por João Paulo Duarte - Quarta-Feira, 28 de Abril de 2010, às 11:15
[Prefácio]
Eu nunca poderei rir numa derrota.
E repudio o sorriso infame, solto; o sorriso por qualquer coisa, dentre as palavras sérias ou cercado pelos problemas, por dificuldades ou entraves. A capacidade cognitiva do córtex pré-frontal do meu cérebro me impede de sorrir se minha emoção é a tristeza [ou mesmo qualquer outra que não seja a alegria]. Meu sorriso não é perdido, tem sempre algum significado que expele meu sentimento.
Sorrir na derrota - na tristeza, mesmo que rasa - não é saber perder, muito pelo contrário. No dia que eu sorrir na derrota é porque não quero mais vencer. Coleciono derrotas [várias, todas] e vitórias; cada passo foi diferente. Todas as emoções que me movimentaram produziram sentimentos [reações] diferentes; e esta é a prova que meu cérebro [meu corpo], mesmo quando combalido, reagiu.
A neurociência dos últimos dez anos comprovou o que eu já nasci sabendo: o sentimento - saber sentir, conseguir sentir - é mais importante que saber pensar. Descartes estava errado. Não existo quando penso, mas quando sinto. Quando, enfim, encontrei Espinosa percebi que nunca minha razão vai superar minha emoção. Para vencer uma emoção minha será preciso uma emoção maior. Ainda bem que qualquer emoção, em mim, consegue gerar um sentimento - é quando me movo. Diga para Espinosa que sorriu na derrota.
Há gente que ri o tempo todo - aquele sorriso que beira o sarcasmo, pode ser no papo descontraído [mas sem piadas] -, mesmo nas conversas mais sérias. Eu tenho dificuldade em conversar com alguém que está sempre sorrindo. Mesmo antes de ler António Damásio, notava que este era um sinal de alguma incapacidade, algo no cérebro que não funcionava direito; fraqueza, medo ou insegurança [sabe-se lá o quê!].
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[Ela]
O sorriso dela foi no silêncio de ainda não nos conhecermos; e adiantou todas as minhas possibilidades. Porque o sorriso dela é mais capaz que todo o meu vernáculo. E se ela não tivesse sorrido, eu não estaria ali. Foi o sorriso que me fez sentir tudo de novo, colocar expectativas e criar o meu ideal do futuro. Minha reação foi imediata de recompensa e tudo voltou ao que sempre quis ser [que desejei nunca houvesse mudado em mim]. Eu sorri.
O sorriso dela precedeu minhas surpresas todas, do que ela me surpreende e eu quero fazer. Porque tudo é melhor se surpreende; quando descobrir torna-se objetivo não preciso saber mais onde quero chegar. E sorrio, e vou. Cada detalhe novo dela [são todos novos!] me movimenta a recomeçar em mim. Sem me apressar sinto cada momento, e todas as emoções que me fazem reagir a ela. Descobri - depois - a voz, a boca, o corpo e ela. Tenho ainda [e quero!] que conhecer toda; decorar, esquecer e descobrir de novo. Vou sorrir.
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[Dia e noite]
Pois eu vivo a madrugada e sei do prazer da alvorada sem o contratempo do despertar adiantado. Desperto no crepúsculo e sinto o maior frio do dia, da madrugada. O crepúsculo é o início do meu dia, dia. O crepúsculo é o início do meu dia, quando sorrio, e sorrio.
Meu adiantado da hora é o meio-dia, dia. Meu porre sozinho é sob o sol da manhã. Hoje, durmo para que ela acorde ainda hoje, amanhã. E a vejo [vejo] dormir toda. Minha abstinência não existe. E volto-me [volto] a todos os meus vícios intrínsecos e inerentes [todos]. São [são] todas as minhas dificuldades e ainda busco a possibilidade de perdê-la, ela. Ela é quem entende, que dribla o meu mundo, abraça meu problema e soluciona minha esquizofrenia, a minha.
A cadência do meu é torta, totalmente torta. O meu sorriso é errado e confundo tudo, tudo. A minha embriagues não complementa [nada] e persigo o excesso que não tenho. Eu preciso me manter, mas, agora veja: como? É assim. O desequilíbrio é o que tenho em mim inebriado, equilibrado. Parece que venci, mas sou o último.
O sono dela é sob o silêncio do meu corpo, silencio. E quando tudo acabar entre nós, me restará apenas o que tenho aqui [tudo]. Entorpecer é sozinho [sempre]; para liberar o que busco [busco]. Minhas companhias são [serei] estas paredes, estes livros, aquelas luzes [sempre]. Meu [eu] cérebro não reage.


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