por C.A. - Segunda-Feira, 26 de Julho de 2010, às 00:14
Textos originalmente publicados no site Tribuneiros.com em maio e abril de 2009.
Memórias inventadas [I]
por C.A. - Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 15:42
Desde bem cedo, criança ainda, eu invejei a juventude. Não o jovem; a juventude. E talvez que minha primeira consciência tenha sido a de que em mim, menos que um senhor precoce, adolescia uma sólida calmaria, um desfuror concreto – a quietude de uma poça esquecida pela maré que baixou. (E não interessa que haja um ciclo poderoso, que as águas subam, que as águas se refaçam, que rebanhem a rocha, que se lhe rebatam contra, porque será sempre a mesma poça, o mesmo acúmulo, ao mesmo nível – milagrosamente, superficialmente como se me deleita de fato observar).
Então: fui jovem [criança, adolescente etc.], no que concerne à idade e às aparências do corpo, mas jamais vivi, real ou idealmente, a juventude – um mistério pra mim, seja como for. E no entanto havia os meus amigos, não muitos, mas amigos, cujo conjunto, aos meus olhos, representava a juventude toda, a inveja toda, eles que corriam, vigorosos, energéticos, gastadores de excessos infinitos, enquanto eu fazia correr a bola; e eles me diziam elegante, econômico, como o Sócrates, o que cadencia, diziam, o que dita o ritmo do jogo, o que compreende o esporte, e eu simulava aceitar a fama [o rótulo] de jogador cerebral [de resto justo] para assim afastar-esconder-camuflar, mover-remover para longe em mim, cerrar no calabouço meu, no inatingível do que só eu sabia-sentia, a certeza [inquestionável] de que, sem haver opção, outro eu não poderia ser – e era esta a minha compreensão do jogo, do esporte: eles eram a juventude, eram o que eu gostaria de ser, eu os invejava, e a mim bastava, era-me urgente, desenvolver [e renovar] meios d`entre eles restar [ser confundido, quiçá aceito]; e eu sempre desconfiei que, cedo ou tarde, a despeito de tanto parecermos, crianças afinal, apesar de termos a mesma forma de jovens obtusos e desconjuntados, cedo ou tarde, eu desconfiava, desmascarar-me-iam. (Acho que este temor, mais ou menos iminente, nunca me deixou).
E isto escrevo hoje, decerto que fantasiando-dramatizando, decerto que buscando refletir, em termos da experiência. À época, porém, feto ainda, a minha noção, nem um pouco literária, era dura e sofrida, seca, árida, verbalmente impossível, e eu apenas entendia-experimentava, mudo, a oposição absoluta; o envelhecimento, em nada físico [e seria tão melhor], de, não me sentindo particularmente cansado ou preguiçoso, julgar ao mesmo tempo estúpida e fascinante a curiosidade selvagem de meus amigos, a disposição bruta, visceral, por arriscar, por correr riscos, por descobrir, por morrer um milhão de vidas e renascer cicatriz… E então havia as meninas, que entre nós selecionavam os heróis ou, menos exigentes, os vivos. E nunca eu, portanto. Eu que nada tinha a pôr em jogo, que nada tinha a escutar ou dar, que nada tinha senão a preferência [depressiva, segundo os adultos] pelo silêncio e pela solidão, os meus espaços; eu que nunca roubara abacates; eu que nunca brigara a socos com alguém; eu que nunca deslocara a clavícula; eu que preferia ejacular à noite, na cama, dormindo, talvez sonhando, a me punhetar. Eu que era quieto.
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Uma vez, a primeira, fui corajoso. (E não direi que foi também a última porque, depois, com o tempo, o conceito de coragem esvaziou-se de sentido em mim; e eu preferi conceber-me, com extrema antecedência e um sem-número de restrições, de maneira a que um milhão de alternativas se me oferecessem seguras antes de precisar d`algo como coragem).
Mas, enfim, fui corajoso.
Havia uma senhora, velhíssima, moradora à casa vizinha, que repousava, quase-dormia, horas a fio, de tarde, sob a mangueira do quintal; e o desafio, que me impus, decerto que tolo aos meus amigos [se soubessem] consistia em lhe invadir o terreno, qual um ninja, e, sem barulho, roubar ao menos uma fruta, uma manga, e partir sem rastro.
Durante meses, quase ano, fui traído-engessado, de maneira febril, pelo medo, pelo pavor, e terei abortado a invasão cem vezes, senão mais. (E acho que só me mantive acordado - vivo - porque me norteei pela convicção de que todas aquelas falhas seriam esquecidas no instante, único, em que, vencendo os limites do terreno alheio, eu teria-construiria o meu).
Um dia, com efeito, aconteceu, perfeito, impecável - e fui completamente feliz, porquanto experimentasse, aos nove anos, o sucesso, o triunfo, a superação afinal, aquilo que me parecia [que deveria] ser a sensação, senão diária, habitual de meus amigos, que sem dúvida já se lançavam a perigos mortais, muito mais sofisticados [e secretos, pelo menos a mim] que meu furto, eu sabia, mas o caso é que estava iniciado, que algo de amarrado se rompera, que logo daria novos passos, e quiçá um dia se lhes pudesse alcançar ou mesmo, com sorte, ameaçar, e eu teria então encontrado utilidade, tensão produtiva, para a minha inveja, e cheguei mesmo a desfrutar, antecipando o sabor, dum dia, futuro, em que a juventude invejada seria a minha - e me deslumbrou a idéia de que havia algo de juventude genuína, mais que na aventura, nos meus pensamentos. (Afinal, residia em mim, ali, intimamente que fosse, alguma juventude - e, diante daquela novidade, eu me sentia plenamente capaz).
Era uma quarta-feira, não me esqueço, e não passaria das 21h quando minha mãe contou-me que a senhora vizinha falecera mais cedo naquele dia, sentada à cadeira de balanço, enquanto repousava, como sempre, sob a mangueira do jardim.
Ainda hoje, tantos anos depois, mas com a mesma intensidade de então, pergunto-me - e acho que minha honra vaga nesta dúvida [neste limbo] - se teria a senhora morrido antes ou depois de minha missão. (Ainda hoje, tantos anos depois, mas com a mesma intensidade de então, pergunto-me - e acho que a chama tísica de minha juventude se consumiu neste sopro de morte - se teria a senhora morrido antes ou depois de minha missão).
Hoje me ocorre que, fosse eu menos dado à insegurança, fosse eu menos sério, poderia imaginar que, tendo afinal fracassado, ao menos matara a velha de susto. Mas não. Ela morrera antes, minha existência se conformou assim - e assim também se conformariam a [minha] imaginação e o [meu] humor não houvesse já em mim, em curso incipiente, a trama, a tessitura, a concepcão de um discurso para uso exterior, a criação de uma estratégia de permanência no mundo; a mesma que, fornecendo-me cotas apoucadas, mas perenes, de simpatia [de graça, de sorte], pavimentou-me um caminho, este que ora deságua nessas memórias.
E eis-me ainda: quieto, mas em movimento.
Memórias inventadas [II]
por C.A. - Quinta-Feira, 2 de Abril de 2009, às 16:35
Brincar, em suma, sempre foi brincar sozinho. E falo de quando não contava mais que cinco, seis anos. Havia o incômodo – a agonia, admito; a inveja, reconheço – ante os que não só brincavam em grupo, mas ainda se divertiam. (E eu precisava evitá-los ao máximo, portanto). Porque eu até podia brincar com as outras crianças, com meus amigos mais queridos, não raro brincava, mas sob esforço quase paralisante, gosto impossível e urgência por me enquadrar – por caber [e sumir] ali.
Sozinho, contudo, eu criava exércitos, aliados e adversários, montava cenários monumentais, promovia acordos de paz, que logo rompia em traições e batalhas sangrentas, mas sem privilegiar lado algum, antes os comandando sob profundo equilíbrio, representando, com consistentes pormenores psicológicos, cérebros diferentes, inimigos mortais, entre os quais me alternava com orgulhosa desfaçatez autoral.
Nesses momentos – ilusórios em certo sentido [uma vez que existia o universo lá fora], mas plenamente reais para mim [já que existia também aquele meu espaço, governado por mim] – não havia com o que me preocupar e era natural que me considerasse resolvido. Aquele era o meu mundo, a minha guerra, onde eu era feliz – e militarmente viável.
Por esta época, eu já sabia ler; aprendera sozinho, antes dos cinco, estimulado por um meu exercício de associar sons e sílabas, e destas desfiar as letras, uma a uma, medindo e desembaraçando as combinações, até formar o alfabeto em recortes de jornal, como se preparasse os tipos impressos, coloridos e variados, para uma daquelas cartas anônimas [assustadoras] do melhor cinema americano de suspense.
Assim…
A um óbvio clichê para o jovem que fui – introvertido, segundo os mais otimistas; depressivo, não raro autista, aos menos compreensivos – eu me encaixei logo. Eu lia. Muito. Deixei progressivamente os exércitos – os soldados – para ingressar, sem reserva, nas fileiras de palavras escritas, às frases, e eis que me fiz em alguma artilharia.
Eu restava sozinho, em meu espaço mais caro, o do silêncio; havia uma certa cobrança – talvez minha – por que me ocupasse [era minha a cobrança, hoje sei], e então lia. De início, jornais e revistas ilustradas. Depois, livros, sobretudo fábulas. (Mamãe – e acho que, depois dela, ninguém mais – respeitava a leitura como uma ocupação produtiva, que em algo resultava ou resultaria, e assim me protegia, resguardava, sem chaves, aquela nação minha, que não extrapolava meu quarto, contra as pujantes exigências, atléticas e impulsivas, solares, do jovem mundo exterior; o meu quarto, no Rio de Janeiro, era a Finlândia).
Curioso é que, de minhas primeiras leituras, muito pouco me lembro. (Recordo-me, isto sim, da sensação, sensação de mundo, de inteireza, completude; do prazer abstrato que tirei, imediatamente, da experiência concreta, que ainda hoje perdura, do tato absoluto, do toque no livro, que se abre e desenvolve, o objeto livro, do toque, do manuseio gentil, logo compadre, ao papel, e de seu cheiro bom, de madeira afinal útil – porque o leitor honesto não pode ser ecologicamente correto).
De minhas primeiras leituras, quais fossem, mamãe foi a memória – e, se escrevo que delas muito pouco lembro, talvez simplifique excessivamente, talvez esquematize em demasia as possibilidades [os mistérios] da mente, incorrendo em negligência para com as reminiscências afetivas, que, por que não?, transmitem-se no carinho, no afago verbal; e talvez que este pouco de lembrança seminal minha seja ainda a memória de mamãe, que sua generosidade fez crer minha; e minha é. Como não? Como, se memória é patrimônio, dizer que não possa ser também herança?
Gostava [nunca me cansava] de ouvi-la contar sobre os livros que eu lera, sobre como me chegaram [então ao acaso], como despertavam [ou formavam] o meu interesse – mas nada jamais superou os momentos em que, em meio a essas sólidas lembranças de leitura e de livros, de títulos, de ilustrações etc., ela contava, ainda que brevemente, ainda que de passagem, ainda que pela milésima vez, sobre o meu fervor, sobre a paixão que lia em meus olhos enquanto me guiavam pelas páginas… E isto me foi – é – fundamental, decisivo, porque afinal montou [monta, sustenta] a ponte para o leitor [eu] de que tenho recordação plena, não mais herança, recordação de fato, fotográfica, nítida, e é assim que ora vou me lembrar da relação candente, orgânica, que tive com os livros do Nelson, os primeiros a que me remonto, quiçá porque escolhidos por mim, comprados por comando e desejo meu, que devorava de maneira febril – os livros de Nelson Rodrigues sobre futebol.
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Eu já teria dez, onze anos, talvez doze; tinha meus gostos [e desgostos, principalmente] definidos, o meu caráter singularmente estabelecido – leitor, sobretudo leitor – mas me teria perdido completa e eternamente, no que se refere ao mundo exterior [ao juízo público], não fosse um gol, lindo, de cabeça, o gol da vitória, que marquei. Sem querer.
Até então eu jogava futebol, obrigado pela educação física escolar, como tomava partido em qualquer atividade coletiva: invisível, ao melhor estilo zumbi, pretendendo apenas sobreviver. Era o último a ser escolhido, sempre, e meus companheiros de time me recebiam como fardo – o que verbalizavam em termos, “melhor seria se jogássemos com um a menos”, que me traumatizariam se pelo esporte então eu cultivasse alguma esperança, se pelo esporte eu tivesse alguma expectativa que não a do apito final.
Quando jogávamos no campo grande, menos dilacerante [porque a extensão da arena me mantinha mais distante da bola e por mais tempo], escalavam-me à ponta, bem aberto, e eu, comprometido com a idéia [de me ocultar], desaparecia como, em breve, desapareceriam todos os pontas – e eu então estava, sem saber, na vanguarda tática, pioneiro na evolução dinâmica do esporte, experimentando [quiçá contribuindo para], no isolamento, a inutilidade que resultaria no fim absoluto da posição outrora ocupada por Julio Cesar “Uri-Geller”.
Dramático – difícil mesmo – era quando o jogo se dava no salão. O time se formava em quatro mais o goleiro, e não havia meios de me esconder. A bola era onipresente, miúda ainda mais que a outra, velocíssima, e, sem poder me mascarar, ainda me expunha. Eu, perdido, rodando num terreno que era só desorientação, empenhava-me em dela me livrar, da bola, mas a paz não durava um punhado de segundos, e logo ela vinha, de novo e de novo, para o meu fracasso e do meu time, para o meu ridículo obsessivo – até aquele dia redentor em que, diante da platéia lotada de meninas, caminhando convicto para mais uma jornada de humilhação, um tiro disparado contra a trave se veio replicar em minha cabeça, e dali, fulminante, para o gol, para o gol!, no último instante, o gol da vitória, casual e gloriosamente meu, que comemorei, correndo sozinho e desprezando meus colegas, como um herói, como Zico, que ergue as mãos aos céus não por se aproximar de deus, mas para se elevar a si…
Hoje posso escrever com clareza: eu me encontrava, à falta da ponta, pouco entrado na área adversária, de onde vi, espectador privilegiado, o chute violento ganhar forma e direção para, sonoro, agredir a trave e vir em minha direção, não menos forte, e eu simplesmente fechei os olhos, baixei pouco a cabeça e contraí o pescoço, parado absolutamente, e então senti a bolada me acertar em cheio, bem à testa, repicando poderosamente contra as redes inimigas, caminho cujo final, o arqueiro vencido, o estufar das redes, de olhos bem abertos, pude ver – o meu primeiro gol, e rever, para sempre, como agora.
Ali, porquanto também já me aplaudissem as meninas na arquibancada, ali o futebol nasceu para mim; e ali, ao juízo do universo [talvez ao meu mesmo], eu me salvei. Para o mundo. (Para o mundo, sim, absolutamente dependurado, precário, mas salvo; mantendo aberta aquela fresta última, aquela em que identifiquei a chance, menos falsa afinal, de existir, digamos, socialmente; e pela qual se reduzia em mim, a quase omitir-se, o temor por que me desmascarassem)… E também me lembro com clareza: eu comemorava, aprofundava como um título aquele instante-gol meu, o da vitória, e ao mesmo tempo, consciente, decidia que não só aprenderia a jogar futebol, como o faria bem.
Não tardou e eu já era o Sócrates, o elegante, imprescindível, o que cadenciava o jogo, o que fazia a bola correr – o que tinha ampla compreensão do esporte, embora eu nada mais fizesse que sobreviver, que existir, que me encaixar, já-quase dignamente, adaptando as minhas limitações [inclusive as do aprendizado tardio], recriando-as em qualidades, em consistência, simplesmente preenchendo os espaços não ocupados pela juventude dos demais, que ainda invejava, e talvez mais ainda. Eu era quieto, eu era leitor, e era um craque.
Memórias inventadas [III]
por C.A. - Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às 11:28
Faz pouco, na Itália, por ocasião de um lançamento, um crítico me perguntou [estranhamente, porque jamais escrevera a respeito] sobre a relação futebol x literatura em minha vida, em minha obra; e eu lhe disse que, como jogador, acima de qualquer outro esmero da existência, eu me dedicava à precisão, ao toque exato, à lapidação do fundamento, à excelência técnica, à economia; a transformar em toque de primeira o que aos demais valeria três ou quatro tratos – porque eu não podia errar, porque eu, fisicamente, não teria outra chance, não teria como recuperar a bola, e então deveria ser preciso e também rápido. (Eu sabia que não era um craque; eu era simplesmente aquilo que, útil, os outros não eram, e que não logravam reconhecer).
Todos os excessos, eu lhe disse, como meus livros comprovam [comprovam?], eu os agitaria, mais tarde, por escrito, em meus textos, os exageros, o vigor irrefletido, a prosa bruta, assomada, não raro pesada [barroca], verbo em riste, amontoado, o vento forte das vírgulas, esta respiração mal-asseada, de energia inesgotável e desprendida, adjetivada e repetida, tão própria à juventude, adjetivada, empilhada, infinita, repetida, nunca desperdiçada, sempre renovada; eu os exerceria por escrito, os sobressaltos.
E assim cá se relacionam futebol e literatura: o primeiro, apenas memória e passado, como eu fui e sou; a segunda, memória e tão-só presente, quiçá futuro, urgente, como eu gostaria de ter sido e sou.
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Nota pós-escrita:
O meu editor, a quem, contrafeito, mostrei alguns esboços dessas memórias, se disse incomodado – “não digeriu muito bem” – à passagem, talvez ligeira demais [simples demais, em termos de dotação literária], em que o perna-de-pau, tipo ridículo em campo, autor de repente de um tento redendor [de fato, “um episódio único”], à mesma pressa se torna um craque, um Sócrates.
Bem, não terá sido tão rápido assim; e tampouco sem esforço. É possível que eu não me lembre muito bem daquele período. (É mais possível que eu não me lembre muito bem do tempo, contável-formal, daquele período). Talvez fantasie, talvez exagere… Eu tinha pressa – este é um valor absoluto: eu tinha muita pressa. Vislumbrei-me uma chance, uma passagem de nível, um tempo, quiçá efêmero, de me consolidar em algum talento, real, de juventude, e lhe mergulhei, imediata e exaustivamente. Eu me preparei; edifiquei-me. Durante muitos meses, treinei – fabriquei-me, racionalmente. Não creio que tenha então feito outra coisa. Medi cada uma de minhas capacidades técnicas, projetei-as entre o futebol de meus amigos; e acaso encaixassem, eu era, eu conquistava, eu ocupava.
Talvez, para o tempo de meu editor, não tenha sido [não devesse ser] tão rápido. Para mim foi. Eu acelerei o meu tempo – e não existe pressa [velocidade] mais desmedida que a visceral.
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Ah, o sexo… O sexo – que mal há? – também foi uma construção mental minha. Uma obra de extravagância.
Eu tinha catorze anos, recém-cumpridos, e simplesmente fui, sozinho, como sói aos de meu caráter. Atravessei a rua e fui. Já ouvira, dos mais velhos, difusamente, histórias de puteiro – e queria erguer as minhas.
Não tinha, como ainda hoje, a menor idéia do que fazer; supunha, porém, que fariam por mim – e fui. Norteava-me, que mal há?, pelo desejo de materializar a iconografia – a brasilidade – de minha infância, as mulatas do Di que nos tomavam as paredes e pelas quais, acima de qualquer menina do colégio, eu me excitava e masturbava tardes múltiplas; e então gozei incontinente, não se quedava minuto, à boca de uma mulata em cujos mamilos, cor de café [colombiano], tão velhos íntimos meus, eu finalmente tocava, concretamente, solidamente, auge daqueles seios da minha vida inteira, pelos quais, larva quente, eu me escorria. (E não é que fossem bonitos, não eram; mas reais, vivos, duros-ardidos, nacionais, e ali, diante deles, à palpação deles, ao tato daquela pedridade, senti-me brasileiro e ativo, um patriota!, pela primeira e decerto que última vez, brasileiro e promotor da integração racial, um canalha!, eu, um senhor de engenho, enquanto apertava com sofreguidão aqueles bicos pretos, ao me ver jorrando à boca de uma mulata de seios iguais aos pintados pelo Di Cavalcanti, a iconografia de minha infância, sobre a qual, numa intervenção pós-moderna, ejaculava profusamente).
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Escrever, sim. Ser escritor, não; nunca foi uma obsessão, sequer um sonho, um plano – e eu nunca pensei a minha escrita, o seu desenrolar, em termos de uma carreira; o que sempre me pareceu vulgar.
Jamais, nem ante meu primeiro livro, impresso, pude pensar [admitir] que escrevera um e, sobretudo, que escreveria outros. A idéia de um percurso a construir, cujo acúmulo resultasse num sentido de obra complexa e, o horror!, estudável, academicamente legível-apreciável, sempre me pareceu pretensão de arquitetos de vocação desperdiçada em extensas plantas literárias… (Em vez do palácio dos arcos simplesmente, definitivo, intenso, uma brasília, àquela diluição)… A idéia deste conjunto, ademais, parecia-me francamente dispersiva, concorrendo para que, em função de um amplo e prestigioso panorama [coerente; o horror!], se negligenciasse o detalhe, o pormenor, a dissecação do presente, do texto presente, do parágrafo atual, da linha exata, imediata, da palavra perfeita, experimentada, testada, intensamente, descoberta: a palavra perfeita. Não. A pressão, alheia e estrangeira, por que se corresponda a uma expectativa, por que se responda ao tijolo, previsto e sem arestas, de uma construção habitada pelos outros… Não. (Não se pode, neste instante, ter noção alguma de conjunto, de conjunto exterior, senão a daquele em que terá existência a palavra perfeita – a frase, a oração; mais tarde o livro inteiro, mas só ele, só aquele).
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Escrever, linha que seja, é-me um processo tão necessário, tão urgente, quanto corrosivo. Impossível pensar que, depois daquela frase, ainda possa vir outra; e assim, tanto mais violento, é também com os livros, com o ponto-final: um que me tortura, que me corrompe durante meses integrais, estancará em mim, eu creio [por favor, para sempre!], qualquer outra escrita, qualquer outra trama futura. (E, por que outros venham-virão, outras tramas, e traumas, é preciso se enganar, por motivo de sobrevivência).
Escrever é-me caminho de morte, de morte iminente, de falência dos órgãos, de sufocação abissal, de fôlego exaurido, sem esperança de ar, ao fundo, preso, do oceano mais escuro… Eu anoto; tomo nota de tudo, o tempo todo – e me desafio, pondo à prova o escritor [o mergulhador] que sou, a quanto sou, a quanto vou, e às vezes, muitas vezes, dezenas por dia, guardo o bloco, dou partida a outra atividade, mas logo me vem a escrita, de repente, as idéias da [de] escrita, desafiando-me, exigindo, e eu preciso retomar, retornar ao caderno, dar-lhes voz, esboço [rouquidão, que seja], anotá-las todas, onde estiver, e isto vezes sem fim, o que se tornará tanto mais destrutivo à luz [à sombra] de que escrever profissionalmente sempre me foi, e ainda hoje [será?], trabalho menor, clandestino por certo, ofício de se exercer envergonhado, de forma que, dramaticamente, a título das aparências [sempre elas], eu deveria dar seqüência ao meu dia normal, à rotina, e assim seguir à editora, ocupar-me dos livros alheios, e deles me desocupar seguidamente, completamente afinal, para abrigar em segurança, de imediato, sempre, as minhas idéias, as minhas teias, os meus personagens, ou meus, e só o que me importa…
E eu era então, aos 25 anos, inteiramente desonesto – comigo e com quem me pagava.
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Escrevi faz pouco que, ao criar meus exércitos de infância, confrontava-os de maneira equilibrada, com soberano senso de justiça – o que, não sendo absoluta mentira, tampouco será irrefutável verdade… Minha questão inicial era prolongar ao máximo as contendas, as batalhas, por meio das quais me encontrava e justificava e era. Portanto, um certo equilíbrio – a balança – era-me conveniente.
Hoje, entretanto, não sem orgulho autoral, lembro-me de que sempre pendi para o lado do mal; e que, ao iniciar do combate, bastava que – sem que deliberadamente eu quisesse – algum lado se sugerisse, ao acaso, em maldade maior para me levar a discreta simpatia; porque eu julgava aborrecido aquele discurso politicamente correto [amplo, vago] de salvamento do planeta, de defesa dos grandes valores [em que ninguém tocava, de que todos falavam sem compreender], da justiça em prol da humanidade abstrata e cordeirinha, de resto sem face; e me agradava, genuinamente, diante das pretensões delirantes e egoístas, materiais, concretas, de se dominar o mundo, de se conquistar, mesquinhamente, todos os territórios como um fim em si, sob o desejo puro e assumido de poder e simplesmente poder, e pronto. O mal, em seu desenvolvimento lúdico, sempre me fascinou, sempre me foi mais humano; e talvez me tenham fascinado muito mais os personagens do mal, o líder do mal, o vilão cerebral, a mente tarada e tirana que mobilizava, para o benefício de seu poder exclusivo, um exército de amorais… O déspota monstruoso de minha meninice sempre esteve em melhor consonância com os meus sentimentos de mundo – e eu talvez fosse criança mais saudável do que ora considero.
Memórias inventadas [IV]
por C.A. - Quarta-Feira, 15 de Abril de 2009, às 12:42
De minha tatataravó materna contam que possuía os mais belos seios da história do comércio escravo da colônia, com píncaros de desafiar [desdizer] as forças da física - da gravidade, do tempo. Era da costa-velha, negra mina, de uma tribo cujo talento maior [ou não] consistia em farejar ouro.
Minha tatataravó, como meus parentes africanos [não posso revelar por quê, mas sempre intuí que os tivesse], era cheiradora de ouro e, particularmente, preta fibrosa, de um queimor que, segundo a lenda, plantava febre às partes masculinas mais apressadas; e é então que entra o velho padre meu tatataravô, um espanhol, rufião poderoso, afeito aos riscos da alma e às riquezas, as materiais, de pedras e carnes, que, apaixonando-se [quem dirá que não?], veio fazer família, fé e capital nessas terras brasileiras, à região que hoje se chama, por estado, Espírito Santo.
Não o quero julgar, mas meu tatataravô, homem-de-deus [servo do senhor] convertido ao prazer e a conturbação, foi, a despeito de marido amoroso, gigolô pioneiro, senão aos outros oferecendo o calor da esposa, explorando-lhe os dotes olfativos até que erguessem, juntos [o amor, o companheirismo], um império de ouro - um quarto, trinta metros quadrados, de ouro maciço.
A empresa, de caráter ambulante, saía, chão sem destino, a seguir o norte do nariz da mulher, sob confiança absoluta naquele sentido, até que paravam, subitamente, ali, ela apontava, ali, indicava, governava, e então de imediato se punham a cavar os escravos, fosse onde fosse, à dificuldade que fosse, à mais íngreme encosta - e era batata, sempre: ouro, muito ouro, sempre.
Meus dotes [inexistentes] de pesquisador não saberão dizer quando o ouro todo foi, por lei, confiscado pela banca oficial, ao pretexto do patrimônio público defendido, dos dotes e vigores naturais da mãe-gentil reunidos - mas o fato é que assim foi, e que ficaram pobres já ao final da existência, logo depois morrendo, juntos, de mãos dadas, num casebre da Vila Velha. (Uma versão menos difundida da passagem, porém, dá conta de que, falecendo de fato juntos, não foram unidos exatamente pelas mãos que se esvaíram os corpos - e eu apostaria)…
Muitos anos depois, porquanto mudasse a lei, estabeleceu-se que os herdeiros das famílias lesadas pelo ouro teriam direito a uma indenização, em dinheiro, equivalente ao peso da opulência tomada, bastando que se manifestassem - e aos meus seria uma fortuna, portanto.
Seria…
Seria; porque, progressivamente embranquecidos, aos poucos bem sitos à faustíssima sociedade capixaba, não reclamaram o direito, calaram-se, apenas, avento [estou quase certo], para não reconhecer a antepassada africana e a origem mestiça da família; que aí ainda está, plena em pose e sem um puto furado, da qual, em índole, decorro inegavelmente, covarde maduro, assumo, mas, mesmo que ora chafurdando a honra-fundação do sangue, incapaz de resistir a essas histórias de profecia, negação e desejo [de amor!], ao legado imaterial-imaginal de meus tatataravós, à distante memória dos quais, nestas minhas, presto [pago] homenagem [inveja] afetiva [literária].
Memórias inventadas [V]
por C.A. - Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 14:03
Meu editor, tipo zeloso, vem de me bater um fio, mais um. Estava ele lá a pensar, preocupado com o encaminhamento editorial que daríamos a estas memórias – questão que, fiz saber, não poderia me importar menos. Ainda assim, ouvi-o; e eis que o aflige, em uma pergunta, se devemos caracterizar esta obra, a despeito do título, por um romance?
Respondi-lhe que não; que não se deve dirigir-governar, não desta maneira, não já desde a capa, os caminhos do leitor, ressecando-lhe a liberdade de se encaminhar a partir de si; que se dei ao livro, ainda que provisório, o nome de Memórias inventadas, é porque penso que tudo quanto se possa sugerir por leitura vá aí assinalado; que, hoje, ante a forma como compreendo a escrita [e a leitura], restringir-limitar algo por ficção absoluta parecer-me-á covardia e redução profunda ao espírito da literatura; que, do mesmo jeito que concebo indigente a leitura que busca em cada linha o caráter pessoal, íntimo, do autor, julgo aviltante, talvez desonesto, que um escritor apresente uma obra, qualquer uma, bradando que seja ficção, só ficção, integralmente ficção, fruto apenas da criação, e que nada de seu ali resista etc.
Se algum meu leitor achar por bem ler-me essas memórias como as minhas memórias, não lhe direi que não.
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Ainda não falei de papai. Quiçá por opção de prosa, por motivo de ritmo, não sei; mas certamente não por que me tivesse marcado especialmente.
É apanágio da juventude que os meninos, quanto mais jovens, cultivem a imagem do pai como referência, como o ideal a atingir – como o modelo, ainda que venham a negá-lo [superá-lo], sem traumas, mais tarde. Eu, ao contrário, bem cedo soube o que não queria ser: não queria ser o meu pai – o que eu apenas reforçaria [consolidaria] com o tempo.
Papai foi um homem severo, duro, frio, distante…
Eu minto.
Papai nunca foi esta presença exata, rigorosa, grave, do chefe de família padrão ao imaginário brasileiro da primeira metade do século XX – e não posso incorrer neste ridículo.
Papai foi um homem em que dava pé – um homem raso. Um homem desprovido. Assim mesmo, sem complementos. Um homem sem.
Seus interesses nunca se configuraram num interesse meu, o que jamais lamentei. (A verdade é que nunca consegui reconhecer quais fossem seus interesses, do que gostava, e nunca o ouvi falar com prazer sobre coisa alguma; papai era incapaz de desenvolver nuances, de dizer não).
Jamais me culpei por não admirá-lo, por considerá-lo medíocre. Não se pode contornar o latente por muito tempo. Mais tarde, já pelos vinte e poucos, quando saí de casa, ainda que lhe devotasse um sentimento puro [gratuito] de afeto, tinha-o na conta intelectual definitiva dos insignificantes, e sequer me ressentia por ele nunca me ter oferecido a palavra de pai, os tradicionais clichês formadores da lavra paterna. (Essas coisas que talvez nem existam)…
Há vinte anos, quando ele morreu, esforcei-me, a pedido de mamãe, para lembrar de algum gosto especial dele, para um discurso de cemitério – e não havia: papai não tinha gostos. Mas menti, a pedido de mamãe.
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Papai é, sim, admirável em certo sentido [mas só quando me vejo em desespero], pois que fosse vazio de questões, de dúvidas, de inseguranças. Não se devia cobrar; não tinha aspirações. Decerto que não criava para si pressões de mundo – e que maravilha!
De conhecimentos raríssimos, o que casava à curiosidade quase nenhuma, soube viver, com sabedoria, o esplendor da ignorância. Porque se pode saber muitíssimo… Geralmente se sabe mais ou menos – é o comum, e graças a deus, o que nos faz o pão, o vinho e a sacanagem. Difícil é saber pouquíssimo; difícil é operar no modo econômico de papai. É a verdadeira sabedoria, a paz. A clareza.
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Meu editor, tipo zeloso, vem de me bater um fio, mais um. Estava lá ele a pensar, preocupado, segundo me disse, com o encaminhamento editorial que daríamos a estas memórias – questão que, fiz saber, não poderia me importar menos. Ainda assim, ouvi-o; e eis que o aflige, em uma pergunta, se devemos caracterizar esta obra, a despeito do título, por um romance?
Respondi-lhe que não. Seco; e um abraço.
Verdadeiramente, pois que somos amigos, a preocupação dele não era literária; e ele não me precisou dizer: eu percebi, desinteressei-me, e um abraço.
Estava preocupado comigo, pessoalmente, com a imagem que, nessas memórias, eu oferecia-criava para mim – e por isso a idéia-sugestão de caracterizar esta obra, à capa, por um romance; para que escapássemos, para que eu escapasse, pela ficção, pelo reforço da invenção [mas em detrimento da literatura], ao perigo de que um leitor me lesse pelo sujeito como me aqui apresento, o que, aos olhos de meu editor fraterno, talvez me pintasse-legasse mal.
E o que poderei dizer? Que este não sou eu? Que sou eu? O que poderei dizer a este leitor real, que me lê em sua casa, que me procura nestas linhas? Que vá em frente; que me leia como achar melhor, eu o encorajo.
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Nesta altura, sim, devo falar que invejo a juventude – e também a ignorância, que me fascina. Não uma ignorância absoluta, que consista no desconhecimento total; mas algo limítrofe, misterioso, que reúna a ciência mínima, os conteúdos básicos a uma convivência [que creio] superior, apenas as informações necessárias, vitais, para que se tenha a verdadeira sabedoria do mundo, esta que simplifica, que gloriosamente simplifica, que cria atalhos orgânicos para a leitura do mundo, para a observação do mundo como ele é, superficial.
Porque é assim que funciona – e ora convido os que sabem demais a considerar se não gostariam de se esvaziar um pouco, de repente. Hein? Imaginem… Há um prazer extraordinário nesta conjectura – nesta imaginação da leveza, do peso, ao alcance, tão-somente o necessário!
Estou convicto de que, em menos, teríamos meios mais diretos, eficientes, cristalinos de compreender… Porque, basicamente, as coisas são mais simples, sempre, e se podem resolver, rapidamente, em mergulhos mais curtos, rasos, pelo enfrentamento elementar, essencial, poupado em referências, do universo, no 2 + 2 mesmo, que dá em 4, sempre; porque alguns recursos do pensamento, os mais elaborados, turvam a leitura da existência a quase cegá-la, contando dados, supérfluos, que tão-só complicam, variáveis que debilitam, que desperdiçam, despistam, e decerto que atrasam-retardam, desbotam a compreensão, engordam a lucidez ao ponto de ela ser apenas gula, acúmulo, massa amorfa, gordura, e levam-nos à fantasia, à vaidade, à psicologia, à especulação, à criação, ao engano, e é então que, excitados por múltiplas reflexões sofisticadas [pelo empilhar dos séculos, à carga das mazelas ancestrais, dos fracassos do passado, alheios], perdemo-nos de que bastaria muito pouco para a imediata noção, para a urgente leitura do que prevalece, para a evidência cavalar de que, objetivamente, desde as cavernas, somos rejeitados.
Memórias inventadas [VI]
por C.A. - Quarta-Feira, 6 de Maio de 2009, às 00:30
Eu não choro; nunca chorei. Sinto, às vezes, a angústia do choro, a angústia transbordante do choro, de se desanuviar, a represa prestes a se romper, sucumbida à pressão daquela correnteza minha – mas não.
Esta dor, que me comove – porque eu me emociono, eu sei me emocionar, eu alcanço –, ela simplesmente não se materializa, não chove em mim, não rega; não desafia, por mangue, o cerrado preto de minha barba seca, o cerrado escuro de meus espinhos.
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Há, contudo, uma explicação científica – médica – para o meu choro inexistente, para a estiagem nordestina, sertaneja, de minhas lágrimas. Quando criança, bem pequeno ainda, eu tinha descontrolada a glândula lacrimal, segundo me contavam os mais velhos; e era, portanto, um bebê marejado, que chorava sem dor o tempo todo, que chorava ao bastar dos olhos abertos – os “olhos de banheira”, como dizia a minha avó –, e me foi preciso uma pequena intervenção cirúrgica, brevíssima, simples, mas que, excedendo-se, lacrou de vez a nascente de minhas águas.
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Muitos anos depois, a perder esta avó querida, ao vê-la morrer, ela que era o meu carinho todo, ao senti-la entregar-se, decidida, de mãos enlaçadas em mim, com as últimas forças todas naquele aperto-adeus, senti que chorava, que extravasava-extrapolava o erro médico, que as lágrimas me ocorriam, corriam, e não, não – não havia lágrimas, sal nenhum, mas eu chorava, não havia quem dissesse, mas eu chorava, eu me desaguava, todo, por dentro, eu sentia, a enxurrada interior, eu chorava, eu chorava, lágrimas mudas, lágrimas de devastação, e me culpava por que não houvesse quem me pudesse perceber a dor, a minha, o afogamento, porque eu não me inundava da imagem da dor; e então que tive a compreensão definitiva, a experiência-caatinga da solidão.
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Escrevi bem antes que cedo me desliguei, após uma ação fracassada, do que fosse coragem, o que será verdade, porque coragem pressupõe desafiar a tragédia, possível, sob a confiança no triunfo, à consciência do triunfo, o desejo imperativo do triunfo – e venho de me lembrar do dia em que, deliberadamente, lancei-me à morte, simplesmente, à morte, sem mais, sem coragem, sem desejo, sem querer restar de pé, glorioso, à morte.
Eu talvez [talvez] me quisesse mitificar, ser um herói frente a meu irmão e os amigos, de juventude fabulosa, gênios da bicicleta, veículo que nunca comandei, que se jogavam, à velocidade automobilística, numa ladeira, sem freios, que a justa lembrança impõe que se diga aos 90º, ao fim da qual pareciam ter descido um escorrega de piscina, todos de pé, triunfantes senhores da montanha; e eu fui acompanhá-los, para morrer.
Meu irmão diz que se recorda apenas do instante em que eu, pouco adiante dele, perdi o controle e voei, de todo entregue, ido, de todo, oferecido à ralidão de pedra e terra, àquele chão encravado, inscrito em dentes [em dentadas], eu, um boneco cuspido para o próprio sangue, do que me vestia, tragado pelos próprios ares, do que me abafava, debatendo-me eternamente até o momento horizontal em que, estirado, sem gloria alguma, mas ciente de que vivia, senti-me extraordinário.
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E havia as brigas… Não sei, honestamente, porque isso me ocorre agora; mas coisa que me aflige – que sempre me afligiu – é briga. Duas pessoas brigando, trocando socos, é a mais contundente demonstração da falência humana; é a derrota do diálogo, da argumentação, a derrocada do texto… E talvez que já me perca em especulações intelectuais, por que duas pessoas brigando é simplesmente um horror; é feio, ora.
Sempre gostei de boxe, da luta, esportiva, no ringue, mas decerto que pela consciência da mediação – do arbítrio, da lei. À rua, porém, sob os golpes do imponderável, sem regras, duas pessoas brigando é a escritura de alguma forma de morte; é a expressão mais imprevisível da decadência, e eu resto sempre temendo por que alguém lance mão de uma garrafa de vidro quebrada, ou de algum porrete, e que o confronto se derrame num lento definhar, talvez num corpo desacordado, mole, inconsciente, espancado, que se esvai aos poucos… Ou que talvez sobreviva, aleijado, entrevado… E eu resto sempre esperando – torcendo – por que alguém saque uma arma de fogo e dê cabo logo daquilo.
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Uma vez, aos doze anos, eu briguei – no colégio. E briguei com um então bom amigo, que me provocava muito – não me lembro por quê –, estimulado pelos colegas brigadores experientes, os mesmos que me compeliam à reação. Bati muito e apanhei muito [sem saciar a claque], cansei-me sobretudo, porque não éramos de briga e despendíamos energia excessiva, para o deleite – a luta patética dos amadores, mais ou menos como ficou conhecida – dos curtidos brigões da platéia, que nos dias seguintes, em termos mui pouco heróicos, repercutiriam, penso hoje que com razão, o espetáculo vexaminoso que fora aquele combate sem vencedores.
Não saberei dizer de meu oponente, a quem nunca mais vi, mas lutei, já então com esta consciência, para me integrar – para ser aceito entre os mais fortes, os que se mediam todos os dias, brigando na rua, em bandos, entre gangues. Sem sucesso.
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Houve meu velho avô, a árvore frondosa, pai de papai, sobre quem foi sombra decisiva – e talvez que meus gostos, meus vícios [caros], tenham fé nele, em meu velho avô; porque das minhas memórias de moleque a mais forte é aquela em que ele, corpo imenso sob o sol, de que era todo o bronze, pedia-me que lhe preparasse o uísque, muito gelo, um pouco d’água, no copo curto, cristal maciço, como um troféu.
E eu então ia, claro, cuidadoso-orgulhoso; e ele assim, mexendo os cabelos desalinhados de prata, estimulava-me – teria sete anos – a provar o scotch que servira, criticando-me [o mais comum] quando erradas as medidas, elogiando-me ao acertar das doses; e, de qualquer maneira, olhando-me longamente, ensinava-me que o bom uísque, para além das marcas e anos de maturação, era aquele, qualquer um, que se nos bem descesse ao primeiro gole, que nos correspondesse ao primeiro gole, sem dúvidas, imediatamente; e que se a este primeiro trato, ao segundo no máximo, o encontro se mostrasse forçado, melhor seria não beber.
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Ele apreciava especialmente o Buchanan’s, de que possuía muitas garrafas, algumas das quais conservo ainda hoje, não raro abrindo uma e a bebendo inteira, sozinho, arrebatado pela noção cristalina de passado que um tão antigo uísque fundamenta.
O poder de uma bebida curtida pelos anos, anos já incontáveis, decerto que imprecisos; este poder dos tempos no líquido, na garrafa velha, poder dos meus tempos, herança do meu sabor original, este poder é sentimento que ainda hoje me comove; porque, de alguma maneira, encontro-leio nessas garrafas a concretude da minha linhagem, a genealogia dos meus goles, dos meus goles afetivos, do meu malte sangüíneo; a materialização do passado, do legado, dum passado meu, dos meus, os subsídios para acreditar, talvez feliz, certamente apaziguado, que, de algum jeito breve, terá valido.
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Era um homem lindíssimo, o meu avô, de uma presença magnética, enorme, largo, espaçoso, embora não fosse alto. (Embora não fosse alto, era – se me explico). Transformava o ambiente em que chegava, para melhor, onde quer que fosse, estivessem lá as pessoas mais cativantes do mundo – ele chegava e era.
Com aquele sorriso, ele chegava e era, com aquele sorriso absurdo, aquele sorriso de que jamais me esqueci e que, quando otimista, em meus melhores dias, penso reproduzir.
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E como fumava!
Em suas fotos, sem exagero, não há sequer uma em que o cigarro não apareça; e era de fato um atrás do outro, inclusive no automóvel [um Galaxi!], trancado, ar-condicionado ligado, do que me lembro muito bem, eu no banco de trás, e ele achando graça de que todos reclamassem – menos eu, que lhe era solidário, que lhe era cúmplice: eu gostava.
Depois, ele parou; teve de parar, por grave motivo de saúde, ainda que inútil, pois que morreria, pouco mais tarde, de câncer no pulmão. (Não houve um dia de sua fase terminal em que não se anunciasse profundamente arrependido pelos meses em que deixou de fumar – e então gargalhava). Interessa ora contar que, neste interregno – porque logo voltaria ao cigarro, que fumaria até morrer –, dedicou-se, por extraordinária recomendação médica, ao charuto, que, no entanto, acendia um no outro, e tragava, genialmente.
Destas lembranças – do período em que fumou charutos como cigarros – nunca me esqueci; nunca me esqueci daquele cheiro ruim, eu menino ainda, cheirando mal a fumaça, desconfiado daquele hábito bruto, ao mesmo tempo atraído por aquele prazer tão misterioso, algo secreto, prazer do mais velho, do paladar revelado-apurado, gosto maduro, experimentado, conquistado, e eu queria, eu desejava aquilo pra mim; não o cigarro, que considerava vulgar, comum, rasteiro, ordinário, mas o charuto, eu desejava aquele prazer pra mim, aquele prazer que fechava, que encerrava alguma coisa, que me montava um sentido, e bem cedo decidi que me forçaria aos charutos, que os fumaria com entrega, que lhes conheceria o sabor, as nuances, as raças todas – até possuí-los, até que fossem meus.
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Pelos sete, oito anos, derrotado pela juventude que invejava, meu pensamento-desejo mais constante já era por envelhecer – pela velhice, por me livrar dos pesos, das cobranças, das pressões por crescer e construir…
É engraçado, mas sinto, muitas vezes, a saudade ao mesmo tempo arrebatadora e pura das minhas pequenas e raras coisas de menino, de adolescente, de jovem homem promissor – das miudezas e espaços breves que, com esforço, conquistara, arrebanhara para mim; a possibilidade, por exemplo, de passar sozinho uma noite de sábado, quando, para todos, aquilo era um absurdo, uma excentricidade.
Hoje, não mais. Hoje é comum.
Envelheci por fora, afinal; em certa medida, como sempre desejei, aos sete, oito anos, e aos quinze, aos vinte, aos trinta anos, como sempre desejei: a aparência alinhou-se enfim ao espírito ancestral, e me pego então saudoso dum tempo que, salvo essas brechas de silêncio íntimas, foi-me, lá fora, duro e dorido, mas em que, nunca entendi por quê, a despeito de ausente, sempre fui requisitado, convidado, querido… E hoje não mais.
As pessoas – os meus poucos e tão bons amigos – habituaram-se à minha solidão, à minha tão almejada solidão, habituaram-se, para o que talvez tenha contribuído a idade avançada e, certamente, a doença.
Faz pouco escrevi um conto, que julgo ruim [e depressivo], em que o personagem, tipo cerrado, desde criança envelhecido, mais do que desejar a velhice física e o sossego da idade – valores que podem ser [e são] sempre questionados –, deseja e afinal encontra a paz, insuperável, na doença, no câncer que o legitima, que lhe avaliza a alma; e isto é [seria] um pesadelo.


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