por C.A. - Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 16:36
Texto originalmente publicado no site Tribuneiros.com em 25 de março de 2010.
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Contam-me de Neymar, excelente jogador, mas em quem ainda vislumbro a vulgaridade - os excessos e a inconstância - da juventude. Encanta, sim, como de resto todo este time do Santos, embora não raro pelos exageros - os tentáculos futebolísticos da cultura das celebridades - que definem o espírito de uma época com a qual não me componho e que, ao extremo, degenera-se [até] em flertes com a bandidagem.
Há nele, Neymar, o peso do malabarismo circense, cafona, tão imaturo quanto improdutivo, que consiste também naquelas dancinhas ordinárias… E como não olhá-lo, aos - o quê? - 18 anos, e ver o Robinho de hoje?
Neymar é excelente, repito, e tem o porvir a seu favor. Traz, porém, o ranço de algo já visto, requentado, e o cansaço do que não é original; e sem querer talvez esconda - sob tamanha exuberância, quiçá sombreado pelo penteado moicano - aquele a quem devemos urgentemente atentar: Ganso, Paulo Henrique Ganso.
Há hoje no Brasil - no Brasil que joga bola pelo mundo, aqui ou na Europa - um só craque em plena atividade, completo e pronto, maravilhosamente velho: Paulo Henrique Ganso, o jovem meia do Santos Futebol Clube.
É espantoso!
Aos 20 anos, move-se pelo relvado como veterano, sob a economia de gestos única aos que fazem [sabem] correr a pelota. É o futebol vertical, do qual tanto falam, e com uma qualidade excepcional: prescinde da explicação dos aborrecidos teóricos. O leitor repare: este rapaz pega a bola e a conduz nunca para além do necessário; é incrível. Recebe a bola e a guia - passadas largas, esfera retida aos pés - pelos instantes mínimos-medidos e sempre à rota que desbrava e revela caminhos. (Nunca se excede; nunca excede o futebol, que no entanto preenche completamente e com o qual se confunde, inconfundível). Marca, recua, desarma; mas sem se atirar, sem sujar-se em terra, de pé; cabeça em pé. Chuta a gol com precisão e potência; lança em distância com facilidade e classe - e deslumbra pela maneira surpreendente e simples como encontra-deixa, em não mais que meio-metro de chão, um companheiro defronte à meta adversária.
E é canhoto.
Entre os craques que vi jogar, poucos, sempre admirei especialmente aqueles que - a contrariar os técnicos e comentaristas obcecados por laterais e linhas-de-fundo - decidiam o match num passe central, curto e exacto, desses, improváveis, insinuantes, que desafiam-desarmam as regras do impedimento e as leis da física ao mesmo tempo, que descortinam-desembaraçam a mais cerrada fileira de beques e legitimam o futebol…
(Como não se empolgar com um jogo que, impregnado de táticas e outras amarras, de súbito se resolve - sem pretensão - na mais singela, minimalista e peladeira tabelinha)?
Isso que nos querem vender [com esforço] em Kaká, a modernidade!, isso é Paulo Henrique Ganso naturalmente, discretamente. Dois, três tratos no máximo, ele exibe o raro dom dos que jogam de primeira e adiante; e é fabuloso vê-lo atuar, pois que - acossado no gramado, caçado por marcadores implacáveis, limitado ao breve desse tempo espremido e cego - alcança-inventa sempre a melhor solução, assim como se observasse a peleja de cima, ao nosso lado, com calma, na arquibancada.
Ah, Ganso: um pensador!
A medir 1m84cm, alto para os padrões brasileiros, impressiona - comove! - pela leveza de seu futebol. Flana; flutua, sei lá. E talvez que lhe seja justo o clichê segundo o qual se desloca pelos atalhos do campo, de forma aguda, a transitar pelo cancha como que a organizar a partida, os times, o adversário inclusive; a distribuir a bola de modo a espalhar as peças e abrir o tabuleiro para si. Seu.
Eis, milagrosamente, aos 20 anos, completo e pronto - maduro, esplendidamente velho: um senhor craque!
Mais que Ronaldinho Gaúcho, bem mais que Ronaldinho Gaúcho, já testado e viciado, passado, temos aí, presente-urgente, este formidável Paulo Henrique Ganso, mestre do esporte, dono do jogo, cujo ritmo impõe, cria e recria; Paulo Henrique Ganso, o craque por quem clamarmos - eu clamo - à seleção brasileira.
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Pós-escrito: Leia também Ganso II - AQUI.


Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 16:57
Concordo!
E já há algum tempo venho falando a mesma coisa.
Tenho alguns amigos deslumbrados com Neymar e que implicam com o fato de Ganso ter perdido dois pênaltis contra o Flamengo no ano passado.
Esse Ganso é o cara que eu queria no Palestra Itália, joga o chamado futebol elegante, cabeça erguida e passes certeiros!!!
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 17:02
Bem lembrado, Bruno, o episódio dos dois pênaltis perdidos; eu estava lá e me impressionou, mais que a personalidade de insistir na cobrança, o fato de não se ter abatido ante aquele fracasso. Era já um craque!
Abraço!
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 17:22
GANSO não se compara ao Caio PAPA LÉGUAS, herdeiro do legado de Valdeir Celso Moreira, o imortal THE FLASH.
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 00:12
Meu futebol nunca foi tão bem descrito.
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 09:56
No entanto, meu caro Pim, pensava em mim - um canhoto! - enquanto escrevia…
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 12:42
Ganso e Mezenga, o ataque dos sonhos!
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 13:05
O único Mezenga que eu conheço é o Rei do Gado, inimigo mortal do maledeto Berdinazzi.
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 14:42
Este é um dos maiores perfis de futebol que já li. Um texto histórico sobre um jogador fantástico. Kaká - engodo do bom-mocismo - não engraxa a chuteira deste rapaz, uma espécie de Didi dos nossos tempos.
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 15:11
Em tempo: [como escrevi também no twitter] Dorival Júnior é - obviamente - fã do escrete do Jockey Club da década de 1990. O Santos joga ao estilo Paulo Barros: um ataque insinuante, um volante de toque refinado [o fabuloso Pim] e um canhoto de elegância [o nosso Andreazza Ganso]. Estes dois times têm mais semelhanças que o talento para goleadas.
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 15:16
Nota: na década de 1990, nos campos de futebol society do Rio de Janeiro, o time do Jockey Club Brasileiro - formado e treinado pelo professor Paulo Barros, ostentou o mais longo período de invencibilidade de que se tem notícia, vencendo e encantando… Naquele escreve, do qual era humilde capitão, formavam também o intransponível arqueiro João Paulo Duarte e o monumental meia Felipe Moura Brasil.
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 15:24
Paulo Barros - o eterno - explicou ao mundo que futebol é talento, e bola na rede. E só pude fazer parte daquele escrete monumental porque não era necessário goleiro.
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 15:33
Seriam muitas canetas no ex-tricolor, Jota…
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 15:33
Não temos mais a juventude daqueles tempos, mas me permito imaginar uma grande peleja entre o Jockey Club da década de 1990 e o Santos de 2010, no histórico alçapão society da Gávea.
E garanto: o placar seria 11 x 10, para o Jockey. Porque nem o Ganso se faria sobre a marcação dupla de Pim Monumental e o grande ambidestro Nilo Ramos, o gigante.
Andreazza, você imagina o trabalho que daria para a marcação do Arouca?
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 15:36
A modéstia também tá batendo um bolão por aqui, que cousa!
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 15:46
Olga, Em 1969, prevendo o nascimento daquele time, Nélson Rodrigues escreveu: “Amigos, a humildade acaba aqui. O Jockey é o maior escrete da cidade. No maior jogo de todos os tempos, o time de Paulo Barros conquistou a sua mais bela vitória. E foi também o grande dia do Estádio society da Gávea. A massa teve o sentimento do triunfo. Aconteceu, então, o seguinte: — vivos e mortos sentaram-se na arquibancada. Os vivos saíram de suas casas e os mortos de suas tumbas. E, diante da platéia colossal, o Jockey fez uma dessas partidas imortais.”
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 16:00
João Paulo, o Nelson Rodrigues terá sempre razão, mesmo quando não a tiver. Portanto, a lamentar que eu não tenha tomado conhecimento de escrete tão fabuloso, porque do jeito que gosto de futebol e mais ainda de vocês, não tenho dúvidas que estaria na arquibancada, com bandeirinha e tudo…
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 16:02
Marcação do Pim? Só rindo!
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 16:02
Aos boêmios precocemente saudosistas (entregues aos vícios do jornalismo antiesportivo) que dizem - muitos dizem - “Não temos mais a juventude daqueles tempos”, cumpre-me sempre a sobriedade de lembrar: falem por vocês.
Quinta-Feira, 22 de Julho de 2010, às 16:05
De fato, Alberto, eu só marco gols.