por João Paulo Duarte - Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 19:02
Há alguns anos, numa livraria de Ipanema, Ruy Castro conversava com Carlos Lyra [entre outros], que se mostrava saudoso do Rio das décadas de 1950 e 60. Eu só observava. O músico garantia que a cidade tinha acabado – graças à violência, ao fim dos bons costumes, da criatividade, dos bons carnavais, um caos. O grupo todo começava a concordar – eu mesmo não estava disposto a divergir – quando o Ruy, com aquele sorriso sarcástico, interrompeu: “Carlinhos, sabe por que você não gosta do Rio de hoje? Porque você está velho. Você lembra com saudosismo do Rio de quando era jovem. Agora, veja o João Paulo.” Puxou-me pelo braço até o centro da conversa. “Pergunte ao João qual é o Rio da vida dele.” Todos olharam pra mim, já entre sorrisos, e o Ruy completou, me perguntando: “Qual o carnaval da tua vida? Foi o de 99, 2000, 2001?”.
Ruy voltou-se para Carlos Lyra – também o pegou pelo braço e falou em tom de brincadeira entre grandes amigos: “Carlinhos, você está velho, chato e volta pra casa cedo. O Rio agora é do João e dos amigos dele, que estão na rua, aproveitando.” Todos começaram a rir, concordando.
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Meu querido Ruy Castro me falou que não há lugar no mundo como o Rio para viver entre os vinte e os trinta anos. E o carnaval de 2010 marcou a minha vitória: ter aproveitado cada momento da minha juventude numa cidade que é excitante demais. Voltei para São Paulo numa felicidade retumbante, mesmo não podendo fugir do tempo: no próximo carnaval terei mais que trinta anos. O Rio de 1999 a 2010 é a cidade dos meus sonhos, a época áurea da minha vida e representa o fundamento do que sempre serei e carregarei sobre meus ombros; onde estão todos os meus amigos, meus maiores amores, cada derrota e retomada, e as conquistas.
O carnaval de 2010 foi grande.
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Reunimos-nos na Dias Ferreira lotada, os amigos circulando todos. A cerveja gelada disputada no ritmo da desordem. Aqui me chamam pelo nome. Beber, beber; foram tantas gargalhadas e tantas mulheres lindas que vi. A galhofa faz sentido se sou também personagem. A noite inteira passou e eu pouco circulei, mas aconteceu tudo à minha volta. O perfume feminino que se destaca do cheiro da rua, dos suores, e da quantidade de álcool. Não fui dormir em casa. [Fora daqui, da minha cidade, a minha a vida é tão controversa, destruí tantos caminhos, derrubei todas as pontes e nexos. Nesta noite o que preciso é que você me queira. Se você acreditar em mim, eu tenho muito o que dizer]. Quando tentei abrir os olhos, despertei para o dia do [grande] desfile.
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Meu carnaval se resumiu aos meus amigos e por isso foi enorme. Talvez o carnaval que mais me emocionou, o primeiro que eu não me bastei por mim. A distância me deu a certeza que tenho muito mais que perdi. Não me esquecerei dos sorrisos de cumplicidade, das brincadeiras. Os possíveis amores insinuados ficaram para o próximo carnaval, e a possibilidade foi melhor que a certeza. Consegui, enfim, acalmar o que balançava no meu peito e posso garantir que estou renovado. O poder que o carnaval exerce em mim modificou e atingiu outra esfera [talvez pela idade, ou pode ser apenas o momento].
O Império Serrano é um caso a parte. Veio de uma grande amizade e agora tomou proporções incontroláveis em mim. Entro na avenida sob a coroa imperial como fazia na infância e me fantasiava de Zorro ou de algum super-herói e ninguém podia deter minha felicidade. O Império é o meu Fluminense de carnaval. E digo que, em mais um desfile, incríveis são as caras dos meus amigos, apaixonados. Naqueles minutos de desfile, enquanto canto, pulo, danço, há um momento fantástico: quando cruzo os olhos com os outros e vejo os rostos diferentes – uma euforia fantástica, as lágrimas, as feições distorcidas pela empolgação. Eu sou isso desde que nasci, mesmo que tenha descoberto há poucos anos.
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Foram trinta carnavais. Minha vontade é eternizar todos, contar as histórias; conviver com amigos que também amem a folia, ter uma mulher que não viva sem carnaval e que possamos ter filhos que se fantasiem. O carnaval é a minha chance de fantasiar fora dos textos e das histórias que contamos [sim, fantasio sempre].
Não concebo a idéia do carnaval longe do Rio. Quando precisar ficar afastado – seja qual for o motivo – não me abalarei. Sempre haverá o ano seguinte, a vontade maior, a saudade reconfortante e todos os significados cariocas intactos, me esperando.
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Este texto é dedicado a Marcão e Duda [meus irmãos]; Clarinha, Cissa, Júlia, Gomide, Andreazza, Omar, Pian, Ronaldo e Ruy.


Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 19:44
João Paulo, excepcional concepção de carnaval!
E perfeita a conclusão do Ruy Castro. Tomara que o chatíssimo Carlos Lyra tenha apreendido a lição.
Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 21:07
Fico feliz que terei netos fantasiados e com eles me esbaldarei de novo .As avós podem tudo.
beijos
Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 10:03
Belíssimo texto!
O carnaval está na nossa alma!
Abraços,
Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 10:10
João,
Esse carnaval - esse desfile - realmente foi lindo.
Não, não teve aquela áurea mágica (e inundada) do desfile de 2008, quando a fúria, a vontade - a certeza! - de vencer e todo esse amor que só faz crescer pelo Império (e meu Deus, como cresce esse amor) romperam pela avenida e levaram a Serrinha para mais um título inesquecível.
Mas foi o desfile da confirmação. Da certeza que, para os restos das nossas vidas, aquele lugar nos será destinado em todos os carnavais que nos restam.
E sempre na companhia dos grandes amigos (ainda que a mim, tenha faltado o maior de todos), na emoção compartilhada com pessoas que nunca vimos, nas possibilidades que o carnaval oferece (e que cousa mais linda a possibilidade ser melhor do que a certeza) e na mais perfeita confirmação de que nascemos para aquilo ali.
Que texto, meu irmão! Um texto do teu tamanho!
E que honra saber que tais palavras foram também a mim dedicadas.
Embalemos!
Um forte abraço emocionado,
R.Pian
Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 10:20
Jota, Pian… assim vocês me derrubam… Obrigado!
Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 12:37
Bonito texto.
Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 15:39
Lindo texto, confrade. Saudações tricolores e imperianas!
Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 15:45
Venho de reler esta peça e reafirmo: é grande!
Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 16:03
querido,
com atraso, mas com a mesma emoção que teria se tivesse lido antes, me manifesto, com pouco a dizer, na verdade, e um só desejo: de que seus carnavais sejam sempre tão inspiradores e inspirados quanto o cinema argentino. ARGENTINO, entendeu???
Quinta-Feira, 4 de Marco de 2010, às 16:51
que mesa essa, hein? Até me lembro de um certo Andreazza de outros Carnavais;-)