por Pim - Sexta-Feira, 14 de Maio de 2010, às 16:13

- Eu estou me lixando para eles.
Assim disse Bruno, goleiro do Flamengo, sobre os torcedores que o vaiaram no Maracanã, na derrota para a Universidad de Chile pela Libertadores. Bravo! Palmas para Bruno. Como torcedor do Flamengo, fico orgulhoso de que meu goleiro esteja se lixando para mim. Eu estou igualmente me lixando para ele – e isso, de alguma forma, nos une, à medida mesmo que nos liberta. Parabéns, Bruno. (Você leu Juveninho, e teve seu grande momento Axl Rose.) Uuuuuuuuhhhh pra você!
Eu sabia, no entanto, que aquilo não ia durar. A qualquer lampejo de lucidez no Brasil, segue-se a patrulha da retratação. É preciso trazer a ovelha negra de volta ao rebanho. Após uma reunião com a diretoria do clube, Bruno deu as seguintes declarações:
1) - Aqueles seis torcedores podem vaiar, sim. Peço desculpas.
2) - Há três coisas que eu amo nesta vida: minha filha, minha mãe e o Flamengo.
Quem lê a primeira tem a impressão de que o goleiro havia condenado o direito da torcida de vaiar – o que ele jamais fez. Dissera apenas que não dava a mínima. Tomar por censura (ou mesmo arrogância) a simples indiferença é o jogo sujo típico de gente carente e/ou controladora; aquela arte de menininhas rejeitadas por seu grande amor. Mas Bruno veste a carapuça e se desculpa pelo que nem disse, com a covardia habitual da alma desamparada, cedendo aos apelos do rebanho. Confortável (por ora) no papel da ovelha arrependida, faz-lhe então juras de amor, metendo até a família no meio. (Que saudade de Axl Rose!)
A “linha de pensamento” do vice-presidente do Flamengo, Hélio Ferraz, dá ainda mais corda ao que estava por vir:
- Acho que o jogador é pago para jogar e não para falar. Quando eles falam, normalmente não saem coisas brilhantes. Isso é papel de dirigente. Se estava de cabeça quente naquele momento, deveria ter pedido para não conceder entrevistas.
Eu não sabia que falar agora era papel de dirigente, estes seres tão brilhantes que insuflam o ódio da torcida contra o jogador, censurando o pecado de declarar sua (dele) indiferença – nem bem à torcida como um todo, infelizmente, mas tão só - a quem lhe vaia. Bruno, afinal, estaria de “cabeça quente”. E como estaria a cabeça do líder de facção que, dentro do clube, com mais de 20 testemunhas, emitiu estas palavras para a posteridade?:
- Não sei o que vamos fazer para conter a insatisfação de milhões de pessoas que representamos. Essa foi a segunda vez que você nos atingiu. Daqui a pouco vai ficar incontrolável segurar a onda.
Eu respondo: cabeça fria. Daquela que, bajulada pelos brindes dos dirigentes brilhantes, tem liberdade para entrar na sua casa e disparar ameaças em nome de “milhões de pessoas”. É o MST rubro-negro. E não se pode “criminalizar os movimentos sociais” das torcidas, não é mesmo?… Mesmo que cometam crimes.
O Brasil revolucionou a tática do policial bom e do policial mau (good cop/bad cop). Criou, em seu lugar, a do bandido bom e do bandido mau. Os primeiros pregam essa obsessão pela coletividade - sob o pretexto do bem comum, da união, do espírito de equipe -, tornando as almas estupidamente sensíveis (e avessas) às individualidades, indiferenças e ao simples “tenho-mais-o-que-fazer” de quem se preocupa em evoluir, ciente ou não de que, ao fazê-lo, contribuirá naturalmente para os demais. Quanto mais ofendidas se sentem as almas, mais autoridade moral ganham os segundos, que tratam de ameaçar, chantagear, calar ou eliminar os “dissidentes”. Perdidos entre ambos, os brasileiros são Brunos, reprimindo seus impulsos mais libertadores (com trocadilho) para se submeterem, desamparados, ao perdão do opressor.
O Flamengo, como o Brasil, precisa desesperadamente de menos união. Menos união entre jogadores e torcida, entre jogadores e jogadores, entre dirigentes e jogadores, entre dirigentes e torcedores e por aí vai. Quanto menos união, melhor. Abaixo a união. Abaixo o “comprometimento” (de que fala o Dunga). Que cada um se preocupe em fazer o seu melhor, de preferência se lixando para o resto.
Alô, Brasil: uuuuuuuuuuuhhhh!


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