por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 00:45
Texto originalmente publicado no site Tribuneiros.com em 7 de outubro de 2008.
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Minha geração é assim: quando chega a algum lugar, não entra. Faz rodinha, conversa, come no restaurante ao lado, passa num aniversário na esquina, bebe no posto, compra uma balinha, espera os amigos – não entra. Se não tem fila, não vale a pena. Se tem, reclama. Se tem banheiro, não dá descarga. Não sei a sua, mas a minha geração não dá descarga. Tem muito nojo para tocar onde os outros tocaram, e muita vergonha ou preguiça para pegar um papel e tocar protegida. Então não toca. Não faz. Não vai. Não entra. Se eu tivesse que definir minha geração, eu diria só isso: é aquela que não entra. E teria a certeza de ter dito tudo.
Minha geração ignora a relação entre prazer e sacrifício, direitos e deveres. As permissividades do nosso tempo caíram em seu colo de graça, sem dela exigir sequer uma marcha atlética. Não precisou ir à guerra em lugar de camponeses e comerciantes para desfrutar orgias e cachaças, não precisou se confessar ou se penitenciar quando roubava o baleiro da escola, não precisou assumir um casamento para abrir as pernas da vizinha, não precisou nem enfrentar a polícia para tocar um pandeiro. Foi terminantemente eximida das responsabilidades religiosas, militares e políticas com que seus antepassados pagavam o preço moral da vadiagem aristocrática. Não arcou com sacrifícios e deveres para obter prazeres e direitos inúmeros (os quais o Rio de Janeiro, como paraíso natural, liberal e multiopcional, ainda vem potencializar). Minha geração é uma foto seminua no orkut, na praia paradisíaca de uma viagem que alguém lhe pagou.
Em seu clássico La Rebelión de las Masas, de 1928, Ortega y Gasset já apontava o típico representante da classe média moderna - o “homem-massa” - como o “señorito satisfecho”, “el niño mimado de la historia humana”: o filhinho-de-papai que se julga herdeiro legítimo de todas as benesses da civilização moderna para as quais sua contribuição foi nenhuma. De lá para cá, com as revoluções sexual e tecnológica, só aumentaram a estupidez e a extensão das massas engolfadas nesse processo, cuja notória conseqüência é o sentimento de culpa mal conscientizado. Por ter mais regalias do que merece, o señorito despreza a si mesmo, mas prefere expiar-se da culpa – como de tudo - pela lei do menor esforço. Se possível, uma lei de fato ou uma nova forma de governo que resolva o problema por ele, desobrigando-o de qualquer participação ativa no remendo do que não lhe parece justo.
Não é por amor ao Rio que os maconheiros querem liberar as drogas. Se tivessem alguma preocupação com a violência gerada pelo tráfico, no mínimo estudariam o assunto antes de opinar [e de fumar]. Eles querem é uma lei que os liberte logo da culpa de contribuir para a criminalidade. O socialismo e o antiamericanismo também aparecem como válvulas de escape precisas do autodesprezo dos señoritos, em sua projeção sobre o sistema e o mundo. Como a cultura satisfecha e sujinha (da educação ideológica, do parasitismo estatal, do escambo político, do conchavo artístico, da repulsa à discordância, do horror à ambição, da burocracia geral) impede o homem comum de analisar a verdadeira natureza de suas culpas, reprimindo seu desafio pessoal até entorpecer seu caráter, ele vira não só manobrista e massa de manobra política - numa progressão geométrica de recalques que só pode resultar na sanguinolência revolucionária -, como também tanto mais perigoso nos círculos íntimos quanto mais inconsciente de seus atos.
Por isso é que, há anos, eu não me decepciono com ninguém, tanto menos se brasileiro e da minha geração. Minhas expectativas são sempre as piores – e, na imensa maioria dos casos, elas tão somente se cumprem. Os grandes potenciais ficam pelo caminho, entre escolhas amorosas e profissionais medíocres. O resto não se compromete com o que diz, não tem limites ou interdições, não pede desculpas por completo. O sujeito combina com você de ir a um enterro, desaparece, liga durante o velório e, como se nada tivesse acontecido, pergunta “Tá bom aí?”, condicionando sua (dele) ida não à palavra dada ou à importância do “evento”, mas à qualidade das amigas do defunto. Um dia dará em cima de sua mulher, não devolverá seu dinheiro, falará mal de você e, mui “arrependido”, tentará tê-lo de volta à base de bajulação, o atalho-padrão [o charminho] de quem desconhece conseqüências e responsabilidades morais.
Minha geração é toda feita de “enrolões”. Eles passam a vida enrolando os outros e a si mesmos, absolutamente desprovidos de qualquer gosto [profundo] ou convicção [sólida] que se sustente. Há dois tipos básicos deles: aqueles que só enrolam e nunca escolhem nada [não entram], e aqueles que fazem escolhas cada vez mais enroladas e vão ficando – por mais que jurem o contrário – cada vez mais distantes da satisfação plena. Em ambos os casos, pulam fora [ou pagam por fora] à menor necessidade de esforço físico ou mental, e vivem numa eterna fúria contra tudo e todos para esconder de si - bem lá no fundo - a revolta real contra seus próprios e insistentes desejos, de cujas realizações jamais conceberam pagar o sacrificante preço. São como menininhas obesas apaixonadas por um galã cobiçado: em vez de saírem correndo para uma academia, colocam a culpa da paixão não-correspondida nos padrões de beleza da sociedade, e tentam chamar a atenção do galã maldizendo a inteligência das mocinhas bonitas.
Minha geração é assim: quando não faz tudo pela metade, tenta pular a metade faltante.


Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 11:35
Na mosca!
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 19:52
Achei muito bom.
Mas e você?
Entra ou não?
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 19:56
Pim,
Preciso e Perspicaz. Sensacional!
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 20:08
Cada dia mais admirada.
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 20:26
Sensacional Felipe!!! E como diria o velho chavão: faço minhas as suas palavras.
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 22:24
Bravissimo !
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 00:08
Pena…
E vontade de tentar diferente.
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 09:50
Felipe,
Embora eu não concorde com alguns pontos (não é por aí…), o texto está muito bom!
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 11:39
Parabéns! Excelente texto.
Só é uma pena a gente se dar conta que faz parte dessa geração e se identificar com algumas das situações apontadas. Quem sabe não serve como reflexão para mudarmos nossos hábitos…
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 11:48
Eu acho que infelizmente é bem por aí sim! Esse texto é o retrato do jovem atual. E volto a dizer: INFELIZMENTE!
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 13:48
Você retratou perfeitamente a infeliz realidade ideológica da maioria dos jovens atuais.
Ótima crônica, Felipe, parabéns!
Beijo grande.
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 15:21
Pim, você realmente acha que os maconheiros sentem alguma culpa por contribuir para a criminalidade?… Talvez sentissem se efetivamente pensassem sobre o assunto. Você acha que chegam a pensar?… Duvido: a maioria, assim como “não entra”, também não pensa.
Por fim, sou terminantemente contra que menininhas obesas apaixonadas por galãs cobiçados saiam correndo para uma academia…
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 17:12
Quantos quilos vc tem, Fernanda?
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 18:12
Ka,
Concordo com muitos pontos do texto, mas nem todos. E acho que tenho uma visão um pouco mais otimista que o autor em relação à nossa geração.
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 18:30
Muito bom, Pim.
Ainda bem que sou de outra geração!
Agora, esse negócio de não dar descarga, infelizmente não é vício só da sua geração: é falta de educação generalizada do brasileiro. Sempre que entro num banheiro e vejo papel no vaso tenho vontade de perguntar pra quem acabou de sair: na sua casa você tbm não dá descarga? Um dia ainda vou fazer igual aos comerciais do Prezunic, que condenam quem saem sujando o supermercado. Vou encarar a mal-educada e mandar ela dar descarga antes de eu entrar!!!
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 21:53
Paula,
Eu adoraria ter essa visão um pouco mais otimista em relação à nossa geração, mas infelizmente não consigo. Acho que o negócio anda funcionando bem dessa forma mesmo e eu além de concordar com a crônica como um todo gostaria de destacar um trecho:
“Por isso é que, há anos, eu não me decepciono com ninguém, tanto menos se brasileiro e da minha geração. Minhas expectativas são sempre as piores – e, na imensa maioria dos casos, elas tão somente se cumprem.”
Admiro o seu otimismo Paula! Quem sabe um dia eu não consiga tê-lo!
Bjs
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 12:14
Concordo com a esplanação a respeito da nossa geração mas sinto-me obrigada a destacar que uma geração se faz da anterior. Não são marcianos atemporais plantados no Rio de Janeiro. É fruto de inúmeras variáveis, entre elas tentativas tão desastradas quanto humanas de galgar a liberdade. Acho muito bacana uma mea culpa de geração, mas uma constatação crítica sem soluções cai no vazio da multidão.
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 16:27
Por quê, Rodrigo?
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 18:14
Obesidade, digo, curiosidade mórbida, prezada Fernanda.
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 11:42
A minha geração é também limitada e simplista.
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 16:02
Fê,
O que vale é ser sarado e não sair no zero na Barô!
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 13:19
Infelizmente concordo e venho constatando a mesma coisa faz tempo. Especialmente quando me mudei de Minas para o Rio. O descompromisso de algumas pessoas da nossa geração daqui e o não olhar para o outro é muito frequente. Só lamento. Mas felizmente encontrei excessões!
Parabéns pelo texto!
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 19:37
Posso identificar várias gerações no seu texto!!!
Muito bom!
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 15:06
É isso: geração cretina, indolente, oca. E quem busca conteúdo tenta preencher o vácuo abraçando qualquer causa politicamente correta que apareça pela frente. São dois tipos então: o idiota e o idiota útil, que é peça de manobra de políticas que ele não entende a causa-fim.
Geração auto-indulgente que se lambuza de direitos sem querer a contra-partida do dever. Geração do contra, contra porra nenhuma, mas do contra. Contra o Bush, contra a guerra, contra o FMI.
Idiotas vagabundos, que recebem mesada até os 30 anos de idade. São saudosos da capital do Brasil ser no Rio. Não sabem disso, mas são.
Segunda-Feira, 19 de Julho de 2010, às 13:12
Oi, PIM
tenho lido seus textos,acho muito bom e engraçado, tem sempre um que eu mesmo podia ter escrito, concordo com tudo.. esse mandei pras minhas filhas, da sua geração, é bem o que eu escuto aqui em casa sobre os homens atualmente…
vai entrando que vc esta indo muito bem, mesmo porque sempre achei muito mais difícil entrar do que sair…
Abs
Claudio