por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 5 de Augosto de 2010, às 18:34
Texto publicado no livro Contra a Juventude - As melhores crônicas tribuneiras.
Meus amigos têm ciúmes dos meus livros. Na praia, avesso a conversas com mais de três pessoas, leio-os ao longe: os livros e os amigos. Vão dizer que é arrogância minha acusá-los de ciúmes – hoje é arrogância até ser avesso a conversas com mais de três pessoas: é anti-social -, vão me chamar de egocêntrico, eles na verdade não estão nem aí pra mim, quem sou eu para distraí-los em meio a mulheres de biquínis, resenhas sexuais, e papos de futebol e mercado financeiro? Não estão nem aí, mas reclamam. Reclamam de minha ausência da forma como costumeiramente reclamamos da nossa carência do outro: criticando o outro. Em suma: sou autista, velho e chato. Também os amo.
Nada mais incompreensível para quem não lê do que ser trocado por um livro. Que palavras escritas substituiriam as gargalhadas cafajestes de um domingo no Leblon? Que autores conquistariam meu tempo em detrimento à távola redonda de marmanjos em cadeiras de praia? Não, eles não me perguntam. Ninguém gosta de saber muito sobre aquele por quem foi trocado. Caso soubessem, poderiam quiçá avaliar, como o chefe diante do atraso do estagiário, se minha ausência se justificaria ou não: “Olha, tudo bem ser trocado por um Rubem Fonseca, mas por um Paulo Coelho, assim você me insulta, anda, vem sentar com a gente”. Seria ao menos engraçado, embora talvez eu argumentasse o quão necessário também me é (é?) ler os autores sem graça.
Muita gente tem a mania ultrapassada de estabelecer a quantidade de tempo dedicado como parâmetro oficial para o grau de importância concedido. Diz-se que devemos escolher melhor a profissão do que a mulher, porque passaremos mais tempo no trabalho do que com ela. Uma bobagem. Já assisti muito mais vezes a Um grande dragão branco do que a O poderoso chefão, e considero este infinitamente mais importante. Já li muito mais vezes a Turma da Mônica do que Dom Quixote, e, muito embora reconheça o inestimável valor de Maurício de Souza, sobretudo como incentivador do hábito de ler, ainda prefiro Cervantes. Já cantei muito mais vezes Trem das onze do que Coisas do mundo, minha nêga, e não me imponho por isso qualquer remorso.
Todo mundo tem amigos com os quais gostaria de passar mais tempo, aqueles de sair para almoçar de seis em seis meses, e contar as maiores intimidades recentes. Aqueles diante dos quais se pergunta o mesmo que me perguntei sábado ao pisar a quadra da Mangueira para o primeiro ensaio do carnaval: “Como pude ficar um semestre inteiro sem você?”. A única diferença dos amigos de todo dia para os bons amigos semestrais é que podemos esnobá-los mais amiúde, fingir ausência em sua deles companhia, quando na verdade apenas nos aproveitamos do conforto de estarmos próximos para fazer o que na solidão seria por demais… solitário. Cada um tem um limite de tempo para suportar qualquer atividade, inclusive conversar com os amigos. E são inúmeros fatores que contribuem para o estabelecimento desse limite, como, por exemplo e principalmente, a quantidade deles. (Três, volto a dizer, é um bom número.)
Pobre daqueles que ficam com peso na consciência por não dedicar à turminha o tempo devido, como se devido fosse, principalmente quando começam a namorar e deles ouvem reclamações de distância: fulano mudou, está diferente, não aparece mais… Claro que mudou, claro que está diferente, claro que aparece menos. As coisas mudam e, com elas, o tempo de cada um – o que não quer dizer importância. Alguns perdem as namoradas porque têm medo de ser chamados de autistas, velhos e chatos (adjetivos tão bacanas…) e se sentem numa forçada obrigação de manter o mesmo tempo dedicado aos amigos, o que, como se sabe, é matematicamente impossível. Certas relações amicais beiram o homossexualismo, e as namoradas têm todo o direito ao ciúme e ao pé na bunda, bem como à mais brilhante pergunta que uma mulher pode fazer: “Com licença, onde é que eu me encaixo aí?”.
Tentar extrapolar o tempo-limite de dedicação ao outro só porque um dia já foi maior soa como “tentar remendar uma obra defeituosa para levá-la à perfeição que não teve em sua primeira forma”. Como escreveu Huxley: “é vão e infrutífero”. Por isso, na praia, há um momento em que fecho o livro e os jornais e, durante cinco minutos, sacaneio um por um meus amiguinhos: a barriga, a careca, o nariz, a depilação peitoral, a voz afeminada, a cor da sunga e, como não poderia deixar de ser, o recorde de duas embaixadinhas - ao que, evidentemente, todos quase em coro me sacaneiam de volta: eu, o cabeçudo. Pronto. Eu nada seria sem esses cinco minutos. Agora já posso voltar a ler.


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