por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 6 de Abril de 2010, às 22:48
O trânsito é a MTV de Juveninho. Quando há um engarrafamento na cidade, ele pergunta: “De quem é o show hoje?”. Os amigos gritam: “Lenny Kravitz!”, “Beyoncée!”, “Coldplay!”, “Cirque du Soleil!”, “Botafogo!”. Da maioria, Juveninho nunca ouviu falar. Até outro dia, ele achava que as moças usavam Beyoncée Secret, e que Coldplay era um concorrente do Cirque du Soleil. Agora já sabe que Beyoncée é a concorrente do Cirque du Soleil, e que as moças ainda não usam o Juveninho Secret. Quanto ao Coldplay, da canção God Put A Smile Upon Your Face, Juveninho só tem uma dúvida: onde mais Deus colocaria o ‘smile’? Upon your bumbum?
A música pop, ele diz, provoca antes de tudo o engarrafamento mental. Juveninho não pode ver uma morena cantando Patience que quer logo tocar sua buzina. Dos tempos em que a MTV de Juveninho era uma emissora, a única coisa que ficou, de fato, foram os Guns N’ Roses. Ficou longe. Bem longe. Até o último domingo, Juveninho nunca mais ouvira falar deles a não ser quando revia O Exterminador do Futuro 2, e cantava You could be mine, de cueca, no ouvido de alguma morena. Ele estava em casa, vestindo a mesma, quando um amigo ligou: “Tenho um ingresso para a sua adolescência”. Ok, pensou Juveninho, vou dar uma passadinha.
Foi uma passadinha de 7 horas, com capa de chuva a 5 reais; Sebastian Bach falando fuck you para o céu; mais 2 horas e meia de espera depois do show de abertura com a platéia em coro xingando a mãe de Axl Rose; sem qualquer comida à venda a partir das 23 horas, o que teria feito Juveninho ir embora não fossem as 4 barrinhas de cereal que trazia no bolso; e outros detalhes, segundo ele, absolutamente irrelevantes depois de um carnaval em Salvador; até o show principal finalmente começar à 1:10, e Juveninho procurar alguma razão - uma grande descoberta filosófica! - que fizesse jus ao seu testemunho do seqüestro da Apoteose. Sempre se pode aprender alguma coisa num show de rock, ele se dizia… Mas o quê?
Que dos 30 mil presentes, 29.900 não saberiam responder do que se trata qualquer música do Guns, Juveninho já sabia. Que dos 100 restantes, 90 responderiam “Paciência!”, “Chuva!”, “Selva!” e mais uma ou duas palavras que compõem os títulos, também. Que dos outros 10, 7 eram americanos que moram no Rio, mais ainda!, porque 4 eram morenas. O jeito, então, foi usar o método básico: onde a multidão vê um defeito, deve haver uma grande virtude. E, se o defeito era o atraso de Axl, Juveninho estava certo de que o atraso continha, de algum modo, a resposta para o maior enigma intelectual de sua carreira depois do talher de peixe. O que depreender, afinal, de um show de rock? Elementar, diria Juveninho: o desprezo pelo público.
Na abertura, além de xingar S. Pedro, Sebastian Bach leu uma porção de frases em português; vestiu camisa do Brasil; pegou e esticou cartazes; pediu “mãozinhas pra cima”; mandou repetir gritinhos de “ai-ai-ai”, “ei-ei-ei”, “ou-ou-ou”; exaltou até dar vergonha alheia o grupo principal, puxando o coro de “Guns!”, “And!”, “Roses!” com soquinhos no ar; e detonou, segundo Juveninho, seu repertório axé de conquistar a simpatia da “galera maravilhosa” através da bajulação coletiva. Se Axl Rose, por outro lado, falou uma vez um “Come on, Rio!” foi muito, o que deixou Juveninho quase orgulhoso da sua adolescência in the jungle. No homem comum, ele diz, a necessidade afetada de parecer gente boa já sinaliza a falta de atributos. No artista, se não é prova duma obra sem vigor, é desejo de aparecer mais do que ela.
Juveninho já pode imaginar Axl, antes de subir ao palco, perguntando a um subordinado: “Já estão me chamando de filho da puta? Ótimo. Daqui a pouco, eu entro”. E então ele entra, como se, senhor do próprio carisma, desse três gols de vantagem ao adversário. It’s so easy (easy)… Corre de um lado a outro; deixa-se ver por cada setor; canta e dança dum jeito próprio; toca piano; assovia; domina graves e agudos; e, se sai de cena para descansar a garganta velha, deixando aos músicos um número instrumental, o faz com a mesma indiferença, sem avisar bulhufas na ida ou na volta, para encanto de Juveninho. Um povo carente, ele diz, corrompido por mãos que o afagam, sempre verá o talento como arrogância, o inalcançável como presunçoso, o irresistível como abominável, abrindo-se aos medíocres enquanto trava uma eterna luta solitária de amor e ódio contra quem mais admira.
Para Juveninho, o artista que precisa ficar amiguinho de seu público já renunciou à arte. Juveninho não gosta de se citar como exemplo, mas reza a lenda que ele jamais virou miguxo duma morena. Por analogia, acha que Axl Rose também merece as mocinhas siliconadas e maquiadas que se enfileiram lá na frente para descobrir o tamanho de seu carisma. Está pensando até em fundar a Escola Rose de ‘Fazer O Seu e Que Se Dane’ (já conhecida como a “ERFOS e Que Se Dane”), para a qual convidará – como alunos, claro – cantores baianos, roqueiros, sertanejos, lapianos, sambistas, blogueiros, tuiteiros, pais de família, colunistas, professores universitários e demais meninos carentes do Criança Esperança mental brasileiro. O cordão dos puxa-sacos, ele diz, cada vez tem mais artista. Se Wilson Simonal, precursor nacional da “mãozinha pra cima”, fosse vivo, Juveninho também chamava. O rock nunca foi tão educativo.
Às 3:20 de segunda-feira, acabou o show do Guns N’ Roses, e até agora ninguém sabe o que colocaram na água da Apoteose. Os amigos estão perplexos. Querem a companhia de Juveninho em todos os próximos engarrafamentos da cidade. Há quem lhe garanta ingresso para três Lenny Kravitz. Há quem lhe garanta cinco Beyoncée. Há quem sete Coldplay. Há quem Soleil. E há Botafogo; sem trânsito nem nada. Alguns suspeitam, porém, que ele bajula Axl Rose, porque sonha com a rebarba morena duma turnê internacional. Que Juveninho se apaixonou por uma roqueira da Pista Premium, e agora quer levá-la para a “heaven’s door” fingindo gostar “do Guns”. Que Juveninho jamais falaria “o Guns” se não quisesse que uma morena dark falasse “o Zeca”. Juveninho não dá a mínima. Sabe que os amigos reduzem todo conhecimento humano a gostos e paixões. Que nunca vão tirar da adolescência mais que um “sorriso no rosto”. Que jamais aprenderão a transitar em meios diversos e roubar o melhor de cada um. Que se danem.
Juveninho N’ Roses garante: sábio de quem não precisa ficar amiguinho nem de seus próprios amigos.
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Terca-Feira, 6 de Abril de 2010, às 08:55
Acho que foi a primeira vez que gostei de um texto do Juveninho.
Terca-Feira, 6 de Abril de 2010, às 14:42
Vou tatuar essa frase do Juveninho, a do último parágrafo, no meu antebraço direito.
Terca-Feira, 6 de Abril de 2010, às 19:24
eu tb !