por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 29 de Julho de 2010, às 15:34
Da última à primeira, uma seleção de crônicas do personagem mais querido da internet, todas elas publicadas no site Tribuneiros.com. Incluindo: Juveninho no carnaval de Salvador.
Juveninho e o e-mail ignorado
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 27 de Maio de 2010, às 12:52
Os três maiores horrores de Juveninho são: o inacessível, o impossível e a impotência. Quando os três “is” se juntam, das duas, uma (ou duas): ou Juveninho bate a cabeça na parede; ou Juveninho deixa o sangue escorrer em prosa. Eis a sua arte, nascida em pleno seio (moreno) da batalha emocional. Se as criações da pesquisa militar – como leite condensado, microcomputador, celular e internet – viraram a base da vida diária no mundo; tem esperanças, Juveninho, de que suas criações em guerra amorosa também melhorem - em tempos de paz - a vida íntima de alguém. Há quem já agradeça pelo Leite Condensado Juveninho.
Os amigos se lambuzam. As amigas raspam o pote. Um simples e-mail não respondido pela morena ideal pode lhes render uma apostila completa de como responder e-mails. Quanto mais ignorado é Juveninho, mais intelectualmente nutridos ficam os amigos. A torcida é para que Juveninho permaneça num eterno fracasso existencial, alternando momentos de ilusão apaixonada, raiva incontida e desabafo literário. Juveninho ignora. Acha que, com ou sem ele, os amigos vão fazer tudo errado do mesmo jeito. Sua única esperança é que os filhos (dele e dos amigos) aprendam um dia com seu legado - e digam: “Pô, pai, Tio Juveninho era o cara!”.
No momento, ‘o cara’ não se conforma. Se a eternidade é o offline da musa, enquanto não tem o telefone dela; a desumanidade é o silêncio da musa, após seu convite pra tomar um sorvete. Que peso tem um sorvete? 250 gramas de maturidade? 300 gramas de humor? Parece-lhe natural que a internet, à medida que embaça a fronteira entre o acessível e o inacessível, seja o meio por excelência de paixões descabidas e desencontros marcados; e, fosse ele um fã de fotografia, um crítico de comunidade, um colecionador de perfil, ou um comentarista de status, até respeitaria o silêncio como um saudável “tenho-mais-o-que-fazer”. Sim, Juveninho é quase tudo isso; mas também é Juveninho, e conheceu a musa ao vivo. Isso não conta?
Há, evidentemente, um milhão de motivos para não se responder a um e-mail – ainda que já se tenha trocado uma porção. Após uma semana, Juveninho pôs-se no lugar dela e enumerou uns 30. Trinta possíveis respostas tardias da musa. Coração grande, avesso ao rancor e aberto ao perdão, Juveninho incluiu várias opções redentoras – cuja eventual veracidade o faria contente. Só excluiu o item “Não tinha visto a mensagem, mas te amo!”, embora fosse o seu preferido. Como em todo caso quem se dará mal mesmo é Juveninho, os amigos insistem que ele mande a lista, pedindo que ela marque a opção correta. Juveninho resiste. A resistência é a mais trabalhosa de suas obras. Milênios de sabedoria, ele diz, separam um ‘save’ de um ‘send’.
Sua parte, a seu ver, já está feita – pelo menos, a virtual. Não é um silêncio entalado no peito que fará Juveninho ignorar o impossível, extrapolando os limites da elegância. Seja lá o que a musa tenha entendido de suas atitudes, agora é a vez dela de tomar alguma. O silêncio dói, é verdade. Perto dele, dá quase saudade do poder libertador de um ‘não’. Mas tampouco viverá, Juveninho, como o viúvo voluntário de um amor sequer iniciado. Viverá, sim, como um viúvo tarado, dizem os amigos, divertindo-se com as moças certas (pelos sambas da vida) enquanto espera pela errada (conferindo o e-mail no celular). Juveninho desmente. Quanto mais maduro fica, mais exigente se torna, e mais intolerável lhe parece quem não sabe andar e sorrir.
Talvez seja esta a maior dor de sua impotência ante a morena impossível e inacessível. Saber que, doravante, e mesmo num silêncio ausente, ela estará sempre presente em sua vida como parâmetro. Um parâmetro à luz do qual todo recomeço soa como um eterno zigue-zague entre insustentáveis concessões. Um parâmetro brejeiro, feminino e lindo; difícil de ser sobrepujado. Não sabe, Tio Juveninho, por que afinal ela não respondeu ao e-mail do sorvete. Muito menos se – ou o que – ela responderia caso ele perguntasse isso. Mas distribuiu o ‘Quiz Juveninho’ aos amigos (”Este é meu sangue. Tomai e bebei!”), desejando bom proveito a seus filhos e netos.
O leite condensado está entregue. A múltipla-escolha está no ar. Se estamos todos falando com o vento neste mundo digital, ele diz, é possível que, um dia, o vento marque uma resposta.
QUIZ JUVENINHO
( ) E-mail? Que e-mail? Não recebi nada, Juveninho!
( ) Opa. Desculpe a demora. Eu precisava resolver algumas coisas na minha vida antes de tomar esse sorvete. Acho que agora já podemos. Vamos?
( ) Não posso. Tô em outra. Sei que é só um sorvete, mas, sei lá, não acho que eu deva.
( ) Juveninho, eu tenho medo de homem. Sou meio teen ainda. Pra mim, um sorvete é como um convite pro motel. Eu saio correndo, sem nem querer olhar pra trás, entende?
( ) Olá. Só estou lendo esses e-mails muito tempo depois. Tive um problemão naqueles dias; te conto na sorveteria. O convite é meu, dessa vez. Você ainda quer?
( ) Não quero, Juveninho. E não te devo explicações. Prefiro que não me mande mais mensagens.
( ) Desculpe, Juveninho. Eu mal conheço você e não me sentiria à vontade. Vamos ver mais pra frente.
( ) Não me leve a mal, mas há muitos psicopatas por aí. Uma vez, fui tomar sorvete com um cara, e ele botou a mão dentro da calça e… Ali mesmo, na minha frente… Mó trauma! Deixa eu me informar melhor sobre você.
( ) Iupiiii! Há quanto tempo não sou chamada prum sorvete! Só vi agora. Onde eu assino?
( ) Olha, eu não sei o que responder. Nunca sei o que dizer nessas situações. Ando um pouco confusa.
( ) Eu me acho - e acho que todos querem me namorar, por isso não saí com você. Tenho certeza de que você ia querer grudar em mim feito chiclete, e eu estou numa de ficar solteira.
( ) Ah, cara, eu até pensei em responder, mas minhas amigas falaram que eu não podia ser assim tão fácil, que eu tinha que fazer um doce. “Mal conhece o cara, e já vai tomar sorvete!?” Sabe como é: cedi.
( ) Pra ser sincera, eu não sinto muita firmeza em você – e ando cansada dessa ambivalência masculina: gente que vem-mas-não-vem; que está-dentro-mas-pode-não-ser-exatamente-assim. Eu não sou pesquisa de opinião, não tô aqui pra ser ‘sondada’. Preciso de um homem que me pegue pelo braço, e diga: “Vem cá: eu quero você, mulher! Não tem nenhuma outra que eu queira nesse mundo. Procurei você a vida inteira. O que mais vou precisar fazer, hein?”. E não vale falar isso da boca pra fora. Eu vou perceber.
( ) Ué, Juveninho… Você acha que é assim? Não, senhor! Eu sou difícil. Eu acho o máximo ser difícil. Se o homem me quer de verdade, ele tem que me convidar 30 vezes prum sorvete, ouviu? Trinta! (Pra jantar, são 80).
( ) Claro, Juveninho! Por que não? Não pude esses dias, mas vamos sim, que tal sábado?
( ) Não tenho vontade, Juveninho. De minha parte, fica o carinho por você. Mas busco outra coisa pra mim.
( ) Não respondi, porque não quero agora, mas também não quero perder você. Não quis dizer ‘não’, com medo de você partir pra outra. Quero que você continue apaixonado, mostrando seu encanto esporadicamente, assim posso ter sempre essa opção a meu dispor.
( ) Caramba, achei que você tinha entendido o ‘recado’… Não estou interessada em te conhecer, cara! Se toca!
( ) Preciso te contar uma coisa, Juveninho. Eu sou gay.
( ) Fui bobinha mesmo. Que mal tem um sorvete, né? (Além de algumas calorias…) Vamos combinar sim. (Qualquer coisa, eu tomo um diet…) Me manda um e-mail semana que vem.
( ) Bom, Juveninho: eu não quis te dar esperança. Nem quis ser muito simpática, que é pra ver se você me odeia, e me esquece. A minha forma de ser boazinha é essa. Sendo estúpida.
( ) Não fui, porque ainda não esqueci meu ex-namorado. Preciso de tempo.
( ) Eu acho que você é maduro. Que quer conversar. Que tem um carinho enorme por mim. Acho que a vida é feita desses momentos, dessas pessoas que, de repente, se reconhecem na gente - e isso é bonito; é o que torna tudo mais leve e, ao mesmo tempo, mais profundo. É isso mesmo? Me ajuda, porque eu não tenho certeza.
( ) Eu sou insegura. Notei que você gostou de mim de verdade. Que é um homem que sabe o que quer. Mas tenho medo de te decepcionar; de não ser tudo isso que você imaginou.
( ) Achei esta múltipla-escolha uma tremenda babaquice! Eu sei fazer a minha parte sozinha! Seu mané!
( ) Por motivos pessoais, eu não tinha respondido o outro e-mail. Eu ia responder que sim agora, mas depois desta sua mensagem – Jesus! -, um abraço, cara!
( ) Hahahaha! Você é hilário, Juveninho! Tô rindo muito aqui dessas opções malucas. Pelo visto, você realmente não me conhece, né! Vamos resolver isso. Eu estava ocupada, mas é claro que posso tomar um sorvete, seu bocó. Me liga mais tarde pro celular. O número segue aí embaixo, na assinatura.
( ) Não vou responder este e-mail. Nem mesmo marcar esta opção! Vou continuar aqui em silêncio. Eu me sinto bem calada.
( ) Você é só mais um, Juveninho! Não distingo você dos outros. Tenho muitos assim. E vocês me cansam!
( ) Não sei se você lembra de mim, Juveninho. Há 8 anos, você me convidou prum sorvete, e depois mandou essas opções. Nunca mais nos falamos. Agora eu te vi na TV, soube do seu livro… Ainda não li, mas parabéns! Anote aí meu novo e-mail.
( ) Nenhuma das opções anteriores. A verdade é que:
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Juveninho e Ela
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 14:29
Vou casar com ela. É o que diz Juveninho. Com a literatura? Não. Com a bola? Não. Com a cuíca? Também não. Com ela. Uma mulher? Sim. “A” mulher. “A” morena. Com nome, sobrenome e bunda grande. Os amigos dizem que Juveninho sempre diz isso - mas dessa vez é sério. Os amigos dizem que Juveninho sempre diz que dessa vez é sério - mas dessa vez é de verdade. Os amigos dizem que… Bom, os amigos não sabem de nada, diz Juveninho. A melhor forma de emburrecer é seguir o conselho dos seus amigos.
Mas quantos ex-namorados-eternos ela tem? Um, responde Juveninho com o indicador. Ah, então ela é mais nova… Bom, alguma coisa os amigos sabem. É a convivência virtual, ele diz. Se as moças convivessem indiretamente com Juveninho, também saberiam de alguma coisa. Para isso Juveninho escreve. Para que as moças se preparem pra ele. Que muitas acabem se preparando para outros homens (ingratos, segundo Juveninho), é o efeito colateral inevitável da escrita. Paciência. A Juveninho só interessa uma. Não “qualquer uma, que pelo menos dure enquanto é carnaval”. Ela. Por todos os carnavais.
A tarefa de Juveninho não é fácil. Há moças deslumbrantes, ele diz, que, crescendo sob o assédio de trogloditas, preservam-se ao máximo para não se deixar envenenar por qualquer um. E, quando à desconfiança soma-se um namoro mal convalescido, só mesmo um Juveninho para furar o bloqueio. A receita (sem garantias, ele antecipa) é o cortejo contínuo em doses homeopáticas, com a perseverança gentil do homem que sabe o que quer e ali permanece, obstinado e sorrateiro, criando raízes na alma da moça, enquanto os demais - revelando suas facetas a cada estação - vão caindo um a um, como folhas ao vento.
Pode levar anos. Nunca acontecer. Que importa? Quando o homem vislumbra seu ideal, tem por obrigação criar as condições para que este se realize – principalmente se o ideal tem a pele morena, e sabe andar e sorrir. Ah, suspira Juveninho, quanta coisa se diz num passo cadente e num sorriso envergonhado! Nas festinhas pop da cidade, sua vontade é pegar o microfone e ensinar: “Você. É, você aí de salto maior que a perna, e cintura nos seios, com o umbigo saindo pelo pescoço. Você se vestiu para uma foto ou para uma festa, querida? Acha mesmo que sua suposta beleza estática se mantém inabalável com este passo troncho? Francamente!”.
Para Juveninho, o ex-namorado-eterno é uma espécie de cinto de seio, pelo qual a moça cabeça-dura cria um apego tão grande que já não quer saber se (quanto mais por que) não lhe cai bem. É tanto amor, tanta saudade, tanto envolvimento que os motivos práticos da “separação” permanecem ocultos, inominados, ausentes da consciência; mas absolutamente ativos, e tanto mais desconcertantes quanto mais invisíveis, do jeito que o diabo gosta. Alheia à educação sentimental, ela segue apertando o cinto e se prendendo toda, até desaprender a andar. O ódio ao conhecimento, segundo Juveninho, tem este efeito tragicômico na vida amorosa: cria um monte de viúvas precoces, voluntárias e (não raro) taradas.
Chega uma hora na vida da gente (e Juveninho não sabe como seria “uma hora na morte da gente”) que as coisas vão ficando fáceis por um lado (o da pegação, da sacanagem, do suingue) e bem difíceis por outro (o do amor, do romance, da disponibilidade). Todo mundo já tem passado (presente…) demais. Juveninho tem o dele – não nega. Morre de saudade de cada ex-namorada e peguete. Até daquela que o roubou. Até daquelas que passaram direto no dia seguinte. Até daquelas que (por um ex-namorado, ex-noivo, ou ex-marido) sumiram assim, ó: puf! E, no entanto, poderia (e vai!) escrever mil romances sobre as impossibilidades (sexuais, inclusive) de cada relação. Juveninho não tem a menor dúvida de que morrerá assassinado.
Até lá, cortejará real e virtualmente sua idealíssima morena. Não sabe, Juveninho, quanto tempo ela vai demorar para terminar o namoro que já terminou, mas – não podendo nem querendo intervir direta e terapeuticamente no luto - só lhe resta acompanhar o processo à meia distância, mostrando que está ali. No fundo, torcendo para que alguma migalha de consciência lhe desperte a sede de libertar-se, em vez de render-se ao clã das viúvas taradas, que pulam de galho em galho pela noite, sob o compromisso único de jamais comprometer-se com ninguém a não ser o defunto vivo dum amor impossível que já passou. E como embarangam!, ele alerta, preocupado.
Os amigos, pela primeira vez, dizem que Juveninho está no caminho certo. Que ele tem tudo para conquistar sua morena aos 95 anos, com direito à valsinha dos bisnetos. Que nenhuma de suas colegas de quarto saberá andar e sorrir postiçamente como ela. Que eles estarão todos presentes à cerimônia, finalmente acompanhados de viúvas taradas autênticas, usando autênticos cintos de seio. Que a noite de núpcias promete. Que eles invejarão Juveninho pela única esposa realmente disponível, livre para um futuro promissor. Que ela, porém, chorará o assassinato de Juveninho até ler seus romances e abrir a tumba para lhe dar mais seis tiros.
Juveninho, pela primeira vez, não ignora. Sabe que - perto das histórias, dos problemas e dos desejos das moças - as capacidades do homem são sempre limitadas. Por mais que seja sério. Por mais que seja de verdade. Por mais que seja Juveninho. Mas, se o destino de sua geração é a micareta no asilo, nada como contrariá-la num casamento geriátrico. O rascunho do próximo e-mail está pronto. A fantasia de Velha Guarda, costurada. O romance da morena ideal, iniciado. Nada é impossível até agora – e, no que depender dele, jamais será. No amor eterno de Juveninho, a literatura, a bola e a cuíca só aguardam por Ela.
Juveninho Quintana e a busca da intimidade
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 19 de Abril de 2010, às 14:15
A melhor forma de saber quais peguetes seguem disponíveis é mandar um e-mail coletivo dizendo que você perdeu o celular e precisa dos contatos. Quem diz isso? Juveninho, claro. As primeiras a responder, ele ensina, são as mais ouriçadas. As segundas: não queriam parecer tanto. As terceiras: relutaram até o fim. E quem não respondeu, azar. [Em caso de silêncio geral, diz Juveninho, não pule pela janela]. Reza a lenda que Juveninho já “perdeu” o celular três vezes só este ano. Que ele passa dias e noites roubando e-mails na internet para aumentar sua lista. Que ele já conseguiu pegar de volta o telefone duma porção de gente morena que jamais constou em sua agenda. Que seu próximo passo é perder o celular no Twitter: “Queridas followers, roubaram meu iPhone. Mandem de novo seus telefones. Obrigado”.
Tudo seria maravilhoso (e é, diz Juveninho), não houvesse uma grande diferença entre disponibilidade de peguete e disponibilidade real. Os amigos que se iludiram com os números e acabaram de coração partido, é porque não ouviram Juveninho até o fim. A disponibilidade real, ele diz, é um dos maiores mistérios do nosso tempo – e testá-la, um dos esportes favoritos de Juveninho. Na vida adulta como na internet, há quem coloque “ocupado” quando está “disponível”; “disponível” quando está “ausente”; “invisível” quando está “em todas, pegando geral, no meio da pista”; e “num relacionamento sério” quando está “na cama com Juveninho”. Você pode sair, beijar, transar, namorar, noivar e até casar com alguém, cujo verdadeiro status, no fundo, era “indisponível”: o vulgo “só estava curtindo umas férias”.
Nada mais difícil hoje que encontrar uma morena Ficha Limpa, ele diz. Elas vêm sempre com uma porção de ex, e a gente nunca sabe em que instância se encontra o processo. O enredo clássico, segundo Juveninho, é o da mocinha que deixa um rastro de aventuras pela noite, para depois voltar ao ex-namorado, com quem passará a vida brigando em função dos peguetes que teve naquele doce intervalo de alguns verões. Juveninho, segundo os amigos, já fez o papel de peguete. Já saiu, beijou, transou, namorou, e só não casou (ainda), com mocinhas “em férias prolongadas” assim. Umas passaram direto por ele no dia seguinte. Outras – as que transaram, parece - enrolaram mais um pouco. Algumas juraram amor eterno. Mas Juveninho desenvolveu tantos índices de aferição (mensagens espontâneas, foot massage, planos de viagem, prioridade sobre miguxas, iniciativa sexual, pílula em dia) que, ao menor sinal de frieza ou displicência, ele mesmo avisa: você não está interessada.
É de opinião, Juveninho, que quanto mais as moças revelam o perfil, o estado civil, o que estão fazendo e quem estão amando agora, menos elas sabem sobre si – e mais perigosas elas se tornam. Juveninho adora um perigo. Quando as adolescentes passaram a mostrar na tal “pulseira do sexo” qual fruta da salada mista elas desejam, Juveninho pensou: que saudade da adolescência! Nunca foi tão radical e deliciosa aquela sucessão de frustrações em busca de um grande amor. A pulseira do sexo, ele diz, é o orkut de pulso. É como se sua geração tivesse inventado o limpador de pára-brisa, e só a seguinte o tivesse colocado pro lado de fora. [Não dá mesmo, segundo Juveninho, pra contar com sua geração pra nada. Nem pra comprar seus livros.] Fosse adolescente hoje, porém, Juveninho está certo de que as mocinhas o fariam de gato e sapato (principalmente gato). Se adultas, elas não têm a menor idéia do que querem, teens elas são as próprias Coringas tacando fogo no mundo, de rostinho pintado.
Juveninho adora brincar com fogo, mas não é o Batman. Ele sempre preferiu o Super-Homem e a visão de raio-X. Toda sua educação intelectual e sentimental teve dois objetivos básicos, nos quais ele jamais deixou de investir tempo e dinheiro. O primeiro é justamente enxergar as coisas e as moças como elas são. Agora que a ciência é toda fraudada para uso político, e as idéias falsas e paralisantes encontraram meios virtuais de se disseminarem universal e imediatamente, enxergar as verdades mais simples do mundo requer uma vontade e uma coragem super-heróicas. Da mesma forma – e, por conseguinte -, enxergar as moças por trás de sua própria maquiagem verbal e facial requer praticamente um Juveninho. Nenhum status declarado – seja de messenger, de “about me”, de pulso ou de dedo (ele garante) – é confiável, a não ser o status quo. Quanto mais os discursos se afastam das essências, ele diz, mais difícil se torna reconhecer verdades e morenas.
O segundo objetivo de sua educação é saber o preço de seus desejos. Em outras palavras – as de Juveninho -, o quanto ele precisa crescer – em todos os sentidos - para que a morena de bruços na praia, lendo um livro (no intervalo da altinha), lhe peça um autógrafo na capa. A maioria das pessoas faz o contrário. Quer que os desejos alheios paguem o preço de se mutilarem por elas. Juveninho cresceu vendo uma porção de amigos e namoradas repetindo a célebre frase do cabeça-dura limitado e da suposta última mulher do mundo (prestes a embarangar): “Tem que gostar de mim como eu sou”. Uma ova! Desejos, ensina Juveninho, não “têm que” gostar de bulhufas. Eles não obedecem nem os donos, quanto mais seus parceiros. Ou existe um cuidado em manter aceso o desejo do outro, ele professa, ou é melhor procurar um “outro” menos exigente (o que quase sempre significa menos bonito, menos inteligente, menos interessante - enfim: menos Juveninho). Não se prende elefante em gaiola, dizia o passarinho. Juveninho – ele admite – já foi gaiola de muita elefanta, até que resolveu virar um Safári.
Se o amor já é trabalhoso para quem está disponível, Juveninho identifica logo quem não está. Senão para pular fora, dizem, ao menos para saber o quanto pular dentro. Reza a lenda que sua visão de raio-X anda mais calibrada que a do Super-Homem. Que a cada celular “perdido”, Juveninho descobre o verdadeiro status do país inteiro. Que, pelo número de exclamações no e-mail da moça, ele diz o nome e o endereço do ex-namorado. Que, pelo tempo de resposta, ele diz de quantos namoros elas estão dando um tempo. Que ninguém melhor do que Juveninho enxerga qual fruta da salada mista está escrita numa “aliança do sexo”. Que o Batman só precisa dum holofote para socorrer as morenas, porque não tem o talento de Juveninho. Que, sem disposição e disponibilidade, nenhuma delas vai visitar o seu Safári e sentar no teleférico. (No máximo, ele diz, vai sentar no pedalinho). Para Juveninho, afinal, nada dá mais saudade que a intimidade. E esta só é possível – em todos os sentidos - quando ele pode entrar na relação de cabeça.
Ninguém sabe ainda qual é o verdadeiro status de Juveninho – por mais que ele esteja sempre “em horário de almoço”. Às morenas, contudo, ele avisa que seu discurso e sua essência jogam até uma altinha. E às indisponíveis, sem rancor nem sede de vingança, ele apenas deixa no Twitter sua carinhosa versão do “Poeminha do contra”, de Mario Quintana: “Todos estes que aí estão/ Atravancando o meu caminho,/ Eles passarão./ Eu Juveninho!”.
Juveninho N’ Roses
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 6 de Abril de 2010, às 22:48
O trânsito é a MTV de Juveninho. Quando há um engarrafamento na cidade, ele pergunta: “De quem é o show hoje?”. Os amigos gritam: “Lenny Kravitz!”, “Beyoncée!”, “Coldplay!”, “Cirque du Soleil!”, “Botafogo!”. Da maioria, Juveninho nunca ouviu falar. Até outro dia, ele achava que as moças usavam Beyoncée Secret, e que Coldplay era um concorrente do Cirque du Soleil. Agora já sabe que Beyoncée é a concorrente do Cirque du Soleil, e que as moças ainda não usam o Juveninho Secret. Quanto ao Coldplay, da canção God Put A Smile Upon Your Face, Juveninho só tem uma dúvida: onde mais Deus colocaria o ‘smile’? Upon your bumbum?
A música pop, ele diz, provoca antes de tudo o engarrafamento mental. Juveninho não pode ver uma morena cantando Patience que quer logo tocar sua buzina. Dos tempos em que a MTV de Juveninho era uma emissora, a única coisa que ficou, de fato, foram os Guns N’ Roses. Ficou longe. Bem longe. Até o último domingo, Juveninho nunca mais ouvira falar deles a não ser quando revia O Exterminador do Futuro 2, e cantava You could be mine, de cueca, no ouvido de alguma morena. Ele estava em casa, vestindo a mesma, quando um amigo ligou: “Tenho um ingresso para a sua adolescência”. Ok, pensou Juveninho, vou dar uma passadinha.
Foi uma passadinha de 7 horas, com capa de chuva a 5 reais; Sebastian Bach falando fuck you para o céu; mais 2 horas e meia de espera depois do show de abertura com a platéia em coro xingando a mãe de Axl Rose; sem qualquer comida à venda a partir das 23 horas, o que teria feito Juveninho ir embora não fossem as 4 barrinhas de cereal que trazia no bolso; e outros detalhes, segundo ele, absolutamente irrelevantes depois de um carnaval em Salvador; até o show principal finalmente começar à 1:10, e Juveninho procurar alguma razão - uma grande descoberta filosófica! - que fizesse jus ao seu testemunho do seqüestro da Apoteose. Sempre se pode aprender alguma coisa num show de rock, ele se dizia… Mas o quê?
Que dos 30 mil presentes, 29.900 não saberiam responder do que se trata qualquer música do Guns, Juveninho já sabia. Que dos 100 restantes, 90 responderiam “Paciência!”, “Chuva!”, “Selva!” e mais uma ou duas palavras que compõem os títulos, também. Que dos outros 10, 7 eram americanos que moram no Rio, mais ainda!, porque 4 eram morenas. O jeito, então, foi usar o método básico: onde a multidão vê um defeito, deve haver uma grande virtude. E, se o defeito era o atraso de Axl, Juveninho estava certo de que o atraso continha, de algum modo, a resposta para o maior enigma intelectual de sua carreira depois do talher de peixe. O que depreender, afinal, de um show de rock? Elementar, diria Juveninho: o desprezo pelo público.
Na abertura, além de xingar S. Pedro, Sebastian Bach leu uma porção de frases em português; vestiu camisa do Brasil; pegou e esticou cartazes; pediu “mãozinhas pra cima”; mandou repetir gritinhos de “ai-ai-ai”, “ei-ei-ei”, “ou-ou-ou”; exaltou até dar vergonha alheia o grupo principal, puxando o coro de “Guns!”, “And!”, “Roses!” com soquinhos no ar; e detonou, segundo Juveninho, seu repertório axé de conquistar a simpatia da “galera maravilhosa” através da bajulação coletiva. Se Axl Rose, por outro lado, falou uma vez um “Come on, Rio!” foi muito, o que deixou Juveninho quase orgulhoso da sua adolescência in the jungle. No homem comum, ele diz, a necessidade afetada de parecer gente boa já sinaliza a falta de atributos. No artista, se não é prova duma obra sem vigor, é desejo de aparecer mais do que ela.
Juveninho já pode imaginar Axl, antes de subir ao palco, perguntando a um subordinado: “Já estão me chamando de filho da puta? Ótimo. Daqui a pouco, eu entro”. E então ele entra, como se, senhor do próprio carisma, desse três gols de vantagem ao adversário. It’s so easy (easy)… Corre de um lado a outro; deixa-se ver por cada setor; canta e dança dum jeito próprio; toca piano; assovia; domina graves e agudos; e, se sai de cena para descansar a garganta velha, deixando aos músicos um número instrumental, o faz com a mesma indiferença, sem avisar bulhufas na ida ou na volta, para encanto de Juveninho. Um povo carente, ele diz, corrompido por mãos que o afagam, sempre verá o talento como arrogância, o inalcançável como presunçoso, o irresistível como abominável, abrindo-se aos medíocres enquanto trava uma eterna luta solitária de amor e ódio contra quem mais admira.
Para Juveninho, o artista que precisa ficar amiguinho de seu público já renunciou à arte. Juveninho não gosta de se citar como exemplo, mas reza a lenda que ele jamais virou miguxo duma morena. Por analogia, acha que Axl Rose também merece as mocinhas siliconadas e maquiadas que se enfileiram lá na frente para descobrir o tamanho de seu carisma. Está pensando até em fundar a Escola Rose de ‘Fazer O Seu e Que Se Dane’ (já conhecida como a “ERFOS e Que Se Dane”), para a qual convidará – como alunos, claro – cantores baianos, roqueiros, sertanejos, lapianos, sambistas, blogueiros, tuiteiros, pais de família, colunistas, professores universitários e demais meninos carentes do Criança Esperança mental brasileiro. O cordão dos puxa-sacos, ele diz, cada vez tem mais artista. Se Wilson Simonal, precursor nacional da “mãozinha pra cima”, fosse vivo, Juveninho também chamava. O rock nunca foi tão educativo.
Às 3:20 de segunda-feira, acabou o show do Guns N’ Roses, e até agora ninguém sabe o que colocaram na água da Apoteose. Os amigos estão perplexos. Querem a companhia de Juveninho em todos os próximos engarrafamentos da cidade. Há quem lhe garanta ingresso para três Lenny Kravitz. Há quem lhe garanta cinco Beyoncée. Há quem sete Coldplay. Há quem Soleil. E há Botafogo; sem trânsito nem nada. Alguns suspeitam, porém, que ele bajula Axl Rose, porque sonha com a rebarba morena duma turnê internacional. Que Juveninho se apaixonou por uma roqueira da Pista Premium, e agora quer levá-la para a “heaven’s door” fingindo gostar “do Guns”. Que Juveninho jamais falaria “o Guns” se não quisesse que uma morena dark falasse “o Zeca”. Juveninho não dá a mínima. Sabe que os amigos reduzem todo conhecimento humano a gostos e paixões. Que nunca vão tirar da adolescência mais que um “sorriso no rosto”. Que jamais aprenderão a transitar em meios diversos e roubar o melhor de cada um. Que se danem.
Juveninho N’ Roses garante: sábio de quem não precisa ficar amiguinho nem de seus próprios amigos.
O segredo dos olhos de Juveninho
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 24 de Marco de 2010, às 21:00
Não tem para Bill Gates, Gordon Moore, Warren Buffett. Em matéria de filantropia, Juveninho é o maior. Doou seus pensamentos ao Twitter. As morenas do mundo inteiro gritam: “Finalmente!”. As loiras: “Já era tempo!”. As ruivas: “É meu! É meu!”. Agora (mentira, há anos), Juveninho passa dia e noite estudando a alma feminina na internet. O Twitter, ele diz, é como o filme Do que as mulheres gostam. Você pode ouvir tudo que elas pensam; até querer sair correndo.
Depois de assistir duas vezes ao vencedor argentino do Oscar O segredo dos seus olhos, Juveninho está seguro de que as paixões não mudam. É possível encontrar um assassino seguindo apenas seu gosto e os lugares onde se curte aquilo. Da mesma forma – ele sempre soube -, é possível encontrar ex-namoradas. Para precaver-se, Juveninho mapeia a cidade pelo gosto de cada uma. Vai abrir o curso Como fazer sua Planta Baixa de Amores e Peguetes. A dele, pendurada no quarto, inclui até os ambientes virtuais e – claro – as fãs. Se algo acontecer com Juveninho, os amigos já sabem: as maiores suspeitas estarão no Twitter na hora do BBB.
O sonho de Juveninho é ter um selo de Verified Account, que o Twitter pendura nas páginas de pessoas e entidades famosas para atestar que elas são elas mesmas. Com seu estilo peculiar, ele garante: “Eu sou o Juveninho, porra!”. Mas ainda não teve resposta. Toda sua formação intelectual foi dedicada a ter este mesmo (porém mais amplo) poder: o de enxergar coisas, idéias, histórias e pessoas, e dizer: Verified Account. Até hoje, só o que conseguiu foi o telefonema diário dos amigos, pedindo a análise de suas (deles) peguetes. Fulana? Verified. Beltrana? Fake. A empregada já grita da cozinha: “Seu Twitter! Telefone!”.
Há boatos de que Juveninho, em breve, vai cobrar por ligação. O serviço já teria até anúncio: “Você ainda divide o mundo entre ‘gente bonita’ e ‘gente feia’? Suas escolhas merecem mais do que isso. Disk-Juveninho”. “Gente bonita”, ele diz, é o eufemismo criado por alguns ricos para, em vez de chamar pobres de pobres, chamá-los gentilmente de pobres e feios. Começou na roça (ele enumera: Brasília, Porto Alegre, Vitória, Niterói, São Paulo), onde a intolerância estético-social é mais clara e declarada do que no Rio de Janeiro - cá onde a mistura começa na praia, se estende pelo samba, acaba no motel e, dizem as boas línguas mulatas, atende pelo nome de Juveninho.
Boa parte da pop-elite carioca, segundo ele, já incorporou no vocabulário o provincianismo alheio. Só que, na roça, para diferenciar-se da “gente feia”, as moças elitizadas saem para tomar um chope, em pleno verão, vestidas como num casamento; aqui, a moda do chique-despojado apenas tratou de sofisticar o shortinho, a blusinha e o vestido básicos das cabrochas com uns babados e cintos esquisitíssimos, dos quais Juveninho tem tanto pavor quanto de seios de borracha. A semelhança entre roceiras e cariocas são as toneladas de cosméticos, postas especialmente para confundir os bêbados - e avisar aos sóbrios: Fake Account.
Quanto mais Juveninho passeia pelo Twitter, mais entende por que as patricinhas precisam tanto se diferenciar da massa menos abastada pelas aparências. Do interior pobre de São Paulo à Zona Sul do Rio, todas falam dos mesmos assuntos, com o mesmo grau de profundidade. Mudam só o colorido da página e, às vezes, os erros ortográficos. Sabe, Juveninho, que o diferencial das moças da elite tende a ser o horizonte intelectual mais amplo, porque dispõem duma bagagem educacional capaz de absorver melhor o aprendizado. Na maioria, no entanto, é somente horizonte, potência abandonada pela falta de vontade persistente e pelo conforto de já fazer parte da “gente bonita” do Bailinho.
Sim, Juveninho ainda procura uma morena da moda despojada-mas-despojada-mesmo, bonita-mas-bonita-mesmo, e inteligente-mas-inteligente-mesmo. Se é por interesse prático, profissional ou patriótico, ninguém sabe. Mas reza a lenda que seu olhar está cada vez mais apurado. Que basta dizer “Maestro, uma nota!” ou “Twitter, 140 toques!” que Juveninho diz qual é a música, a moça, o nível do português e o que ela está vestindo agora. Que, pela cor do pano de fundo da página do Twitter, ele dá a cidade, a classe social e os lugares dela na Planta Baixa de Amores e Peguetes. Que o disk-Juveninho recebe mais ligações que o Criança Esperança e o Shoptime juntos. Que ele vai conseguir o selo de Verified Account muito antes dos Tribuneiros.
Juveninho não nega. Seu Twitter já revelou do que ele gosta e para onde apontam seus olhos. Agora, as moças já podem ouvir tudo que Juveninho pensa; até quererem sair correndo.
Juveninho no carnaval de Salvador
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 13:22
Vou te comer! Vou te comer! É o que diz o Lobo Mau do axé. Juveninho nem sabia que se comia em Salvador. Achava que era tudo “na base do beijo”, do “vamos namorar, beijar na boca”, do “me dá um beijo bem gostoso, só teu sabor me satisfaz”. Viveu uns minutos de esperança no avião: teriam as coisas evoluído na Terra do Nunca? Nananá!, concluiria em terra firme. Comer, naquelas bandas, ainda é coisa de Lobo Mau. Não importa. Juveninho está sempre preparado para um conto de fadas.
Histeria, histeria! - é o estado que chamamos folia, e ela começou na concentração do Nana Banana, no Farol da Barra, onde Juveninho – mui preocupado com sua defasagem de repertório, humilhantemente estacionado em “cara caramba cara caraô” - conseguiu decorar, segundo ele, os maiores hits do carnaval baiano desde 1950, incluindo os novos e os futuros. Tutatá! Parará! Nananá! Ô, ô, ô! Em cinco minutos (ou duas águas), Juveninho já cantava mais que o presidente do fã-clube do Chiclete. E era como se a cidade lhe retribuísse: “Ah, que bom [que] você chegou” e trouxe o quê que faltava…
Bem-vindo a Salvador, Juveninho!, diziam suas morenas imaginárias, surgidas numa brecha miraculosa entre os facebooks cariocas de sempre. Mas onde elas estavam de fato? Juveninho procurou na frente do trio; entre o caminhão da banda e o de apoio; atrás do caminhão dos banheiros; na fila do banheiro feminino; e só não morreu esmagado pela multidão sudorípara porque a muitas folionas faltou malhar glúteo. Com licença: alguém sabe onde estão as bonitas? Não - Juveninho se antecipava -, não foi ele que bebeu pouco, foi a água. É de opinião, Juveninho, que a água torna o homem mais seletivo, por isso deve-se beber muita água no verão. Quer um gole?, diria às bonitas.
O sonho de Juveninho: encontrar a mulher de sua vida e, como sua “ídola” Beatrix Kiddo, de Kill Bill, “chorar de emoção” - como dizem - deitado no chão do banheiro (mas sem abraçar um ursinho de pelúcia), aliviado depois de enfrentar o Deadly Viper Assassination Squad de seus ex-amores. É uma cena melhor (e mais viável – ele reflete - de se protagonizar na Bahia) que a do casal no carro conversível rumo ao horizonte, onde os filmes terminam e os problemas começam. Juveninho queria viver esses problemas conjugais – os problemas que importam, como dizia O filho da noiva -, sem jamais precisar dum vale-night, ô, ô, ô. E só há uma solução pra agonia de Juveninho: procurar A Noiva!
O problema é que as beldades trocaram o asfalto pelos camarotes: se para as feinhas já é difícil andar incólume, para elas – sobretudo no Nana sábado e no Camaleão domingo – é pior que desfilar de biquíni na Av. Rio Branco. Mulher bonita no bloco, segundo Juveninho, só as que trabalham (distribuindo bandanas, leques, chapéus, cartazes de “Me beija”) e as que terminaram um namoro teen de 8 anos e estão achando o máximo serem cortejadas e agarradas por um bando de trogloditas. [As primeiras não podem beijar durante o circuito, ele diz. As segundas não sabem o que fazer depois. Há também as que rebolam em cima do caminhão, mostrando à massa a cor da calcinha, mas essas não interessam a Juveninho, senão como paisagem. Restam – oh, esperança! - uma ou outra exceção, quiçá chicleteiras de primeira viagem. E Juveninho adora uma exceção morena, de preferência embrulhadinha pra viagem.]
Não. Nada tem, Juveninho, contra os trogloditas que agarram as moças à força até que elas se rendam num beijo de alforria. Cada um usa os recursos de que dispõe. Se Juveninho estivesse necessitado do orgasmo salivar dum beijinho na boca; se não dominasse o idioma vernáculo para arrancar uma risada morena com as mãos nas costas; se não liberasse uma alfazema natural para despertar o rebolation das baianas; se não tivesse o menor interesse em saber o nome dos pais e o telefone das moças para sair do balanço ao trepa-trepa; e se realmente precisasse contar aos miguxos os placares da salada mista carnavalesca, Juveninho jura que também daria uns 15 mata-leões por bloco, com direito ao colarzinho azul e branco dos Filhos de Gandhy a cada vítima conquistada. Aliás, ele comenta em voz baixa: colarzinho meio gay.
Tô a-pai-xo-na-da por você há muito tempo!, confessou uma chicleteira no meio do Camaleão. Quanto tempo?, Juveninho quis saber, já famélico. Desde o início do bloco. Ah, isso em Salvador é uma eternidade… Juveninho quase se comoveu com tamanha paixão, e quase se prostituiu pelas barrinhas de cereal que a moça levava no bolso. Como pôde esquecer as dele? Não há água que dê conta de mais de cinco horas de quebra-costela na Av. Oceânica, e por pouco Juveninho não atravessa a corda de segurança para arriscar o abadá, a cabeça e o estômago por um delicioso “churrasquinho de bactéria”, como chamaria Ivete, no Arrastão das cinzas. Ele leu nos manuais do carnaval: não alimente os seguranças; não alimente os cordeiros; não alimente a pipoca; mas com que alimento ele cometeria tais crimes, se ninguém os vende no percurso? Em terra de bêbabo, diz Juveninho, sóbrio morre de fome; e ele precisaria de muito jeito para conseguir uma barrinha sem conceder um beijo aquém de seu padrão, não tivesse a moça uma rara compaixão pelas agruras dum abstêmio gentil. Ufa. Salvo pelas fãs.
Na altura do Clube Espanhol, um amigo cutucou Juveninho: ih, olha lá, não é aquele escritor? Juveninho deu de ombros. O autor de Um sóbrio em Salvador, não está vendo?, com nome de colírio, como é mesmo?, Felipe Moura Brasil, acho, mas chamam de Pim. “Nunca ouvi falar”, respondeu Juveninho. Há seis anos ele descreveu tudo isso aqui, Juveninho, você está muito atrasado. Juveninho fez uma cara de quem não queria descrever bulhufas. Não gosta dele? Eis o que interessa a seus amigos na literatura, pensou: a fofoca. Deixou, então, escapar que não ia com a cara do sujeito, porque ele vive falando de Juveninho pelas costas e botando palavras em sua boca. Não é o que fazem vocês escritores, Juvenal? “Vocês escritores”, repetiu Juveninho, com escárnio: “vocês homens”, “vocês cariocas”, “vocês isso”, “vocês aquilo”, seu amigo lhe parecia uma mocinha recalcada com aquele típico discurso equalizador. Pôs um ponto-parágrafo com sua resposta-padrão às fêmeas: Eu sou o Juveninho, porra!
O melhor lugar do mundo para ser confundido com qualquer um, observa Juveninho, é o carnaval de Salvador. Basta dizer que você vai ou foi, e pronto: você vira “vocês”. Ah, imagina só essa mistura… Quer ver a menina a quem você deu amor tentando te beijar como se você fosse igual ao fanfarrão que ela pegou na véspera? Quer ver uma ursinha saltitante em sua direção, como se recém-nutrida duma poção gummy, sair muito ofendida quando você vira a cara para cumprimentá-la ao invés de meter a língua que ela julgava certa boca adentro? Quer ver aqueles cupidos que apresentam as amigas – que eles queriam, mas não conseguem pegar - perguntarem, ao vê-lo sair educadamente, se você “não gosta de mulher não, cara”? Quer ver os histéricos mais vaidosos (eles são fabricados em série, segundo Juveninho) - do tipo que precisam ser admirados por todo mundo, inclusive pelas mulheres dos coleguinhas - dando em cima da sua mulher, como se você fosse coleguinha? Então chame-chame-chame, chame gente!
Para se produzirem reis e rainhas do pedaço, ensina Juveninho, basta recortar a realidade: passe uma corda ao redor da sua geração, e faça cada membro acreditar que ali dentro ele é livre, ele é free, ele é dó, ele é mi, suas escolhas não têm conseqüências, ele está seguro do resto do mundo pela corda e de si mesmo pelo aperto, ninguém terá tempo nem espaço para usufruí-lo com profundidade, e assim, no calor do rebanho, ele poderá receber e distribuir abraços e beijinhos e carinhos mas com fim!, salvo de maiores exigências, eximido d’outras habilidades, sem dizer patavina a não ser “sim” a seus desejos imediatos; mas por favor não se esqueça: aumente o som pra galera sacudir! E sai do chão! Parabéns, diz Juveninho: você montou sua arena de Vale-Quase-Tudo, e agora basta esperar a poeira e a vaidade subirem. Ali, onde os fracos têm vez (e as feias também), os belos serão deuses que, viciados nas lisonjas do olimpo, pularão de arena em arena, bailinho em bailinho, fingindo-se tanto mais vivos e livres quanto mais deficientes e dependentes dos bocós que os veneram. E dirão: “Foi o máximo!”.
Juveninho aprendeu com Olavo de Carvalho: “não há nada mais perigoso no mundo do que um idiota persuadido da sua própria normalidade”, de modo que sai correndo dos vaidosos machos (para que não dêem em cima de sua mulher sem se darem conta) e das vaidosas fêmeas (para que ele mesmo não dê em cima delas sem se dar conta). Havia vários nichos da espécie nos mil ambientes do Camarote Salvador, o mais badalado castelo do carnaval, onde Juveninho matou saudades da comida típica do Rio de Janeiro (a japonesa); e, cansado de sair do chão, resolveu descer até o mesmo, ao som do “Melhor DJ do Mundo” - um título intrigante para Juveninho, que não sabe como se dá tal eleição, mas imagina que seja de maneira semelhante à da “Formiga Mais Bonita”. De qualquer modo, não gostaria de ser mesário em nenhuma.
Há quem diga que carnaval de verdade é sair em bloco. Que camarote é uma festa como outra qualquer. Que, se for para ir de camarote, é melhor viajar pra Ibiza. Há quem diga que “gente bonita” só tem no camarote. Que, chegando cedo, dá pra ver os melhores blocos passarem. Que alguns té param em frente prum show particular. Juveninho nada diz a respeito, a não ser que “gente bonita” é papo de cabeleireiro (quando não sub-eufemismo de “ambiente exclusivo”). Que homens e mulheres falem entre si sobre “gente bonita”, é sinal, diz Juveninho, do quanto já descemos abaixo da linha do pudor. Quando uma moça lhe fala em “gente bonita” (ou dá faniquitos pelo George Clooney), Juveninho sai logo para o toalete. Ela deve tê-lo confundido com seu cabeleireiro.
O melhor lugar, para Juveninho, é lá na frente dos blocos (de segunda e terça no Barra-Ondina, principalmente), colado aos cordeiros dianteiros, onde – imagine!, ele diz – é possível até conhecer gente. Isso mesmo: gente, terráqueos – “pessoa humana”, como dizem -, aquela coisa antiga com nome, sobrenome, gostos, afazeres, infância, sonhos, graça. Juveninho só avisa aos incautos que não reparem se, no dia seguinte, aquela pessoa com quem você passou horas, conheceu a história, sabe se os pais são casados, levou em casa e esfregou a língua lhes der duas bochechadas apressadas ou um “tudo bom?” e passar direto. A regra é clara: se não quer – ou não sabe se quer – ficar com fulano de novo, não fale com ele! É mais fácil! Destrua o vínculo afetivo em nome da sua imaturidade amorosa – e venha com as miguxas! Qualquer coisa, “era carnaval”…
Mais seis!, gritou um rapaz de dentro do banheiro masculino. Era hora de Juveninho fazer xixi, com cinco marmanjos ao lado, no mesmo mictório. Durante o ato, outros desesperados socavam as arestas do caminhão, exigindo pressa. Juveninho nunca pensou que fosse dizer isso, mas que saudade do banheiro químico! O xixi, ele diz, é como o beijo: requer serenidade. No meio da histeria, ninguém tira dos prazeres tudo que eles têm a dar, daí que se busque na quantidade a compensação impossível. Onde se urina mal, segundo Juveninho, beija-se mal. Também reconhece, Juveninho, a qualidade dum beijo feminino pelo carinho no braço. Pode cair o mundo que as maduras passearão as mãos devagar, deixando os dedos (como os lábios) sentirem o sabor da pele. As mal resolvidas, ao contrário, na ânsia de mostrar serviço, parecem sempre fazer cócegas em barriga de cachorro. Batata!, grita Juveninho: não sabem beijar.
É seu aniversário?, perguntou uma no Me Abraça de terça. Não, disse Juveninho. Mas você está de parabéns. Obrigado. Meia hora depois: é seu aniversário? Você já me perguntou isso. Ah é? É. Mas você está de parabéns. Obrigado. Juveninho se sente quase um reizinho com a criatividade das fãs, e mal pode esperar pelas próximas abordagens. O conteúdo carnavalesco o engrandece de tal forma que ele sente o coração fazer tutatá. Quando se vê, lá está Juveninho, banhado pelos esguichos de cerveja, o tênis destruído, o corpo (mentira, ele diz) axurriado, as virilhas e os suvacos assados, suplicando a Durval que volte logo do intervalo, atento aos avisos em playback (ou era o irmão?) de Bell, preocupado com mamãe Ivete, assombrado pelos dançarinos-plantas da borboleta Daniela, perguntando ao Jamil onde diabos está a Mila das mil e uma noites de amor com você, cantando “Eu quero uma latinha” e levando uma latada na cabeça, com milhares de reais a menos no money belt, a maior invenção da humanidade, segundo Juveninho, depois da barrinha de proteína, que ele também rouba da equipe de enfermagem dos Anjos da Folia, sem deixar de contemplar ao redor, em alguma cinturinha moleca, o rebolation que tudo justifica.
Agora: se Juveninho encontrou ou não uma exceção morena, com quem pudesse driblar o tempo, o som e o espaço quando eles literalmente atropelam o corpo e a alma, e abstrair o universo em torno no momento indelével dum beijo vagaroso, ninguém sabe. Quem ganhou o Vale-Juveninho? Há quem diga que foram as camareiras do hotel. Há quem diga as panfleteiras do bloco. Há quem garçonetes do camarote. Há chicleteiras de primeira viagem. Reza a lenda que Juveninho e as baianas se entendem no olhar e na pipoca, mas os amigos dizem que ele saiu liso da avenida. Que levou um monte de “tudo bom?” pra casa. Que está até agora passando talco nas virilhas. Que fez xixi no canto do mictório, virado pro ralo, e só caíram duas gotas. Juveninho ignora. Cansou de mandar caso perdido à terapia. São uns 5 mil por bloco em Salvador, e ele nem tinha tantos cartões de visita da doutora.
Depois de comer na tradicional churrascaria Boi Preto, onde os peguetes se reencontram na ressaca da folia, Juveninho foi embora na quarta-feira de cinzas – e ninguém sabe ao certo se ele gostou do carnaval. Mas dizem as boas línguas baianas que, no banheiro do Ondina Apart, antes do check out, Juveninho sentou no trono e chorou.
Juveninho e os amores impossíveis
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 28 de Janeiro de 2010, às 12:08
Juveninho recebeu uma declaração de amor de uma mulher extraordinária. Ela tem 85 anos. Foi numa lanchonete, em Ipanema, enquanto Juveninho comprava seu açaí com morango. “Meu filho!”, disse ela, séria, com o dedo em riste, ao que ele anteviu uma bronca por entrar sem camisa: “Que olhos lindos você tem!”. Juveninho agradeceu, aliviado e tímido, sob a atenção risonha de fregueses e balconistas. “Se eu fosse mais jovem”, gritou Dona Elza, “eu casava com você!”. [Juveninho cogitou pedir o messenger de Dona Elza, mas temeu seu offline]. Soerguendo-se no banco, ela deu-lhe o braço: “Anda, meu filho, me ajude a levantar.”
Não sabe, Juveninho, por que as moças - especialmente as bonitas - demoram 85 anos para ficar inteligentes assim. [Ou sabe: elas passam 40 ouvindo essas coisas e, com sorte, demoram mais 45 para aprender a dizê-las. Não é o caso de Dona Elza, claro, mulher de atitude desde a mais tenra e bela mocidade, segundo a imaginação de Juveninho.] Em todo caso, a cantada das senhoras, ele diz, é como a das feias: existe para dar confiança em encarar as bonitas. Copo na mão, Juveninho chegou à praia de olho na morena dos panfletos: “Que linda bunda você tem! Eu me caso com você!”. Mas desistiu. Precisava de mais 60 anos ou menos morango no açaí.
Juveninho anda preguiçoso. Nada lhe dá tanta preguiça hoje quanto uma moça bonita. As de sua idade (as feias também, mas Juveninho é rapaz de foco), ele as divide em cinco tipos básicos (não raro cumulativos): as anoréxicas, que não assumem a doença nem para si; as piriguetes da night, que ficam com todo mundo; as semi-solteiras enroladas com ex-namorados eternos; as superindependentes, que moram sozinhas e levam homens pra casa como um sabonete; e as recém-casadas (com aquele sujeito tão “fofo” quanto a última bolsa da moda), todas – antes dos 30 – já com seu amante. Acha, Juveninho, que o destino de sua geração é mesmo a micareta no asilo: comprando o abadá do primeiro lote, você já leva um babador.
O abadá é o símbolo da Era das Possibilidades. E onde tudo é possível, ele diz, nada é possível. Onde nada é impossível, tudo é impossível. Onde ninguém termina coisa alguma, ninguém começa coisa alguma. Onde se volta do supermercado com um mamão, um sabão em pó e um marido, jogam-se no lixo a casca, a caixa e o compromisso. A missão de Juveninho: colocar o impossível de volta em circulação. Seu plano: fundar a EDECI - Escola Dona Elza de Consciência das Impossibilidades, cujo primeiro dever de casa será analisar a brilhante frase: “Se eu fosse mais jovem, eu casava com você!”. A expectativa (alta) é de que, em 5 ou 6 anos de graduação, as moças descubram onde está o impossível na relação com seu primeiro ex-namorado.
Enquanto uma aluna nota 10 não se forma, Juveninho procura uma exceção autodidata. “Transforma-se o amador na cousa amada”, escreveu Camões, e Juveninho não quer transformar-se num polvo. O poeta notou que, apesar de termos em nós o que desejamos, o amor jamais se completa sem a correspondência material, física, da amada - com o que concorda Juveninho, embora não encontre corpos morenos e graciosos sem uma lista de sócios-proprietários. Os amigos dizem que as bonitas é que não querem saber dele. Que, nesse clube, Juveninho só recebe bola preta. Que ele é apenas um peso médio, como o Rob, de Alta Fidelidade, e “You gotta punch your weight”. Que seu destino, portanto, é ser o galã do Retiro dos Artistas. Juveninho ignora. Aprendeu com Ovídio: “É o ápice que provoca a inveja”. Mas, na dúvida, comprou a camisa do Retiro dos Artistas.
Se todo mundo está disponível e indisponível ao mesmo tempo, o segredo é… Bem, Juveninho não sabe o segredo, e continua procurando uma exceção morena. Na praia, segurando o panfleto de uma festa eletrônica, a única certeza de Juveninho é que 11 DJs não fazem um verão. É preciso, no mínimo, dispensar 10, e ensinar o outro a tocar um chocalho. Mas em terra de mal resolvidos, ele diz, todo DJ é um rei. Sabe, Juveninho, que a confusão mental de seus conterrâneos tem origem num ambiente cultural onde o essencial e o irrelevante, o eterno e o efêmero, a realidade e a moda, se misturam alucinadamente, deixando a massa perdida entre o que presta e o que não presta, o que dura e o que não dura, o que se sustenta e o que não se sustenta, e por quê. A onda é escolher o marido por critérios como fofura, portabilidade e status, porque a funcionalidade pode ficar com o amante. Amamos tanto o ecletismo, ele diz, que nosso coração virou um DJ.
O primeiro passo de Juveninho para acabar com isso é proibir a frase: “Fulano fez o impossível”. Se foi feito, não era impossível: era falta de imaginação de quem disse - contribuindo para a crença geral de que nada é impossível. E deduzir, do desconhecimento da coisa, a inexistência dela aliena todo mundo. Nada – além da verdade - foi mais difamado em nosso tempo que o impossível. Hora do direito de resposta. Para Juveninho, o impossível numa escolha amorosa tem mil e uma formas, dependendo do desejo de cada um: está num hálito ruim, num beijo destrambelhado, num sexo insosso, numa beleza aquém, num humor faltante, num charme perdido, num descompromisso existencial, num desinteresse profissional, numa diferença intelectual, moral, de educação ou de ambição, nos pais que você não quer como avós de seus filhos, ou – principalmente, diz Juveninho – num excesso de blush nariz acima.
Sem recursos mentais para analisar essas coisas [sobretudo o blush] até o fim, esgotando as possibilidades de um relacionamento para dele ao menos saírem bem resolvidas, as pessoas hoje, segundo Juveninho, quando estão diante de uma dificuldade qualquer ou já do próprio impossível em carne e osso, o que fazem como solução? Dão “um tempo”! [De modo que há pessoas dando um tempo em três namoros ao mesmo tempo.] São, para ele, como o peladeiro seriamente contundido que, em vez de fisioterapia, passa duas semanas sem jogar [ou jogando futevôlei]: quando volta, sabe Juveninho, machuca-se mais ainda. No verão carioca, então (a estação dos “tempos”; a farsa sazonal dos indisponíveis), achar um grande amor só não é impossível porque a Juveninho não faltam imaginação nem atitude. A essa hora, dizem, ele já está na internet, pesquisando se Dona Elza tem uma netinha morena.
Juveninho e a paixão offline
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 14:59
Sim, Juveninho sumiu. Sim, não deu notícias. Não, não tem um livro para justificar sua ausência. Tem uns atestados médicos. Mas está ótimo, “obrigado”. Escrever para ocupar a cabeça – é o que Juveninho precisa [dizem]. Escrever para não enlouquecer. A escrita como medida profilática é terrível, ele diz, porque você acaba revelando por escrito qual é o seu problema. Juveninho não vai fazer isso. De vingança, contaminará o leitor com a doença. Por uma frase, ao menos. Ou duas. Está bem: três. Juveninho tem horror ao inacessível - eis a verdade. Principalmente, se o inacessível tem a pele morena, queimada de sol.
“Ai!”, diria o Werther, de Goethe, “a distância assemelha-se ao futuro! Uma massa enorme de trevas existe constantemente diante da nossa alma”. Os adolescentes dizem isso hoje: trevas. É sinistro, é “trevas”. Normalmente, sobre aquilo que não entendem. Juveninho entende os adolescentes. Juveninho entende as trevas. O problema de Juveninho é o intervalo entre uma treva e outra. Sentir, ele diz, a ausência de quem você contemplou ou abordou rapidamente, mas ainda não conheceu, não pôde conversar sem a preocupação da hora, da intromissão, da piada atonal e mal compreendida. Não é a distância. Não é o futuro. É o inacessível. A “entretreva”. Em outras palavras: o offline.
Juveninho detesta o offline. Os amigos logo o mandam trabalhar, distrair-se, escrever – como quem presta serviços -, ocupando-se de sua inserção social. Werther reclamava quando lhe sugeriam “amar com moderação” e regular seu tempo, empregando uma parte no trabalho e as horas de recreio – imagine! - “no cortejo de vossa amada”. Para salvar seu amor e seu talento artístico da aniquilação maquinal, Juveninho igualmente ignora essa gente, mas também não vai se matar por amor impossível algum. A menos que morra de saudade, com a cabeça no teclado, a mão no mouse, o cursor no refresh do orkut, e o barulho do messenger acordando os pais: “turururu”, “turururu”…
Para Juveninho, a pior coisa da morte é a certeza de que virá um médico enumerar as causas, como se a ciência soubesse a causa de alguma coisa e Newton tivesse explicado por que os corpos caem, e não apenas descrito seu movimento. Juveninho preferiria que uma adolescente vislumbrasse seu belíssimo cadáver, esculpido a muita malhação e futevôlei, e dissesse assustada: que trevas! Seria mais honesto, ele diz. E depois, sim, que um (seu) biógrafo, como Paul Auster, revelasse então que Juveninho morreu porque estava “com o coração partido. Algumas pessoas riem quando escutam essa frase, mas isso é porque elas não conhecem nada do mundo. Pessoas morrem porque estão com o coração partido. Acontece todo dia e vai continuar a acontecer, até o fim dos tempos”.
Juveninho conhece alguma coisa do mundo, e não pretende morrer tão cedo. Por isso agüenta as entretrevas, evitando alimentá-las. Como? É simples, ele ensina. Evitando as teens. Há duas maneiras básicas de distinguir entre menininhas e mulheres. A primeira é simples. Menininhas não podem largar as “miguxas”. Já as mulheres dizem às amiguinhas que vão ali com você, e pronto. A segunda é quase tão simples. Menininhas não sabem que podem dizer não quando bem entenderem, então acham que qualquer atenção é um supersim. Mulheres são senhoras de si, e sabem [como ele] que podem ser educadas, simpáticas, conhecer, conversar, interagir, sair, jantar, ir ao motel e, se decidirem que não querem nada, basta negar o beijo ou inventar uma desculpa, porque os desencontros fazem parte da vida. (Ok, consente Juveninho: ir ao motel, não).
O problema é que não basta evitar as teens para evitar o offline - a maior agonia contemporânea -, a dor que Juveninho passa enquanto escreve sobre a dor que não passa. Bem-feito, dizem os amigos: quem mandou escolher a melhor? Juveninho ignora. Só a melhor lhe interessa. Na praia, ao avistar a morena queimada de sol, houve quem dissesse: você não viu Uma mente brilhante? Não se lembra do Equilíbrio de Nash? Da teoria de que não se deve ir logo na mais bonita que você não vai se dar bem? Está ouvindo? Estou, respondeu: “John Nash é o caralho. Meu nome é Juveninho, porra”. Os amigos se calaram. Sabem que Juveninho não é de aspas nem de palavrão, muito menos de citar o cinema nacional. Temeram o que Juveninho-Zé-Pequeno faria com quem obstruísse o caminho à sua musa. E ninguém se dispôs a morrer pela matemática.
A eternidade, dizem os cafajestes, é o tempo entre o orgasmo e deixar a mulher em casa. Juveninho despreza os cafajestes. A eternidade, para ele, é o offline da musa, enquanto não tem o telefone dela. Há quem pense que o offline tem o poder de aumentar ou diminuir uma paixão, o que é mais uma bobagem teen. Juveninho já está bem grandinho para saber que o sucesso de uma relação não depende do tempo em que as coisas acontecem (inclusive – mas não só - aquelas…), mas da qualidade. Fugir das provas práticas e (ou para) querer o maior amor do mundo é coisa de miguxa. Só duas coisas, segundo Juveninho, merecem todo o amor do mundo mesmo quando não demonstram a menor qualidade: os filhos e o Flamengo. Para ter os primeiros, primeiro é preciso assistir junto a muitos jogos do segundo. Sua musa já demonstrou várias qualidades. Juveninho só torce para não cair de cabeça no teclado antes do seu “turururu”.
Juveninho e o apagão
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 11 de Novembro de 2009, às 14:55
Onde estava Juveninho durante o apagão? Com quem? As morenas do mundo inteiro exigem uma resposta. Ou duas.
Juveninho não tem blackberry. Juveninho não tem iPhone. Juveninho tem radinho de pilha. Em quase três horas de apagão na noite chuvosa do Rio, ficou abraçado a ele como nos tempos de cadeira azul no Maracanã. No lugar de Zico, Edmundo. O original? Não: um genérico, da Paraíba. Deitado na cama, com o celular descarregado, e atrás de informação sobre o futuro da energia nacional, Juveninho foi obrigado a ouvir Vasco e Campinense, pela série B do Campeonato Brasileiro. Morrendo de medo, claro. Quando a única notícia da civilização é um jogo do Vasco na Paraíba, diz Juveninho, estamos muito próximos do juízo final.
Aos poucos, chegavam declarações de autoridades como o ministro Edison Lobão sobre o desligamento da hidrelétrica de Itaipu, possivelmente devido a “tempestades”, “vendavais” e “problemas atmosféricos” – segundo Juveninho, os maiores criminosos do Brasil depois da “sociedade”. Juveninho também jamais perdoaria a natureza por obrigá-lo a ouvir Vasco e Campinense, não tivesse sido este, felizmente, um jogo cheio de tumultos, expulsões, pênalti perdido, porrada e sangue - em sua imaginação: muito sangue. Enquanto os carros batiam nos cruzamentos sem sinais, e os pedestres eram assaltados nas ruas escuras, e os moradores ficavam presos nos elevadores, e os mosquitos devoravam Juveninho no quarto sem ar-condicionado, Edmundo dava um soco em Carlos Alberto e era expulso. Aquilo o distraiu. Quando moleque, chamaram Juveninho para jogar no Vasco. Mas ele preferiu os mosquitos.
Nunca soube, Juveninho, se primeiro se apaixonou pela bola ou pelo rádio. O futebol era divertido às vezes; o futebol no rádio, sempre. Sua maior influência literária é o garotinho José Carlos Araújo, o melhor locutor esportivo de todos os tempos. Juveninho deve toda a sua carreira (lêem-se: morenas) a ele. Muito agradecido, dizem, grita em pensamento a cada uma: “Entrou! Golão, golão, golão!”. Nos últimos meses, Andre Agassi lançou sua autobiografia, revelando casos com drogas e doping; Hulk Hogan lançou sua autobiografia, revelando ter pensado em suicídio. Fora o Zico, diz Juveninho, os ídolos de infância são sempre uma decepção. Mas vai comprar a biografia do Garotinho. Acredita que a santidade precisa voltar à moda. Por isso anda escrevendo sua história, no romance autobiográfico Enquanto a babá trepava. Se Juveninho é um “Anjo Pornográfico”? Ora, ele diz, isso é para os feios. Juveninho é o Santo Farpador.
Seu atual radinho de pilha, ele ganhou de brinde na assinatura de um jornal americano. Foi o melhor presente que o jornalismo já lhe deu. Agora, quando falta luz, ele pode saber tudo sobre a série B do Campeonato Brasileiro. Dizem que, se os jornais americanos dessem blackberries ou iPhones de brinde, Juveninho estaria dormindo até agora com uma morena da série A. Há quem pense em processar a imprensa americana por deixar Juveninho offline no apagão. Em Porto Rico, é comum as pessoas combinarem onde vão passar o “furacão da semana que vem”. Há quem pense em processar a natureza brasileira por falta de aviso prévio. Todos (mentira, todas) exigem indenizações pesadas, como andar de mãos dadas com Juveninho no Coqueirão. Entre as vítimas online mais prejudicadas, havia até sujinhas moderninhas querendo cantar em seu (dele) quarto-sauna: “Ô chu-vá, eu peço que cai-á devagar”…
Ninguém se conforma em deixar Juveninho às moscas no verão. Nem ele. Quando a luz voltou, foi até o espelho e contou nove mordidas e três arranhões. De onde mesmo tinham vindo os arranhões? Juveninho não lembrava. O jeito foi desligar o radinho de pilha, fechar as janelas, ligar o ar-condicionado e dormir. Um beijo, morenas. Dizem que Juveninho já tem dois furacões marcados pra semana que vem.
Juveninho 2016
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 2 de Outubro de 2009, às 20:07
Nada mais preocupava Juveninho senão a maior dúvida olímpica de todos os tempos: estará solteiro em 2016? Atletas fêmeas do mundo inteiro perguntam o mesmo. Um recorde. Nunca antes no esporte nadadoras e ginastas estiveram tão sincronizadas. Dizem que os jogos Juveninho 2007 deixaram sua marca indelével nas morenas, sobretudo as do badminton. Juveninho é craque em badminton. Não pode ver uma peteca que já quer marcar um Pan.
Tão logo foi anunciada a vitória do Rio de Janeiro na mega-sena, Juveninho conferiu os números na identidade. Que tristeza! Em 7 anos, Juveninho planejava estar casado, fiel à sua peteca mulata. Como resistir até lá? Impossível. Desligou a TV, bateu a porta e saiu inconformado: não se pode fazer nada sério nesta cidade… Dois adolescentes, vestidos de Brasil, passaram alegremente por ele na rua. Ambos terão uns 20 anos em 2016. Juveninho chegou perto e gritou: “Canalhas!”. Um quase engoliu o canudo do toddyinho.
Consolou-se, Juveninho, com a opinião de que quem tem potencial para o sucesso não pode casar antes deste, a não ser com uma fã profética tão (ou mais) irresistível quanto as que virão depois. Enquanto não decola sua carreira internacional, Juveninho vive em busca da melhor fã profética. A mais ambiciosa. Aquela capaz de rivalizar com todas as outras, de todos os lugares do mundo, no presente humilde e no futuro glorioso. Agora que o COI ofereceu aos cariocas as petecas de uma carreira internacional inteirinha sem precisar sair do lugar, a responsabilidade das fãs aumentou. Recomenda, Juveninho, sete anos de Flaubert e leg press horizontal.
Seu patriotismo já começou a vingar. Finalmente, alguém enxergou no Rio de Janeiro o potencial! Foram anos e anos, segundo Juveninho, em que insistiram em ver aqui apenas a realidade. Um absurdo, imagine: a realidade! Agora, não. Penetraram o olhar fundo o bastante para ver que, tirando o estado atual, sobra alguma célula sã capaz de multiplicar-se. Quando alguém enxerga na gente o potencial e dá uma chance ou aponta um caminho - ele diz -, só resta dar graças a Deus e correr atrás. Fizeram com o Rio, portanto, exatamente o que Juveninho faz com as morenas. Só teme, Juveninho, que o Rio diga ao mundo: “Tem que gostar de mim como eu sou”…
Não “tendo que” gostar de nada – embora sofra para largar uma peteca -, Juveninho não se importa mais. Se estará solteiro em 2016, nem ele nem ninguém saberá até lá. Mas, para as atletas cubanas que quiserem fugir de Fidel, dizem que Juveninho já preparou o esconderijo.
Quem ama faz spinning
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 20 de Fevereiro de 2009, às 10:11
Apesar dos pedidos, Juveninho não se candidatou à vaga de zelador das Ilhas Hamilton, anunciada como “o melhor emprego do mundo” pelo governo australiano. Nada contra os milhares de brasileiros inscritos, vivendo o sonho de ser zelador, mas essa não é a praia de Juveninho. Se a questão fosse apenas escolher entre conviver com brasileiros ou com peixes, baleias e tartarugas marinhas, Juveninho não titubeava. O problema é o salário: US$ 100 mil por seis meses. Muito alto para a idade de Juveninho.
Não pretende, Juveninho, ficar rico muito cedo. Leu por aí que os jovens ricos viram cornos, e ficou bastante preocupado. Mas tem jogado na mega-sena. Nos mesmos números. Alega que mega-sena é prática, e ganhar é uma questão de tempo. Quando isso acontecer, pretende já estar rico como escritor, e recusar publicamente o prêmio. Seu objetivo, na verdade, é distribuir o dinheiro para todos os brasileiros que sonharam em ser zelador de peixe. É uma política, segundo Juveninho, de premiar quem escolhe bem as companhias.
Na falta de um aquário, Juveninho escolheu as dele: os livros. Os livros e os aparelhos de ginástica. Às vezes, no caminho entre uns e outros, escuta menininhas – literalmente – desgostosas falando mal de academias, do ambiente, dos freqüentadores, do papo fútil. É o suficiente para que cheguem à conclusão de que cuidar do corpo é coisa de gente burra – e não façam exercício algum, em lugar nenhum. Nem um levantamento de anzol, diz Juveninho, que se considera muito inteligente. Ele, então, pergunta o que elas fazem em contrapartida para tornar seu espírito tão elevado, sua alma tão evoluída a ponto de dispensar os cuidados com o corpo. Lêem Platão? Aristóteles? Montaigne? Flaubert? Não. Ouvem Chico Buarque. Para Juveninho, deve estar cheio de titias o show do Chico Buarque…
“O que se instrui” – ele cita Montaigne - “não é uma alma, não é um corpo: é um homem; não se deve separá-lo em dois. E, como diz Platão, não se deve instruir um sem a outra, e sim conduzi-los por igual, como uma parelha de cavalos atrelados ao mesmo timão”. Neste carnaval, os cavalos de Juveninho são barbada. É o que andam dizendo, segundo ele, as morenas lá do Coqueirão. Enquanto os amigos fazem suas apostas, Juveninho - muito cuidadoso - atarraxa mais um pouquinho a carroça. Conjuga A república com o leg press horizontal; os Tópicos com o crucifixo inverso; Os Ensaios com o supino reto; A educação sentimental com a bicicleta. Três séries de livro; três parágrafos de aparelho.
Sabe, Juveninho, que um grande amor não é brincadeira. Quanto mais no ponto você estiver antes de encontrá-lo [o amor ou Juveninho, ele avisa], melhor. Mas, como no futebol, ninguém quer saber disso. Depois de uma pelada, os perdedores discutem, brigam, falam de marcação, esquemas táticos, garra e outras bobagens circunstanciais. Nunca de seus próprios preparos físicos, talentos individuais ou rotinas de treinamento. O maior aprendizado futebolístico de Juveninho foi este: o sincero desejo dos outros de não entender nada – a começar por si mesmos - para evitar novos esforços solitários. Por isso o governo australiano é burro, ele diz. Se abrisse vaga para tartaruga marinha, o sucesso seria muito maior.
É de opinião, Juveninho, que quem espera o amor para descobrir como mantê-lo, ou a desgraça para saber como evitá-la, na hora só consegue evitar o amor e manter a desgraça. Em outras palavras – as de Juveninho -, o melhor emprego do mundo é zelar pelos seus cavalos. Dia e noite, ele tem feito isso. As Ilhas Hamilton são questão de tempo. Agora, Juveninho está de corpo e alma no carnaval. Dizem que Aristóteles baixou no Coqueirão. Que as morenas não largam os Tópicos. Que as desgostosas estão correndo na areia. Que até as titias vêm ver sua carroça passar, cantando coisas de amor. A vaga está aberta, ele pensa. Quem não corre atrás fica pra trás. Na filosofia de Juveninho: quem ama faz spinning.
Juveninho standard
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 02:17
Juveninho passou o ano inteiro sumido. Sumiu como quem se recolhe para um grande projeto – lento e laborioso -, um passo fundamental em sua formação de escritor. Seu objetivo era investir em si mesmo para reaparecer maior, melhor, mais contundente, irresistível, de preferência no verão. Como Montaigne, Juveninho queria se refugiar no alto da torre e descer apenas quando tivesse à mão uma obra imorredoura e, aos pés, as mesmas havaianas. Cansou-se da afobação brasileira, da aversão à qualificação profissional, da ignorância (ou má fé) metodológica que sempre resulta em análises ideológicas, destrambelhadas ou inócuas. Pensava, Juveninho, que era preciso ir até o alto da torre para estudar as raízes dos problemas. E ele foi.
Durante meses, Juveninho só pensou em trabalho. Na praia (mas não no Coqueirão), no samba (mas não na Mangueira), na noite (mas não no Bailinho), na academia (mas não na Estação) não pensava noutra cousa senão numa obra-prima com a qual reapareceria triunfante. Sua torre era uma faixa descontínua de terra à margem de suas antigas paixões. Com o tempo, a faixa se prolongava, e Juveninho ia ficando cada vez mais distante de seu hábitat, a despeito (ou em virtude) de convites e tentações constantes. Estava convicto, Juveninho, de que não queria jamais viver num ponto permanente de tensão, preocupado em perder a mulher, a casa, o carro e o emprego por pura falta (pregressa) de paciência, orientação e planejamento de vida e carreira. Não queria se transformar num cargo. Não queria - mesmo que, para isso, tivesse que morar mais tempo na casa dos pais e gastar mais dinheiro em “suítes simples”.
O futuro preocupava Juveninho. Sua vida pregressa era agora. Agora era o momento de buscar ajuda, como fizeram e fazem sempre os melhores. Só mesmo um idiota não precisa de ajuda, dizia Juveninho, tentando se convencer. Não existem autodidatas, continuava ele, o único autodidata da história foi Adão e, ainda assim, com uma mãozinha de Eva. Até quem foge à educação formal se guia pelos rastros de seus antecessores, ou diretamente pelos próprios, de modo que a Juveninho só faltou encontrar os próprios. Sua ojeriza à educação formal, ele alega, vem de um fato cinematograficamente comprovado: mais vale um Sr. Miyagi do que mil academias Cobra Kai. Na falta de um Sr. Miyagi no Coqueirão, o autodidatismo de Juveninho se resumiu a seguir as pistas de seus autores favoritos, passando da citação à obra original, da referência à fonte primária, do rodapé à pesquisa científica, num delicioso trepa-trepa sem fim de leituras diversas. Foi um ano de muito aprendizado. Juveninho é mestre em trepa-trepa.
Ele já podia sentir a raiva dos invejosos [os blogueiros!] quando, de repente, descesse altaneiro, empunhando o resultado literário de um longo período de isolamento e de renúncia às mediocridades efêmeras de seu tempo. Há quem diga, porém, que sua reclusão foi de ordem financeira, e que Juveninho teria economizado o ano inteiro só para pagar uma das festas de Réveillon “mais nobres e exclusivas” da cidade. De um jeito ou de outro, sua fé inabalável era sempre a mesma (e a tudo se aplicava): melhor estar bonito numa festa do que feio em todas. Para Juveninho, o que seus contemporâneos jamais entenderam é que a onipresença é inimiga da volúpia. Por isso era preciso investir em ausências, aprimorar esperas, lapidar saudades. Uma arte que, na opinião de Juveninho, era pré-condição para a arte propriamente dita. Para escrever sua novela autobiográfica Enquanto a babá trepava, Juveninho precisava resistir à faxineira. Para escrever o ensaio Os sarados também lêem, Juveninho precisava resistir à personal. Carnes do ofício, ele dizia. Não diz mais.
Todo sacrifício valeria a pena no momento da reaparição, o marco inicial da posteridade juveniniana. E ele reapareceu. Há quem diga que foi primeiro no Coqueirão, há quem diga Bailinho, há quem Mangueira, há Estação. Há quem diga que ele está mais bonito, há quem diga inteligente, há quem “fortinho”, há mesma bosta. Mas nem sinal de sua obra-prima. Havia apostas de que Juveninho não resistiria ao verão no alto da torre, e sua recaída era uma questão de tempo. Muitos estão exigindo o pagamento dos devedores, que alegam ser ainda cedo para saber se é recaída ou volta triunfal. Juveninho ignora essa gente. Sabe que existe sempre um rebanho torcendo para não ser tão humilhado com o que se viveu ou se produziu à sua revelia. Por isso ele prefere o mistério. A melhor obra de um escritor é a próxima – e Juveninho descobriu como deixar o público a par disso. Todos suspeitam que ele está prestes a lançar um best-seller. Todos querem estar por perto quando o mundo descobrir o grande artista. Se for amanhã ou daqui a 60 anos, não importa. O verão de Juveninho está ganho. A saudade, lapidada. Até o carnaval, não há mais “suítes standard” disponíveis na cidade.
Juveninho e a noite de autógrafos
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 23 de Janeiro de 2008, às 17:24
Juveninho está vendo a Sessão Erótica, do Telecine. Uma mulher lambe uma banana. Um homem chupa um pêssego. Não são metáforas. São frutas. A Sessão Erótica, ele diz, é o programa mais criativo da televisão. Sempre que pode, Juveninho vê. Outro dia havia um espírito que passava de corpo em corpo jogando a libido dos terráqueos nas alturas. Quem o recebia tinha que foder imediatamente com quem estivesse mais próximo. Juveninho tirou uma grande lição do filme: cuidado com as companhias.
Na semana passada, foi ao lançamento do livro dos Tribuneiros. Disfarçado, claro. Ninguém o reconheceu. Há quem diga que Juveninho foi quem escreveu o texto de apresentação. Há quem diga que Juveninho foi quem escreveu as crônicas do Pim. Há quem diga que Juveninho foi quem estava no banheiro com uma leitora do Andreazza. Ele não nega. Considera justo roubar leitoras alheias. Sempre que vai a uma noite de autógrafos, Juveninho morre de vontade de lançar um livro. Seu único medo: que roubem suas leitoras. Por essas e outras, Juveninho nunca dá festas de aniversário.
Na Argumento Leblon, foram mais de duas horas de fila. Uma para comprar o livro, outra para cumprimentar os autores. Juveninho não se surpreendeu. Antes de sair de casa, lera atentamente as dicas de etiqueta de Gloria Kalil: “Precisa entrar ou pode cumprimentar de longe? O melhor é ir preparado para um programa em que o papo na fila faz parte”. Juveninho estava preparado. “Quanto maior a fila, sinal de sucesso para o autor. Mas, caso não dê para esperar muito tempo, o jeito é acenar de longe para o amigo”. Nada disso. Juveninho queria acenar de perto para Bruna Demaison.
Para suportar a fila, teve de usar seus melhores truques. Aprendeu com Otto Lara Rezende: “Tenho para mim que sei, como todos os brasileiros, os três primeiros minutos de qualquer assunto.” Acha um exagero, Juveninho, dizer que “todos os brasileiros” chegam a três minutos. Mas ele chega. Não só chega, como desenvolveu a técnica. Sabe como ninguém passar da filosofia de Sócrates para o calcanhar de Sócrates na Copa de 82. Da literatura de Miller para o gol de Muller no Mundial de Clubes de 93. Do Oscar de Melhor Filme de Rocky para as cestas de Oscar Schmidt no Pan de 87. Da fila de autógrafos para o banheiro da livraria. Sem perder o lugar, ele diz. É uma arte.
Ao chegar sua vez, Juveninho não se afobou. Lembrou-se da “dúvida final” de Gloria Kalil: “é necessário pedir autógrafo para os demais autores que não se conhecem? Não, basta dar um sorriso aos outros e sair”. Ficou devendo, Juveninho, o sorriso aos outros. Há limites para seu lado fashion. Emocionado, pegou o autógrafo da Bruna, e saiu. Há quem diga que Juveninho foi conversar com as leitoras do Pim. Há quem diga que Juveninho foi procurar as representantes do Coqueirão. Há quem diga que Juveninho esqueceu a etiqueta no banheiro. Ninguém sabe ao certo onde baixou o espírito de Juveninho. Entre as moças do seu tempo, contudo, só ficou uma certeza: a primeira noite de autógrafos a gente nunca esquece.
Juveninho e o ventríloquo
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2007, às 15:12
Juveninho tem um novo ídolo. É um ventríloquo americano. Seu nome é Jeff Dunham. Indicação de seu fisioterapeuta. Há fisioterapeutas que indicam alongamentos. Há fisioterapeutas que indicam ressonâncias. O fisioterapeuta de Juveninho indica ventríloquos. Deve achar que Juveninho sofre de múltipla personalidade. E que a múltipla personalidade, como tudo ultimamente, é psicossomática. Juveninho não teria machucado a virilha na cama, como ele diz. Mas na mente. É uma hipótese.
O fato é que Juveninho passou a semana inteira no YouTube assistindo a Dunham e seus bonecos. O terrorista morto Achmed, o super-herói Melvin e, sobretudo, o rabugento Walter, agora candidato a presidente. Os outros não eram legendados. Walter, na verdade, tampouco, mas a rabugice, explica Juveninho, é como o dinheiro: uma língua universal. Os rabugentos do mundo inteiro se entendem à menor arcada de sobrancelha. É quase um código Morse. Não há americano algum que ria de Walter antes de Juveninho. Ele teme se tornar um completo idiota. Mas continua.
Desde que foi entrevistado por Johnny Carson em seu mundialmente plagiado Tonight show, Jeff Dunham virou uma febre nos Estados Unidos. Participou de todos os programas de TV. Saiu dos pequenos clubes de stand-up comedy para os maiores teatros do país. Ganhou uma porção de prêmios de humor. Seus bordões, como o “I kill you!”, de Achmed, são tão repetidos por lá quanto os do Capitão Nascimento por aqui. Seu primeiro DVD, Arguing with myself, vendeu mais de 500 mil cópias não-piratas só em 2006. Outros estão a caminho. Juveninho conta tudo isso para quem chega perto dele. Em casa, foi direto ao ponto: “Mãe, quero ser ventríloquo”. Sua mãe achou que era carnaval. Perguntou quem ia ser a aurícula.
Foi mais um teste de Juveninho para saber a reação dos mortais diante de carreiras incertas. Ele não quer ser ventríloquo coisa nenhuma. Quer ser escritor. Publicar A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada, e procurar um grande amor entre as fãs. Pretende, como Jeff Dunham, trabalhar a vida inteira para fazer sucesso da noite para o dia. Mas enquanto trabalha a vida inteira ninguém o entende. Um médico não entende Juveninho. Um engenheiro não entende Juveninho. Um economista não entende Juveninho. Nem uma dona de casa entende Juveninho. Na idade de Juveninho, ele diz, todos já podiam freqüentar festas de Réveillon com 11 DJs. Ninguém vai entendê-lo enquanto não falar a língua universal. Jeff Dunham fala. Hoje, além de ingressos, vende camisetas, ímãs, chaveiros, bonecos e tudo isso que os americanos compram dos ídolos. Juveninho chega lá. Já tem os contatos de todas as sex shops. Só faltam os livros.
Sabe, Juveninho, que, na arte, só existem duas coisas importantes: dominar a técnica (de ser cativante) e ter algo a dizer. As menininhas, infelizmente, só vêm depois. (Quando vêm antes, ele diz, o artista se acomoda. Insiste que não é o seu caso). Todas as manhãs Juveninho abre os jornais e lê uma porção de sujeitos entendidos de uma porção de assuntos. Alguns até têm algo a dizer, mas não dominam a técnica. São chatos. Todas as noites Juveninho passa por Copacabana e dá uma olhadela nas exclusivas. Elas dominam a técnica, mas não têm nada a dizer. São ótimas. Não é isso, contudo, que Juveninho quer comprovar. Se não há ventríloquo no mundo tão bem-sucedido quanto Jeff Dunham, isto sim, é porque ele não só domina a técnica como também tem algo a dizer. Por isso Juveninho investe em si mesmo. Técnica e conteúdo. Se não tiver os dois, terá menos menininhas.
Aprendeu, Juveninho, com Schopenhauer, que nem a leitura nem a experiência podem substituir o pensamento. Não há um dia sequer que Juveninho não vá pensar no Coqueirão. Teme ficar defasado em relação a todos os grandes pensadores de lá. É duro manter o ritmo deles. Sua virilha segue com sinais de fadiga. Está cada dia mais caro o protetor solar. Mas Juveninho não desiste. Trabalha a mente e o corpo do jeito que pode. Precisa de uma aurícula morena para pular junto o carnaval.
Juveninho e o Réveillon
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 12 de Dezembro de 2007, às 15:13
Juveninho não sabe onde passar o Réveillon. Escolher aonde ir numa noite que só acontece uma vez por ano é muito difícil. Qualquer erro, e puf: só ano que vem. O sonho de Juveninho era estar presente em todas as festas da cidade ao mesmo tempo. Como a bateria da Mangueira. Como o DJ Marlboro. Como o Open Bar. Mas Juveninho não são trezentos. Juveninho só tem um, e tem horror a DJs. Não sabe por que os cientistas e os governos gastam tanto tempo e dinheiro com pesquisas de clonagem e células-tronco. Para Juveninho, os DJs têm a resposta há anos. Mas escondem.
A maior diversão de Juveninho nos últimos dias tem sido falar mal dos DJs e de todas as festas de Réveillon da cidade. Nenhuma noite no mundo, diz ele, vale 400 reais. Isto porque, dizem os amigos, ele não tem 400 reais. Se Juveninho tivesse 400 reais, seria o primeiro a pegar o bondinho da Urca para comer os “frios volantes” e os “quentes volantes” do bufê. Como não tem, fica maldizendo os volantes que, não satisfeitos em infestar o futebol, agora vêm contaminar nossa comida. Quanto menos volantes no mundo, segundo Juveninho, melhor. Um bufê na retranca não pode ser bom.
Juveninho tem passado dia e noite na internet procurando defeitos em cada evento. Nenhum vai ter um bufê de verdade. Só buffet. Se tivesse um show de balé, seria ballet. Essa gente é muito provinciana, ele diz. E adora uma exclusividade. Lounges exclusivos. Spas exclusivos. Wraps exclusivos. Tudo exclusivamente para duas mil pessoas. Juveninho, exclusive. Há até áreas exclusivas em festas exclusivas. Como o Espaço Lagoa, no Jockey, onde Juveninho só não é “bem-vindo” porque, no site, faltou o hífen. Já a Hípica fica numa das “áreas mais exclusivas e nobres da cidade”. Quando não é (só) exclusiva, é nobre. Juveninho passa por lá todo dia e não sabia disso. Para ele, só os banheiros deveriam ser exclusivos. Mas nunca são.
O site preferido de Juveninho é o do Réveillon do MAM. “Uma super produção [sic] jamais vista”. É verdade. Juveninho jamais viu superprodução separada. “A contage [sic] regressiva já começou!”. É verdade também. O eme já se foi. “Record [sic] absoluto de público”. O “e” foi junto. “Num dos locais mais nobres do Rio de Janeiro”. Mas não exclusivos. O MAM está por fora. Juveninho, aliás, contou 11(!) DJs no evento. Cada um com seu currículo. Coisas da arte moderna. Para ele, passar 8 horas com 11 DJs é pior que buffet na retranca. Para compensar, haverá uma “Bateria de escola de samba”. Só não se sabe qual. Eis o mundo encantado, segundo Juveninho, das festinhas de Réveillon. Onde bateria é tudo igual, e DJ é tudo diferente.
É de opinião, Juveninho, que o mundo e as pessoas andam ecléticos demais, laicos demais, gays demais. Que trilha sonora é como “buffet volante” ou bordel de luxo: você paga por toda uma variedade que não vai comer. Não vale a pena. Ver a bola gigante cair em Nova York deve ser melhor. Ouvir as doze badaladas em Madri deve ser melhor. Pior que 8 horas com 11 DJs, só a Avenida Paulista. Os amigos de Juveninho dizem que ele vai acabar em Copacabana. Que é a única noite do ano que Juveninho passa em Copacabana de graça. Ele não nega. É lá mesmo que se sente mais à vontade. Olhando de longe, ainda consegue distinguir de qual país é cada moça. Se cantar Auld Lang Syne, é inglesa. Se comer lentilha, é chilena. Se usar calcinha vermelha, é espanhola. Se usar amarela, é colombiana. Se não usar, é brasileira.
Juveninho não tem 400 reais. Mas reza a lenda que nunca abriu mão de uma exclusiva.
Ele e as viciadas
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 18 de Julho de 2007, às 12:51
Meu nome é Dercy. Gonçalves é a puta que pariu. O pau mais gostoso é o circuncidado. Toda mulher precisa chamar a atenção de alguma forma. A forma da bunda, dos seios, do abdômen. Eu queria ser reconhecida pela forma dos pés, então sempre deixo os pés de fora. Mas poucos homens dão valor aos nossos pés, então, por via das dúvidas, dou uma valorizada no resto. Tem mulher que se julga auto-suficiente, eu não, eu preciso de homem. E homem não tem que ser isso, nem aquilo, tem que ser homem. Ser homem é ser homem, só se aprende com uma mulher. Não com duas, nem com três: com uma.
Meu nome é Cleide. Gosto de homens assim-assado. Assim como o Richard Gere e assado lá na minha cama. Sou fogo. Não posso ver um homem bonito que quero logo dar pra ele. Alguns ficam com medo de mim. No início, todos, na verdade. Aí eu vi que homem não dá conta de mulher oferecida demais não. Homem também precisa de preliminar: se você disser “me come” no meio da rua, a maioria broxa. Não, eu nunca disse “me come” no meio da rua. Só na calçada.
Meu nome é Fátima. Gosto mesmo é de mulher. Nada contra homem, eu já tive uma porção, mas mulher que é bicho bom. Com mulher a gente pode ficar horas e horas nas carícias, os homens têm sempre aquela preocupação da coisa cair, não levantar nunca mais, as carícias na maioria das vezes são pura burocracia. Eu gosto é de gozar. E nunca fui muito boa nesse negócio de gozar com penetração. A maioria não é, você sabe. Muitas fingem. Eu não gosto de fingir. Com mulher, gozo bem mais. Tenho uma amiga que diz: “Gozar não é tudo”. Coitada dela. Casou com um idiota do mercado financeiro. Só deve gozar no bidê.
Meu nome é Zenaide. Eu me masturbo às segundas e quartas. Se ninguém me ligar, eu mesma ligo pra mim. Esses celulares novos são bem melhores que os antigos. A gente vai ficando mais exigente, né? Não vejo a hora de ter um I-phone. Uma amiga minha americana falou que é o melhor. Vibra uma barbaridade. Eu tenho medo de ficar viciada. Agora, preciso ligar de cinco a seis vezes pra conseguir falar com ela. Mas quando ela diz “alô”, nossa, aí é que você percebe que a coisa é boa.
Bom, eu sou circuncidado. Achei lindos os pés da Dercy. Quando uma mulher diz “me come”, eu como na hora. Com muitas carícias, porque mulher gosta mesmo é de gozar várias vezes. Eu não me masturbo. Prefiro encontrar uma voluntária. Ah, desculpe, meu nome é Juveninho. Mas meu novo apelido é I-phone.
Juveninho e suas órfãs
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 6 de Julho de 2007, às 12:57
Juveninho conheceu uma evangélica. Ela é linda de morrer. Isso dá uma tristeza profunda em Juveninho. Papo vai, papo vem, ela disse: “Sexo só depois do casamento”. Juveninho se despediu na hora: “Um beijo, tchau”. Crê, Juveninho, que a sinceridade está muito mais nas atitudes que nas palavras. Juveninho tem horror à hipocrisia. Nunca disse “obrigado” a um motorista de ônibus. Juveninho tem horror a motoristas de ônibus.
O pai da moça evangélica nunca deu bola pra ela. É como se ela fosse órfã de pai. A teoria de Juveninho é a seguinte: alguém disse à moça que “Deus é pai”, e ela acreditou. Só acha, Juveninho, que, como pai, Deus não devia cobrar dízimo, e sim pagar mesada. Se Deus pagasse mesada, Juveninho seria o maior evangélico de todos os tempos. A cada vez que o pastor gritasse “amém, igreja!”, ele gritaria “amém!” mais alto que a igreja inteira e o Pavarotti juntos.
É de opinião, Juveninho, que as órfãs estão muito mal assessoradas neste mundo. Outro dia, no calçadão, a menininha da flauta estava tocando “Aquarela”, do Toquinho e do Vinícius. Ela, que sempre tocava “O mundo é um moinho”, do Cartola. Bossa nova, pensou Juveninho, deve render mais esmola que samba. Então Juveninho chegou perto dela e gritou: “Sua vendida!”. A menina quase engoliu a flauta. Aquilo sensibilizou Juveninho, que logo pediu desculpa. Notou que estava descontando nela a raiva da outra. Deixou cinqüenta centavos. Nunca pagou tão caro por uma bossa nova.
Para Juveninho, toda moça cujo pai não lhe dá bola deveria ir atrás do pai. Como nas novelas. E perdoá-lo. As moças, diz Juveninho, vêem novela e não aprendem nada. É preciso, segundo ele, sentar o pai numa cadeira e obrigá-lo a saber o básico sobre sua vida: estudo, trabalho, idade, esporte, rotina, viagens e namorado - este, sem maiores detalhes, sobretudo se o namorado for Juveninho. Outro dia, Juveninho soube que vai abrir uma Eclectic no Centro com segundo andar só de terninho. É o tipo do anseio que um pai precisa ouvir de sua filha: “Pai, finalmente vai abrir uma Eclectic no Centro, e você não sabe da maior: com segundo andar só de terninho!”. O mundo seria melhor se os pais soubessem do segundo andar só de terninho. Juveninho, contudo, não gosta de mulher de terno.
Há três tipos básicos, ensina Juveninho, de órfãs de pai: uma - a mais comum - só quer colo e atenção; outra só quer louvar ao Senhor; outra só quer tocar bossa nova. Juveninho não desiste de nenhuma. Manda todas procurarem pelo pai verdadeiro e, na falta de um, escolherem um senhor de idade para falar sobre terninhos. A curto prazo, porém, Juveninho admite ter mais chances com a menininha da flauta. Domingo que vem, vai andar pelo calçadão de novo. Dizem as más línguas que ele já decorou a letra de “Aquarela”.
Juveninho e a religião [proposta de comercial]
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 5 de Marco de 2007, às 13:26
Residência de americanos, EUA – INT./NOITE
Juveninho/ Namorada americana/ Irmã caçula da namorada/ Irmão mais velho da namorada com sua esposa/ Casal de futuros sogros
À mesa de jantar, antes de começarem a comer.
SOGRO (em inglês): Então, Juveninho, você pode puxar a reza?
NAMORADA (em inglês): Pai, ele é tímido…
SOGRA (em inglês): Deixe o menino em paz, meu amor. (Cochichando) A gente nem sabe se existe esse hábito no país dele.
IRMÃO (em inglês): Claro que existe, mãe! O Brasil é um país muito religioso. Deu pra ver na nossa lua-de-mel, não foi, amor?
A esposa do irmão coloca as mãos ao alto, educadamente, como quem prefere não se meter na discussão.
SOGRO (em inglês, amenizando): Ele pode rezar em português, caso se sinta mais � vontade.
IRMÃ CAÇULA (em inglês): Oba! Português!
NAMORADA (em inglês): Meu amor, você não precisa…
JUVENINHO (interrompendo, gentil): Ok, ok.
Todos se dão as mãos e fecham os olhos.
JUVENINHO (em português, sério e comovido, em ritmo de Pai Nosso): Uma vez Flamengo, sempre Flamengo, Flamengo sempre eu hei de ser… É o meu maior prazer, vê-lo brilhar, seja na terra, seja no mar… Vencer, vencer, vencer… Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer. Amém.
TODOS (em inglês): Amém.
Tela rubro-negra com os dizeres:
VOZ EM OFF: “Flamengo: muito mais que um clube, uma religião.”
À mesa de jantar, todos soltam carinhosamente as mãos.
SOGRO (em inglês): Preciso aprender essa.
A namorada, orgulhosa, passa a mão nos ombros de Juveninho.
Todos começam a comer.
Juveninho e o carnaval
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 28 de Fevereiro de 2007, às 13:28
Juveninho não quer falar de carnaval. Passou, passou. Morreu. Puf, como diria o Jack, de Sideways. Juveninho adora Sideways. Queria entender de alguma coisa tanto quanto o Miles de vinho. Mulheres gostam de especialistas, ele diz. Não importa o assunto, é o eterno fetiche pelo professor. Se você souber ensinar a uma mulher tudo sobre a marcha dos pingüins, está feito. É só não desmunhecar.
Juveninho não quer falar de carnaval, mas dele tirou uma importante conclusão: a vida já é muito difícil; logo, a mulher tem que ser fácil. Depois de uma certa idade - ele ensina às amigas - o homem inteligente e trabalhador não tem mais forças para gastar com a conquista, não tem mais tempo para colocar os desafios no lugar errado. A mulher difícil, portanto, perde bons partidos por pura vaidade. Ao que as amigas desconfiam: Juveninho passou o carnaval na lisura.
Há, contudo, quem diga ter visto Juveninho com uma ruiva no Me Esquece; há quem diga ter visto Juveninho com uma loira no Céu na Terra; há quem diga ter visto Juveninho com uma mulata no Boitatá. Sobre a ruiva, ele não quer falar. Puf. Sobre a loira, ele não quer falar. Puf. Sobre a mulata, se insistirem, ele fala. Juveninho não é de fazer doce, só não gosta que lhe perguntem e não ouçam a resposta. Como sua mãe: “Vai à praia, meu filho?” “Não.” “Passa protetor, hein”. Então primeiro se assegura da atenção dos interlocutores. Todos aí? Ótimo.
Não era mulata. Era crioula. Assim se disse. E não foi no Boitatá; Juveninho a conheceu no Bola Preta. Usava a camisa “Sou bola”, mas era magra. E usava uma espécie de biquíni jeans. Disse que morava no posto seis, em Copacabana, de modo que Juveninho ficou na dúvida se ela morava ou fazia ponto. Até que a multidão prensou os dois sobre um tapume da Rio Branco, e o abraço involuntário se tornou um beijo voluntário e suculento. Por sorte, algumas moças do Coqueirão passavam por ali na hora e viram o que Juveninho chama de amostra grátis da miscigenação carnavalesca. É bom que elas saibam: Juveninho gosta da cousa quente.
Mas e aí, perguntam os amigos, já ligou? Ele apenas sorri. (Ok, Juveninho gosta de um doce.) Afinal, não pode adiantar capítulos de A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada. Todo especialista deve usar seus conhecimentos para fins específicos. Ter objetivos, ele diz. Com as mulheres, a cama. Com os homens, vender livros. Quem faz as coisas só para aparecer, segundo ele, é viado enrustido. Juveninho conhece vários. São ciumentos, vítimas do mundo, reclamam sua atenção, acham que tudo que é seu é deles também. Juveninho os trata com a devida indiferença, “a essência da desumanidade”, como aprendeu com Shaw, porque ser desumano é fundamental, ainda mais no carnaval.
Só espera que eles não o sigam por aí. Juveninho acaba de sair para o posto seis e, naquela dúvida, levou um dinheirinho a mais.
Juveninho e Rocky Balboa
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 15 de Fevereiro de 2007, às 13:29
Juveninho foi ao cinema sozinho, porque sabia que ia chorar do início ao fim. E não pega bem chorar do início ao fim em filme do Stallone. Mas Juveninho chorou do início ao fim. Sorte dele que ninguém viu. Ao término do trailer, já tinha comido a pipoca toda, o que facilitou um pouco o choro. Pipoca e lágrima não combinam muito, ele diz. A não ser que a pipoca seja doce.
De antemão, Juveninho sentiu falta de Thalia Shire, que só aparece em imagens de arquivo. Há quem diga que Thalia Shire nunca fez nada de importante além de Rocky e O poderoso chefão. Gente idiota. Para Juveninho, quem fez Rocky e O poderoso chefão não precisa fazer mais nada na vida. Ação de graças, presente de Natal, cartão de aniversário, churrasco para os sogros – nada. Nem ameaçar pagar a conta no primeiro encontro. Quando alguém se julga muito importante, Juveninho pergunta: você fez Rocky e O poderoso chefão? Ah, então cala a boca.
Agora, o filho do Rocky não lida muito bem com o peso de ser filho do Rocky. Esse negócio de ser filho de estrela, crê Juveninho, pode ter duas conseqüências ruins: a primeira, o sujeito culpar o genitor por não conseguir nada por si só (como no filme); a segunda, o sujeito achar que é o próprio genitor, a própria estrela. Em ambos os casos, vive-se à sombra do dito-cujo, numa eterna insegurança disfarçada. Sabendo-se uma futura estrela, Juveninho já sabe o que fazer com seus filhos. Se forem do primeiro caso, vai decorar o discurso impecável de Rocky Balboa. (Para isso existem dvd e YouTube, ele diz. Para decorar as falas boas.) Se forem do segundo, perguntará: ô moleque, você fez Rocky e O poderoso chefão? Ah…
As tartarugas do Rocky podem tirar onda; seus filhos, não. Dizem que tartarugas vivem muito tempo, de modo que Juveninho ficou pensando se aquelas eram as mesmas do primeiro filme. Aquelas para as quais Rocky disse, machucado: “Isso tudo é culpa de vocês. Se dançassem e cantassem, eu não estaria lutando”. Algo assim. Juveninho esqueceu todas as frases decoradas dos filmes anteriores - com exceção de “Adrian! Adrian! Adrian!” - depois da naticélebre frase do último, quando Rocky aponta o próprio peito e justifica ao velho Paulie seu retorno ao ringue: “There are some things in the basement”. Não há mais o que explicar, não é? Há algumas coisas no porão. Simples. Preciso. Multiuso. Rocky. Agora, quando vai à praia segunda-feira, Juveninho repete: “There are some things in the basement”.
Tudo que se faz de “errado” na vida, pensa Juveninho, também se acumula no porão. A diferença está entre os que deixam tudo lá e os que fazem daquilo alguma coisa. De modo que se revolta, Juveninho, quando alguém critica Stallone por sua carreira desastrosa. Ele fez Rocky. Escreveu, atuou e dirigiu. É como o Clint Eastwood: melhor passar 180 anos fazendo porcarias de caubói para um dia dirigir Sobre meninos e lobos e Menina de ouro do que ser sempre eficiente, como a Meryl Streep, e não ter uma obra-prima. É o que pensa Juveninho sobre suas experiências amorosas: delas sairá o best-seller A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada. Cada um com seu porão, ele diz. E que não venham encher o dele.
Ao sair do cinema, meio emocionado, meio triste com o fim de Rocky, Juveninho atinou que, no porão de Stallone, ainda tem material para Rambo IV. Por sorte, pensou ele, Stallone não fez O poderoso chefão.
Juveninho e as moças do Coqueirão
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 6 de Fevereiro de 2007, às 13:30
Juveninho, depois de anos (mentira, meses), conseguiu ir à praia numa segunda-feira. Não estava mesmo dando certo esse negócio de malhar, jogar bola, foder e trabalhar – o corpo tem limites -, de modo que Juveninho cortou o trabalho. Nessa vida, ele diz, é preciso saber renunciar. Agora, as moças do Coqueirão não lhe saem da cabeça. São elas a maior prova de que é possível ser linda e tatuada ao mesmo tempo.
Qual será o nome daquela de nádegas enxutas e canga amarela com bolinha rosa? Onde terá se machucado a loirinha que manca com esparadrapo no dedão? Como ela ousa não lhe apresentar sua amiga morena, tão morenamente graciosa que Juveninho nem sequer dela guardou outra identificação senão sua morenice? Onde morará aquela, quase mulata, de biquíni florido, que se contorce toda para dar de chilena na altinha? (E, aliás: falará ela “altinha” ou “altinho”? “Adedanha” ou “adedonha”? “Altinho”, crê Juveninho, é da mesma família de “adedonha”. Ser-lhe-ia, portanto, um alívio se ela falasse “altinha”.)
Há qualquer coisa na praia de segunda-feira que deixa as moças mais lindas que o normal. Talvez porque neste dia, mais do que nunca, ir à praia é uma forma de indiferença - de protesto, quiçá. Dane-se o mundo. Vivam as cadeiras, as barracas, os esparadrapos nos dedões. Nossas escolhas, reflete Juveninho, muitas vezes são também formas de protesto. “Pequena Miss Sunshine”, por exemplo, ele torce para que ganhe o Oscar, simplesmente porque se trata de um filme genialmente simples. Admira, Juveninho, a simplicidade, o minimalismo na arte, o tudo dito com tão pouco, ao contrário dos excessos estéticos de sempre. Mas adorou “Os infiltrados” (ah, lembra ele, a cena do silêncio ao telefone: que aula de roteiro!).
Talvez, de fato, as escolhas feitas mais como forma de protesto do que por gosto pessoal não se sustentem por muito tempo. Sabe essas moças que namoram um dinamarquês? Não um dinamarquês qualquer, estamos falando de um dinamarquês que mora na Dinamarca. Sabe? Juveninho não tem dúvidas: elas não escolheram – protestaram. É como se dissessem assim: “Estão vendo, pobres e infelizes compatriotas? Vocês, com suas peles bronzeadas, disponibilidades integrais e ingressos do Maracanã, não são suficientes para mim. Meu ideal está em outro planeta. Passem bem”. Não adianta, diz Juveninho aos amigos: é o preço que a gente paga por ser concreto demais, humano demais, real demais para elas. Ao que os amigos suspeitam: Juveninho foi trocado por um dinamarquês.
Não tendo jamais se apaixonado por gringa alguma, Juveninho – sempre honesto com os sentimentos alheios – só as utiliza como pesquisa de campo para seu primeiro romance: A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada. Pesquisa na qual pretende incluir as moças do Coqueirão. Para não correr riscos de interromper precocemente sua obra, já até decidiu: deixará a morena por último.
Juveninho e as moças do seu tempo
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 22 de Janeiro de 2007, às 13:32
Juveninho cresceu - e já há quem o chame de Juvenal. (Mentira. Não há. Mas Juveninho cresceu.) Seu maior aprendizado depois de grande: a arte de dizer não. Hoje, nas calçadas, recusa todos os panfletos. Quem os aceita, crê Juveninho, ainda não faz certas coisas de adulto. A menos que os panfletos sejam de prédio novo no Recreio, claro. Ele não diz por quê, mas os amigos suspeitam de uma tara secreta pelas moças do sinal. Certa vez, na Lagoa-Barra, uma delas o reconheceu.
Não se diz, Juveninho, nem romântico, nem cafajeste. Acredita, aliás, que todos os cafajestes são românticos. E que todos os românticos são broxas. Nunca confiou em quem se diz alguma coisa, mas, se tivesse que escolher, dizer-se-ia cafajeste. Sabe que é dos cafajestes que as moças gostam: Vinícius de Moraes, Chico Buarque, essa turma. Está seguro, Juveninho, de que não há palavras mais cafajestes que “A beleza que vem da tristeza de se saber mulher/Feita apenas para amar/Para viver pelo seu amor/E para ser só perdão”. O sonho de Juveninho: convidar uma moça do seu tempo para “ser só perdão”.
Não para isso, adiciona as fotogênicas do orkut no messenger. Puxa assunto com todas ao mesmo tempo. Diverte-se. Pensa, Juveninho, que a pior coisa que pode acontecer à personalidade de uma mulher é ser fotogênica. Quer ter três filhas. Sua maior torcida: que, nas fotos, todas saiam com cara de bunda. Se depender dele, dizem os amigos, o sucesso está garantido. Sucesso não é importante, responde Juveninho, evasivo. Reencontrou, no cinema, uma dessas amigas de adolescência, mais atraentes que talentosas, das quais se ouvem falar pelos jornais depois de anos. Seu maior arrependimento: ter dito “parabéns pelo sucesso”. Se fosse para parabenizar alguém pelo gosto dos outros, debate-se ele, era melhor aplaudir o inventor das passas. Juveninho odeia passas.
A maior mentira da humanidade, segundo Juveninho, é o “tudo bem”. Ninguém está com “tudo” bem, ele diz. No mínimo, o papagaio está doente. Quando alguém lhe pergunta se está “tudo bem”, Juveninho responde, enfático: “Estou bem”. Mas admira a sinceridade muda dos que se perguntam sem se responderem: “Tudo bem?”, “tudo bem?”, e vida que segue. Para mendigos e flanelinhas, contudo, Juveninho diz “Tenho não”, mesmo quando tem sim. No fundo, acha, Juveninho, que algumas mentiras são fundamentais para a civilização - mas só as que ele utiliza - e que algumas perguntas não merecem respostas - lista da qual exclui convites para se tomar um sorvete, sobretudo se de flocos.
Do amor, Juveninho não espera mais do que carinho, conforto e segurança. (Mentira. Espera. Mas gosta de carinho, conforto e segurança.) É sensível, Juveninho, à mulher higiênica – aquela que limpa o vaso antes de utilizá-lo – e à mulher solidária – aquela que limpa depois. Na cama: mais à segunda do que à primeira. A experiência já o permite reconhecê-las sem a necessidade de acompanhá-las ao toalete. É de opinião, Juveninho, que quanto mais em bando se anda, menos em cama se mexe. (O que serve para ambos os sexos, ele avisa, embora o masculino não lhe interesse.) Seu lugar favorito para fazer amor: o quarto da empregada. Não necessariamente com a empregada. Juveninho não limita seu público, e só tem, na verdade, duas considerações a fazer. A primeira: que seja mulher. E a segunda: que não o chame de “Ju”.


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