ama faz spinning.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho standard</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às  			02:17</strong></font></p>
<p>Juveninho passou o ano inteiro sumido. Sumiu como quem se recolhe  para um grande projeto – lento e laborioso -, um passo fundamental em  sua formação de escritor. Seu objetivo era investir em si mesmo para  reaparecer maior, melhor, mais contundente, irresistível, de preferência  no verão. Como Montaigne, Juveninho queria se refugiar no alto da torre  e descer apenas quando tivesse à mão uma obra imorredoura e, aos pés,  as mesmas havaianas. Cansou-se da afobação brasileira, da aversão à  qualificação profissional, da ignorância (ou má fé) metodológica que  sempre resulta em análises ideológicas, destrambelhadas ou inócuas.  Pensava, Juveninho, que era preciso ir até o alto da torre para estudar  as raízes dos problemas. E ele foi.</p>
<p>Durante meses, Juveninho só pensou em trabalho. Na praia (mas não no  Coqueirão), no samba (mas não na Mangueira), na noite (mas não no  Bailinho), na academia (mas não na Estação) não pensava noutra <em>cousa</em>  senão numa obra-prima com a qual reapareceria triunfante. Sua torre era  uma faixa descontínua de terra à margem de suas antigas paixões. Com o  tempo, a faixa se prolongava, e Juveninho ia ficando cada vez mais  distante de seu hábitat, a despeito (ou em virtude) de convites e  tentações constantes. Estava convicto, Juveninho, de que não queria  jamais viver num ponto permanente de tensão, preocupado em perder a  mulher, a casa, o carro e o emprego por pura falta (pregressa) de  paciência, orientação e planejamento de vida e carreira. Não queria se  transformar num cargo. Não queria - mesmo que, para isso, tivesse que  morar mais tempo na casa dos pais e gastar mais dinheiro em “suítes  simples”.</p>
<p>O futuro preocupava Juveninho. Sua vida pregressa era agora. Agora  era o momento de buscar ajuda, como fizeram e fazem sempre os melhores.  Só mesmo um idiota não precisa de ajuda, dizia Juveninho, tentando se  convencer. Não existem autodidatas, continuava ele, o único autodidata  da história foi Adão e, ainda assim, com uma mãozinha de Eva. Até quem  foge à educação formal se guia pelos rastros de seus antecessores, ou  diretamente pelos próprios, de modo que a Juveninho só faltou encontrar  os próprios. Sua ojeriza à educação formal, ele alega, vem de um fato  cinematograficamente comprovado: mais vale um Sr. Miyagi do que mil  academias Cobra Kai. Na falta de um Sr. Miyagi no Coqueirão, o  autodidatismo de Juveninho se resumiu a seguir as pistas de seus autores  favoritos, passando da citação à obra original, da referência à fonte  primária, do rodapé à pesquisa científica, num delicioso trepa-trepa sem  fim de leituras diversas. Foi um ano de muito aprendizado. Juveninho é  mestre em trepa-trepa.</p>
<p>Ele já podia sentir a raiva dos invejosos [os blogueiros!] quando, de  repente, descesse altaneiro, empunhando o resultado literário de um  longo período de isolamento e de renúncia às mediocridades efêmeras de  seu tempo. Há quem diga, porém, que sua reclusão foi de ordem  financeira, e que Juveninho teria economizado o ano inteiro só para  pagar uma das festas de Réveillon “<a href="http://www.tribuneiros.com/2007/12/12/juveninho-e-o-reveillon/">mais nobres e exclusivas</a>”  da cidade. De um jeito ou de outro, sua fé inabalável era sempre a  mesma (e a tudo se aplicava): melhor estar bonito numa festa do que feio  em todas. Para Juveninho, o que seus contemporâneos jamais entenderam é que a onipresença é inimiga da volúpia. Por isso era preciso investir  em ausências, aprimorar esperas, lapidar saudades. Uma arte que, na  opinião de Juveninho, era pré-condição para a arte propriamente dita. Para escrever sua novela autobiográfica <em>Enquanto a babá trepava</em>, Juveninho precisava resistir à faxineira. Para escrever o ensaio <em>Os sarados também lêem</em>, Juveninho precisava resistir à personal. Carnes do ofício, ele dizia. Não diz mais.</p>
<p>Todo sacrifício valeria a pena no momento da reaparição, o marco  inicial da posteridade juveniniana. E ele reapareceu. Há quem diga que  foi primeiro no Coqueirão, há quem diga Bailinho, há quem Mangueira, há  Estação. Há quem diga que ele está mais bonito, há quem diga  inteligente, há quem “fortinho”, há mesma bosta. Mas nem sinal de sua  obra-prima. Havia apostas de que Juveninho não resistiria ao verão no  alto da torre, e sua recaída era uma questão de tempo. Muitos estão  exigindo o pagamento dos devedores, que alegam ser ainda cedo para saber  se é recaída ou volta triunfal. Juveninho ignora essa gente. Sabe que  existe sempre um rebanho torcendo para não ser tão humilhado com o que  se viveu ou se produziu à sua revelia. Por isso ele prefere o mistério. A  melhor obra de um escritor é a próxima – e Juveninho descobriu como  deixar o público a par disso. Todos suspeitam que ele está prestes a  lançar um best-seller. Todos querem estar por perto quando o mundo  descobrir o grande artista. Se for amanhã ou daqui a 60 anos, não  importa. O verão de Juveninho está ganho. A saudade, lapidada. Até o  carnaval, não há mais “suítes <em>standard</em>” disponíveis na cidade.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e a noite de autógrafos</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 23 de Janeiro de 2008, às  			17:24</strong></font></p>
<p>Juveninho está vendo a Sessão Erótica, do Telecine. Uma mulher  lambe uma banana. Um homem chupa um pêssego. Não são metáforas. São  frutas. A Sessão Erótica, ele diz, é o programa mais criativo da  televisão. Sempre que pode, Juveninho vê. Outro dia havia um espírito  que passava de corpo em corpo jogando a libido dos terráqueos nas  alturas. Quem o recebia tinha que foder imediatamente com quem estivesse  mais próximo. Juveninho tirou uma grande lição do filme: cuidado com as companhias.</p>
<p class="MsoNormal"><o:p></o:p>Anda, Juveninho, cada vez mais  precavido. Só cumprimenta os amigos de longe. Só freqüenta lugares de  “gente bonita”. Foi ao Fashion Rio. Sentou na primeira fileira. Por  sorte, nenhum espírito baixou. Juveninho tem horror a modelos. Acha que  Gisele lhe sorriu, mas isso não vem ao caso. Prefere as camareiras. Em  grandes eventos, ele ensina, o melhor é sempre o entorno. A última  fileira. As repórteres, as produtoras, as garçonetes. Os amigos dizem  que Juveninho não tem competência para além disso. Juveninho não nega.  Deixa os amigos perderem seu tempo esperando espíritos.</p>
<p class="MsoNormal">Na semana passada, foi ao lançamento do livro dos  Tribuneiros. Disfarçado, claro. Ninguém o reconheceu. Há quem diga que  Juveninho foi quem escreveu o texto de apresentação. Há quem diga que  Juveninho foi quem escreveu as crônicas do Pim. Há quem diga que  Juveninho foi quem estava no banheiro com uma leitora do Andreazza. Ele  não nega. Considera justo roubar leitoras alheias. Sempre que vai a uma  noite de autógrafos, Juveninho morre de vontade de lançar um livro. Seu  único medo: que roubem suas leitoras. Por essas e outras, Juveninho  nunca dá festas de aniversário.</p>
<p class="MsoNormal">Na Argumento Leblon, foram mais de duas horas de  fila. Uma para comprar o livro, outra para cumprimentar os autores.  Juveninho não se surpreendeu. Antes de sair de casa, lera atentamente as  dicas de etiqueta de Gloria Kalil: “Precisa entrar ou pode cumprimentar  de longe? O melhor é ir preparado para um programa em que o papo na  fila faz parte”. Juveninho estava preparado. “Quanto maior a fila, sinal  de sucesso para o autor. Mas, caso não dê para esperar muito tempo, o  jeito é acenar de longe para o amigo”. Nada disso. Juveninho queria  acenar de perto para Bruna Demaison.</p>
<p class="MsoNormal">Para suportar a fila, teve de usar seus melhores  truques. Aprendeu com Otto Lara Rezende: “Tenho para mim que sei, como  todos os brasileiros, os três primeiros minutos de qualquer assunto.”  Acha um exagero, Juveninho, dizer que “todos os brasileiros” chegam a  três minutos. Mas ele chega. Não só chega, como desenvolveu a técnica.  Sabe como ninguém passar da filosofia de Sócrates para o calcanhar de  Sócrates na Copa de 82. Da literatura de Miller para o gol de Muller no  Mundial de Clubes de 93. Do Oscar de Melhor Filme de <em>Rocky</em> para  as cestas de Oscar Schmidt no Pan de 87. Da fila de autógrafos para o  banheiro da livraria. Sem perder o lugar, ele diz. É uma arte.</p>
<p class="MsoNormal">Ao chegar sua vez, Juveninho não se afobou.  Lembrou-se da “dúvida final” de Gloria Kalil: “é necessário pedir  autógrafo para os demais autores que não se conhecem? Não, basta dar um  sorriso aos outros e sair”. Ficou devendo, Juveninho, o sorriso aos  outros. Há limites para seu lado fashion. Emocionado, pegou o autógrafo  da Bruna, e saiu. Há quem diga que Juveninho foi conversar com as  leitoras do Pim. Há quem diga que Juveninho foi procurar as  representantes do Coqueirão. Há quem diga que Juveninho esqueceu a  etiqueta no banheiro. Ninguém sabe ao certo onde baixou o espírito de  Juveninho. Entre as moças do seu tempo, contudo, só ficou uma certeza: a  primeira noite de autógrafos a gente nunca esquece.</p>
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<p class="MsoNormal"><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e o ventríloquo</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2007, às  			15:12</strong></font></p>
<p>Juveninho tem um novo ídolo. É um ventríloquo americano. Seu nome  é Jeff Dunham.  Indicação de seu fisioterapeuta. Há fisioterapeutas que  indicam alongamentos. Há  fisioterapeutas que indicam ressonâncias. O  fisioterapeuta de Juveninho indica  ventríloquos. Deve achar que  Juveninho sofre de múltipla personalidade. E que a  múltipla  personalidade, como tudo ultimamente, é psicossomática. Juveninho não  teria machucado a virilha na cama, como ele diz. Mas na mente. É uma   hipótese.</p>
<p>O fato é que Juveninho passou a semana inteira no YouTube  assistindo  a Dunham e seus bonecos. O terrorista morto Achmed, o super-herói   Melvin e, sobretudo, o rabugento Walter, agora candidato a presidente.  Os outros  não eram legendados. Walter, na verdade, tampouco, mas a  rabugice, explica  Juveninho, é como o dinheiro: uma língua universal.  Os rabugentos do mundo  inteiro se entendem à  menor arcada de  sobrancelha. É quase um código Morse. Não  há americano algum que ria de  Walter antes de Juveninho. Ele teme se tornar um  completo idiota. Mas  continua.</p>
<p>Desde que foi entrevistado por Johnny  Carson em seu mundialmente plagiado <em>Tonight show</em>, Jeff Dunham virou uma  febre nos Estados Unidos. Participou de todos os programas de TV. Saiu dos  pequenos clubes de <em>stand-up comedy</em> para os maiores teatros do país.  Ganhou uma porção de prêmios de humor. Seus bordões, como o “<em>I kill  you!</em>”, de Achmed, são tão repetidos por lá quanto os do Capitão Nascimento  por aqui. Seu primeiro DVD, <em>Arguing with myself</em>,  vendeu mais de 500 mil  cópias não-piratas só em 2006. Outros estão a  caminho. Juveninho conta tudo isso  para quem chega perto dele. Em casa,  foi direto ao ponto: “Mãe, quero ser  ventríloquo”. Sua mãe achou que  era carnaval. Perguntou quem ia ser a aurícula.</p>
<p>Foi mais um teste de Juveninho para saber a reação dos mortais diante  de  carreiras incertas. Ele não quer ser ventríloquo coisa nenhuma.  Quer ser  escritor. Publicar <em>A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada</em>,  e  procurar um grande amor entre as fãs. Pretende, como Jeff Dunham,  trabalhar a  vida inteira para fazer sucesso da noite para o dia. Mas  enquanto trabalha a vida  inteira ninguém o entende. Um médico não  entende Juveninho. Um  engenheiro não entende Juveninho. Um economista  não entende Juveninho. Nem uma  dona de casa entende Juveninho. Na idade  de Juveninho, ele diz, todos já  podiam freqüentar festas de Réveillon  com 11 DJs. Ninguém vai entendê-lo  enquanto não falar a língua  universal. Jeff Dunham fala. Hoje, além de  ingressos, vende camisetas,  ímãs, chaveiros, bonecos e tudo isso que os  americanos compram dos  ídolos. Juveninho chega lá. Já tem os contatos de todas  as sex shops.  Só faltam os livros.</p>
<p>Sabe, Juveninho, que, na arte, só  existem duas coisas importantes:  dominar a técnica (de ser cativante) e ter algo a dizer. As  menininhas,  infelizmente, só vêm depois. (Quando vêm antes, ele diz, o artista  se  acomoda. Insiste que não é o seu caso). Todas as manhãs Juveninho abre  os  jornais e lê uma porção de sujeitos entendidos de uma porção de  assuntos. Alguns  até têm algo a dizer, mas não dominam a técnica. São  chatos. Todas as noites  Juveninho passa por Copacabana e dá uma  olhadela nas exclusivas. Elas dominam a  técnica, mas não têm nada a  dizer. São ótimas. Não é isso, contudo, que  Juveninho quer comprovar.  Se não há ventríloquo no mundo tão bem-sucedido quanto  Jeff Dunham,  isto sim, é porque ele não só domina a técnica como também tem algo  a  dizer. Por isso Juveninho investe em si mesmo.   Técnica e conteúdo. Se não tiver os dois, terá menos menininhas.</p>
<p>Aprendeu, Juveninho, com Schopenhauer, que nem a leitura nem a   experiência podem substituir o pensamento. Não há um dia sequer que   Juveninho não vá pensar no Coqueirão. Teme ficar defasado em relação a  todos os  grandes pensadores de lá. É duro manter o ritmo deles. Sua  virilha segue com  sinais de fadiga. Está cada dia mais caro o protetor  solar. Mas Juveninho não  desiste. Trabalha a mente e o corpo do jeito  que pode. Precisa de uma aurícula morena para pular junto o carnaval.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e o Réveillon</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 12 de Dezembro de 2007, às  			15:13</strong></font></p>
<p>Juveninho não sabe onde passar o Réveillon. Escolher aonde ir  numa noite que só  acontece uma vez por ano é muito difícil. Qualquer  erro, e puf: só ano que vem.  O sonho de Juveninho era estar presente em  todas as festas da cidade ao mesmo  tempo. Como a bateria da Mangueira.  Como o DJ Marlboro. Como o Open Bar. Mas  Juveninho não são trezentos.  Juveninho só tem um, e tem horror a DJs. Não sabe  por que os cientistas  e os governos gastam tanto tempo e dinheiro com pesquisas  de clonagem e  células-tronco. Para Juveninho, os DJs têm a resposta há anos. Mas   escondem.</p>
<p>A maior diversão de Juveninho nos últimos dias tem sido falar  mal  dos DJs e de todas as festas de Réveillon da cidade. Nenhuma noite no  mundo,  diz ele, vale 400 reais. Isto porque, dizem os amigos, ele não  tem 400 reais. Se  Juveninho tivesse 400 reais, seria o primeiro a pegar  o bondinho da Urca para  comer os “frios volantes” e os “quentes  volantes” do bufê. Como não tem, fica  maldizendo os volantes que, não  satisfeitos em infestar o futebol, agora vêm  contaminar nossa comida.  Quanto menos volantes no mundo, segundo Juveninho,  melhor. Um bufê na  retranca não pode ser bom.</p>
<p>Juveninho tem passado dia  e noite na internet procurando defeitos em  cada evento. Nenhum vai  ter um bufê de verdade. Só buffet. Se tivesse  um show de balé, seria ballet.  Essa gente é muito provinciana, ele diz.  E adora uma exclusividade. Lounges  exclusivos. Spas exclusivos. Wraps  exclusivos. Tudo exclusivamente para duas mil  pessoas. Juveninho,  exclusive. Há até áreas exclusivas em festas exclusivas.  Como o Espaço  Lagoa, no Jockey, onde Juveninho só não é “bem-vindo” porque, no  site,  faltou o hífen. Já a Hípica fica numa das “áreas mais exclusivas e   nobres da cidade”. Quando não é (só) exclusiva, é nobre. Juveninho passa  por lá  todo dia e não sabia disso. Para ele, só os banheiros deveriam  ser exclusivos.  Mas nunca são.</p>
<p>O site preferido de Juveninho é o do Réveillon do MAM.  “Uma super  produção [sic] jamais vista”. É verdade. Juveninho jamais viu   superprodução separada. “A contage [sic] regressiva já começou!”. É  verdade  também. O eme já se foi. “Record [sic] absoluto de público”. O  “e” foi junto.  “Num dos locais mais nobres do Rio de Janeiro”. Mas não  exclusivos. O MAM está  por fora. Juveninho, aliás, contou 11(!) DJs no  evento. Cada um com seu  currículo. Coisas da arte moderna. Para ele,  passar 8 horas com 11 DJs é pior que buffet na retranca. Para compensar,  haverá uma “Bateria de  escola de samba”. Só não se sabe qual. Eis o  mundo encantado, segundo Juveninho,  das festinhas de Réveillon. Onde  bateria é tudo igual, e DJ é tudo diferente.</p>
<p>É de opinião, Juveninho, que o mundo e as pessoas andam ecléticos   demais, laicos demais, gays demais. Que trilha sonora é como “buffet  volante” ou  bordel de luxo: você paga por toda uma variedade que não  vai comer. Não vale a  pena. Ver a bola gigante cair em Nova York deve  ser melhor. Ouvir as doze  badaladas em Madri deve ser melhor. Pior que 8  horas com 11 DJs, só a Avenida  Paulista. Os amigos de Juveninho dizem  que ele vai acabar em Copacabana. Que é a  única noite do ano que  Juveninho passa em Copacabana de graça. Ele não nega. É  lá mesmo que se  sente mais à  vontade. Olhando de longe, ainda consegue  distinguir de  qual país é cada moça. Se cantar <em>Auld Lang Syne</em>, é  inglesa. Se  comer lentilha, é chilena. Se usar calcinha vermelha, é espanhola.  Se  usar amarela, é colombiana. Se não usar, é brasileira.</p>
<p>Juveninho não  tem 400 reais. Mas reza a lenda que nunca abriu mão de uma exclusiva.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Ele e as viciadas</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 18 de Julho de 2007, às  			12:51</strong></font></p>
<p>Meu nome é Dercy. Gonçalves é a puta que pariu. O pau mais  gostoso é o  circuncidado. Toda mulher precisa chamar a atenção de  alguma forma. A forma da  bunda, dos seios, do abdômen. Eu queria ser  reconhecida pela forma dos pés,  então sempre deixo os pés de fora. Mas  poucos homens dão valor aos nossos pés,  então, por via das dúvidas, dou  uma valorizada no resto. Tem mulher que se julga  auto-suficiente, eu  não, eu preciso de homem. E homem não tem que ser isso, nem  aquilo, tem  que ser homem. Ser homem é ser homem, só se aprende com uma mulher.   Não com duas, nem com três: com uma.</p>
<p>Meu nome é Cleide. Gosto de homens  assim-assado. Assim como o  Richard Gere e assado lá na minha cama. Sou fogo. Não  posso ver um  homem bonito que quero logo dar pra ele. Alguns ficam com medo de  mim.  No início, todos, na verdade. Aí eu vi que homem não dá conta de mulher   oferecida demais não. Homem também precisa de preliminar: se você  disser “me  come” no meio da rua, a maioria broxa. Não, eu nunca disse  “me come” no meio da  rua. Só na calçada.</p>
<p>Meu nome é Fátima. Gosto mesmo é de mulher. Nada  contra homem, eu já  tive uma porção, mas mulher que é bicho bom. Com mulher a  gente pode  ficar horas e horas nas carícias, os homens têm sempre aquela   preocupação da coisa cair, não levantar nunca mais, as carícias na  maioria das  vezes são pura burocracia. Eu gosto é de gozar. E nunca fui  muito boa nesse  negócio de gozar com penetração. A maioria não é, você  sabe. Muitas fingem. Eu  não gosto de fingir. Com mulher, gozo bem  mais. Tenho uma amiga que diz: “Gozar  não é tudo”. Coitada dela. Casou  com um idiota do mercado financeiro. Só deve  gozar no bidê.</p>
<p>Meu nome é Zenaide. Eu me masturbo às segundas e quartas.  Se ninguém  me ligar, eu mesma ligo pra mim. Esses celulares novos são bem   melhores que os antigos. A gente vai ficando mais exigente, né? Não vejo  a hora  de ter um I-phone. Uma amiga minha americana falou que é o  melhor. Vibra uma  barbaridade. Eu tenho medo de ficar viciada. Agora,  preciso ligar de cinco a  seis vezes pra conseguir falar com ela. Mas  quando ela diz “alô”, nossa, aí é  que você percebe que a coisa é boa.</p>
<p>Bom, eu sou circuncidado. Achei  lindos os pés da Dercy. Quando uma  mulher diz “me come”, eu como na hora. Com  muitas carícias, porque  mulher gosta mesmo é de gozar várias vezes. Eu não me  masturbo. Prefiro  encontrar uma voluntária. Ah, desculpe, meu nome é Juveninho.  Mas meu  novo apelido é I-phone.</p>
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<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e suas órfãs</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Sexta-Feira, 6 de Julho de 2007, às  			12:57</strong></font></p>
<p class="txt11">Juveninho conheceu uma evangélica. Ela é linda de  morrer.  Isso dá uma tristeza profunda em Juveninho. Papo vai, papo vem,  ela disse: “Sexo  só depois do casamento”. Juveninho se despediu na  hora: “Um beijo, tchau”. Crê,  Juveninho, que a sinceridade está muito  mais nas atitudes que nas palavras.  Juveninho tem horror à  hipocrisia.  Nunca disse “obrigado” a um motorista de  ônibus. Juveninho tem horror a  motoristas de ônibus.</p>
<p>O pai da moça  evangélica nunca deu bola pra ela. É como se ela fosse  órfã de pai. A teoria de  Juveninho é a seguinte: alguém disse à  moça  que “Deus é pai”, e ela acreditou.  Só acha, Juveninho, que, como pai,  Deus não devia cobrar dízimo, e sim pagar  mesada. Se Deus pagasse  mesada, Juveninho seria o maior evangélico de todos os  tempos. A cada  vez que o pastor gritasse “amém, igreja!”, ele gritaria “amém!”  mais  alto que a igreja inteira e o Pavarotti juntos.</p>
<p>É de opinião,  Juveninho, que as órfãs estão muito mal assessoradas  neste mundo. Outro dia, no  calçadão, a menininha da flauta estava  tocando “Aquarela”, do Toquinho e do  Vinícius. Ela, que sempre tocava  “O mundo é um moinho”, do Cartola. Bossa nova,  pensou Juveninho, deve  render mais esmola que samba. Então Juveninho chegou  perto dela e  gritou: “Sua vendida!”. A menina quase engoliu a flauta. Aquilo   sensibilizou Juveninho, que logo pediu desculpa. Notou que estava  descontando  nela a raiva da outra. Deixou cinqüenta centavos. Nunca  pagou tão caro por uma  bossa nova.</p>
<p>Para Juveninho, toda moça cujo pai não lhe dá bola deveria  ir atrás  do pai. Como nas novelas. E perdoá-lo. As moças, diz Juveninho, vêem   novela e não aprendem nada. É preciso, segundo ele, sentar o pai numa  cadeira e  obrigá-lo a saber o básico sobre sua vida: estudo, trabalho,  idade, esporte,  rotina, viagens e namorado - este, sem maiores  detalhes, sobretudo se o namorado  for Juveninho. Outro dia, Juveninho  soube que vai abrir uma Eclectic no Centro  com segundo andar só de  terninho. É o tipo do anseio que um pai precisa ouvir de  sua filha:  “Pai, finalmente vai abrir uma Eclectic no Centro, e você não sabe da   maior: com segundo andar só de terninho!”. O mundo seria melhor se os  pais  soubessem do segundo andar só de terninho. Juveninho, contudo, não  gosta de  mulher de terno.</p>
<p>Há três tipos básicos, ensina Juveninho, de órfãs de  pai: uma - a  mais comum - só quer colo e atenção; outra só quer louvar ao  Senhor;  outra só quer tocar bossa nova. Juveninho não desiste de nenhuma. Manda   todas procurarem pelo pai verdadeiro e, na falta de um, escolherem um  senhor de  idade para falar sobre terninhos. A curto prazo, porém,  Juveninho admite ter  mais chances com a menininha da flauta. Domingo  que vem, vai andar pelo calçadão  de novo. Dizem as más línguas que ele  já decorou a letra de “Aquarela”.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e a religião [proposta de comercial]</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Segunda-Feira, 5 de Marco de 2007, às  			13:26</strong></font></p>
<p><strong>Residência de americanos, EUA – INT./NOITE</strong><br />
Juveninho/  Namorada americana/ Irmã caçula da namorada/ Irmão mais velho da namorada com  sua esposa/ Casal de futuros sogros</p>
<p><em>À mesa de jantar, antes de  começarem a comer.</em></p>
<p>SOGRO (<em>em inglês</em>): Então, Juveninho,  você pode puxar a reza?</p>
<p>NAMORADA (<em>em inglês</em>): Pai, ele é  tímido…</p>
<p>SOGRA (<em>em inglês</em>): Deixe o menino em paz, meu amor.  (<em>Cochichando</em>) A gente nem sabe se existe esse hábito no país dele.</p>
<p>IRMÃO (<em>em inglês</em>): Claro que existe, mãe! O Brasil é um país  muito religioso. Deu pra ver na nossa lua-de-mel, não foi, amor?</p>
<p><em>A  esposa do irmão coloca as mãos ao alto, educadamente, como quem prefere não se  meter na discussão.</em></p>
<p>SOGRO (<em>em inglês, amenizando</em>): Ele  pode rezar em português, caso se sinta mais �  vontade.</p>
<p>IRMÃ CAÇULA  (<em>em inglês</em>): Oba! Português!</p>
<p>NAMORADA (<em>em inglês</em>): Meu  amor, você não precisa…</p>
<p>JUVENINHO (<em>interrompendo, gentil</em>):  Ok, ok.</p>
<p><em>Todos se dão as mãos e fecham os olhos.</em></p>
<p>JUVENINHO (<em>em português, sério e comovido, em ritmo de Pai  Nosso</em>):  Uma vez Flamengo, sempre Flamengo, Flamengo sempre eu hei de ser…  É o  meu maior prazer, vê-lo brilhar, seja na terra, seja no mar… Vencer,   vencer, vencer… Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer. Amém.</p>
<p>TODOS  (<em>em inglês</em>): Amém.</p>
<p><em>Tela rubro-negra com os dizeres:</em></p>
<p>VOZ EM OFF: “Flamengo: muito mais que um clube, uma religião.”</p>
<p><em>À mesa de jantar, todos soltam carinhosamente as mãos.<br />
</em><br />
SOGRO (<em>em inglês</em>): Preciso aprender essa.</p>
<p><em>A  namorada, orgulhosa, passa a mão nos ombros de Juveninho.</em></p>
<p class="MsoNormal"><em>Todos começam  a comer.</em></p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p class="MsoNormal"><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e o carnaval</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 28 de Fevereiro de 2007, às  			13:28</strong></font></p>
<p>Juveninho não quer falar de carnaval. Passou, passou. Morreu. Puf, como diria o  Jack, de <em>Sideways</em>. Juveninho adora <em>Sideways</em>.  Queria entender  de alguma coisa tanto quanto o Miles de vinho.  Mulheres gostam de especialistas,  ele diz. Não importa o assunto, é o  eterno fetiche pelo professor. Se você souber ensinar a uma mulher tudo  sobre a marcha dos pingüins, está  feito. É só não desmunhecar.</p>
<p>Juveninho não quer falar de carnaval, mas  dele tirou uma importante  conclusão: a vida já é muito difícil; logo, a mulher  tem que ser fácil.  Depois de uma certa idade - ele ensina às amigas - o homem  inteligente  e trabalhador não tem mais forças para gastar com a conquista, não  tem  mais tempo para colocar os desafios no lugar errado. A mulher difícil,   portanto, perde bons partidos por pura vaidade. Ao que as amigas  desconfiam:  Juveninho passou o carnaval na lisura.</p>
<p>Há, contudo, quem diga ter visto  Juveninho com uma ruiva no Me  Esquece; há quem diga ter visto Juveninho com uma  loira no Céu na  Terra; há quem diga ter visto Juveninho com uma mulata no  Boitatá.  Sobre a ruiva, ele não quer falar. Puf. Sobre a loira, ele não quer   falar. Puf. Sobre a mulata, se insistirem, ele fala. Juveninho não é de  fazer  doce, só não gosta que lhe perguntem e não ouçam a resposta. Como  sua mãe: “Vai à  praia, meu filho?” “Não.” “Passa protetor, hein”.  Então primeiro se assegura  da atenção dos interlocutores. Todos aí?  Ótimo.</p>
<p>Não era mulata. Era  crioula. Assim se disse. E não foi no Boitatá;  Juveninho a conheceu no Bola  Preta. Usava a camisa “Sou bola”, mas era  magra. E usava uma espécie de biquíni  jeans. Disse que morava no posto  seis, em Copacabana, de modo que Juveninho  ficou na dúvida se ela  morava ou fazia ponto. Até que a multidão prensou os dois  sobre um  tapume da Rio Branco, e o abraço involuntário se tornou um beijo   voluntário e suculento. Por sorte, algumas moças do Coqueirão passavam  por ali  na hora e viram o que Juveninho chama de amostra grátis da  miscigenação  carnavalesca. É bom que elas saibam: Juveninho gosta da  cousa quente.</p>
<p>Mas e aí, perguntam os amigos, já ligou? Ele apenas sorri. (Ok,   Juveninho gosta de um doce.) Afinal, não pode adiantar capítulos de <em>A  repugnância pós-cópula pela fêmea não amada</em>.  Todo especialista deve usar  seus conhecimentos para fins específicos.  Ter objetivos, ele diz. Com as  mulheres, a cama. Com os homens, vender  livros. Quem faz as coisas só para  aparecer, segundo ele, é viado  enrustido. Juveninho conhece vários. São  ciumentos, vítimas do mundo,  reclamam sua atenção, acham que tudo que é seu é  deles também.  Juveninho os trata com a devida indiferença, “a essência da   desumanidade”, como aprendeu com Shaw, porque ser desumano é  fundamental, ainda mais no carnaval.</p>
<p>Só espera que eles não o sigam por aí.  Juveninho acaba de sair para o  posto seis e, naquela dúvida, levou um  dinheirinho a mais.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e Rocky Balboa</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quinta-Feira, 15 de Fevereiro de 2007, às  			13:29</strong></font></p>
<p>Juveninho foi ao cinema sozinho, porque sabia que ia chorar do  início ao fim. E  não pega bem chorar do início ao fim em filme do  Stallone. Mas Juveninho chorou  do início ao fim. Sorte dele que ninguém  viu. Ao término do trailer, já tinha  comido a pipoca toda, o que  facilitou um pouco o choro. Pipoca e lágrima não  combinam muito, ele  diz. A não ser que a pipoca seja doce.</p>
<p>De antemão,  Juveninho sentiu falta de Thalia Shire, que só aparece  em imagens de arquivo. Há  quem diga que Thalia Shire nunca fez nada de  importante além de <em>Rocky</em> e  <em>O poderoso chefão</em>. Gente idiota. Para Juveninho, quem fez  <em>Rocky</em> e <em>O poderoso chefão</em>  não precisa fazer mais nada na vida.  Ação de graças, presente de  Natal, cartão de aniversário, churrasco para os  sogros – nada. Nem  ameaçar pagar a conta no primeiro encontro. Quando alguém se  julga  muito importante, Juveninho pergunta: você fez <em>Rocky </em>e <em>O  poderoso chefão</em>? Ah, então cala a boca.</p>
<p>Agora, o filho do Rocky não  lida muito bem com o peso de ser filho  do Rocky. Esse negócio de ser filho de  estrela, crê Juveninho, pode ter  duas conseqüências ruins: a primeira, o sujeito  culpar o genitor por  não conseguir nada por si só (como no filme); a segunda, o  sujeito  achar que é o próprio genitor, a própria estrela. Em ambos os casos,   vive-se à  sombra do dito-cujo, numa eterna insegurança disfarçada.  Sabendo-se  uma futura estrela, Juveninho já sabe o que fazer com seus  filhos. Se forem do  primeiro caso, vai decorar o discurso impecável de  Rocky Balboa. (Para isso  existem dvd e YouTube, ele diz. Para decorar  as falas boas.) Se forem do segundo,  perguntará: ô moleque, você fez <em>Rocky</em> e <em>O poderoso chefão</em>?  Ah…</p>
<p>As tartarugas do Rocky podem tirar onda; seus filhos, não. Dizem  que  tartarugas vivem muito tempo, de modo que Juveninho ficou pensando se   aquelas eram as mesmas do primeiro filme. Aquelas para as quais Rocky  disse,  machucado: “Isso tudo é culpa de vocês. Se dançassem e  cantassem, eu não estaria  lutando”. Algo assim. Juveninho esqueceu  todas as frases decoradas dos filmes  anteriores - com exceção de  “Adrian! Adrian! Adrian!” - depois da naticélebre  frase do último,  quando Rocky aponta o próprio peito e justifica ao velho Paulie  seu  retorno ao ringue: “There are some things in the basement”. Não há mais o   que explicar, não é? Há algumas coisas no porão. Simples. Preciso.  Multiuso.  Rocky. Agora, quando vai à  praia segunda-feira, Juveninho  repete: “There are  some things in the basement”.</p>
<p>Tudo que se faz de “errado” na vida, pensa  Juveninho, também se  acumula no porão. A diferença está entre os que deixam tudo  lá e os que  fazem daquilo alguma coisa. De modo que se revolta, Juveninho,  quando  alguém critica Stallone por sua carreira desastrosa. Ele fez  <em>Rocky</em>. Escreveu, atuou e dirigiu. É como o Clint Eastwood: melhor  passar 180 anos fazendo porcarias de caubói para um dia dirigir <em>Sobre  meninos e lobos</em> e <em>Menina de ouro</em>  do que ser sempre eficiente, como a Meryl Streep, e não ter uma  obra-prima. É o que pensa Juveninho sobre suas experiências amorosas:  delas  sairá o best-seller <em>A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada</em>. Cada  um com seu porão, ele diz. E que não venham encher o dele.</p>
<p>Ao sair do  cinema, meio emocionado, meio triste com o fim de <em>Rocky</em>, Juveninho  atinou que, no porão de Stallone, ainda tem material para <em>Rambo IV</em>. Por  sorte, pensou ele, Stallone não fez <em>O poderoso chefão</em>.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e as moças do Coqueirão</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Terca-Feira, 6 de Fevereiro de 2007, às  			13:30</strong></font></p>
<p>Juveninho, depois de anos (mentira, meses), conseguiu ir à  praia  numa  segunda-feira. Não estava mesmo dando certo esse negócio de  malhar, jogar bola,  foder e trabalhar – o corpo tem limites -, de modo  que Juveninho cortou o  trabalho. Nessa vida, ele diz, é preciso saber  renunciar. Agora, as moças do  Coqueirão não lhe saem da cabeça. São  elas a maior prova de que é possível ser  linda e tatuada ao mesmo  tempo.</p>
<p>Qual será o nome daquela de nádegas  enxutas e canga amarela com  bolinha rosa? Onde terá se machucado a loirinha que  manca com  esparadrapo no dedão? Como ela ousa não lhe apresentar sua amiga   morena, tão morenamente graciosa que Juveninho nem sequer dela guardou  outra  identificação senão sua morenice? Onde morará aquela, quase  mulata, de biquíni  florido, que se contorce toda para dar de chilena na  altinha? (E, aliás: falará  ela “altinha” ou “altinho”? “Adedanha” ou  “adedonha”? “Altinho”, crê Juveninho,  é da mesma família de “adedonha”.  Ser-lhe-ia, portanto, um alívio se ela falasse  “altinha”.)</p>
<p>Há qualquer coisa na praia de segunda-feira que deixa as  moças mais  lindas que o normal. Talvez porque neste dia, mais do que nunca, ir à    praia é uma forma de indiferença - de protesto, quiçá. Dane-se o mundo.  Vivam as cadeiras, as barracas,  os esparadrapos nos dedões. Nossas  escolhas, reflete Juveninho, muitas vezes são  também formas de  protesto. “Pequena Miss Sunshine”, por exemplo, ele torce para  que  ganhe o Oscar, simplesmente porque se trata de um filme genialmente  simples.  Admira, Juveninho, a simplicidade, o minimalismo na arte, o  tudo dito com tão  pouco, ao contrário dos excessos estéticos de sempre.  Mas adorou “Os  infiltrados” (ah, lembra ele, a cena do silêncio ao  telefone: que aula de  roteiro!).</p>
<p>Talvez, de fato, as escolhas feitas mais como forma de  protesto do  que por gosto pessoal não se sustentem por muito tempo. Sabe essas   moças que namoram um dinamarquês? Não um dinamarquês qualquer, estamos  falando  de um dinamarquês que mora na Dinamarca. Sabe? Juveninho não  tem dúvidas: elas  não escolheram – protestaram. É como se dissessem  assim: “Estão vendo, pobres e  infelizes compatriotas? Vocês, com suas  peles bronzeadas, disponibilidades  integrais e ingressos do Maracanã,  não são suficientes para mim. Meu ideal está  em outro planeta. Passem  bem”. Não adianta, diz Juveninho aos amigos: é o preço  que a gente paga  por ser concreto demais, humano demais, real demais para elas.  Ao que  os amigos suspeitam: Juveninho foi trocado por um dinamarquês.</p>
<p>Não tendo jamais se apaixonado por gringa alguma, Juveninho – sempre   honesto com os sentimentos alheios – só as utiliza como pesquisa de  campo para  seu primeiro romance: <em>A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada</em>.   Pesquisa na qual pretende incluir as moças do Coqueirão. Para não  correr  riscos de interromper precocemente sua obra, já até decidiu:  deixará a morena por  último.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Juveninho e as moças do seu tempo</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por Felipe Moura Brasil (Pim)</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Segunda-Feira, 22 de Janeiro de 2007, às  			13:32</strong></font></p>
<p>Juveninho cresceu - e já há quem o chame de Juvenal. (Mentira.  Não há. Mas  Juveninho cresceu.) Seu maior aprendizado depois de grande:  a arte de dizer não.  Hoje, nas calçadas, recusa todos os panfletos.  Quem os aceita, crê  Juveninho, ainda não faz certas coisas de adulto. A  menos que os panfletos sejam  de prédio novo no Recreio, claro. Ele não  diz por quê, mas os amigos suspeitam  de uma tara secreta pelas moças  do sinal. Certa vez, na Lagoa-Barra, uma delas o reconheceu.</p>
<p>Não se diz, Juveninho, nem romântico, nem cafajeste.  Acredita,  aliás, que todos os cafajestes são românticos. E que todos os   românticos são broxas. Nunca confiou em quem se diz alguma coisa, mas,  se  tivesse que escolher, dizer-se-ia cafajeste. Sabe que é dos  cafajestes que as  moças gostam: Vinícius de Moraes, Chico Buarque, essa  turma. Está seguro,  Juveninho, de que não há palavras mais cafajestes  que “A beleza que vem da  tristeza de se saber mulher/Feita apenas para  amar/Para viver pelo seu amor/E  para ser só perdão”. O sonho de  Juveninho: convidar uma moça do seu tempo  para “ser só perdão”.</p>
<p>Não para isso, adiciona as fotogênicas do orkut no  messenger. Puxa  assunto com todas ao mesmo tempo. Diverte-se. Pensa, Juveninho,  que a  pior coisa que pode acontecer à  personalidade de uma mulher é ser   fotogênica. Quer ter três filhas. Sua maior torcida: que, nas fotos,  todas saiam  com cara de bunda. Se depender dele, dizem os amigos, o  sucesso está garantido.  Sucesso não é importante, responde Juveninho,  evasivo. Reencontrou, no cinema, uma dessas amigas de  adolescência, mais atraentes que talentosas, das  quais se ouvem falar  pelos jornais depois de anos. Seu maior arrependimento: ter  dito  “parabéns pelo sucesso”. Se fosse para parabenizar alguém pelo gosto dos   outros, debate-se ele, era melhor aplaudir o inventor das passas.  Juveninho  odeia passas.</p>
<p>A maior mentira da humanidade, segundo Juveninho, é o  “tudo bem”.  Ninguém está com “tudo” bem, ele diz. No mínimo, o papagaio está   doente. Quando alguém lhe pergunta se está “tudo bem”, Juveninho  responde,  enfático: “Estou bem”. Mas admira a sinceridade muda dos que  se perguntam sem se  responderem: “Tudo bem?”, “tudo bem?”, e vida que  segue. Para mendigos e  flanelinhas, contudo, Juveninho diz “Tenho não”,  mesmo quando tem sim. No fundo,  acha, Juveninho, que algumas mentiras  são fundamentais para a civilização - mas  só as que ele utiliza - e que  algumas perguntas não merecem respostas - lista da  qual exclui  convites para se tomar um sorvete, sobretudo se de flocos.</p>
<p class="MsoNormal">Do amor, Juveninho não espera mais do que carinho, conforto e  segurança.  (Mentira. Espera. Mas gosta de carinho, conforto e  segurança.) É sensível,  Juveninho, à  mulher higiênica – aquela que  limpa o vaso antes de utilizá-lo – e à  mulher solidária – aquela que  limpa depois. Na cama: mais à  segunda do que à   primeira. A  experiência já o permite reconhecê-las sem a necessidade de   acompanhá-las ao toalete. É de opinião, Juveninho, que quanto mais em  bando se  anda, menos em cama se mexe. (O que serve para ambos os sexos,  ele avisa, embora  o masculino não lhe interesse.) Seu lugar favorito  para fazer amor: o quarto da  empregada. Não necessariamente com a  empregada. Juveninho não limita seu  público, e só tem, na verdade, duas  considerações a fazer. A primeira: que seja  mulher. E a segunda: que  não o chame de “Ju”.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Carta ao pai</title>
		<link>http://www.tribuneiros.com/2010/07/28/carta-ao-pai/</link>
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		<pubDate>Wed, 28 Jul 2010 19:10:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>C.A.</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Coluna da direita]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Texto publicado no livro </em>Contra a juventude - As melhores crônicas tribuneiras<em>. </em></p>
<p>*******</p>
<p>Meu pai,</p>
<p>Não me lembro da última pergunta que me fizeste ou sequer se me fizeste uma, a última – mas teria eu agora tantas a te fazer. (Faltou-nos tempo, não é mesmo)?</p>
<p>Outro dia, não faz muito, sonhei contigo, sei que era contigo, embora de tua face não me acorde para além do que fixou a fotografia. (A tua face é um porta-retrato e um meio-sorriso de camisa amarela). (Tu parecias contente). O teu rosto, pai, o teu rosto é isto – francamente: verbos pretéritos de força ida. (E tu tanto poderias, querias, terias – não é)? O teu rosto, pai, ele já não se move para mim ou por mim ou de mim – não tem expressão de hoje ou de futuro e nem que só de dor, de perda, de sofrimento: a dor foi nossa e tu não estiveste lá. (Tu foste a dor, a perda, o sofrimento: tu). O teu rosto, pai, ele é todo o meu passado.</p>
<p>(A tua partida, eu nunca a tive até bem pouco atrás, ela, a tua partida, ela é uma foto de jornal: e como pôde um carro ter se transformado naquela bolinha de ferros contorcidos, pai)?</p>
<p>Durante muito tempo, por anos e anos, vi homens na rua e eram tu – eram tu, pai, todos. Se tinham o que presumia ser a tua altura, os teus cabelos, as tuas roupas – eram tu, todos. Tu terias então nos deixado, fugido, tu nos teria largado, de repente feito uma plástica de mudar o corpo – e me cruzavas o caminho, no rumo da academia ou do trabalho ou duma nova família, e me cruzavas o caminho ali sem me reconheceres, sem comigo falares, sem perguntares da escola, do futebol, da mamãe&#8230; (E bastaria comigo falares, e bastaria me acenares – e eu te perdoaria, pai, eu te aceitaria de volta, com certeza, mas não, não, não, nada). (Seria melhor que tu tivesses partido e só, tudo bem, mas que te soubéssemos entre nós, de vista possível, longe, tudo bem, mas perto porque de tocar, de ouvir, gritar, odiar – seria melhor). (Mas não).</p>
<p>Mamãe me diz, pai, ela me diz que eu era louco por ti. Tens idéia do que é isso, pai? Tens idéia do que seja alguém te dizer por quem tu és ou foste louco? (E eu não deveria saber – não deveria sentir)? Segundo a mamãe: eu era louco por ti, pai – e há algo de errado nisso, sim, de muito errado, há algo de desumano neste “segundo a mamãe”. Não era pra ser assim. (E eu queria te amar sem intermediários – eu juro, pai). Mas eu não me lembro, não consigo, eu não sei&#8230; (Eu falho, não é)? Ela diz também que tu eras louco por mim – ela diz. Eu acredito. Eu sinto, pai. Eu tive pai! Eu sei! Não é? Eu tive, não é? Eu tive pai, certo? É curioso, já foi insuportável: não me restabeleço do que sentia por ti e no entanto sinto – sei – que tu me foste pai e que me abraçaste e que me amaste. Terei eu te amado, pai? Terei sido bom filho, carinhoso, presente? (Faltou-nos tempo, não é mesmo)?</p>
<p>Ouvi de longe, meses atrás, uma conversa de pai e filho. (E eu era tão feliz naquele dia). Eles conversavam sobre o mar, sobre velejar – a paixão comum de ambos, pai e filho. (Fascinante)! É notável como me interessa hoje o diálogo de pai e filho – e a cada dia mais. Eu descubro o que nunca tive e é todo um mundo novo e um mundo que me exclui e atrai, que me afasta e recoloca, que me perturba e ordena, que me desmonta e constrói. É fascinante e são mais e mais questões&#8230; Nós? E nós, eu e você, pai, nós tivemos uma paixão em comum? Nós teríamos? Teríamos? E conversaríamos a respeito? Qual seria o vento nosso - a nossa vela, pai?</p>
<p>Os meus gostos, os meus desgostos, se não nasceram do vago, se foram influenciados por gentes e experiências, eles certamente não vieram de ti, não foram aprendidos, medidos ou desmedidos contigo – e para que servirá o sangue em comum se não me lembro de um tombo, de uma ferida, de um chute na bola de quebrar o vidro, de um segredo de moleque ao teu lado? Tenho cá no joelho mais rachaduras que pele – e onde estiveste quando me rompi das fibras e chorei o desespero agudo da carne descasada? (Eu me virei, pai – eu me viro, como se diz, ajeito-me). Tu eras Portela e eu sou Império. Tu eras Botafogo e eu sou Flamengo. Tu eras água e eu, uísque. Tu eras brisa e eu, brasa. Tu eras ponderado e eu, imediato. E onde estás agora que não te posso encarnar, desafiar, escutar, superar, que não te posso agradecer pelo que sou e pelo que me deste, os irmãos meus sobretudo – onde, onde? Tu partiste e naquele mesmo ano, faz dezessete, naquele mesmo ano, logo depois, que ironia, o Botafogo quebraria o jejum de 21 anos sem títulos – e tu não estavas lá, no Maracanã alvinegro. Eu estava, pai. E terei então pensado em ti? O Flamengo derrotado e terei eu pensado em ti? Terei dedicado a vitória – que era derrota minha – a ti? Terei?</p>
<p>(Pai, quero te contar: eu sei amar).</p>
<p>Sabes, pai, esta carta é uma ironia e não só porque tu jamais a lerás, mas porque eu escrevo e ganho a vida assim – a escrever. E tu nunca me leste. (Faltou-nos tempo, não é mesmo)?</p>
<p>Sinto saudades e estou bem,</p>
<p>Carlos</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Carta ao filho</title>
		<link>http://www.tribuneiros.com/2010/07/27/carta-ao-filho/</link>
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		<pubDate>Tue, 27 Jul 2010 19:13:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe Moura Brasil (Pim)</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Coluna da direita]]></category>

		<category><![CDATA[carta ao filho]]></category>

		<category><![CDATA[conselho]]></category>

		<category><![CDATA[conto]]></category>

		<category><![CDATA[crônica]]></category>

		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Texto publicado no livro </em>Contra a juventude - As melhores crônicas tribuneiras<em>. </em></p>
<p>******</p>
<p>Meu filho,</p>
<p>Se me lês agora é porque hoje te vi chorando e não soube o que fazer. Pensei em sentar ao teu lado, ensinar qualquer coisa sobre o sofrimento, mas todo didatismo servido como analgésico me soa prepotente. Pensei em dizer que a vida é assim mesmo, que também já passei por isso, mas não quis desmerecer tua dor. Pensei em contar uma piada, aquela do velho careca que, para não ficar com a cabeça vermelha, passa protetor na sola do pé e anda plantando bananeira, mas esqueci o final: por que mesmo ele não passa protetor na careca?</p>
<p>Há momentos em que todos os sambas fazem sentido e a vida não, meu filho. Na verdade, é geralmente assim, mas só nos momentos de angústia a gente se dá conta. Dói aprender que nem tudo se resolve no diálogo, que nem todos querem resolver, que nem sempre vale a pena insistir. Segundo Oliver Stone, por mais brilhante que seja o De Niro, ele não pode fazer um personagem caloroso, porque um ator não consegue trabalhar com características que não tem. Atores, como vejo por aí, desprovidos de docilidade tampouco conseguem disfarçar em cena sua arrogância, e a papéis arrogantes acabam sempre condenados. É preciso ter um mínimo para trabalhar em cima, de modo que, tanto na arte quando na vida, será perda de tempo esperar que alguém demonstre o que desconhece.</p>
<p>Se esperas pudor da mulher que troca de roupa com a janela aberta, estarás perdido. Se esperas acolhimento de quem te pergunta e não ouve a resposta, ficarás solitário. Se esperas bom senso do chefe que não acompanha o rendimento dos funcionários, nunca serás promovido. Só quem pode evitar a decepção é o decepcionado, meu filho, e nada é mais sofrido e laborioso do que cuidar para que ela não aconteça. Teu chefe um dia te pegará em flagrante, de pernas para o alto, bocejando, e não importará que estejas a curtir apenas cinco minutos de descanso após uma semana insone em função do trabalho, porque ele não sabe disso e automaticamente te crerá vagabundo. De nada valerá tampouco relevar os erros dos colegas se, ao menor sinal de erro teu, o mundo cair. E cairá, porque o mundo de hoje é o das cobranças e, como o ar frio - tu bem aprendeste na escola -, elas são pesadas e descem.</p>
<p>Sim, o marketing pessoal virou um mal necessário, quiçá medida profilática, e não dar satisfações em tempo real em breve há de virar crime, mas isto não quer dizer que vamos falar da gente para todo mundo. Até porque, meu filho, poucos realmente se interessam pelo teu bem-estar. A maioria, na verdade, só se aproxima para medir como está em relação a tuas conquistas, se precisa fazer mais por si mesmo ou se vai bem assim, no conforto do rebanho. São todos mestres em rotina comparada. Desaparece e verás que se enciúmam do que possas obter alhures, fazem perguntas como quem não quer nada aos teus amigos mais próximos, temem que retornes da tua pasárgada com um emprego de luxo, corpo malhado e mulheres gostosas. Todo grande grupo amical é um atraso de vida para quem dele não sabe prescindir.</p>
<p>E não raro terás que dele prescindir se quiseres amar uma mulher. Vejo no teu choro o quanto já amaste, e cá se me desgarram uma ponta de orgulho, porque só tem amor para dar quem um dia já foi amado e estou certo de que te amei como pude, e algum arrependimento, porque talvez tenha sido demais e daí teu pranto a cobrar dos outros o impossível. Pouco terei a acrescentar sobre isso, a não ser que nós homens sempre nos apaixonamos por versões da mesma mulher - e temo ainda haver muitas a conheceres. Difícil é saber qual delas é a original, porque pode parecer estranho, meu filho, mas, na maioria das vezes, não é a primeira. Vais desejar uma inquieta enquanto a labuta não te toma a vida, uma acolhedora quando precisares de força para encarar o dia-a-dia, e assim tuas necessidades talvez mudem de acordo com tua disponibilidade e teu sucesso, conquanto jamais venha a ser fácil enganar o padrão de teus encantos. O que podes fazer é enganar a dor deixada por elas – o auto-engano é fundamental -, e isto se faz com trabalho. Felizmente ainda não inventaram o bolsa-sofrimento para dar férias remuneradas a nossas lágrimas de amor.</p>
<p>Há, contudo, quem, no exagero do auto-engano, esquece a reflexão, como se refletir e trabalhar fossem grandezas incompatíveis, e só lá pelos sessenta anos, com sorte, percebe ter uma coleção de ex-amores como ursinhos de pelúcia e apenas o trabalho como real companheiro. Talvez já tenhas feito carinho no rosto de uma mulher adormecida em teu colo, no banco de trás de um táxi qualquer, pensando no quanto a amavas, em quanto tempo poderias acariciá-la, ela ali descansando de si mesma, sem saber que as maiores provas de amor se dão em silêncio, e, no fim, o carinho tenha sido em vão. Não quero tirar conclusões em teu lugar, meu filho, muito menos te quero igual a mim, por isso guardarei esta carta escrita não sei quantos anos antes do teu nascimento, e não sei quanto tempo antes que tua mãe se saiba minha, para algum momento oportuno.</p>
<p>Hoje te imaginei tão vivo, chorando tua juventude, que quase tirei o xadrez do armário para te dar umas aulinhas. Não sabes o quanto é difícil arranjar quem aprenda com prazer as coisas que a gente inexplicavelmente gosta de ensinar. Perdoa-me, aliás, se acabei sendo didático, dizendo que a vida é assim mesmo e contando piada. Espero um dia saber te ouvir.</p>
<p>Antes de tudo,</p>
<p>Teu pai</p>
<p>Ah! Lembrei por que o velho passou protetor na sola do pé e não na careca: porque o protetor é solar&#8230;</p>
<p>*****</p>
<p><em>LEIA TAMBÉM: </em><a href="http://www.tribuneiros.com/2010/08/05/amigos-cinco-minutos/" target="_blank"><strong>Amigos, cinco minutos</strong></a><em>.</em></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Memórias inventadas [coletânea]</title>
		<link>http://www.tribuneiros.com/2010/07/26/memorias-inventadas-coletanea/</link>
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		<pubDate>Mon, 26 Jul 2010 03:14:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>C.A.</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Coluna da direita]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Textos originalmente publicados no site </em><a href="http://www.tribuneiros.com"><strong>Tribuneiros.com</strong></a><em> em maio e abril de 2009. </em></p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Memórias inventadas [I]</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por C.A.</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às  			15:42</strong></font></p>
<p>Desde bem cedo, criança ainda, eu invejei a juventude. Não o  jovem; a juventude. E talvez que minha primeira consciência tenha sido a  de que em mim, menos que um senhor precoce, adolescia uma sólida  calmaria, um desfuror concreto – a quietude de uma poça esquecida pela  maré que baixou. (E não interessa que haja um ciclo poderoso, que as  águas subam, que as águas se refaçam, que rebanhem a rocha, que se lhe  rebatam contra, porque será sempre a mesma poça, o mesmo acúmulo, ao  mesmo nível – milagrosamente, superficialmente como se me deleita de  fato observar).</p>
<p>Então: fui jovem [criança, adolescente etc.], no que concerne à idade  e às aparências do corpo, mas jamais vivi, real ou idealmente, a  juventude – um mistério pra mim, seja como for. E no entanto havia os  meus amigos, não muitos, mas amigos, cujo conjunto, aos meus olhos,  representava a juventude toda, a inveja toda, eles que corriam,  vigorosos, energéticos, gastadores de excessos infinitos, enquanto eu  fazia correr a bola; e eles me diziam elegante, econômico, como o  Sócrates, o que cadencia, diziam, o que dita o ritmo do jogo, o que  compreende o esporte, e eu simulava aceitar a fama [o rótulo] de jogador  cerebral [de resto justo] para assim afastar-esconder-camuflar,  mover-remover para longe em mim, cerrar no calabouço meu, no inatingível  do que só eu sabia-sentia, a certeza [inquestionável] de que, sem haver  opção, outro eu não poderia ser – e era esta a minha compreensão do  jogo, do esporte: eles eram a juventude, eram o que eu gostaria de ser,  eu os invejava, e a mim bastava, era-me urgente, desenvolver [e renovar]  meios d`entre eles restar [ser confundido, quiçá aceito]; e eu sempre  desconfiei que, cedo ou tarde, a despeito de tanto parecermos, crianças  afinal, apesar de termos a mesma forma de jovens obtusos e  desconjuntados, cedo ou tarde, eu desconfiava, desmascarar-me-iam. (Acho  que este temor, mais ou menos iminente, nunca me deixou).</p>
<p>E isto escrevo hoje, decerto que fantasiando-dramatizando, decerto  que buscando refletir, em termos da experiência. À época, porém, feto  ainda, a minha noção, nem um pouco literária, era dura e sofrida, seca,  árida, verbalmente impossível, e eu apenas entendia-experimentava, mudo,  a oposição absoluta; o envelhecimento, em nada físico [e seria tão  melhor], de, não me sentindo particularmente cansado ou preguiçoso,  julgar ao mesmo tempo estúpida e fascinante a curiosidade selvagem de  meus amigos, a disposição bruta, visceral, por arriscar, por correr  riscos, por descobrir, por morrer um milhão de vidas e renascer  cicatriz… E então havia as meninas, que entre nós selecionavam os heróis  ou, menos exigentes, os vivos. E nunca eu, portanto. Eu que nada tinha a  pôr em jogo, que nada tinha a escutar ou dar, que nada tinha senão a  preferência [depressiva, segundo os adultos] pelo silêncio e pela  solidão, os meus espaços; eu que nunca roubara abacates; eu que nunca  brigara a socos com alguém; eu que nunca deslocara a clavícula; eu que  preferia ejacular à noite, na cama, dormindo, talvez sonhando, a me  punhetar. Eu que era quieto.</p>
<p>********</p>
<p>Uma vez, a primeira, fui corajoso. (E não direi que foi também a  última porque, depois, com o tempo, o conceito de coragem esvaziou-se de  sentido em mim; e eu preferi conceber-me, com extrema antecedência e um  sem-número de restrições, de maneira a que um milhão de alternativas se  me oferecessem seguras antes de precisar d`algo como coragem).</p>
<p>Mas, enfim, fui corajoso.</p>
<p>Havia uma senhora, velhíssima, moradora à casa vizinha, que  repousava, quase-dormia, horas a fio, de tarde, sob a mangueira do  quintal; e o desafio, que me impus, decerto que tolo aos meus amigos [se  soubessem] consistia em lhe invadir o terreno, qual um ninja, e, sem  barulho, roubar ao menos uma fruta, uma manga, e partir sem rastro.</p>
<p>Durante meses, quase ano, fui traído-engessado, de maneira febril,  pelo medo, pelo pavor, e terei abortado a invasão cem vezes, senão mais.  (E acho que só me mantive acordado - vivo - porque me norteei pela  convicção de que todas aquelas falhas seriam esquecidas no instante,  único, em que, vencendo os limites do terreno alheio, eu  teria-construiria o meu).</p>
<p>Um dia, com efeito, aconteceu, perfeito, impecável - e fui  completamente feliz, porquanto experimentasse, aos nove anos, o sucesso,  o triunfo, a superação afinal, aquilo que me parecia [que deveria] ser a  sensação, senão diária, habitual de meus amigos, que sem dúvida já se  lançavam a perigos mortais, muito mais sofisticados [e secretos, pelo  menos a mim] que meu furto, eu sabia, mas o caso é que estava iniciado,  que algo de amarrado se rompera, que logo daria novos passos, e quiçá um  dia se lhes pudesse alcançar ou mesmo, com sorte, ameaçar, e eu teria  então encontrado utilidade, tensão produtiva, para a minha inveja, e  cheguei mesmo a desfrutar, antecipando o sabor, dum dia, futuro, em que a  juventude invejada seria a minha - e me deslumbrou a idéia de que havia  algo de juventude genuína, mais que na aventura, nos meus pensamentos.  (Afinal, residia em mim, ali, intimamente que fosse, alguma juventude -  e, diante daquela novidade, eu me sentia plenamente capaz).</p>
<p>Era uma quarta-feira, não me esqueço, e não passaria das 21h quando  minha mãe contou-me que a senhora vizinha falecera mais cedo naquele  dia, sentada à cadeira de balanço, enquanto repousava, como sempre, sob a  mangueira do jardim.</p>
<p>Ainda hoje, tantos anos depois, mas com a mesma intensidade de então,  pergunto-me - e acho que minha honra vaga nesta dúvida [neste limbo] -  se teria a senhora morrido antes ou depois de minha missão. (Ainda hoje,  tantos anos depois, mas com a mesma intensidade de então, pergunto-me -  e acho que a chama tísica de minha juventude se consumiu neste sopro de  morte - se teria a senhora morrido antes ou depois de minha missão).</p>
<p>Hoje me ocorre que, fosse eu menos dado à insegurança, fosse eu menos  sério, poderia imaginar que, tendo afinal fracassado, ao menos matara a  velha de susto. Mas não. Ela morrera antes, minha existência se  conformou assim - e assim também se conformariam a [minha] imaginação e o  [meu] humor não houvesse já em mim, em curso incipiente, a trama, a  tessitura, a concepcão de um discurso para uso exterior, a criação de  uma estratégia de permanência no mundo; a mesma que, fornecendo-me cotas  apoucadas, mas perenes, de simpatia [de graça, de sorte], pavimentou-me  um caminho, este que ora deságua nessas memórias.</p>
<p>E eis-me ainda: quieto, mas em movimento.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Memórias inventadas [II]</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por C.A.</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quinta-Feira, 2 de Abril de 2009, às  			16:35</strong></font></p>
<p>Brincar, em suma, sempre foi brincar sozinho. E falo de quando  não contava mais que cinco, seis anos. Havia o incômodo – a agonia,  admito; a inveja, reconheço – ante os que não só brincavam em grupo, mas  ainda se divertiam. (E eu precisava evitá-los ao máximo, portanto).  Porque eu até podia brincar com as outras crianças, com meus amigos mais  queridos, não raro brincava, mas sob esforço quase paralisante, gosto  impossível e urgência por me enquadrar – por caber [e sumir] ali.</p>
<p>Sozinho, contudo, eu criava exércitos, aliados e adversários, montava  cenários monumentais, promovia acordos de paz, que logo rompia em  traições e batalhas sangrentas, mas sem privilegiar lado algum, antes os  comandando sob profundo equilíbrio, representando, com consistentes  pormenores psicológicos, cérebros diferentes, inimigos mortais, entre os  quais me alternava com orgulhosa desfaçatez autoral.</p>
<p>Nesses momentos – ilusórios em certo sentido [uma vez que existia o  universo lá fora], mas plenamente reais para mim [já que existia também  aquele meu espaço, governado por mim] – não havia com o que me preocupar  e era natural que me considerasse resolvido. Aquele era o meu mundo, a  minha guerra, onde eu era feliz – e militarmente viável.</p>
<p>Por esta época, eu já sabia ler; aprendera sozinho, antes dos cinco,  estimulado por um meu exercício de associar sons e sílabas, e destas  desfiar as letras, uma a uma, medindo e desembaraçando as combinações,  até formar o alfabeto em recortes de jornal, como se preparasse os tipos  impressos, coloridos e variados, para uma daquelas cartas anônimas  [assustadoras] do melhor cinema americano de suspense.</p>
<p>Assim…</p>
<p>A um óbvio clichê para o jovem que fui – introvertido, segundo os  mais otimistas; depressivo, não raro autista, aos menos compreensivos –  eu me encaixei logo. Eu lia. Muito. Deixei progressivamente os exércitos  – os soldados – para ingressar, sem reserva, nas fileiras de palavras  escritas, às frases, e eis que me fiz em alguma artilharia.</p>
<p>Eu restava sozinho, em meu espaço mais caro, o do silêncio; havia uma  certa cobrança – talvez minha – por que me ocupasse [era minha a  cobrança, hoje sei], e então lia. De início, jornais e revistas  ilustradas. Depois, livros, sobretudo fábulas. (Mamãe – e acho que,  depois dela, ninguém mais – respeitava a leitura como uma ocupação  produtiva, que em algo resultava ou resultaria, e assim me protegia,  resguardava, sem chaves, aquela nação minha, que não extrapolava meu  quarto, contra as pujantes exigências, atléticas e impulsivas, solares,  do jovem mundo exterior; o meu quarto, no Rio de Janeiro, era a  Finlândia).</p>
<p>Curioso é que, de minhas primeiras leituras, muito pouco me lembro.  (Recordo-me, isto sim, da sensação, sensação de mundo, de inteireza,  completude; do prazer abstrato que tirei, imediatamente, da experiência  concreta, que ainda hoje perdura, do tato absoluto, do toque no livro,  que se abre e desenvolve, o objeto livro, do toque, do manuseio gentil,  logo compadre, ao papel, e de seu cheiro bom, de madeira afinal útil –  porque o leitor honesto não pode ser ecologicamente correto).</p>
<p>De minhas primeiras leituras, quais fossem, mamãe foi a memória – e,  se escrevo que delas muito pouco lembro, talvez simplifique  excessivamente, talvez esquematize em demasia as possibilidades [os  mistérios] da mente, incorrendo em negligência para com as  reminiscências afetivas, que, por que não?, transmitem-se no carinho, no  afago verbal; e talvez que este pouco de lembrança seminal minha seja  ainda a memória de mamãe, que sua generosidade fez crer minha; e minha  é. Como não? Como, se memória é patrimônio, dizer que não possa ser  também herança?</p>
<p>Gostava [nunca me cansava] de ouvi-la contar sobre os livros que eu  lera, sobre como me chegaram [então ao acaso], como despertavam [ou  formavam] o meu interesse – mas nada jamais superou os momentos em que,  em meio a essas sólidas lembranças de leitura e de livros, de títulos,  de ilustrações etc., ela contava, ainda que brevemente, ainda que de  passagem, ainda que pela milésima vez, sobre o meu fervor, sobre a  paixão que lia em meus olhos enquanto me guiavam pelas páginas… E isto  me foi – é – fundamental, decisivo, porque afinal montou [monta,  sustenta] a ponte para o leitor [eu] de que tenho recordação plena, não  mais herança, recordação de fato, fotográfica, nítida, e é assim que ora  vou me lembrar da relação candente, orgânica, que tive com os livros do  Nelson, os primeiros a que me remonto, quiçá porque escolhidos por mim,  comprados por comando e desejo meu, que devorava de maneira febril – os  livros de Nelson Rodrigues sobre futebol.</p>
<p>********</p>
<p>Eu já teria dez, onze anos, talvez doze; tinha meus gostos [e  desgostos, principalmente] definidos, o meu caráter singularmente  estabelecido – leitor, sobretudo leitor – mas me teria perdido completa e  eternamente, no que se refere ao mundo exterior [ao juízo público], não  fosse um gol, lindo, de cabeça, o gol da vitória, que marquei. Sem  querer.</p>
<p>Até então eu jogava futebol, obrigado pela educação física escolar,  como tomava partido em qualquer atividade coletiva: invisível, ao melhor  estilo zumbi, pretendendo apenas sobreviver. Era o último a ser  escolhido, sempre, e meus companheiros de time me recebiam como fardo – o  que verbalizavam em termos, “melhor seria se jogássemos com um a  menos”, que me traumatizariam se pelo esporte então eu cultivasse alguma  esperança, se pelo esporte eu tivesse alguma expectativa que não a do  apito final.</p>
<p>Quando jogávamos no campo grande, menos dilacerante [porque a  extensão da arena me mantinha mais distante da bola e por mais tempo],  escalavam-me à ponta, bem aberto, e eu, comprometido com a idéia [de me  ocultar], desaparecia como, em breve, desapareceriam todos os pontas – e  eu então estava, sem saber, na vanguarda tática, pioneiro na evolução  dinâmica do esporte, experimentando [quiçá contribuindo para], no  isolamento, a inutilidade que resultaria no fim absoluto da posição  outrora ocupada por Julio Cesar “Uri-Geller”.</p>
<p>Dramático – difícil mesmo – era quando o jogo se dava no salão. O  time se formava em quatro mais o goleiro, e não havia meios de me  esconder. A bola era onipresente, miúda ainda mais que a outra,  velocíssima, e, sem poder me mascarar, ainda me expunha. Eu, perdido,  rodando num terreno que era só desorientação, empenhava-me em dela me  livrar, da bola, mas a paz não durava um punhado de segundos, e logo ela  vinha, de novo e de novo, para o meu fracasso e do meu time, para o meu  ridículo obsessivo – até aquele dia redentor em que, diante da platéia  lotada de meninas, caminhando convicto para mais uma jornada de  humilhação, um tiro disparado contra a trave se veio replicar em minha  cabeça, e dali, fulminante, para o gol, para o gol!, no último instante,  o gol da vitória, casual e gloriosamente meu, que comemorei, correndo  sozinho e desprezando meus colegas, como um herói, como Zico, que ergue  as mãos aos céus não por se aproximar de deus, mas para se elevar a si…</p>
<p>Hoje posso escrever com clareza: eu me encontrava, à falta da ponta,  pouco entrado na área adversária, de onde vi, espectador privilegiado, o  chute violento ganhar forma e direção para, sonoro, agredir a trave e  vir em minha direção, não menos forte, e eu simplesmente fechei os  olhos, baixei pouco a cabeça e contraí o pescoço, parado absolutamente, e  então senti a bolada me acertar em cheio, bem à testa, repicando  poderosamente contra as redes inimigas, caminho cujo final, o arqueiro  vencido, o estufar das redes, de olhos bem abertos, pude ver – o meu  primeiro gol, e rever, para sempre, como agora.</p>
<p>Ali, porquanto também já me aplaudissem as meninas na arquibancada,  ali o futebol nasceu para mim; e ali, ao juízo do universo [talvez ao  meu mesmo], eu me salvei. Para o mundo. (Para o mundo, sim,  absolutamente dependurado, precário, mas salvo; mantendo aberta aquela  fresta última, aquela em que identifiquei a chance, menos falsa afinal,  de existir, digamos, socialmente; e pela qual se reduzia em mim, a quase  omitir-se, o temor por que me desmascarassem)… E também me lembro com  clareza: eu comemorava, aprofundava como um título aquele instante-gol  meu, o da vitória, e ao mesmo tempo, consciente, decidia que não só  aprenderia a jogar futebol, como o faria bem.</p>
<p>Não tardou e eu já era o Sócrates, o elegante, imprescindível, o que  cadenciava o jogo, o que fazia a bola correr – o que tinha ampla  compreensão do esporte, embora eu nada mais fizesse que sobreviver, que  existir, que me encaixar, já-quase dignamente, adaptando as minhas  limitações [inclusive as do aprendizado tardio], recriando-as em  qualidades, em consistência, simplesmente preenchendo os espaços não  ocupados pela juventude dos demais, que ainda invejava, e talvez mais  ainda. Eu era quieto, eu era leitor, e era um craque.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Memórias inventadas [III]</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por C.A.</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às  			11:28</strong></font></p>
<p>Faz pouco, na Itália, por ocasião de um lançamento, um crítico me  perguntou [estranhamente, porque jamais escrevera a respeito] sobre a  relação futebol x literatura em minha vida, em minha obra; e eu lhe  disse que, como jogador, acima de qualquer outro esmero da existência,  eu me dedicava à precisão, ao toque exato, à lapidação do fundamento, à  excelência técnica, à economia; a transformar em toque de primeira o que  aos demais valeria três ou quatro tratos – porque eu não podia errar,  porque eu, fisicamente, não teria outra chance, não teria como recuperar  a bola, e então deveria ser preciso e também rápido. (Eu sabia que não  era um craque; eu era simplesmente aquilo que, útil, os outros não eram,  e que não logravam reconhecer).</p>
<p>Todos os excessos, eu lhe disse, como meus livros comprovam  [comprovam?], eu os agitaria, mais tarde, por escrito, em meus textos,  os exageros, o vigor irrefletido, a prosa bruta, assomada, não raro  pesada [barroca], verbo em riste, amontoado, o vento forte das vírgulas,  esta respiração mal-asseada, de energia inesgotável e desprendida,  adjetivada e repetida, tão própria à juventude, adjetivada, empilhada,  infinita, repetida, nunca desperdiçada, sempre renovada; eu os exerceria  por escrito, os sobressaltos.</p>
<p>E assim cá se relacionam futebol e literatura: o primeiro, apenas  memória e passado, como eu fui e sou; a segunda, memória e tão-só  presente, quiçá futuro, urgente, como eu gostaria de ter sido e sou.</p>
<p>********</p>
<p><em>Nota pós-escrita:</em></p>
<p>O meu editor, a quem, contrafeito, mostrei alguns esboços dessas  memórias, se disse incomodado – “não digeriu muito bem” – à passagem,  talvez ligeira demais [simples demais, em termos de dotação literária],  em que o perna-de-pau, tipo ridículo em campo, autor de repente de um  tento redendor [de fato, “um episódio único”], à mesma pressa se torna  um craque, um Sócrates.</p>
<p>Bem, não terá sido tão rápido assim; e tampouco sem esforço. É  possível que eu não me lembre muito bem daquele período. (É mais  possível que eu não me lembre muito bem do tempo, contável-formal,  daquele período). Talvez fantasie, talvez exagere… Eu tinha pressa –  este é um valor absoluto: eu tinha muita pressa. Vislumbrei-me uma  chance, uma passagem de nível, um tempo, quiçá efêmero, de me consolidar  em algum talento, real, de juventude, e lhe mergulhei, imediata e  exaustivamente. Eu me preparei; edifiquei-me. Durante muitos meses,  treinei – fabriquei-me, racionalmente. Não creio que tenha então feito  outra coisa. Medi cada uma de minhas capacidades técnicas, projetei-as  entre o futebol de meus amigos; e acaso encaixassem, eu era, eu  conquistava, eu ocupava.</p>
<p>Talvez, para o tempo de meu editor, não tenha sido [não devesse ser]  tão rápido. Para mim foi. Eu acelerei o meu tempo – e não existe pressa  [velocidade] mais desmedida que a visceral.</p>
<p>********</p>
<p>Ah, o sexo… O sexo – que mal há? – também foi uma construção mental minha. Uma obra de extravagância.</p>
<p>Eu tinha catorze anos, recém-cumpridos, e simplesmente fui, sozinho,  como sói aos de meu caráter. Atravessei a rua e fui. Já ouvira, dos mais  velhos, difusamente, histórias de puteiro – e queria erguer as minhas.</p>
<p>Não tinha, como ainda hoje, a menor idéia do que fazer; supunha,  porém, que fariam por mim – e fui. Norteava-me, que mal há?, pelo desejo  de materializar a iconografia – a brasilidade – de minha infância, as  mulatas do Di que nos tomavam as paredes e pelas quais, acima de  qualquer menina do colégio, eu me excitava e masturbava tardes  múltiplas; e então gozei incontinente, não se quedava minuto, à boca de  uma mulata em cujos mamilos, cor de café [colombiano], tão velhos  íntimos meus, eu finalmente tocava, concretamente, solidamente, auge  daqueles seios da minha vida inteira, pelos quais, larva quente, eu me  escorria. (E não é que fossem bonitos, não eram; mas reais, vivos,  duros-ardidos, nacionais, e ali, diante deles, à palpação deles, ao tato   daquela pedridade, senti-me brasileiro e ativo, um patriota!, pela  primeira e decerto que última vez, brasileiro e promotor da integração  racial, um canalha!, eu, um senhor de engenho, enquanto apertava com  sofreguidão aqueles bicos pretos, ao me ver jorrando à boca de uma  mulata de seios iguais aos pintados pelo Di Cavalcanti, a iconografia de  minha infância, sobre a qual, numa intervenção pós-moderna, ejaculava  profusamente).</p>
<p>********</p>
<p>Escrever, sim. Ser escritor, não; nunca foi uma obsessão, sequer um  sonho, um plano – e eu nunca pensei a minha escrita, o seu desenrolar,  em termos de uma carreira; o que sempre me pareceu vulgar.</p>
<p>Jamais, nem ante meu primeiro livro, impresso, pude pensar [admitir]  que escrevera um e, sobretudo, que escreveria outros. A idéia de um  percurso a construir, cujo acúmulo resultasse num sentido de obra  complexa e, o horror!, estudável, academicamente legível-apreciável,  sempre me pareceu pretensão de arquitetos de vocação desperdiçada em  extensas plantas literárias… (Em vez do palácio dos arcos simplesmente,  definitivo, intenso, uma brasília, àquela diluição)… A idéia deste  conjunto, ademais, parecia-me francamente dispersiva, concorrendo para  que, em função de um amplo e prestigioso panorama [coerente; o horror!],  se negligenciasse o detalhe, o pormenor, a dissecação do presente, do  texto presente, do parágrafo atual, da linha exata, imediata, da palavra  perfeita, experimentada, testada, intensamente, descoberta: a palavra  perfeita. Não. A pressão, alheia e estrangeira, por que se corresponda a  uma expectativa, por que se responda ao tijolo, previsto e sem arestas,  de uma construção habitada pelos outros… Não. (Não se pode, neste  instante, ter noção alguma de conjunto, de conjunto exterior, senão a  daquele em que terá existência a palavra perfeita – a frase, a oração;  mais tarde o livro inteiro, mas só ele, só aquele).</p>
<p>********</p>
<p>Escrever, linha que seja, é-me um processo tão necessário, tão  urgente, quanto corrosivo. Impossível pensar que, depois daquela frase,  ainda possa vir outra; e assim, tanto mais violento, é também com os  livros, com o ponto-final: um que me tortura, que me corrompe durante  meses integrais, estancará em mim, eu creio [por favor, para sempre!],  qualquer outra escrita, qualquer outra trama futura. (E, por que outros  venham-virão, outras tramas, e traumas, é preciso se enganar, por motivo  de sobrevivência).</p>
<p>Escrever é-me caminho de morte, de morte iminente, de falência dos  órgãos, de sufocação abissal, de fôlego exaurido, sem esperança de ar,  ao fundo, preso, do oceano mais escuro… Eu anoto; tomo nota de tudo, o  tempo todo – e me desafio, pondo à prova o escritor [o mergulhador] que  sou, a quanto sou, a quanto vou, e às vezes, muitas vezes, dezenas por  dia, guardo o bloco, dou partida a outra atividade, mas logo me vem a  escrita, de repente, as idéias da [de] escrita, desafiando-me, exigindo,  e eu preciso retomar, retornar ao caderno, dar-lhes voz, esboço  [rouquidão, que seja], anotá-las todas, onde estiver, e isto vezes sem  fim, o que se tornará tanto mais destrutivo à luz [à sombra] de que  escrever profissionalmente sempre me foi, e ainda hoje [será?], trabalho  menor, clandestino por certo, ofício de se exercer envergonhado, de  forma que, dramaticamente, a título das aparências [sempre elas], eu  deveria dar seqüência ao meu dia normal, à rotina, e assim seguir à  editora, ocupar-me dos livros alheios, e deles me desocupar  seguidamente, completamente afinal, para abrigar em segurança, de  imediato, sempre, as minhas idéias, as minhas teias, os meus  personagens, ou meus, e só o que me importa…</p>
<p>E eu era então, aos 25 anos, inteiramente desonesto – comigo e com quem me pagava.</p>
<p>********</p>
<p>Escrevi faz pouco que, ao criar meus exércitos de infância,  confrontava-os de maneira equilibrada, com soberano senso de justiça – o  que, não sendo absoluta mentira, tampouco será irrefutável verdade…  Minha questão inicial era prolongar ao máximo as contendas, as batalhas,  por meio das quais me encontrava e justificava e era. Portanto, um  certo equilíbrio – a balança – era-me conveniente.</p>
<p>Hoje, entretanto, não sem orgulho autoral, lembro-me de que sempre  pendi para o lado do mal; e que, ao iniciar do combate, bastava que –  sem que deliberadamente eu quisesse – algum lado se sugerisse, ao acaso,  em maldade maior para me levar a discreta simpatia; porque eu julgava  aborrecido aquele discurso politicamente correto [amplo, vago] de  salvamento do planeta, de defesa dos grandes valores [em que ninguém  tocava, de que todos falavam sem compreender], da justiça em prol da  humanidade abstrata e cordeirinha, de resto sem face; e me agradava,  genuinamente, diante das pretensões delirantes e egoístas, materiais,  concretas, de se dominar o mundo, de se conquistar, mesquinhamente,  todos os territórios como um fim em si, sob o desejo puro e assumido de  poder e simplesmente poder, e pronto. O mal, em seu desenvolvimento  lúdico, sempre me fascinou, sempre me foi mais humano; e talvez me  tenham fascinado muito mais os personagens do mal, o líder do mal, o  vilão cerebral, a mente tarada e tirana que mobilizava, para o benefício  de seu poder exclusivo, um exército de amorais… O déspota monstruoso de  minha meninice sempre esteve em melhor consonância com os meus  sentimentos de mundo – e eu talvez fosse criança mais saudável do que  ora considero.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Memórias inventadas [IV]</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por C.A.</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 15 de Abril de 2009, às  			12:42</strong></font></p>
<p>De minha tatataravó materna contam que possuía os mais belos  seios da história do comércio escravo da colônia, com píncaros de  desafiar [desdizer] as forças da física - da gravidade, do tempo. Era da  costa-velha, negra mina, de uma tribo cujo talento maior [ou não]  consistia em farejar ouro.</p>
<p>Minha tatataravó, como meus parentes africanos [não posso revelar por  quê, mas sempre intuí que os tivesse], era cheiradora de ouro e,  particularmente, preta fibrosa, de um queimor que, segundo a lenda,  plantava febre às partes masculinas mais apressadas; e é então que entra  o velho padre meu tatataravô, um espanhol, rufião poderoso, afeito aos  riscos da alma e às riquezas, as materiais, de pedras e carnes, que,  apaixonando-se [quem dirá que não?], veio fazer família, fé e capital  nessas terras brasileiras, à região que hoje se chama, por estado,  Espírito Santo.</p>
<p>Não o quero julgar, mas meu tatataravô, homem-de-deus [servo do  senhor] convertido ao prazer e a conturbação, foi, a despeito de marido  amoroso, gigolô pioneiro, senão aos outros oferecendo o calor da esposa,  explorando-lhe os dotes olfativos até que erguessem, juntos [o amor, o  companheirismo], um império de ouro - um quarto, trinta metros  quadrados, de ouro maciço.</p>
<p>A empresa, de caráter ambulante, saía, chão sem destino, a seguir o  norte do nariz da mulher, sob confiança absoluta naquele sentido, até  que paravam, subitamente, ali, ela apontava, ali, indicava, governava, e  então de imediato se punham a cavar os escravos, fosse onde fosse, à  dificuldade que fosse, à mais íngreme encosta - e era batata, sempre:  ouro, muito ouro, sempre.</p>
<p>Meus dotes [inexistentes] de pesquisador não saberão dizer quando o  ouro todo foi, por lei, confiscado pela banca oficial, ao pretexto do  patrimônio público defendido, dos dotes e vigores naturais da mãe-gentil  reunidos - mas o fato é que assim foi, e que ficaram pobres já ao final  da existência, logo depois morrendo, juntos, de mãos dadas, num casebre  da Vila Velha. (Uma versão menos difundida da passagem, porém, dá conta  de que, falecendo de fato juntos, não foram unidos exatamente pelas  mãos que se esvaíram os corpos - e eu apostaria)…</p>
<p>Muitos anos depois, porquanto mudasse a lei, estabeleceu-se que os  herdeiros das famílias lesadas pelo ouro teriam direito a uma  indenização, em dinheiro, equivalente ao peso da opulência tomada,  bastando que se manifestassem - e aos meus seria uma fortuna, portanto.</p>
<p>Seria…</p>
<p>Seria; porque, progressivamente embranquecidos, aos poucos bem sitos à  faustíssima sociedade capixaba, não reclamaram o direito, calaram-se,  apenas, avento [estou quase certo], para não reconhecer a antepassada  africana e a origem mestiça da família; que aí ainda está, plena em pose  e sem um puto furado, da qual, em índole, decorro inegavelmente,  covarde maduro, assumo, mas, mesmo que ora chafurdando a honra-fundação  do sangue, incapaz de resistir a essas histórias de profecia, negação e  desejo [de amor!], ao legado imaterial-imaginal de meus tatataravós, à  distante memória dos quais, nestas minhas, presto [pago] homenagem  [inveja] afetiva [literária].</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Memórias inventadas [V]</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por C.A.</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às  			14:03</strong></font></p>
<p>Meu editor, tipo zeloso, vem de me bater um fio, mais um. Estava  ele lá a pensar, preocupado com o encaminhamento editorial que daríamos a  estas memórias – questão que, fiz saber, não poderia me importar menos.  Ainda assim, ouvi-o; e eis que o aflige, em uma pergunta, se devemos  caracterizar esta obra, a despeito do título, por um romance?</p>
<p>Respondi-lhe que não; que não se deve dirigir-governar, não desta  maneira, não já desde a capa, os caminhos do leitor, ressecando-lhe a  liberdade de se encaminhar a partir de si; que se dei ao livro, ainda  que provisório, o nome de <em>Memórias inventadas</em>, é porque penso  que tudo quanto se possa sugerir por leitura vá aí assinalado; que,  hoje, ante a forma como compreendo a escrita [e a leitura],  restringir-limitar algo por ficção absoluta parecer-me-á covardia e  redução profunda ao espírito da literatura; que, do mesmo jeito que  concebo indigente a leitura que busca em cada linha o caráter pessoal,  íntimo, do autor, julgo aviltante, talvez desonesto, que um escritor  apresente uma obra, qualquer uma, bradando que seja ficção, só ficção,  integralmente ficção, fruto apenas da criação, e que nada de seu ali  resista etc.</p>
<p>Se algum meu leitor achar por bem ler-me essas memórias como as minhas memórias, não lhe direi que não.</p>
<p>********</p>
<p>Ainda não falei de papai. Quiçá por opção de prosa, por motivo de  ritmo, não sei; mas certamente não por que me tivesse marcado  especialmente.</p>
<p>É apanágio da juventude que os meninos, quanto mais jovens, cultivem a  imagem do pai como referência, como o ideal a atingir – como o modelo,  ainda que venham a negá-lo [superá-lo], sem traumas, mais tarde. Eu, ao  contrário, bem cedo soube o que não queria ser: não queria ser o meu pai  – o que eu apenas reforçaria [consolidaria] com o tempo.</p>
<p>Papai foi um homem severo, duro, frio, distante…</p>
<p>Eu minto.</p>
<p>Papai nunca foi esta presença exata, rigorosa, grave, do chefe de  família padrão ao imaginário brasileiro da primeira metade do século XX –  e não posso incorrer neste ridículo.</p>
<p>Papai foi um homem em que dava pé – um homem raso. Um homem desprovido. Assim mesmo, sem complementos. Um homem sem.</p>
<p>Seus interesses nunca se configuraram num interesse meu, o que jamais  lamentei. (A verdade é que nunca consegui reconhecer quais fossem seus  interesses, do que gostava, e nunca o ouvi falar com prazer sobre coisa  alguma; papai era incapaz de desenvolver nuances, de dizer não).</p>
<p>Jamais me culpei por não admirá-lo, por considerá-lo medíocre. Não se  pode contornar o latente por muito tempo. Mais tarde, já pelos vinte e  poucos, quando saí de casa, ainda que lhe devotasse um sentimento puro  [gratuito] de afeto, tinha-o na conta intelectual definitiva dos  insignificantes, e sequer me ressentia por ele nunca me ter oferecido a  palavra de pai, os tradicionais clichês formadores da lavra paterna.  (Essas coisas que talvez nem existam)…</p>
<p>Há vinte anos, quando ele morreu, esforcei-me, a pedido de mamãe,  para lembrar de algum gosto especial dele, para um discurso de cemitério  – e não havia: papai não tinha gostos. Mas menti, a pedido de mamãe.</p>
<p>********</p>
<p>Papai é, sim, admirável em certo sentido [mas só quando me vejo em  desespero], pois que fosse vazio de questões, de dúvidas, de  inseguranças. Não se devia cobrar; não tinha aspirações. Decerto que não  criava para si pressões de mundo – e que maravilha!</p>
<p>De conhecimentos raríssimos, o que casava à curiosidade quase  nenhuma, soube viver, com sabedoria, o esplendor da ignorância. Porque  se pode saber muitíssimo… Geralmente se sabe mais ou menos – é o comum, e  graças a deus, o que nos faz o pão, o vinho e a sacanagem. Difícil é  saber pouquíssimo; difícil é operar no modo econômico de papai. É a  verdadeira sabedoria, a paz. A clareza.</p>
<p>********</p>
<p>Meu editor, tipo zeloso, vem de me bater um fio, mais um. Estava lá  ele a pensar, preocupado, segundo me disse, com o encaminhamento  editorial que daríamos a estas memórias – questão que, fiz saber, não  poderia me importar menos. Ainda assim, ouvi-o; e eis que o aflige, em  uma pergunta, se devemos caracterizar esta obra, a despeito do título,  por um romance?</p>
<p>Respondi-lhe que não. Seco; e um abraço.</p>
<p>Verdadeiramente, pois que somos amigos, a preocupação dele não era  literária; e ele não me precisou dizer: eu percebi, desinteressei-me, e  um abraço.</p>
<p>Estava preocupado comigo, pessoalmente, com a imagem que, nessas  memórias, eu oferecia-criava para mim – e por isso a idéia-sugestão de  caracterizar esta obra, à capa, por um romance; para que escapássemos,  para que eu escapasse, pela ficção, pelo reforço da invenção [mas em  detrimento da literatura], ao perigo de que um leitor me lesse pelo  sujeito como me aqui apresento, o que, aos olhos de meu editor fraterno,  talvez me pintasse-legasse mal.</p>
<p>E o que poderei dizer? Que este não sou eu? Que sou eu? O que poderei  dizer a este leitor real, que me lê em sua casa, que me procura nestas  linhas? Que vá em frente; que me leia como achar melhor, eu o encorajo.</p>
<p>********</p>
<p>Nesta altura, sim, devo falar que invejo a juventude – e também a  ignorância, que me fascina. Não uma ignorância absoluta, que consista no  desconhecimento total; mas algo limítrofe, misterioso, que reúna a  ciência mínima, os conteúdos básicos a uma convivência [que creio]  superior, apenas as informações necessárias, vitais, para que se tenha a  verdadeira sabedoria do mundo, esta que simplifica, que gloriosamente  simplifica, que cria atalhos orgânicos para a leitura do mundo, para a  observação do mundo como ele é, superficial.</p>
<p>Porque é assim que funciona – e ora convido os que sabem demais a  considerar se não gostariam de se esvaziar um pouco, de repente. Hein?  Imaginem… Há um prazer extraordinário nesta conjectura – nesta  imaginação da leveza, do peso, ao alcance, tão-somente o necessário!</p>
<p>Estou convicto de que, em menos, teríamos meios mais diretos,  eficientes, cristalinos de compreender… Porque, basicamente, as coisas  são mais simples, sempre, e se podem resolver, rapidamente, em mergulhos  mais curtos, rasos, pelo enfrentamento elementar, essencial, poupado em  referências, do universo, no 2 + 2 mesmo, que dá em 4, sempre; porque  alguns recursos do pensamento, os mais elaborados, turvam a leitura da  existência a quase cegá-la, contando dados, supérfluos, que tão-só  complicam, variáveis que debilitam, que desperdiçam, despistam, e  decerto que atrasam-retardam, desbotam a compreensão, engordam a lucidez  ao ponto de ela ser apenas gula, acúmulo, massa amorfa, gordura, e  levam-nos à fantasia, à vaidade, à psicologia, à especulação, à criação,  ao engano, e é então que, excitados por múltiplas reflexões  sofisticadas [pelo empilhar dos séculos, à carga das mazelas ancestrais,  dos fracassos do passado, alheios], perdemo-nos de que bastaria muito  pouco para a imediata noção, para a urgente leitura do que prevalece,  para a evidência cavalar de que, objetivamente, desde as cavernas, somos  rejeitados.</p>
<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
<p><font style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif,Verdana; font-size: 16px; color: #000000; margin: 0px; font-weight: bold">Memórias inventadas [VI]</font><br />
<font color="#950000" size="2"><strong>por C.A.</strong></font> - <font color="#999999"><strong>Quarta-Feira, 6 de Maio de 2009, às  			00:30</strong></font></p>
<p>Eu não choro; nunca chorei. Sinto, às vezes, a angústia do choro,  a angústia transbordante do choro, de se desanuviar, a represa prestes a  se romper, sucumbida à pressão daquela correnteza minha – mas não.</p>
<p>Esta dor, que me comove – porque eu me emociono, eu sei me emocionar,  eu alcanço –, ela simplesmente não se materializa, não chove em mim,  não rega; não desafia, por mangue, o cerrado preto de minha barba seca, o  cerrado escuro de meus espinhos.</p>
<p>********</p>
<p>Há, contudo, uma explicação científica – médica – para o meu choro  inexistente, para a estiagem nordestina, sertaneja, de minhas lágrimas.  Quando criança, bem pequeno ainda, eu tinha descontrolada a glândula  lacrimal, segundo me contavam os mais velhos; e era, portanto, um bebê  marejado, que chorava sem dor o tempo todo, que chorava ao bastar dos  olhos abertos – os “olhos de banheira”, como dizia a minha avó –, e me  foi preciso uma pequena intervenção cirúrgica, brevíssima, simples, mas  que, excedendo-se, lacrou de vez a nascente de minhas águas.</p>
<p>********</p>
<p>Muitos anos depois, a perder esta avó querida, ao vê-la morrer, ela  que era o meu carinho todo, ao senti-la entregar-se, decidida, de mãos  enlaçadas em mim, com as últimas forças todas naquele aperto-adeus,  senti que chorava, que extravasava-extrapolava o erro médico, que as  lágrimas me ocorriam, corriam, e não, não – não havia lágrimas, sal  nenhum, mas eu chorava, não havia quem dissesse, mas eu chorava, eu me  desaguava, todo, por dentro, eu sentia, a enxurrada interior, eu  chorava, eu chorava, lágrimas mudas, lágrimas de devastação, e me  culpava por que não houvesse quem me pudesse perceber a dor, a minha, o  afogamento, porque eu não me inundava da imagem da dor; e então que tive  a compreensão definitiva, a experiência-caatinga da solidão.</p>
<p>********</p>
<p>Escrevi bem antes que cedo me desliguei, após uma ação fracassada, do  que fosse coragem, o que será verdade, porque coragem pressupõe  desafiar a tragédia, possível, sob a confiança no triunfo, à consciência  do triunfo, o desejo imperativo do triunfo – e venho de me lembrar do  dia em que, deliberadamente, lancei-me à morte, simplesmente, à morte,  sem mais, sem coragem, sem desejo, sem querer restar de pé, glorioso, à  morte.</p>
<p>Eu talvez [talvez] me quisesse mitificar, ser um herói frente a meu  irmão e os amigos, de juventude fabulosa, gênios da bicicleta, veículo  que nunca comandei, que se jogavam, à velocidade automobilística, numa  ladeira, sem freios, que a justa lembrança impõe que se diga aos 90º, ao  fim da qual pareciam ter descido um escorrega de piscina, todos de pé,  triunfantes senhores da montanha; e eu fui acompanhá-los, para morrer.</p>
<p>Meu irmão diz que se recorda apenas do instante em que eu, pouco  adiante dele, perdi o controle e voei, de todo entregue, ido, de todo,  oferecido à ralidão de pedra e terra, àquele chão encravado, inscrito em  dentes [em dentadas], eu, um boneco cuspido para o próprio sangue, do  que me vestia, tragado pelos próprios ares, do que me abafava,  debatendo-me eternamente até o momento horizontal em que, estirado, sem  gloria alguma, mas ciente de que vivia, senti-me extraordinário.</p>
<p>********</p>
<p>E havia as brigas… Não sei, honestamente, porque isso me ocorre  agora; mas coisa que me aflige – que sempre me afligiu – é briga. Duas  pessoas brigando, trocando socos, é a mais contundente demonstração da  falência humana; é a derrota do diálogo, da argumentação, a derrocada do  texto… E talvez que já me perca em especulações intelectuais, por que  duas pessoas brigando é simplesmente um horror; é feio, ora.</p>
<p>Sempre gostei de boxe, da luta, esportiva, no ringue, mas decerto que  pela consciência da mediação – do arbítrio, da lei. À rua, porém, sob  os golpes do imponderável, sem regras, duas pessoas brigando é a  escritura de alguma forma de morte; é a expressão mais imprevisível da  decadência, e eu resto sempre temendo por que alguém lance mão de uma  garrafa de vidro quebrada, ou de algum porrete, e que o confronto se  derrame num lento definhar, talvez num corpo desacordado, mole,  inconsciente, espancado, que se esvai aos poucos… Ou que talvez  sobreviva, aleijado, entrevado… E eu resto sempre esperando – torcendo –  por que alguém saque uma arma de fogo e dê cabo logo daquilo.</p>
<p>********</p>
<p>Uma vez, aos doze anos, eu briguei – no colégio. E briguei com um  então bom amigo, que me provocava muito – não me lembro por quê –,  estimulado pelos colegas brigadores experientes, os mesmos que me  compeliam à reação. Bati muito e apanhei muito [sem saciar a claque],  cansei-me sobretudo, porque não éramos de briga e despendíamos energia  excessiva, para o deleite – a luta patética dos amadores, mais ou menos  como ficou conhecida – dos curtidos brigões da platéia, que nos dias  seguintes, em termos mui pouco heróicos, repercutiriam, penso hoje que  com razão, o espetáculo vexaminoso que fora aquele combate sem  vencedores.</p>
<p>Não saberei dizer de meu oponente, a quem nunca mais vi, mas lutei,  já então com esta consciência, para me integrar – para ser aceito entre  os mais fortes, os que se mediam todos os dias, brigando na rua, em  bandos, entre gangues. Sem sucesso.</p>
<p>********</p>
<p>Houve meu velho avô, a árvore frondosa, pai de papai, sobre quem foi  sombra decisiva – e talvez que meus gostos, meus vícios [caros], tenham  fé nele, em meu velho avô; porque das minhas memórias de moleque a mais  forte é aquela em que ele, corpo imenso sob o sol, de que era todo o  bronze, pedia-me que lhe preparasse o uísque, muito gelo, um pouco  d’água, no copo curto, cristal maciço, como um troféu.</p>
<p>E eu então ia, claro, cuidadoso-orgulhoso; e ele assim, mexendo os  cabelos desalinhados de prata, estimulava-me – teria sete anos – a  provar o scotch que servira, criticando-me [o mais comum] quando erradas  as medidas, elogiando-me ao acertar das doses; e, de qualquer maneira,  olhando-me longamente, ensinava-me que o bom uísque, para além das  marcas e anos de maturação, era aquele, qualquer um, que se nos bem  descesse ao primeiro gole, que nos correspondesse ao primeiro gole, sem  dúvidas, imediatamente; e que se a este primeiro trato, ao segundo no  máximo, o encontro se mostrasse forçado, melhor seria não beber.</p>
<p>********</p>
<p>Ele apreciava especialmente o Buchanan’s, de que possuía muitas  garrafas, algumas das quais conservo ainda hoje, não raro abrindo uma e a  bebendo inteira, sozinho, arrebatado pela noção cristalina de passado  que um tão antigo uísque fundamenta.</p>
<p>O poder de uma bebida curtida pelos anos, anos já incontáveis,  decerto que imprecisos; este poder dos tempos no líquido, na garrafa  velha, poder dos meus tempos, herança do meu sabor original, este poder é  sentimento que ainda hoje me comove; porque, de alguma maneira,  encontro-leio nessas garrafas a concretude da minha linhagem, a  genealogia dos meus goles, dos meus goles afetivos, do meu malte  sangüíneo; a materialização do passado, do legado, dum passado meu, dos  meus, os subsídios para acreditar, talvez feliz, certamente apaziguado,  que, de algum jeito breve, terá valido.</p>
<p>********</p>
<p>Era um homem lindíssimo, o meu avô, de uma presença magnética,  enorme, largo, espaçoso, embora não fosse alto. (Embora não fosse alto,  era – se me explico). Transformava o ambiente em que chegava, para  melhor, onde quer que fosse, estivessem lá as pessoas mais cativantes do  mundo – ele chegava e era.</p>
<p>Com aquele sorriso, ele chegava e era, com aquele sorriso absurdo,  aquele sorriso de que jamais me esqueci e que, quando otimista, em meus  melhores dias, penso reproduzir.</p>
<p>********</p>
<p>E como fumava!</p>
<p>Em suas fotos, sem exagero, não há sequer uma em que o cigarro não  apareça; e era de fato um atrás do outro, inclusive no automóvel [um  Galaxi!], trancado, ar-condicionado ligado, do que me lembro muito bem,  eu no banco de trás, e ele achando graça de que todos reclamassem –  menos eu, que lhe era solidário, que lhe era cúmplice: eu gostava.</p>
<p>Depois, ele parou; teve de parar, por grave motivo de saúde, ainda  que inútil, pois que morreria, pouco mais tarde, de câncer no pulmão.  (Não houve um dia de sua fase terminal em que não se anunciasse  profundamente arrependido pelos meses em que deixou de fumar – e então  gargalhava). Interessa ora contar que, neste interregno – porque logo  voltaria ao cigarro, que fumaria até morrer –, dedicou-se, por  extraordinária recomendação médica, ao charuto, que, no entanto, acendia  um no outro, e tragava, genialmente.</p>
<p>Destas lembranças – do período em que fumou charutos como cigarros –  nunca me esqueci; nunca me esqueci daquele cheiro ruim, eu menino ainda,  cheirando mal a fumaça, desconfiado daquele hábito bruto, ao mesmo  tempo atraído por aquele prazer tão misterioso, algo secreto, prazer do  mais velho, do paladar revelado-apurado, gosto maduro, experimentado,  conquistado, e eu queria, eu desejava aquilo pra mim; não o cigarro, que  considerava vulgar, comum, rasteiro, ordinário, mas o charuto, eu  desejava aquele prazer pra mim, aquele prazer que fechava, que encerrava  alguma coisa, que me montava um sentido, e bem cedo decidi que me  forçaria aos charutos, que os fumaria com entrega, que lhes conheceria o  sabor, as nuances, as raças todas – até possuí-los, até que fossem  meus.</p>
<p>********</p>
<p>Pelos sete, oito anos, derrotado pela juventude que invejava, meu  pensamento-desejo mais constante já era por envelhecer – pela velhice,  por me livrar dos pesos, das cobranças, das pressões por crescer e  construir…</p>
<p>É engraçado, mas sinto, muitas vezes, a saudade ao mesmo tempo  arrebatadora e pura das minhas pequenas e raras coisas de menino, de  adolescente, de jovem homem promissor – das miudezas e espaços breves  que, com esforço, conquistara, arrebanhara para mim; a possibilidade,  por exemplo, de passar sozinho uma noite de sábado, quando, para todos,  aquilo era um absurdo, uma excentricidade.</p>
<p>Hoje, não mais. Hoje é comum.</p>
<p>Envelheci por fora, afinal; em certa medida, como sempre desejei, aos  sete, oito anos, e aos quinze, aos vinte, aos trinta anos, como sempre  desejei: a aparência alinhou-se enfim ao espírito ancestral, e me pego  então saudoso dum tempo que, salvo essas brechas de silêncio íntimas,  foi-me, lá fora, duro e dorido, mas em que, nunca entendi por quê, a  despeito de ausente, sempre fui requisitado, convidado, querido… E hoje  não mais.</p>
<p>As pessoas – os meus poucos e tão bons amigos – habituaram-se à minha  solidão, à minha tão almejada solidão, habituaram-se, para o que talvez  tenha contribuído a idade avançada e, certamente, a doença.</p>
<p>Faz pouco escrevi um conto, que julgo ruim [e depressivo], em que o  personagem, tipo cerrado, desde criança envelhecido, mais do que desejar  a velhice física e o sossego da idade – valores que podem ser [e são]  sempre questionados –, deseja e afinal encontra a paz, insuperável, na  doença, no câncer que o legitima, que lhe avaliza a alma; e isto é  [seria] um pesadelo.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>&#8216;Ex-amor&#8217; e &#8216;Quase amor&#8217;</title>
		<link>http://www.tribuneiros.com/2010/07/25/ex-amor-e-quase-amor/</link>
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		<pubDate>Sun, 25 Jul 2010 19:31:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe Moura Brasil (Pim)</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Coluna da direita]]></category>

		<category><![CDATA[crônica de amor]]></category>

		<category><![CDATA[ex-amor]]></category>

		<category><![CDATA[jovem]]></category>

		<category><![CDATA[paixão]]></category>

		<category><![CDATA[psicologia]]></category>

		<category><![CDATA[quase amor]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="left"><em>Textos publicados no livro</em>  Contra a juventude - As melhores crônicas tribuneiras<em>.</em></p>
<p align="left">*****</p>
<p><strong>Ex-amor</strong><br />
Felipe Moura Brasil (Pim)</p>
<p>Agora estamos no mesmo bar, um de cada lado, e só sei de sua presença pelos outros. Não a procuro entre mesas, fregueses e garçons, não sei se me interessa vê-la. Ser visto, quiçá. Se ainda a amo? É estranho isso. Um amor bloqueado, interrompido, metido às pressas no porão sob ameaças de bombardeio. Ele fica esmurrando a porta, tremendo a fechadura, como quem quer subir de volta, mas prefiro acreditar que apenas se exercite, que tenha encontrado turbinas ocultas para, movimentando-se, gerar energia à casa.</p>
<p>Ela pintou o cabelo, me dizem, e me fazem perguntas de sua vida como se eu soubesse responder. Aquela mulher que eles vêem ali, outro dia mesmo, eu estava dentro dela. Todos sabem que é assim. Que você saiu por alguma razão, consciente ou inconsciente, como são as razões. E querem saber qual. Querem entender o que leva duas pessoas a se ignorarem publicamente. Vão se ignorar para sempre? Talvez sim. Vamos viver um de cada lado do bar, cada qual em sua aldeia, com um ou outro garçom levando notícias daqui para lá e de lá para cá.</p>
<p>Mais do que eles, porém, algo nos une a distância. A música. Letras que nos descrevem, letras que nos satirizam, letras que nos aconselham. Melodias que nos decolam, melodias que nos flutuam, melodias que nos aterrissam. Algumas - letras e melodias - suspeitamos de antemão retumbantes na aldeia vizinha e só mesmo o amor pela casa para frear o impulso de dar uma olhadela por cima do muro. O bombardeio vem de dentro. É como se o porão de cá e o de lá tentassem se comunicar em código Morse. Esmurrando a porta. Tremendo a fechadura.</p>
<p>Posso ir embora sem vê-la, mas jamais poderei ir embora sem revivê-la. Há neste bar um homem e uma mulher que se amaram tanto que hoje aqui se ignoram. Ela está linda, eu posso sentir. Tão linda que é melhor deixá-la por lá.</p>
<p><strong>Quase amor</strong><br />
Felipe Moura Brasil (Pim)</p>
<p>Como são tristes os pactos silenciosos entre aqueles que quase se amaram! Que se seduziram, se tentaram, mas, por algum motivo anterior a eles, não se consolidaram amantes. Eles se encontram numa porta de cinema - entre um ou outro amigo em comum -, ora os dois sozinhos, sabendo-se comprometidos; ora um acompanhado, em desvantagem de olhar; ora os dois em casais, como no velho pagode: “ela e o namorado dela, eu e minha namorada”. E não há o que dizer.</p>
<p>Há o pensamento - indômito! -, ávido por devanear hipóteses e, logo, abafá-las em algum lugar remoto entre o arrependimento e a esperança, o qual manda a razão chamar de sensatez. Como teria sido minha vida com ela? Como teria sido minha vida com ele? Se ao menos aquele jantar tivesse acontecido&#8230; Não há tempo verbal mais angustiante – e paralisante - que o futuro do pretérito. Até quando ele vai ter a chance de ser o futuro do presente?</p>
<p>Ex-amores tiveram a sua. Não aproveitaram. Vivem sob o consolo do inevitável, do “não era para ser”, “não dá”, “então diga que valeu”. Quase amores não valeram, ora. Não foram. Não voltaram. Ficaram entalados ali, mesmo quando correspondidos. Correspondidos no quase. No “peraí que eu volto já”. O quase, como o amor, é infinito enquanto dura - mas dura mais. Pode doer menos, mas jamais se esvai. É o triunfo da fantasia sobre a realidade e suas lembranças. Da saudade do que nem começou sobre a saudade do que já se foi. É o pênalti perdido, a bola que não entrou. Fica.</p>
<p>Por um “erro” de cálculo do destino – para não dizer, às vezes, nosso -, não aconteceu. Nunca se ajeitou o tal do timing. “Melhor assim”, dirão aqueles em cuja mentira preferem – ou precisam – crer, todos mestres em colocar defeitos naquilo – e naqueles - que não possuem. É o mecanismo de defesa da vida que segue, da bola pra frente, do vamos com tudo que a carroça - mais que a fila - tem que andar. E talvez elas – as carroças – se esbarrem mesmo lá na frente, onde o silêncio poderá ao menos dar palavra a um gesto, embora não, não nos guiemos pela possibilidade, sabe-se lá, vindoura.</p>
<p>Como são tristes os pactos silenciosos entre aqueles que quase se amaram! Eles trocam pensamentos ininteligíveis uns com os outros, e depois, descaradamente, se viram para seus atuais – e quiçá vitalícios – amores – ou tão somente amores, grandes amores, quem dirá que não? -, num abraço arrebatado de uma saudade que não lhes pertence, ou num telefonema carregado de um desejo que não despertaram, como se descarregassem silêncios antigos em quem agora lhes é de direito. Ah, como são verdadeiros os falsos gestos de amor! O que seria amar senão descarregar em alguém todo – ou quase todo - o nosso amor acumulado? Sorte a de quem passou do quase, e tem hoje quem o descarregue em si.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>O povo de São Sebastião [todo ele]</title>
		<link>http://www.tribuneiros.com/2010/07/24/o-melhor-flamengo-hexacampeao/</link>
		<comments>http://www.tribuneiros.com/2010/07/24/o-melhor-flamengo-hexacampeao/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 24 Jul 2010 14:15:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>C.A.</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Coluna da direita]]></category>

		<category><![CDATA[Adriano]]></category>

		<category><![CDATA[Carlos Andreazza]]></category>

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		<category><![CDATA[hexacampeão]]></category>

		<category><![CDATA[Petkovic]]></category>

		<category><![CDATA[Tribuneiros]]></category>

		<category><![CDATA[Zico]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Texto originalmente publicado no site </em><a href="http://www.tribuneiros.com"><strong>Tribuneiros.com</strong></a><em> em 8 de janeiro de 2010.</em></p>
<p>*****</p>
<p>Nenhuma atividade ilegal - criminosa e assassina - será compreendida  [admitida], aqui, como alternativa de inserção-ascensão social e de  reparação pela desgraça racista e furiosamente discriminatória que  caracteriza o Rio de Janeiro [o Brasil] desde a abolição da escravatura.</p>
<p>Excluídos dos salões do poder! - não há acesso negado no mundo  [porta-fechada nenhuma] que me faça confundir sedução com vigarice,  subversão com pilantragem; e nada, nem um grande mestre, convencer-me-á  de que algo do carioca [do Rio de Janeiro, a minha cidade, se também me  permitem] possa ser encontrado no ilegal.</p>
<p>Temos, ancestral e escrotíssima, uma elite perversa, excludente,  corrupta etc.; mas esse papo - bonito, atraente, sem dúvida - de  &#8220;malandragem&#8221; como instrumento para o desenvolvimento de espaços urbanos  próprios, como estratégia de afirmação e pertencimento, é aquele mesmo,  ideológico e mesquinho, que fomentou e deu curso ao surgimento do  Comando Vermelho e do tráfico de drogas como o conhecemos hoje.</p>
<p>O que é malandragem, afinal? A maneira vulgar como esta palavra  [conceito] foi - academicamente, inclusive - incorporada ao cotidiano  brasileiro legitima, também no pensamento, o conto do vigário. Mas,  afinal, o que é malandragem? (Se formos pela forma rasteira consagrada,  teremos, por malandro, de apontador do jogo-do-bicho ao presidente Lula,  de traficante de drogas a Noel Rosa; e nesta mentira, definitivamente,  não incorro).</p>
<p>A ilegalidade é opção de bandido. No Rio de Janeiro, sob todos os  pontos de vista [inclusive o histórico], ela foi - e é - formidavelmente  explorada pelo Estado elitista; e aí está, aliás, um ambiente dos mais  democráticos: existem bandidos para todos os gostos, de todos os níveis e  formações.</p>
<p>Há quem leia - no conhecimento das leis [e na exigência,  incondicional, de que sejam cumpridas] - um sinal de desconhecimento do  que seja o Rio de Janeiro e seu povo.</p>
<p>Será que estamos tão mal assim? Será que somos tão pouco? Será que  somos tão primitivos? Será que optamos mesmo pela ignorância e pela  barbárie? Por que, para gostar de samba [para ter o aval dos sambistas],  tenho de tolerar os que o fizeram refém? (Por que, para gostar de  samba, para ter a aprovação dos sambistas, não posso dizer - sem  patrulha - que este samba do Martinho para a Vila Isabel-2010 é chato  pra cacete; fruto, de resto, de uma das mais nojentas armações da  história dos concursos de samba-enredo)? Por que nos querem engessar  assim? A quem serve uma cidade cujas favelas não podem sequer ser  discutidas? Que mito é esse?</p>
<p>Com raras exceções, deparo-me com uma outra elite - recente e muito  na moda - que exerce seu poder [que controla, perversamente, a miséria]  justamente como guardiã de um Rio de Janeiro que, sempre em festa,  mistura manifestações culturais orgânicas, como as da nobre matriz  africana, com elementos marginais, como o jogo-do-bicho, instrumento  decisivo para o financiamento do crime que mata sem dó.</p>
<p>Vai tudo no mesmo saco, despercebido, um pacotão de carioquices, de  jeitinhos, de puxadinhos e remendos - mas não é assim, não. Talvez seja  mais fácil, mais confortável, mais popular - mas não é assim, não.</p>
<p>Existem babaquices tremendas no tal choque de ordem do prefeito Paes -  a proibição de cerveja no Maracanã, por exemplo, contra a qual nos  batemos sempre aqui -; mas isso não desqualifica o conjunto da  iniciativa, isso se de fato estivermos a favor da ordem pública. (Eu sou  - declaro - a favor da ordem urbana; mas há os que acham que devo me  envergonhar disso). (É mole)? (Não tenho apreço por índices elevados de  coliformes fecais - e me querem convencer de que sou, por isso, um  fresco incapaz de captar o sentido supremo e descontraído de ser  carioca). (Eu, que só não queria - não posso, preciso trabalhar - ficar  doente)&#8230;</p>
<p>Repressão ao jogo-do-bicho? Claro! É ilegal; e não é de brincadeira:  aquele senhor que anota os talões, simpático, quase um familiar, é a  ponta mais simples de um sistema assassino que, se cavarmos à vera,  levar-nos-á, num túnel de sangue e corrupção, ao Japão. (Sei que não  preciso escrever isso, mas: nem todo o processo se enriquece por ser  histórico e cultural - e é esta compreensão falaciosa de tempo e espaço,  a mesma que mitificou vagabundos como Natal da Portela, que nos faz ter  de engolir, hoje, anísios, luizinhos e queijandos).</p>
<p>Remoção de favelas? De modo geral, como estão implantadas hoje, não.  Mas por motivos urbanos e habitacionais; não por pena, não por  demagogia. Quero, com urgência, discutir as favelas que ocupam áreas de  risco. Como não? (O que aconteceu em Angra dos Reis, em menor escala,  acontece todos os dias - à primeira pancada de chuva). Quero debater,  sim, sem mistificações e saídas poéticas fáceis - que são tão bonitas e  comoventes quanto falsas e irresponsáveis. Favela não é museu, embora  não sejam poucos os que lhe exploram [imobilizam] as artes&#8230; (Não tenho  paciência para essa romantização da pobreza, com a qual quase todos  lucram, menos os pobres; e estou certo de que o samba de que gosto  existiria ainda melhor se o sambista pudesse nascer e viver em melhores  condições).</p>
<p>Favela não é uma coisa boa - não como moradia, não como habitação. É  uma solução improvisada e insalubre, perigosa, de sobrevivência. E é uma  obrigação de qualquer cidadão que pense a cidade considerar-lhes  alternativas.</p>
<p>Lamento que se confunda - será que se confunde mesmo? - o péssimo  modelo habitacional que é uma favela [uma constatação, um fato] com a  situação [passageira, provisória, assim esperamos] que lhe faz refúgio e  trincheira habitual para criminosos. São coisas diferentes, que devem  ser enfrentadas de maneiras distintas. (É tão repugnante o preconceito  contra um favelado quanto a complacência com o criminoso que o usa como  disfarce e escudo). Bandidos têm de ser combatidos, sempre, em qualquer  lugar - e sou portanto a favor da tal ocupação dos morros. Eis um  primeiro passo, policial, para que políticas públicas consistentes - e  ainda ausentes - melhorem a vida de quem vive honestamente numa favela.  Primeiro, saneamento, saúde, educação, transporte; depois, por quê não?,  violino e orquestra. (Ou cavaquinho, se preferir; eu prefiro).</p>
<p>Que ofereçamos opções, chances, todas elas, ao garoto - mas deixemos  ele escolher qual mercado respeitar. Essa é a civilização de um  democrata. Amém!</p>
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		<title>O pequeno escritor</title>
		<link>http://www.tribuneiros.com/2010/07/23/o-pequeno-escritor/</link>
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		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 18:33:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe Moura Brasil (Pim)</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Coluna da direita]]></category>

		<category><![CDATA[conto]]></category>

		<category><![CDATA[escritor]]></category>

		<category><![CDATA[filho]]></category>

		<category><![CDATA[Hamlet]]></category>

		<category><![CDATA[Jornal Nacional]]></category>

		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

		<category><![CDATA[pai]]></category>

		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>

		<category><![CDATA[Shakespeare]]></category>

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		<description><![CDATA[EDIÇÃO ESPECIAL - CLÁSSICOS TRIBUNEIROS.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="txt11" align="left"><em>Texto originalmente publicado no site </em><a href="http://www.tribuneiros.com"><strong>Tribuneiros.com</strong></a><em> em 2007 (ou antes, não lembramos). </em></p>
<p class="txt11" align="left">*****</p>
<p class="txt11">- Mas, pai, como é que eles sabem tudo do mundo?</p>
<p>Televisão ligada no Jornal Nacional.</p>
<p>- Eles estão lendo, meu  filho.<br />
- Como, se eles estão olhando pra gente?<br />
- Eles estão lendo na  câmera.<br />
- Mas de que tamanho é a câmera?</p>
<p>O pai abre os braços.</p>
<p>- E cabe tudo que eles estão falando nesse tamanho?<br />
- É um  computador. As letrinhas vão descendo.<br />
- É uma câmera ou é um computador?<br />
- Os dois.</p>
<p>O filho analisa o Jornal Nacional.</p>
<p>- Mas, pai, se  eles estão lendo, você também podia ler, né?<br />
- Não, meu filho.<br />
- Você  não sabe ler, pai?<br />
- Sei, mas não na televisão.<br />
- Qual é a diferença?<br />
- É mais difícil.</p>
<p>Comerciais.</p>
<p>- Pai, compra um  computador-câmera pra mim?<br />
- Você quer trabalhar na televisão, filho?<br />
-  Eu quero saber tudo do mundo. É muito caro?<br />
- Mais ou menos. Mas não vem com  tudo do mundo.<br />
- Como assim?<br />
- Alguém precisa escrever o que você vai  ler.<br />
- Você não sabe escrever?<br />
- Sei, mas não pra televisão. Não tudo do  mundo.<br />
- E quem sabe tudo do mundo?<br />
- Um monte de gente.<br />
- Um monte  de gente, e você não?<br />
- Não, um monte de gente junta.<br />
- Ninguém sabe  tudo do mundo sozinho?<br />
- Ninguém.<br />
- Nem eles que estão lendo?<br />
-  Muito menos eles.</p>
<p>Volta o Jornal Nacional.</p>
<p>- Onde está quem  escreveu o que eles estão lendo?<br />
- A maioria não aparece.<br />
- E pode isso?  Ficar lendo as coisas dos outros?<br />
- Pode.<br />
- Eles não ficam bravos?<br />
-  É o trabalho deles.<br />
- Qual é a graça de saber tudo do mundo e ficar  escondido?<br />
- Não sei.</p>
<p>O filho levanta, pega um livro da estante.</p>
<p>- Quem escreveu isso?<br />
- Shakespeare.<br />
- Você conhece?<br />
- Só de  foto.<br />
- Mas nunca viu ele falando?<br />
- Nunca.<br />
- Nem na rua?<br />
- Nem  na rua.<br />
- E ele sabe muita coisa?<br />
- Muita.<br />
- Por que ele fica  escondido, então?<br />
- Pra poder escrever.<br />
- Não é chato?<br />
- É o  trabalho dele.</p>
<p>O filho olha o Jornal Nacional. Olha Shakespeare. Alterna  entre os dois.</p>
<p>- Ele não escreve pro computador-câmera?</p>
<p>Ele é  Shakespeare.</p>
<p>- Não.<br />
- Ninguém lê isso na televisão?</p>
<p>Isso é  <em>Hamlet</em>.</p>
<p>- Não.<br />
- Onde se lê isso?<br />
- No livro ou no  teatro.<br />
- Teatro?<br />
- É como na televisão, só que quem lê está na nossa  frente, de verdade.<br />
- Sem computador-câmera?<br />
- Sem.<br />
- Eles levam o  livro na mão?<br />
- Eles guardam tudo na cabeça.</p>
<p>O filho folheia  <em>Hamlet</em>.</p>
<p>- Tudo isso?<br />
- Tudinho.<br />
- Então teatro é mais  difícil que televisão?<br />
- Talvez&#8230; É diferente.</p>
<p>Comerciais.</p>
<p>- Mas, pai, quem sabe mais do mundo: quem escreve pro computador-câmera  ou ele?</p>
<p>Ele é Shakespeare.</p>
<p>- Ele, meu filho.<br />
- Tem certeza?<br />
- Absoluta.<br />
- Então por que estamos vendo televisão?<br />
- Não sei. Quer  que eu leia pra você?<br />
- Quero.</p>
<p>O pai desliga a televisão. Começa a  ler Shakespeare.</p>
<p>- Você erra muito, pai!<br />
- Faz tempo que não leio  Shakespeare.<br />
- Não entendi nada.<br />
- Aos poucos, você entende.</p>
<p>O  pai continua lendo. O filho dorme parcialmente.</p>
<p>Sonha que está na  televisão. O computador-câmera é o livro de Shakespeare. Ele apresenta o Jornal  Nacional. O Jornal Nacional é <em>Hamlet</em>. Sua voz é a de seu pai.</p>
<p>O  pai erra. Ele acorda.</p>
<p>- Quem escreve também erra, pai?<br />
- Erra,  filho, mas tem tempo pra corrigir. Mesmo assim, erra.<br />
- Ele erra?</p>
<p>Ele é Shakespeare.</p>
<p>- Nunca notei, filho. Por quê?<br />
- Eu quero  saber tudo do mundo e ter tempo pra corrigir.<br />
- Você quer ser escritor?<br />
- Não sei. Tenho que ficar escondido?<br />
- Não sei.</p>
<p>O pai volta a  ler. O filho volta a sonhar. Agora é Shakespeare. Está escondido atrás do  computador-câmera. O Jornal Nacional é <em>Hamlet</em>. Segundo ato. Os  apresentadores têm a voz de seu pai.</p>
<p>O pai engata na leitura. Os  apresentadores não erram. O filho vai ficando mais à  vontade. Sente menos frio.  Os apresentadores dizem boa noite. Acaba o Jornal Nacional. Os apresentadores  lhe dão um beijo na testa. Vão embora.</p>
<p>Shakespeare acorda de manhã.</p>
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