por Bruna Demaison - Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 10:22
Seria só tomar uma vacina: a pessoa vai ao posto de saúde, entra na fila, liga o i-pod, não chora, grita ou desmaia, toma a injeção, fica com dor no braço, meio molenga durante o dia e não morre de gripe suína no gelado inverno que se aproxima. Seria só tomar uma vacina se a pessoa não considerasse os prós e contras da campanha do ministério da saúde, não resolvesse pesquisar antes de agir, ouvir relatos diversos, google H1N1, conversar com dois médicos sobre o assunto. Se, como as mães nos seriados de famílias disfuncionais, a minha tivesse ligado no primeiro dia de vacinação e convocado: “filha, vamos todos nos proteger”. Talvez se eu não tivesse polemizado sobre a necessidade de participar da última mobilização contra rubéola… Se ela não tivesse me encorajado a sempre refletir… Talvez se só quem refletisse fosse espelho… Mas, agora, existe alguém mais complicada do que eu?
Aos seis meses fui engatinhando em direção à tomada da cozinha onde a empregada assobiava lavando o chão – época onde ainda se enchia balde e derrubava-o no piso sem militantes verdes surgirem do nada como policiais americanos. Da minha pequena cabeça saía o balãozinho de pensamento: “vou colocar o dedo ali, hahaha”. Minha mãe veio atrás, pediu que eu esperasse e refletisse sobre os efeitos daquela atitude. O que me motivava a agir assim? Eu estava preparada para encarar as conseqüências? Ela sempre teve certeza de que ficaríamos tortos se pulássemos na piscina depois do almoço, alardeava tal perigo pelos quatro cantos como ativista do PETA, mas achava educativo debater atos cujas conseqüências poderiam ser levemente mais danosas do que só brincar de marco-polo à tarde com os primos.
Diferente de outras casas, a frase “posso viajar com meu namorado?” não desencadeou uma crise paterna, mas uma palestra sobre o histórico da revolução feminina, visitas à fábricas de anticoncepcionais, participação em uma roda de debates sobre o relatório Hite e um k7 do Chico com “joga pedra na Geni” para o caso da sociedade não me compreender. Enquanto os professores mandavam copiar da Barsa o nome de todos os presidentes em folhas de papel almaço meus pais explicavam sobre liberação da maconha: “a decisão é sua, queremos que você conheça a verdade”. Quando chegava a parte do discurso sobre ter liberdade para perguntar o que quisesse eu devia ter aproveitado: “se eu decidir errado a culpa pode ser sua?”.
Instalei um telefone vermelho na casa deles, sabia que me apoiariam em todas as opções houvesse o que houvesse, mas esse método de comunicação, ao contrario do sucesso obtido em outras batalhas, não serviu para evitar conflitos. Pelo menos não conflitos internos, e várias vezes meu mundo quase foi levado a uma catástrofe.
Provavelmente tive a opção de falar a língua que me parecesse melhor, durante o ensino de gramática pai e mãe afirmavam que regras devem ser cumpridas - embora, caso eu achasse injusta ou errada, deveria lutar pelo que acredito nem que para isso tivéssemos que acionar os imortais da ABL! Mas três palavrinhas sempre me apavoraram: eu-não-sei. I-don´t-know. Je-ne-sais-pas. (optei por não saber matemática). Na minha cartilha de sinônimos “alguém-me-ajuda” podia corresponder a fraqueza, “faz-por-mim” e não “fica-por-perto”. Eu-quero-colo.
Aos dezesseis anos eu ia, levada pelos meus pais, em direção a todos os palcos onde o Lulu Santos estivesse – para a minha turma isso não era pagar mico. Aos dezesseis anos todo mundo sabe tudo. Da minha sempre grande boca saíam em berros adolescentes elogios ao Milton Guedes e os versos de “O Ultimo Romântico”: “ser gente grande pra poder choraaaar”. Eu nem desconfiava ainda que ao abandonar a velha escola os adultos sofrem menos para tomar decisões, se importam menos com os caminhos errados mesmo quando públicos. Eles fazem retornos, descobrem outras rotas, aventura. As coisas não são tão graves. Agora que já sou um pouco gente grande não tomo mais Coca-Cola nem compro CDs, mesmo que precise de vez em quando justificar a opção de baixar ilegalmente todas as músicas, ou só ignorar a opinião alheia. Gosto de descobrir novos sentidos em antigas letras do Beatles. Amanhã vou para a fila tomar a vacina, sei lá se é o melhor a fazer mas é o que me parece, e no i-pod já tem “Help”: “now I find I’ve changed my mind and opened up the doors”.


Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 10:52
Adorei!Lá Vamos nós…sofremos menos!
Estarei na fila tb !
Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 16:01
“(optei por não saber matemática)”. Fenomenal, Demaison!
Pelo visto, você não estava prestando atenção nos aviõezinhos vermelhos quando estimulei a discussão sobre o Mercúrio na vacina.
Tome sob sua conta e risco. Depois, pega o telefone vermelho…
Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 23:25
Podemos trocar ideias de novo, sobre alguns assuntos. Alguns não estão bem esclareciados. Devo ou não aceitar o que a anã ofereceu?Novos debates….