por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 27 de Julho de 2010, às 16:13
Texto publicado no livro Contra a juventude - As melhores crônicas tribuneiras.
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Meu filho,
Se me lês agora é porque hoje te vi chorando e não soube o que fazer. Pensei em sentar ao teu lado, ensinar qualquer coisa sobre o sofrimento, mas todo didatismo servido como analgésico me soa prepotente. Pensei em dizer que a vida é assim mesmo, que também já passei por isso, mas não quis desmerecer tua dor. Pensei em contar uma piada, aquela do velho careca que, para não ficar com a cabeça vermelha, passa protetor na sola do pé e anda plantando bananeira, mas esqueci o final: por que mesmo ele não passa protetor na careca?
Há momentos em que todos os sambas fazem sentido e a vida não, meu filho. Na verdade, é geralmente assim, mas só nos momentos de angústia a gente se dá conta. Dói aprender que nem tudo se resolve no diálogo, que nem todos querem resolver, que nem sempre vale a pena insistir. Segundo Oliver Stone, por mais brilhante que seja o De Niro, ele não pode fazer um personagem caloroso, porque um ator não consegue trabalhar com características que não tem. Atores, como vejo por aí, desprovidos de docilidade tampouco conseguem disfarçar em cena sua arrogância, e a papéis arrogantes acabam sempre condenados. É preciso ter um mínimo para trabalhar em cima, de modo que, tanto na arte quando na vida, será perda de tempo esperar que alguém demonstre o que desconhece.
Se esperas pudor da mulher que troca de roupa com a janela aberta, estarás perdido. Se esperas acolhimento de quem te pergunta e não ouve a resposta, ficarás solitário. Se esperas bom senso do chefe que não acompanha o rendimento dos funcionários, nunca serás promovido. Só quem pode evitar a decepção é o decepcionado, meu filho, e nada é mais sofrido e laborioso do que cuidar para que ela não aconteça. Teu chefe um dia te pegará em flagrante, de pernas para o alto, bocejando, e não importará que estejas a curtir apenas cinco minutos de descanso após uma semana insone em função do trabalho, porque ele não sabe disso e automaticamente te crerá vagabundo. De nada valerá tampouco relevar os erros dos colegas se, ao menor sinal de erro teu, o mundo cair. E cairá, porque o mundo de hoje é o das cobranças e, como o ar frio - tu bem aprendeste na escola -, elas são pesadas e descem.
Sim, o marketing pessoal virou um mal necessário, quiçá medida profilática, e não dar satisfações em tempo real em breve há de virar crime, mas isto não quer dizer que vamos falar da gente para todo mundo. Até porque, meu filho, poucos realmente se interessam pelo teu bem-estar. A maioria, na verdade, só se aproxima para medir como está em relação a tuas conquistas, se precisa fazer mais por si mesmo ou se vai bem assim, no conforto do rebanho. São todos mestres em rotina comparada. Desaparece e verás que se enciúmam do que possas obter alhures, fazem perguntas como quem não quer nada aos teus amigos mais próximos, temem que retornes da tua pasárgada com um emprego de luxo, corpo malhado e mulheres gostosas. Todo grande grupo amical é um atraso de vida para quem dele não sabe prescindir.
E não raro terás que dele prescindir se quiseres amar uma mulher. Vejo no teu choro o quanto já amaste, e cá se me desgarram uma ponta de orgulho, porque só tem amor para dar quem um dia já foi amado e estou certo de que te amei como pude, e algum arrependimento, porque talvez tenha sido demais e daí teu pranto a cobrar dos outros o impossível. Pouco terei a acrescentar sobre isso, a não ser que nós homens sempre nos apaixonamos por versões da mesma mulher - e temo ainda haver muitas a conheceres. Difícil é saber qual delas é a original, porque pode parecer estranho, meu filho, mas, na maioria das vezes, não é a primeira. Vais desejar uma inquieta enquanto a labuta não te toma a vida, uma acolhedora quando precisares de força para encarar o dia-a-dia, e assim tuas necessidades talvez mudem de acordo com tua disponibilidade e teu sucesso, conquanto jamais venha a ser fácil enganar o padrão de teus encantos. O que podes fazer é enganar a dor deixada por elas – o auto-engano é fundamental -, e isto se faz com trabalho. Felizmente ainda não inventaram o bolsa-sofrimento para dar férias remuneradas a nossas lágrimas de amor.
Há, contudo, quem, no exagero do auto-engano, esquece a reflexão, como se refletir e trabalhar fossem grandezas incompatíveis, e só lá pelos sessenta anos, com sorte, percebe ter uma coleção de ex-amores como ursinhos de pelúcia e apenas o trabalho como real companheiro. Talvez já tenhas feito carinho no rosto de uma mulher adormecida em teu colo, no banco de trás de um táxi qualquer, pensando no quanto a amavas, em quanto tempo poderias acariciá-la, ela ali descansando de si mesma, sem saber que as maiores provas de amor se dão em silêncio, e, no fim, o carinho tenha sido em vão. Não quero tirar conclusões em teu lugar, meu filho, muito menos te quero igual a mim, por isso guardarei esta carta escrita não sei quantos anos antes do teu nascimento, e não sei quanto tempo antes que tua mãe se saiba minha, para algum momento oportuno.
Hoje te imaginei tão vivo, chorando tua juventude, que quase tirei o xadrez do armário para te dar umas aulinhas. Não sabes o quanto é difícil arranjar quem aprenda com prazer as coisas que a gente inexplicavelmente gosta de ensinar. Perdoa-me, aliás, se acabei sendo didático, dizendo que a vida é assim mesmo e contando piada. Espero um dia saber te ouvir.
Antes de tudo,
Teu pai
Ah! Lembrei por que o velho passou protetor na sola do pé e não na careca: porque o protetor é solar…
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