por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 14:29
Vou casar com ela. É o que diz Juveninho. Com a literatura? Não. Com a bola? Não. Com a cuíca? Também não. Com ela. Uma mulher? Sim. “A” mulher. “A” morena. Com nome, sobrenome e bunda grande. Os amigos dizem que Juveninho sempre diz isso - mas dessa vez é sério. Os amigos dizem que Juveninho sempre diz que dessa vez é sério - mas dessa vez é de verdade. Os amigos dizem que… Bom, os amigos não sabem de nada, diz Juveninho. A melhor forma de emburrecer é seguir o conselho dos seus amigos.
Mas quantos ex-namorados-eternos ela tem? Um, responde Juveninho com o indicador. Ah, então ela é mais nova… Bom, alguma coisa os amigos sabem. É a convivência virtual, ele diz. Se as moças convivessem indiretamente com Juveninho, também saberiam de alguma coisa. Para isso Juveninho escreve. Para que as moças se preparem pra ele. Que muitas acabem se preparando para outros homens (ingratos, segundo Juveninho), é o efeito colateral inevitável da escrita. Paciência. A Juveninho só interessa uma. Não “qualquer uma, que pelo menos dure enquanto é carnaval”. Ela. Por todos os carnavais.
A tarefa de Juveninho não é fácil. Há moças deslumbrantes, ele diz, que, crescendo sob o assédio de trogloditas, preservam-se ao máximo para não se deixar envenenar por qualquer um. E, quando à desconfiança soma-se um namoro mal convalescido, só mesmo um Juveninho para furar o bloqueio. A receita (sem garantias, ele antecipa) é o cortejo contínuo em doses homeopáticas, com a perseverança gentil do homem que sabe o que quer e ali permanece, obstinado e sorrateiro, criando raízes na alma da moça, enquanto os demais - revelando suas facetas a cada estação - vão caindo um a um, como folhas ao vento.
Pode levar anos. Nunca acontecer. Que importa? Quando o homem vislumbra seu ideal, tem por obrigação criar as condições para que este se realize – principalmente se o ideal tem a pele morena, e sabe andar e sorrir. Ah, suspira Juveninho, quanta coisa se diz num passo cadente e num sorriso envergonhado! Nas festinhas pop da cidade, sua vontade é pegar o microfone e ensinar: “Você. É, você aí de salto maior que a perna, e cintura nos seios, com o umbigo saindo pelo pescoço. Você se vestiu para uma foto ou para uma festa, querida? Acha mesmo que sua suposta beleza estática se mantém inabalável com este passo troncho? Francamente!”.
Para Juveninho, o ex-namorado-eterno é uma espécie de cinto de seio, pelo qual a moça cabeça-dura cria um apego tão grande que já não quer saber se (quanto mais por que) não lhe cai bem. É tanto amor, tanta saudade, tanto envolvimento que os motivos práticos da “separação” permanecem ocultos, inominados, ausentes da consciência; mas absolutamente ativos, e tanto mais desconcertantes quanto mais invisíveis, do jeito que o diabo gosta. Alheia à educação sentimental, ela segue apertando o cinto e se prendendo toda, até desaprender a andar. O ódio ao conhecimento, segundo Juveninho, tem este efeito tragicômico na vida amorosa: cria um monte de viúvas precoces, voluntárias e (não raro) taradas.
Chega uma hora na vida da gente (e Juveninho não sabe como seria “uma hora na morte da gente”) que as coisas vão ficando fáceis por um lado (o da pegação, da sacanagem, do suingue) e bem difíceis por outro (o do amor, do romance, da disponibilidade). Todo mundo já tem passado (presente…) demais. Juveninho tem o dele – não nega. Morre de saudade de cada ex-namorada e peguete. Até daquela que o roubou. Até daquelas que passaram direto no dia seguinte. Até daquelas que (por um ex-namorado, ex-noivo, ou ex-marido) sumiram assim, ó: puf! E, no entanto, poderia (e vai!) escrever mil romances sobre as impossibilidades (sexuais, inclusive) de cada relação. Juveninho não tem a menor dúvida de que morrerá assassinado.
Até lá, cortejará real e virtualmente sua idealíssima morena. Não sabe, Juveninho, quanto tempo ela vai demorar para terminar o namoro que já terminou, mas – não podendo nem querendo intervir direta e terapeuticamente no luto - só lhe resta acompanhar o processo à meia distância, mostrando que está ali. No fundo, torcendo para que alguma migalha de consciência lhe desperte a sede de libertar-se, em vez de render-se ao clã das viúvas taradas, que pulam de galho em galho pela noite, sob o compromisso único de jamais comprometer-se com ninguém a não ser o defunto vivo dum amor impossível que já passou. E como embarangam!, ele alerta, preocupado.
Os amigos, pela primeira vez, dizem que Juveninho está no caminho certo. Que ele tem tudo para conquistar sua morena aos 95 anos, com direito à valsinha dos bisnetos. Que nenhuma de suas colegas de quarto saberá andar e sorrir postiçamente como ela. Que eles estarão todos presentes à cerimônia, finalmente acompanhados de viúvas taradas autênticas, usando autênticos cintos de seio. Que a noite de núpcias promete. Que eles invejarão Juveninho pela única esposa realmente disponível, livre para um futuro promissor. Que ela, porém, chorará o assassinato de Juveninho até ler seus romances e abrir a tumba para lhe dar mais seis tiros.
Juveninho, pela primeira vez, não ignora. Sabe que - perto das histórias, dos problemas e dos desejos das moças - as capacidades do homem são sempre limitadas. Por mais que seja sério. Por mais que seja de verdade. Por mais que seja Juveninho. Mas, se o destino de sua geração é a micareta no asilo, nada como contrariá-la num casamento geriátrico. O rascunho do próximo e-mail está pronto. A fantasia de Velha Guarda, costurada. O romance da morena ideal, iniciado. Nada é impossível até agora – e, no que depender dele, jamais será. No amor eterno de Juveninho, a literatura, a bola e a cuíca só aguardam por Ela.


Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 21:28
Diz pro Juveninho que eu estou esperando por ele. Sou morena, só tenho um ex com quem já acabei e sei andar e sorrir. Ah! Também não uso salto nem cinto no seio….rsrsrs Ri muito nessa parte! Adoro esse Juveninho. Já estava com saudades! Valeu, Pim. Beijos. Aliás, parabéns pelo aniversário amanhã.
Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 20:26
Danadinho esse Juveninho !!!!!!!!!!!!
Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 00:25
Ainda bem que Juveninho voltou !
Preciso dele aqui do meu lado, em doses homeopáticas !