por C.A. - Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 09:56
Texto originalmente publicado no site Tribuneiros.com em 26 de maio de 2010.
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Reconheço que o futebol me enfadonha. São [serão] jogos horríveis, sim. Mas não só. E talvez que experimente - apenas avento - o confronto entre o que afinal é o esporte [nada mais que um esporte] e a dimensão desproporcional de tudo quanto se lhe refira, agora engrossada pela monocultura do merchandising.
E lamento escrever: a bola não mais se impõe; já não resiste…
Apego-me ao gênio individual dum craque, como Paulo Henrique Ganso, ou ao entusiasmo geral próprio a uma Copa do Mundo, quem sabe uma revolução?, para ainda ter esperança. Mas afirmo: o futebol está desfigurado. (Um horizonte saturado, nimboso, trêmulo, egoísta, entregue, obediente, se procuro pela seleção brasileira e encontro em Dunga - sim, no técnico, no medíocre absoluto - a principal figura, o rosto único; a estrela de um tal grupo).
É assim que vou à África do Sul. Com preguiça do futebol [ou dele saudoso], disposto a escrever sobre tudo - um continente a investigar - que não Copa do Mundo. Eis, aliás, o fundamento da cobertura tribuneira: comentaremos quase todas as partidas, estaremos em todos os matches do Brasil [e de Honduras!]; mas, atenção, nada de futebol.
(Falaremos, sim, do craque, dos raros craques, claro, do escrete argentino e do Rooney norte-coreano, claro; e no entanto não trairemos nosso princípio, pois que também o talento, repelido, desligou-se do esporte para, em raios, em vislumbres fugazes, qual uma finta do Messi, desnudar-lhe o politicamente correto, a farsa do fair play, o ridículo das táticas e das coerências e organizações e conjuntos e ordens e comprometimentos e jorginhos outros).
Pessoalmente, meu objetivo é chegar a 2014 de todo alheio ao futebol; e então ignorar a Copa do Mundo brasileira. (Não creio que seja difícil, embora o mesmo não possa dizer do Flamengo, do que me quero igualmente afastar; e tentarei, prometo-me).
Jamais supus escrever o que se segue; mas é com crescente esforço que sustento a minha rotina futebolística. Outrora craque [com perdão da sinceridade], um dia simplesmente deixei de jogar, cansado, castigado em joelhos e com uma inflamação crônica no tornozelo; e parei. Era impensável; mas parei. Desinteressei-me por aquela sorte de disputa, de competitividade; e parei. Doravante seria torcedor e só torcedor, quiçá reforçado com o fervor do peladeiro extinto, e assim fui por uns anos, quartas e domingos, até hoje, dia de Fla-Flu, quando me pego perplexo - motivo inicial deste texto - a calcular o tempo que perdi com o futebol, vendo futebol; e isto porque tenho já uma convicção, dura e honesta, inapelável, que abro: futebol é perda de tempo. (Oh)!
Nos últimos anos, agora sei, tão-só me adiei, pois fui ao estádio muito menos pelos jogos que pela companhia de meus amigos fraternos, com os quais - cerveja sempre em riste [este prazer que também nos foi roubado] - celebrei a eternidade tanto de imortais quanto de comuns, tanto de Petkovic quanto de Obina; e assim foi que [me] resisti, pelo convívio de meus irmãos. Até hoje.
(E o leitor avalie o que ainda me parece realidade de outrem, absurda; mas que é a minha, decidida, absurda: o Flamengo enfrenta, em breves horas, o Fluminense - e eu não lhe tomarei conhecimento).
Ora desenvolvo [testo] para o futebol a mesma higiene afetiva que aplico - faz tempo - aos animais de estimação. Temos já tantos e tão doridos sofrimentos, perdemos pessoas tão amadas, tão violentamente insuperáveis, tão queridas e imprescindíveis; por que então criarmos-cultivarmos, deliberadamente, modalidades novas para a dor e a tristeza? Por que novas linhas para a perda? Por que optarmos pela desdita, se podemos não? Para quê?
(Decidi, aos vinte, não mais fazer amigos, e mesmo reduzi-los, se possível, e até que me venho bem, equilibrado, com os poucos e bons, com pontuais cortes e alguns raros e generosos acréscimos; mas, incoerente, agora vejo-me envolvido pela recente paixão, ademais homossexual, de um cachorro idoso, o da minha Carol, e eis que, abobado, correspondo por Tunico todo o arrebatamento e ainda mais - um fraco, eu).
Para além do tempo, este que se pode medir, quanto me terá custado o ano de 1995, por exemplo, o ano de meus quinze anos, ao sentir o frio inclemente daquele Maracanã de súbito tricolor? Sim, reporto-me ao gol de barriga e à desolação que nunca - nunca - cessou. Sou um homem pior desde aquele dia; e para quê? Aos quinze anos, um amargo! Aos quinze anos, carregando o peso de um centenário que não era meu. E estúpido, fracamente superficial, cego do mundo e das barbáries do mundo, julgando que ali - na decisão de uma competição esportiva - definia-se uma incontornável injustiça do universo…
(Envergonhado, admito, eu rezava pelo Flamengo, fanático, de mãos juntas, e talvez que me parecesse razoável deus de repente a afastar - a cabecear? - bolas para fora da área flamenga; e então lhe descobria alguma serventia: a de um bom beque).
O futebol, entretanto, também pode ensinar; e é certo que nos oferece algumas ferramentas valiosas, algumas balizas morais… A primeira noção contundente de desumanidade eu tive num estádio, no Maracanã lotado, no domingo em que a torcida rubro-negra cantou com crueldade a terrível morte do vascaíno Denner; e daquilo nunca me esqueci, também porque senti-me ali, pela primeira vez, inadequado, deslocado: eu era Flamengo, mas não pertencia àquilo; eu era Flamengo, mas aquilo não me unia-comprometia a ninguém. (Não existia nação; não uma que me incluísse e enredasse compulsoriamente, não mesmo - concluí).
Passei também, a propósito, pela fase - um tanto mística - em que me preocupava com a torcida; em que ficava aflito com a chegada da audiência, com o ritmo de ocupação das arquibancadas, com o alcance dos cânticos, com a energia empregada no desfraldar das bandeiras, e tudo era prenúncio e talismã, e tudo tinha influência sobre o destino, sobre o porvir. (E me admirava-indignava que, às vezes, o cara não tivesse esta consciência, esta percepção de que a mera soma de sua voz - de seu empenho - poderia decidir um título)!
Mais do que o peso de empurrar o time à frente, no que confiava com ganas do décimo-segundo jogador, a presença maciça dos aficionados significava, antes, uma vitória em si. Podíamos, por exemplo, perder para o Vasco; mas a nossa torcida acreditava mais e comparecia mais. E eu achava lindo. A maior torcida do mundo; a que joga junto. Trinta milhões. A raça!
E hoje?
Hoje: não mais.
A raça… Torcida não ganha jogo; nem perde. (Creio mesmo em que o atleta, dentro de campo, no calor da peleja, não lhe esteja nem aí). Mas não raro mata e é freqüentemente capaz dos mais frios linchamentos; e só quem já ouviu dezenas de milhares de pessoas chamarem um jogador - por escroque que seja - de assassino sabe do que falo, da cólera de que falo, da impiedade. Um assombro.
Os meus quinze anos - eles justificam a longa digressão. Não sei se era mais feliz. (Acho que não). Era, decerto, mais ingênuo, o que tem lá seu valor; e a vida, seguramente mais fácil, pendia para a simplicidade - o que tem lá seu valor. Ah, os meus quinze anos… Que marca me é aquele tento do Renato Gaúcho, algo como a descoberta da ruína; e que coisa genuinamente espantosa esta de que ainda seja capaz de reconstruir cada tato daquela fração, cada cheiro daquele breu, cada som daquela umidade, cada sabor. (Um só sabor).
Depois, tantas e tantas derrotas mais tarde, detive-me numa solução para fins externos, um jeito blasé de me relacionar esportivamente e reagir ao fracasso de meu time - um perfeito [mas eficiente] auto-engano -, que consistia na máxima segundo a qual o futebol só teria importância nos dias de vitória, quando então se elevaria quase a instituição da República, cláusula petrea da Constituição, tradução contumaz da alma e da cultura de nossa gente, elemento fundador e sustentáculo primacial do caráter nacional, salve-salve. (Para a derrota, logo, o oposto integral, igualmente cínico: jogo de azar, o circo do pão-e-circo, instrumento alienante, para brutos, cousa menor, cujo resultado de resto nada teria a se ver comigo, que não sou atleta, que não entro em campo e tenho muito mais com o que me ocupar e faça-me o favor).
E então cá estou, hoje, aos trinta anos, de malas prontas para uma Copa do Mundo e plenamente enfastiado de futebol, sabedor, porém, do evento futuro que me poderá renascer para o esporte e no qual creio cativado pelo amor da mulher que amo, da minha mulher: o instante em que meu filho - a imagem exata com que sonho, todo uniformizado em vermelho-e-preto - chutar a primeira bola.
Nesta hora nova: como - neste presente - não gritar gol?


Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 11:27
Fala, C.A.!
Bela estréia em 2010 (risos).
Seguinte, deixa eu meter a colher palpiteira:
1) também vomitei quando li as notas no fim de semana, são exatamente a cara da Grande Rio, esse nojo completo - gosto sempre de pedir (imaginariamente) à Grande Rio e aos seus (dela): por favor, cantam um samba de terreiro aí de vocês…;
2) sempre defendi o título da Imperatriz em 89 (o que continuo fazendo, cada vez mais); irretocável, desfile lindo, carnaval-carnaval, clássico;
3) mas, na época, e para a época, o desfile da Beija-Flor foi muito significativo e novo, um algo inesperado (dentro do que é o carnaval, não o inesperado-ridículo que anos depois foi o astronauta, uma babaquice); mesmo assim, achei até bom que não tenha ganho porque privilegiu-se o samba (latu-sensu), o carnaval, e ficou uma imagem bonita, algo de criação mesmo (embora tenha quem jure - eu conheço - que a idéia do Cristo coberto tenha sido do Laíla…);
4) acho, no fim das contas, que João Trinta ficou sentado na fama e fez muita besteira, mas, em relação ao Salgueiro e Beija-Flor nos 70, e aos mendigos, ele fez grandes carnavais. Inovou, trazendo a trajetória que aprendera no passado com o Pamplona no Salgueiro (que tb mudou conceitos, e bem) nos 60, com os enredos sobre negros, alegorias grandes e tal; Trinta parou no tempo, mas tem o seu lugar, eu acho, como artista, no sentido de criador, de entender essa máquina que tb é o carnaval, essa engrenagem (que, hoje, virou um mercantilismo inaceitável, mas isso é outra história);
5) agora, uma outra coisa é que a espetacularização tenha dominado tudo (o que é repugnante, triste), mas aí têm suas grandes parcelas de culpa a mídia, os bandidões do carnaval que já conhecemos, os vendidos, os cooptados etc. etc., não (ou não só) os carnavalescos, que foram indo a reboque disso tudo.
Desculpe se me alonguei, grande abraço!
Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 12:03
Abjeto.
Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 12:23
Marcelo, vamos pra cima da canalha!
Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 12:33
Grande, Eduardo!
Pretendo fazer de 2010 um ano, digamos, engraçado. Acho que comecei bem.
Vamos aos pontos…
Acho, mesmo, o desfile da Beija de 89 um horror, mas reconheço alguns argumentos dos que lhe dão valor e importância positiva. Meu ponto, você sabe, é outro: é que o desfile campeão da Imperatriz, um “carnaval-carnaval” belíssimo, com um samba inesquecível, seja negligenciado em função de uma idéia, vaga, de “novo”.
Sobre o João Trinta, bem, ok, concordo: é evidente que ele foi mais importante que a Angela Bismarchi… [risos]!
Mas não se o pode comparar ao Pamplona, muito mais corajoso e, de fato, revolucionário; embora, sem querer, seja o fundador do fim das escolas de samba, por abrir a porta para o enxame de carnavalescos belas-artes…
Os grandes carnavais da Beija com o Trinta [1978, sobretudo], estou certo disso, impuseram-se pelos sambas, deslumbrantes, que tinham - e por isso, bem mais que pela estética, foram campeões.
O resto, eis a verdade, fica na conta dos bicheiros e da Globo.
Forte abraço imperiano!
C.
Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 13:47
C.A.,
posso postar no EA seu texto? Concordo com muito do que vc disse. Só lhe advirto que poderá ser vítima de alguns insultos. rs
Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 13:50
Gustavo, meu caro, fique à vontade. Você sabe que sou já cascudo em ser xingado; mas tenho de avisar: não terei tempo para me defender… [risos]!
Abraço!
Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 13:56
Ok então. Na medida do possível serei seu advogado.
Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 14:00
Gustavo, verifique apenas se utilizou a versão última do texto, em que fiz alguns breves enxertos.
Terca-Feira, 20 de Julho de 2010, às 14:58
A tal da Carol Sampaio, com a sua definição nojenta de mendigo e o Bóris Casoy, com a sua “ode” ao trabalhador-gari, se equivalem. De lascar!
Faço minhas as palavras do Eduardo sobre o Joãosinho Trinta. Ele é um grande artista. Para o bem e para o mal, ele cravou o seu nome no Carnaval. E com o passar das décadas, acho pouco provável que seja apenas uma nota de roda pé.