por C.A. - Quarta-Feira, 28 de Julho de 2010, às 16:10
Texto publicado no livro Contra a juventude - As melhores crônicas tribuneiras.
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Meu pai,
Não me lembro da última pergunta que me fizeste ou sequer se me fizeste uma, a última – mas teria eu agora tantas a te fazer. (Faltou-nos tempo, não é mesmo)?
Outro dia, não faz muito, sonhei contigo, sei que era contigo, embora de tua face não me acorde para além do que fixou a fotografia. (A tua face é um porta-retrato e um meio-sorriso de camisa amarela). (Tu parecias contente). O teu rosto, pai, o teu rosto é isto – francamente: verbos pretéritos de força ida. (E tu tanto poderias, querias, terias – não é)? O teu rosto, pai, ele já não se move para mim ou por mim ou de mim – não tem expressão de hoje ou de futuro e nem que só de dor, de perda, de sofrimento: a dor foi nossa e tu não estiveste lá. (Tu foste a dor, a perda, o sofrimento: tu). O teu rosto, pai, ele é todo o meu passado.
(A tua partida, eu nunca a tive até bem pouco atrás, ela, a tua partida, ela é uma foto de jornal: e como pôde um carro ter se transformado naquela bolinha de ferros contorcidos, pai)?
Durante muito tempo, por anos e anos, vi homens na rua e eram tu – eram tu, pai, todos. Se tinham o que presumia ser a tua altura, os teus cabelos, as tuas roupas – eram tu, todos. Tu terias então nos deixado, fugido, tu nos teria largado, de repente feito uma plástica de mudar o corpo – e me cruzavas o caminho, no rumo da academia ou do trabalho ou duma nova família, e me cruzavas o caminho ali sem me reconheceres, sem comigo falares, sem perguntares da escola, do futebol, da mamãe… (E bastaria comigo falares, e bastaria me acenares – e eu te perdoaria, pai, eu te aceitaria de volta, com certeza, mas não, não, não, nada). (Seria melhor que tu tivesses partido e só, tudo bem, mas que te soubéssemos entre nós, de vista possível, longe, tudo bem, mas perto porque de tocar, de ouvir, gritar, odiar – seria melhor). (Mas não).
Mamãe me diz, pai, ela me diz que eu era louco por ti. Tens idéia do que é isso, pai? Tens idéia do que seja alguém te dizer por quem tu és ou foste louco? (E eu não deveria saber – não deveria sentir)? Segundo a mamãe: eu era louco por ti, pai – e há algo de errado nisso, sim, de muito errado, há algo de desumano neste “segundo a mamãe”. Não era pra ser assim. (E eu queria te amar sem intermediários – eu juro, pai). Mas eu não me lembro, não consigo, eu não sei… (Eu falho, não é)? Ela diz também que tu eras louco por mim – ela diz. Eu acredito. Eu sinto, pai. Eu tive pai! Eu sei! Não é? Eu tive, não é? Eu tive pai, certo? É curioso, já foi insuportável: não me restabeleço do que sentia por ti e no entanto sinto – sei – que tu me foste pai e que me abraçaste e que me amaste. Terei eu te amado, pai? Terei sido bom filho, carinhoso, presente? (Faltou-nos tempo, não é mesmo)?
Ouvi de longe, meses atrás, uma conversa de pai e filho. (E eu era tão feliz naquele dia). Eles conversavam sobre o mar, sobre velejar – a paixão comum de ambos, pai e filho. (Fascinante)! É notável como me interessa hoje o diálogo de pai e filho – e a cada dia mais. Eu descubro o que nunca tive e é todo um mundo novo e um mundo que me exclui e atrai, que me afasta e recoloca, que me perturba e ordena, que me desmonta e constrói. É fascinante e são mais e mais questões… Nós? E nós, eu e você, pai, nós tivemos uma paixão em comum? Nós teríamos? Teríamos? E conversaríamos a respeito? Qual seria o vento nosso - a nossa vela, pai?
Os meus gostos, os meus desgostos, se não nasceram do vago, se foram influenciados por gentes e experiências, eles certamente não vieram de ti, não foram aprendidos, medidos ou desmedidos contigo – e para que servirá o sangue em comum se não me lembro de um tombo, de uma ferida, de um chute na bola de quebrar o vidro, de um segredo de moleque ao teu lado? Tenho cá no joelho mais rachaduras que pele – e onde estiveste quando me rompi das fibras e chorei o desespero agudo da carne descasada? (Eu me virei, pai – eu me viro, como se diz, ajeito-me). Tu eras Portela e eu sou Império. Tu eras Botafogo e eu sou Flamengo. Tu eras água e eu, uísque. Tu eras brisa e eu, brasa. Tu eras ponderado e eu, imediato. E onde estás agora que não te posso encarnar, desafiar, escutar, superar, que não te posso agradecer pelo que sou e pelo que me deste, os irmãos meus sobretudo – onde, onde? Tu partiste e naquele mesmo ano, faz dezessete, naquele mesmo ano, logo depois, que ironia, o Botafogo quebraria o jejum de 21 anos sem títulos – e tu não estavas lá, no Maracanã alvinegro. Eu estava, pai. E terei então pensado em ti? O Flamengo derrotado e terei eu pensado em ti? Terei dedicado a vitória – que era derrota minha – a ti? Terei?
(Pai, quero te contar: eu sei amar).
Sabes, pai, esta carta é uma ironia e não só porque tu jamais a lerás, mas porque eu escrevo e ganho a vida assim – a escrever. E tu nunca me leste. (Faltou-nos tempo, não é mesmo)?
Sinto saudades e estou bem,
Carlos


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