por C.A. - Segunda-Feira, 26 de Abril de 2010, às 11:41

Um esquerdista - para defender sua tirania favorita - sempre dirá, com muito método: “Não há ditadura porque há eleições”. É o caso de Cuba, onde vêm de se dar as chamadas “parciais”, pleito farsante que define os novos - os velhos… - delegados do conselho.
A um esquerdista - modelo Emir Sader - não importará que haja presos [e mortos, dezenas de milhares de mortos] de consciência [eufemismo para prisioneiros políticos, torturados e assassinados], que os espaços à oposição inexistam e que a tal liberdade de expressão [que a turma considera um passatempo burguês, coisa dos americanos e de seus colonizados etc.] vá de todo obstruída; às favas os direitos fundamentais: se há votos e eleitos, eis a democracia plena.
Não é assim? O leitor repare.
Há - repito - método no embuste. E um esquerdista de verdade - aquele que se destaca pelo malabarismo moral - será sempre um minimalista… (A democracia é plena, ele garante, embora, achacada, falte-lhe todos os fundamentos; meros detalhes - ele afirmará).
Falar-nos-á, por exemplo, que em Cuba a educação é universal [mentira: é cada vez mais restrita], que todas as crianças estão na escola [mentira: há mais meninas se prostituindo na rua que estudando em sala de aula] e que todas são alfabetizadas [mentira: os índices sociais cubanos respeitam padrões castristas, ou Sensus, de aferição…]; mas considerará muito natural - parte do processo revolucionário! - que os que sabem ler não o possam fazer senão sobre o jornal estatal e em mais dois ou três livros avermelhados.
É mais ou menos assim… O esquerdista, muitas vezes sem o ver, vende-nos um bolo imenso e bem fermentado; mas não se aborrecerá se afinal provarmos que o doce está quase todo comido [carcomido por ratos…], que lhe faltam ingredientes fundamentais e que os ovos eram de má qualidade, quiçá mesmo podres, e isso sem mencionar os confeiteiros, de mãos pesadíssimas… Ok; sem problemas. Ele abrirá um sorriso - inabalável, a fronte simpática e amistosa dos que não se constrangem jamais - e prometerá que, apesar dos pesares, o gosto final redentor justificará o paladar amargo da primeira mordida, e dirá logo que reduz um pouco o preço, tudo bem, que talvez o diminua muito, tudo certo; e por fim receberá sorridente, quase comovido, que o chamemos de pilantra etc. se aceitarmos levar o bolo - ainda que à primeira lixeira…
Não é assim? O leitor repare.
(Um esquerdista de verdade não é apenas um malabarista moral e um equilibrista da vergonha, que faz barbaridades contorcionistas para nos entubar a graça sanguinária de uma ditadura; é igualmente um excepcional mágico, capaz de transformar a pedra da democracia em massinha de modelar, e assim também é um notável padeiro, pois a estica - fininha, frágil, quebradiça… - para além do limite de suas fibras e dali ao forno obscuro das ideologias mais assaltantes, aquelas, valentes, que combatem uma tirania para instaurar outra).
A um esquerdista - modelo Marco Aurélio Garcia - existirá democracia “até demais” se houver eleições, e pronto; e será incômodo irrelevante este segundo o qual os eleitos sejam os mesmos de sempre e, no máximo da alternância [renovação] de poder insulana, os filhos e netos dos eleitos de sempre, entre os quais não se encontrará sequer um [vivo] que educadamente critique Fidel e Raul Castro, e que de resto, assomados de benefícios elitistas, ocuparão cargos sem importância administrativa alguma.
(E ainda se bradará, peito estufado, o triunfo reafirmado da revolução, uma vez que o índice de comparecimento às urnas terá sido fabuloso, 97%, sempre o é!, assim como se ao cubano ausente fossem aplicadas as mesmas punições formais brandas que recaem sobre o brasileiro: a simples obrigação de justificar a falta e, no limite, uma pequena multa; assim como se ao cubano ausente não desabassem severas penas informais, morais, acusações de traição à pátria!, e, a rigor, como se essas não lhe custassem menos acesso a medicamentos e ainda menos comida no prato, flagelos adicionais aos quais não suportará vivo).
É espantoso!
Em seu décimo-terceiro processo eleitoral [de mentirinha] desde 1976, há ainda - e eu não canso de me assombrar - bárbaros capazes de escrever que Cuba elege democraticamente seus representantes; isto porque Fidel e Raul Castro estão ininterruptamente no poder desde 1959!
Não é fabulosamente aviltante? Estrondosamente cretino?
Uma das maiores vigarices a respeito das eleições cubanas é esta que se vangloria - por distinção política! - da inexistência de pluralidade partidária na ilha, assim como se tal sistema fosse democraticamente maduro, conseqüência da experiência eleitoral, e decorresse da virtude e não da tirania… (Assim como se - lorota suprema - um homem qualquer, ao bastar de seu desejo, filiado senão às suas convicções ideológicas, e ainda que coincidentes às do regime, tivesse meios reais de ascender politicamente em Cuba; lugar onde se tem as menores margens, estatisticamente nulas, de ascensão social do planeta).
Este raciocínio delinquente sugere, cheio de charme, que o Partido Comunista de Cuba - nota para mais um eufemismo [quase buarqueano!] à ditadura: “força dirigente da sociedade e do Estado” - não é uma organização com propósitos eleitorais por sublime generosidade democrática e não pelo fato evidente de que [há cinqüenta anos!] não o precisa ser.
E talvez seja hora de esquecer a massa e voltar à pedra…
O Partido Comunista de Cuba não disputa cadeiras nas assembléias populares porque essas não lhe têm a menor importância, senão para lamber a propaganda das viúvas do porco assassino Che Guevara no Brasil; e porque, mais ou menos insignificantes, são-lhe de todo e desde sempre dominadas, destinadas tão-somente a perpetuar os privilégios da elite cubana.
O Partido Comunista de Cuba - atenção - não disputa eleições e não tem adversários políticos porque esses são valores exclusivos e inerentes à democracia.
O Partido Comunista de Cuba não é uma organização com propósitos eleitorais porque é, bem antes, há cinqüenta anos, o próprio Estado.
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Aí, é sempre assim, o esquerdista termina de ler este texto e, daquele jeito obtuso que se pensa furioso, tasca lá na seção de comentários - para o autor: “Você pode não gostar do Fidel Castro, não apreciar a Dilma, detestar o socialismo, odiar o Dunga ou quem quer que seja. O que não pode é sair pelo mundo crendo em tudo que lê”.
É sempre assim… O esquerdista, pretensioso e ungido da verdade divina [ele tem uma missão, custe o que custar], julga-se o único informado do mundo, pois que confunde informação com doutrinação, daí por que se expresse como um esquizofrênico do conhecimento.
Confrontado então com fatos [que despreza por princípio], primeiro limita a questão - politicamente essencial - a gostos e desgostos tão efêmeros quanto infantis, “você é feio, bobo e chato”, já que lhe parecerá simplesmente impossível que alguém possa criticar Fidel Castro por motivos que não pessoais… (Imagina!?; o comandante)!!!
Desafiado por um pouco mais de apreço-rigor democrático e sem ter muito mais a dizer [palavras-de-ordem não duram…], bota logo o futebol no meio, o Dunga!, e reduz a própria imoralidade ideológica, a própria indigência intelectual, o próprio descompromisso com as liberdades individuais, a mais um Flamengo e Vasco no Maracanã lotado. E então… ele leva ou não o Neymar? E o Ganso?
Eu levaria os dois; mas prefiro o Ganso.


Segunda-Feira, 26 de Abril de 2010, às 12:41
Tem horas que eu tenho medo desse minimalismo moral.