por C.A. - Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 01:35

Há hoje no Brasil um só assunto que positivamente me interessa: o futebol de Paulo Henrique Ganso.
Vi, ontem, como sempre [eis a minha fé, a minha seita], o jogo do Santos, a partida entre Santos e Grêmio, match de competitividade rara, bom de se ver, e então um primeiro-tempo comum, em que o deslumbrante escrete da Vila pouco jogou; por que Ganso não jogou. (Esteve apagado, como se diz). E eu, obsessivo, ao longo de cada um daqueles 45 minutos iniciais, pensava, a propósito da segunda etapa: ele jogará; ele virá.
Ele veio.
Ele - é assombroso - não falta.
Em - o quê? - cinco, seis minutos, Paulo Henrique Ganso sintetizou o esporte, o craque, o gênio, ao revelar um gol formidável, um tiro previsto há dois mil anos ou mais, no entanto improvável, invencível, surpreendente, e limpo, seco, elegante, escorreito; e era, pois, aos cinco, não mais que seis minutos, a vitória, inapelável: cultivada e imortalizada à canhota [e poderia ser à destra] deste senhor de vinte anos.
Quem - pergunta já também milenar - entre os 23 convocados por Dunga pode encampar, vestir, revestir mesmo, inscrever, incorporar, dominar o futebol, controlá-lo, movê-lo, sublime e absoluto, e descortinar uma solução que devolva, a seus pés, em seus pés, a confiança [o sentido] a um time até então ausente [perdido] de sua vocação?
Quem?
O Santos aguardava - parecia aguardar, era evidente - por seu craque para enfim jogar e ser; e ele veio, ele compareceu. (Pela primeira vez na história deste país - milagre devido só aos craques - tivemos Robinho e eu a mesma certeza, a mesma calma: a de que ele viria, a de que tudo se resolveria nele, com ele).
Revi, outro dia, a final da Copa de 1994, e até me emocionei [como não?] ao ver Dunga, o capitão, erguer a taça. Logo, porém, envergonhei-me [constrangi-me] ao lhe ouvir as palavras, as expressões escolhidas, certamente premeditadas, para aquele momento de glória, e não porque fossem palavrões, os mesmos que decerto eu falaria, mas porque o eram não de exaltação ao triunfo monumental, não de felicidade [vá-lá] febril, não, mas antes de agressão e terror, de horror, de vingança, de resposta difusa ao mundo, àqueles todos - todos - em quem mirava seus perseguidores, seus inimigos, todos. Nós.
E era - só era - ódio.
Então me ocorreu - ora claro está - que aquela explosão egoísta, rancorosa, ressentida, revanchista, encardida, mesquinha, violentamente deslocada, que aquele ódio todo cuspido, tanto na voz quanto nos olhos injetados, que aquele grito de 1994 jamais terminou, nunca encontrou termo, e que aí, hoje, dezesseis anos depois, permanece. Violentamente deslocado, como uma alma penada.
Dunga, pois, para quem a grandeza ali se oferecia, para quem se abriam as chances todas de se reinventar, de se apaziguar, optou por se encolher; e hoje, dezesseis anos depois, segue a se encolher, e se encolhe, encolhe, encolhe… É, miúdo, o fiel depositário da pequenez humana.
(E talvez seja por isso, avento, que o tenho em tal conta de retrocesso, por que teve a oportunidade suprema, única, de despontar para o futuro, imenso e eterno, o capitão referencial, o que sobretudo se superou, generoso [grato] como sói aos renascidos, mas, centralizador também na estupidez, preferiu aferrar-se ao passado, com o qual desgraçada e miseravelmente se fundiu, o qual - renomeado por “comprometimento”, “coerência” etc. - agora nos quer impor por presente; não)!
O futuro, este a que Dunga se negou, o futuro é de Paulo Henrique Ganso; e virá. (Como veio, certo e certeiro, ontem na Vila Belmiro).
Só que eu tenho pressa.
********
Assista aos gols da partida de ontem [Santos 3 x 1 Grêmio, semifinal da Copa do Brasil] - AQUI.
********
Leia também o texto Ganso - AQUI -, prenúncio de uma [parece-me inevitável…] série.


Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 10:21
Fora o talento inegável, brilhantemente descrito aqui e no Ganso I, ele parece não ter se contaminado com as babaquices dos companheiros bailarinos. Melhor assim.
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 10:40
Caro Andreazza,
Vou, aqui nesse espaço deixado para os leitores tribuneiros, fazer algo que talvez seja considerado como uma real antítese desta casa: a defesa da mediocridade.
Na vida, nobre imperiano, a genialidade não é condição sine qua non para alcançarmos os louros da vitória. E no futebol, resumo perfeito da vida, acontece exatamente o mesmo.
Não contar com o extraordinário, com o fora-de-série, com o gênio na nossa seleção (justo na seleção)!, é algo que também dói em mim. (Eu, mesmo sendo o medíocre que sou, também admiro os pontos fora da curva).
Porém, neste ano de 2010, eu vou depositar minha fé no medíocre. Na repetição. No esforço. Na entrega. Na rotina.
Vou trocar o toque de genialidade do Ganso pelo cruzamento na área ensaiado à exaustão do Elano. Vou esquecer o brilhantismo de Ronaldinho Gaúcho e vou acreditar na força bestial, quase que cega, do Julio Batista. Irei torcer pelo metodismo frio e eficiente do Luis Fabiano e me convencer de que não é preciso ser Romário para empurrar a bola pra dentro.
E, se tudo isso não funcionar, farei igual a milhões e milhões de brasileiros: entregarei tudo nas mãos de Deus. (Até porque não existem ateus nas trincheiras, caro Andreazza).
Rezarei por aquela ovelha prodigiosa do nosso rebanho, esperando por um milagre que se materialize em uma arrancada que desafie a medicina e culmine dentro do gol. Sim, eu rezarei por Kaká.
E se o mundo voltar a ser brasileiro, entenderei o desabafo do medíocre não como uma vitória revanchista sobre a genialidade. Não. Tomarei o desafogo do meão como uma vitória de todos aqueles que também o são. Será a vitória daquele que sai para trabalhar, doa seu sangue e suor e volta para casa para fazer exatamente a mesma coisa no dia seguinte. E assim vai até o último dia de sua vida.
(…)
O Brasil, meu genial amigo, é o país do ordinário.
(…)
Um forte abraço e um bom dia a todos,
R.Pian
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 10:52
Vamos todos juntos, Pian, pra frente, Brasil, Brraaaasssssiiiilllll!!!!!!!
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 11:20
Meu caro Pian,
Do alto de minha pungente mediocridade, faço coro com seu grito:
“Pra frente Brasil!”… ou, quem sabe, não tão pra frente, embromando no meio de campo e explorando os contra-ataques.
Afinal de contas, a Itália foi medíocre em 2006 e levou a taça, e, na contagem de títulos, não importa se jogou bem ou só com “comprometimento” (como passei a odiar essa palavra!).
Abraços!
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 12:16
É isso ai, Millem!
O exemplo da azurra é categórico.
Pra frente, Brasil!!!!
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 14:25
E, Pian, e não seria justamente por sermos na grande maioria ordinários e medíocres (no planeta, diga-se), que o surgimento do extraordinário, do talento absoluto deveria ser arrebatador, inclsuive e/ou principalmente aos de visão pequena?
E, Pian, seus comentários andam uma “cousa”, hein?!
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 14:47
Uma cousa, Olga!
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 15:22
Se eu der mole, Andreazza, ele rouba o meu posto de puxa-saco-mor.
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 15:28
Não, Olga, e isto também porque você não é puxa-saco. Eis a verdade: se eu der mole, ele rouba o meu lugar…
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 15:52
É verdade. (rs)
Os comentários, Andreazza, estão praticamente um poema. Quando li, “sua escrita sócia das vírgulas e todos seus suspiros reflexivos imortalizados dentro de tantos parênteses e colchetes…”, descrição definitiva da sua escrita, morri…
Quinta-Feira, 20 de Maio de 2010, às 20:51
Olga, querida Olga.
Obrigado pelas palavras. Que a nossa mediocridade continue a mola propulsora dessa genialidade que tanto nos encanta.
(…)
Rodrigo Pian roubar o lugar de Carlos Andreazza caminha na mesma proporção que Lúcio Flávio barrar Paulo Henrique Ganso.