por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sabado, 17 de Julho de 2010, às 00:32
Texto originalmente publicado no site Tribuneiros.com em 27 de junho de 2009.
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Vovó morreu uma semana antes de Michael Jackson. O que une duas almas tão díspares? Eu, claro. Até outro dia, os personagens mais emblemáticos de minha infância andavam distantes. Vovó com Alzheimer, Michael Jackson com alguma coisa. A morte os reaproximou em minha cabeça. É inútil enterrar a infância. Ela é como a Beatrix Kiddo, de Kill Bill, que se desenterra sozinha e destrói quem tentou matá-la. Melhor que enterrá-la é compreendê-la. Melhor que velá-la é iluminá-la. Quando você junta sua avó e Michael Jackson na mesma frase, você está muito próximo de um moonwalk terapêutico.
Há anos venho iluminando e compreendendo minha infância. Aprendi com Michael: You wanna stay alive, better do what you can. A parte que mais me exigiu esforço emocional (e físico) já passou faz tempo. I beat it. Sem matar ninguém. Agora, restam-me compreensões reconfortantes, como a dos genes literários. Tanto no velório quanto na missa de sétimo dia, mamãe resumiu aos padres características de sua sogra: a cultura, o poliglotismo, o gosto pela literatura e pelo conhecimento. Na missa, o padre comentou quão raro é esse gosto hoje em dia. Vovó falava seis idiomas. [E xingava em todos eles]. Ela me ensinou que Babuska – então nome de sorveteria - era “vovó” em russo, e que a sílaba tônica era a primeira: “bábuska”. Queria que eu pensasse nela toda vez que tomasse sorvete.
Vovó e eu nunca estivemos lúcidos ao mesmo tempo. Quando me tornei consciente de mim, ela já não era consciente de si. E sempre houve muita gente - muitas vozes - entre mim e ela, entre mim e os outros. Jamais conversamos a fundo sobre o conhecimento e a literatura. Fizemos diferente: rompemos a barreira do tempo e do espaço, conversando através do conhecimento, através da literatura. Houve um momento em que imitar o Michael Jackson não era mais suficiente para minha satisfação espiritual, então fui abrindo os livros da estante: Salinger, Machado, Poe, Pirandello, Shakespeare, Balzac. A maioria com “Roma S. Moura Brasil” escrito à caneta na primeira página. [Roma: “Amor de trás pra frente”, ela dizia]. Graças à vovó, passei de Thriller a Brás Cubas, de Bad a Hamlet, de Billy Jean às Ilusões perdidas. Tive que beber muito samba para me recuperar do choque.
Em Herdando uma biblioteca, Miguel Sanches Neto escreveu: “Murilo Mendes tratava os grandes artistas do passado como aeroamigos. Para mim, eles foram os aeroancestrais, de quem, num ato de fraude amorosa, me fiz descender”. Por muito tempo, eu também procurei autores dos quais me fizesse descender. Hoje sei, através desses autores, que descendo da minha babuska, cujo amor de trás pra frente rastreio em suas obras. Eles são apenas aerocarteiros levando a correspondência e os sorvetes entre nós. A morte de vovó acendeu mais uma vela sobre a minha história, revelando nossos pontos em comum. Eu nasci uma semana após a morte de Bob Marley. Quis ter certeza de que não dividiria o mundo com ele. Vovó morreu uma semana antes de Michael Jackson. Quis estar lá à sua chegada, só para dizer aos demais: “É uma bichona!”.


Sabado, 17 de Julho de 2010, às 05:10
Cheguei a acreditar que você, de alguma forma, tem o amor como coisa real.
Lindo texto.
E meus pêsames pela sua vó.
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 10:26
Bravissimo !
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 10:41
Belo texto, Pim. Eu, nascido numa família iletrada (meu pai nao tinha sequer o primeiro grau, minha mae nao completou o segundo), às vezes pego a pensar se as minhas tantas falhas culturais nao seriam menores caso estivesse desde cedo rodeado por livros e leitores. É claro que há heranças outras, legados diferentes que ficam e ficaram…
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 12:07
Que beleza!
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 13:31
Pim, me lembrei com teu texto de um filme fantástico: Harold and Maude. Se nunca assistiu, recomendo.
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 14:41
Sensacional Pim!!
Que bom ter a certeza que a sensibilidade reside em você de alguma forma.
Marcelo também me pego a pensar no mesmo muitas vezes…
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 23:24
Uau, que belo texto!
Isso me lembra conversa no arpoador, Campanella e mais.
Beijo
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 18:27
O texto é lindo!Posso imaginar a importancia que uma avó como
ela teve na sua criacao e amadurecimento.Parabens!
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 09:37
Querido Felipe,
Peço desculpas pela intimidade mas afinal; …. todos os netos de sua avó e todos os filhos de seus pais, para mim serão sempre ‘queridos” independente da convivência que possa ter com eles.
Sim, eu acho que você herdou muito de sua “babuska”, que bom! Ela era uma pessoa linda! Portanto, quero passar minha visão da babuska para você: uma visão que vem de fora, sem conflitos, sem cobranças,…..só ternura.
A sua avó era carismática, qualidade apenas dos inteligentes e, uma pessoa de extrema sensibilidade. A sensibilidade , às vezes, transgride limites mas não os limites da razão, apenas os limites da compreensão. Com os anos aprendemos que tanto a razão quanto a compreensão se apresentam em diversos graus; por isto, é difícil encontrar duas pessoas que estejam no mesmo grau de razão e compreensão e assim, em perfeita sintonia.
A sua avó, era também uma pessoa generosa com a alma humana -esta parte do ser, meio complexa, responsável pela personalidade e pelo comportamento dos mortais. Sua infinita sabedoria intuitiva ia além do que via pois conseguia enxergar além das aparências extraindo a beleza do que não podia ser visto com olhos mas apenas com um coração amável e sensível.
Espero que a minha visão venha de encontro com a sua ou que traga alguma coisa nova que aumente a sua admiração pela babuska.
Beijos carinhosos, Cristina Sobreira
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 11:15
A infancia ser como Beatrix Kiddo é sensacional. Vou receber alta da terapia hoje quando declarar isso.
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 14:05
Pim, que lindo. Parabéns pela sua inteligência, sensibilidade e cultura. Bjus
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 20:53
Fala Grande Pim!
Meus pesames pela sua vo…. Estamos rezando por voce e sua familia!!!!!
Abracao,
Fonseca
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 20:02
Felipe e Cristina.
Meu abraço a ambos. A você, pelo belo texto, à sua mãe pela sensibilidade de seu filho.
Layla
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 23:30
Felipe,
Parabéns pelo belo texto;sensível,alegre,tocante e inteligente.
Abçs
Marise
Sabado, 17 de Julho de 2010, às 16:43
Lindo!