por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 13:22
Vou te comer! Vou te comer! É o que diz o Lobo Mau do axé. Juveninho nem sabia que se comia em Salvador. Achava que era tudo “na base do beijo”, do “vamos namorar, beijar na boca”, do “me dá um beijo bem gostoso, só teu sabor me satisfaz”. Viveu uns minutos de esperança no avião: teriam as coisas evoluído na Terra do Nunca? Nananá!, concluiria em terra firme. Comer, naquelas bandas, ainda é coisa de Lobo Mau. Não importa. Juveninho está sempre preparado para um conto de fadas.
Histeria, histeria! - é o estado que chamamos folia, e ela começou na concentração do Nana Banana, no Farol da Barra, onde Juveninho – mui preocupado com sua defasagem de repertório, humilhantemente estacionado em “cara caramba cara caraô” - conseguiu decorar, segundo ele, os maiores hits do carnaval baiano desde 1950, incluindo os novos e os futuros. Tutatá! Parará! Nananá! Ô, ô, ô! Em cinco minutos (ou duas águas), Juveninho já cantava mais que o presidente do fã-clube do Chiclete. E era como se a cidade lhe retribuísse: “Ah, que bom [que] você chegou” e trouxe o quê que faltava…
Bem-vindo a Salvador, Juveninho!, diziam suas morenas imaginárias, surgidas numa brecha miraculosa entre os facebooks cariocas de sempre. Mas onde elas estavam de fato? Juveninho procurou na frente do trio; entre o caminhão da banda e o de apoio; atrás do caminhão dos banheiros; na fila do banheiro feminino; e só não morreu esmagado pela multidão sudorípara porque a muitas folionas faltou malhar glúteo. Com licença: alguém sabe onde estão as bonitas? Não - Juveninho se antecipava -, não foi ele que bebeu pouco, foi a água. É de opinião, Juveninho, que a água torna o homem mais seletivo, por isso deve-se beber muita água no verão. Quer um gole?, diria às bonitas.
O sonho de Juveninho: encontrar a mulher de sua vida e, como sua “ídola” Beatrix Kiddo, de Kill Bill, “chorar de emoção” - como dizem - deitado no chão do banheiro (mas sem abraçar um ursinho de pelúcia), aliviado depois de enfrentar o Deadly Viper Assassination Squad de seus ex-amores. É uma cena melhor (e mais viável – ele reflete - de se protagonizar na Bahia) que a do casal no carro conversível rumo ao horizonte, onde os filmes terminam e os problemas começam. Juveninho queria viver esses problemas conjugais – os problemas que importam, como dizia O filho da noiva -, sem jamais precisar dum vale-night, ô, ô, ô. E só há uma solução pra agonia de Juveninho: procurar A Noiva!
O problema é que as beldades trocaram o asfalto pelos camarotes: se para as feinhas já é difícil andar incólume, para elas – sobretudo no Nana sábado e no Camaleão domingo – é pior que desfilar de biquíni na Av. Rio Branco. Mulher bonita no bloco, segundo Juveninho, só as que trabalham (distribuindo bandanas, leques, chapéus, cartazes de “Me beija”) e as que terminaram um namoro teen de 8 anos e estão achando o máximo serem cortejadas e agarradas por um bando de trogloditas. [As primeiras não podem beijar durante o circuito, ele diz. As segundas não sabem o que fazer depois. Há também as que rebolam em cima do caminhão, mostrando à massa a cor da calcinha, mas essas não interessam a Juveninho, senão como paisagem. Restam – oh, esperança! - uma ou outra exceção, quiçá chicleteiras de primeira viagem. E Juveninho adora uma exceção morena, de preferência embrulhadinha pra viagem.]
Não. Nada tem, Juveninho, contra os trogloditas que agarram as moças à força até que elas se rendam num beijo de alforria. Cada um usa os recursos de que dispõe. Se Juveninho estivesse necessitado do orgasmo salivar dum beijinho na boca; se não dominasse o idioma vernáculo para arrancar uma risada morena com as mãos nas costas; se não liberasse uma alfazema natural para despertar o rebolation das baianas; se não tivesse o menor interesse em saber o nome dos pais e o telefone das moças para sair do balanço ao trepa-trepa; e se realmente precisasse contar aos miguxos os placares da salada mista carnavalesca, Juveninho jura que também daria uns 15 mata-leões por bloco, com direito ao colarzinho azul e branco dos Filhos de Gandhy a cada vítima conquistada. Aliás, ele comenta em voz baixa: colarzinho meio gay.
Tô a-pai-xo-na-da por você há muito tempo!, confessou uma chicleteira no meio do Camaleão. Quanto tempo?, Juveninho quis saber, já famélico. Desde o início do bloco. Ah, isso em Salvador é uma eternidade… Juveninho quase se comoveu com tamanha paixão, e quase se prostituiu pelas barrinhas de cereal que a moça levava no bolso. Como pôde esquecer as dele? Não há água que dê conta de mais de cinco horas de quebra-costela na Av. Oceânica, e por pouco Juveninho não atravessa a corda de segurança para arriscar o abadá, a cabeça e o estômago por um delicioso “churrasquinho de bactéria”, como chamaria Ivete, no Arrastão das cinzas. Ele leu nos manuais do carnaval: não alimente os seguranças; não alimente os cordeiros; não alimente a pipoca; mas com que alimento ele cometeria tais crimes, se ninguém os vende no percurso? Em terra de bêbabo, diz Juveninho, sóbrio morre de fome; e ele precisaria de muito jeito para conseguir uma barrinha sem conceder um beijo aquém de seu padrão, não tivesse a moça uma rara compaixão pelas agruras dum abstêmio gentil. Ufa. Salvo pelas fãs.
Na altura do Clube Espanhol, um amigo cutucou Juveninho: ih, olha lá, não é aquele escritor? Juveninho deu de ombros. O autor de Um sóbrio em Salvador, não está vendo?, com nome de colírio, como é mesmo?, Felipe Moura Brasil, acho, mas chamam de Pim. “Nunca ouvi falar”, respondeu Juveninho. Há seis anos ele descreveu tudo isso aqui, Juveninho, você está muito atrasado. Juveninho fez uma cara de quem não queria descrever bulhufas. Não gosta dele? Eis o que interessa a seus amigos na literatura, pensou: a fofoca. Deixou, então, escapar que não ia com a cara do sujeito, porque ele vive falando de Juveninho pelas costas e botando palavras em sua boca. Não é o que fazem vocês escritores, Juvenal? “Vocês escritores”, repetiu Juveninho, com escárnio: “vocês homens”, “vocês cariocas”, “vocês isso”, “vocês aquilo”, seu amigo lhe parecia uma mocinha recalcada com aquele típico discurso equalizador. Pôs um ponto-parágrafo com sua resposta-padrão às fêmeas: Eu sou o Juveninho, porra!
O melhor lugar do mundo para ser confundido com qualquer um, observa Juveninho, é o carnaval de Salvador. Basta dizer que você vai ou foi, e pronto: você vira “vocês”. Ah, imagina só essa mistura… Quer ver a menina a quem você deu amor tentando te beijar como se você fosse igual ao fanfarrão que ela pegou na véspera? Quer ver uma ursinha saltitante em sua direção, como se recém-nutrida duma poção gummy, sair muito ofendida quando você vira a cara para cumprimentá-la ao invés de meter a língua que ela julgava certa boca adentro? Quer ver aqueles cupidos que apresentam as amigas – que eles queriam, mas não conseguem pegar - perguntarem, ao vê-lo sair educadamente, se você “não gosta de mulher não, cara”? Quer ver os histéricos mais vaidosos (eles são fabricados em série, segundo Juveninho) - do tipo que precisam ser admirados por todo mundo, inclusive pelas mulheres dos coleguinhas - dando em cima da sua mulher, como se você fosse coleguinha? Então chame-chame-chame, chame gente!
Para se produzirem reis e rainhas do pedaço, ensina Juveninho, basta recortar a realidade: passe uma corda ao redor da sua geração, e faça cada membro acreditar que ali dentro ele é livre, ele é free, ele é dó, ele é mi, suas escolhas não têm conseqüências, ele está seguro do resto do mundo pela corda e de si mesmo pelo aperto, ninguém terá tempo nem espaço para usufruí-lo com profundidade, e assim, no calor do rebanho, ele poderá receber e distribuir abraços e beijinhos e carinhos mas com fim!, salvo de maiores exigências, eximido d’outras habilidades, sem dizer patavina a não ser “sim” a seus desejos imediatos; mas por favor não se esqueça: aumente o som pra galera sacudir! E sai do chão! Parabéns, diz Juveninho: você montou sua arena de Vale-Quase-Tudo, e agora basta esperar a poeira e a vaidade subirem. Ali, onde os fracos têm vez (e as feias também), os belos serão deuses que, viciados nas lisonjas do olimpo, pularão de arena em arena, bailinho em bailinho, fingindo-se tanto mais vivos e livres quanto mais deficientes e dependentes dos bocós que os veneram. E dirão: “Foi o máximo!”.
Juveninho aprendeu com Olavo de Carvalho: “não há nada mais perigoso no mundo do que um idiota persuadido da sua própria normalidade”, de modo que sai correndo dos vaidosos machos (para que não dêem em cima de sua mulher sem se darem conta) e das vaidosas fêmeas (para que ele mesmo não dê em cima delas sem se dar conta). Havia vários nichos da espécie nos mil ambientes do Camarote Salvador, o mais badalado castelo do carnaval, onde Juveninho matou saudades da comida típica do Rio de Janeiro (a japonesa); e, cansado de sair do chão, resolveu descer até o mesmo, ao som do “Melhor DJ do Mundo” - um título intrigante para Juveninho, que não sabe como se dá tal eleição, mas imagina que seja de maneira semelhante à da “Formiga Mais Bonita”. De qualquer modo, não gostaria de ser mesário em nenhuma.
Há quem diga que carnaval de verdade é sair em bloco. Que camarote é uma festa como outra qualquer. Que, se for para ir de camarote, é melhor viajar pra Ibiza. Há quem diga que “gente bonita” só tem no camarote. Que, chegando cedo, dá pra ver os melhores blocos passarem. Que alguns até param em frente prum show particular. Juveninho nada diz a respeito, a não ser que “gente bonita” é papo de cabeleireiro (quando não sub-eufemismo de “ambiente exclusivo”). Que homens e mulheres falem entre si sobre “gente bonita”, é sinal, diz Juveninho, do quanto já descemos abaixo da linha do pudor. Quando uma moça lhe fala em “gente bonita” (ou dá faniquitos pelo George Clooney), Juveninho sai logo para o toalete. Ela deve tê-lo confundido com seu cabeleireiro.
O melhor lugar, para Juveninho, é lá na frente dos blocos (de segunda e terça no Barra-Ondina, principalmente), colado aos cordeiros dianteiros, onde – imagine!, ele diz – é possível até conhecer gente. Isso mesmo: gente, terráqueos – “pessoa humana”, como dizem -, aquela coisa antiga com nome, sobrenome, gostos, afazeres, infância, sonhos, graça. Juveninho só avisa aos incautos que não reparem se, no dia seguinte, aquela pessoa com quem você passou horas, conheceu a história, sabe se os pais são casados, levou em casa e esfregou a língua lhes der duas bochechadas apressadas ou um “tudo bom?” e passar direto. A regra é clara: se não quer – ou não sabe se quer – ficar com fulano de novo, não fale com ele! É mais fácil! Destrua o vínculo afetivo em nome da sua imaturidade amorosa – e venha com as miguxas! Qualquer coisa, “era carnaval”…
Mais seis!, gritou um rapaz de dentro do banheiro masculino. Era hora de Juveninho fazer xixi, com cinco marmanjos ao lado, no mesmo mictório. Durante o ato, outros desesperados socavam as arestas do caminhão, exigindo pressa. Juveninho nunca pensou que fosse dizer isso, mas que saudade do banheiro químico! O xixi, ele diz, é como o beijo: requer serenidade. No meio da histeria, ninguém tira dos prazeres tudo que eles têm a dar, daí que se busque na quantidade a compensação impossível. Onde se urina mal, segundo Juveninho, beija-se mal. Também reconhece, Juveninho, a qualidade dum beijo feminino pelo carinho no braço. Pode cair o mundo que as maduras passearão as mãos devagar, deixando os dedos (como os lábios) sentirem o sabor da pele. As mal resolvidas, ao contrário, na ânsia de mostrar serviço, parecem sempre fazer cócegas em barriga de cachorro. Batata!, grita Juveninho: não sabem beijar.
É seu aniversário?, perguntou uma no Me Abraça de terça. Não, disse Juveninho. Mas você está de parabéns. Obrigado. Meia hora depois: é seu aniversário? Você já me perguntou isso. Ah é? É. Mas você está de parabéns. Obrigado. Juveninho se sente quase um reizinho com a criatividade das fãs, e mal pode esperar pelas próximas abordagens. O conteúdo carnavalesco o engrandece de tal forma que ele sente o coração fazer tutatá. Quando se vê, lá está Juveninho, banhado pelos esguichos de cerveja, o tênis destruído, o corpo (mentira, ele diz) axurriado, as virilhas e os suvacos assados, suplicando a Durval que volte logo do intervalo, atento aos avisos em playback (ou era o irmão?) de Bell, preocupado com mamãe Ivete, assombrado pelos dançarinos-plantas da borboleta Daniela, perguntando ao Jamil onde diabos está a Mila das mil e uma noites de amor com você, cantando “Eu quero uma latinha” e levando uma latada na cabeça, com milhares de reais a menos no money belt, a maior invenção da humanidade, segundo Juveninho, depois da barrinha de proteína, que ele também rouba da equipe de enfermagem dos Anjos da Folia, sem deixar de contemplar ao redor, em alguma cinturinha moleca, o rebolation que tudo justifica.
Agora: se Juveninho encontrou ou não uma exceção morena, com quem pudesse driblar o tempo, o som e o espaço quando eles literalmente atropelam o corpo e a alma, e abstrair o universo em torno no momento indelével dum beijo vagaroso, ninguém sabe. Quem ganhou o Vale-Juveninho? Há quem diga que foram as camareiras do hotel. Há quem diga as panfleteiras do bloco. Há quem garçonetes do camarote. Há chicleteiras de primeira viagem. Reza a lenda que Juveninho e as baianas se entendem no olhar e na pipoca, mas os amigos dizem que ele saiu liso da avenida. Que levou um monte de “tudo bom?” pra casa. Que está até agora passando talco nas virilhas. Que fez xixi no canto do mictório, virado pro ralo, e só caíram duas gotas. Juveninho ignora. Cansou de mandar caso perdido à terapia. São uns 5 mil por bloco em Salvador, e ele nem tinha tantos cartões de visita da doutora.
Depois de comer na tradicional churrascaria Boi Preto, onde os peguetes se reencontram na ressaca da folia, Juveninho foi embora na quarta-feira de cinzas – e ninguém sabe ao certo se ele gostou do carnaval. Mas dizem as boas línguas baianas que, no banheiro do Ondina Apart, antes do check out, Juveninho sentou no trono e chorou.
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Juveninho no Twitter
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Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 15:48
Mto boa a cronica, perfeita pra representar o carnaval de SSA,
Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 16:49
Conclusão: você não comeu ninguém no carnaval, não é?
Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 17:27
Como tenho grande simpatia pelo Juveninho, desejo que ele tenha encontrado a morena e conseguido “driblar o tempo, o som e o espaço quando eles literalmente atropelam o corpo e a alma, e abstrair o universo em torno no momento indelével dum beijo vagaroso”.
(“pessoa humana”, como dizem -, aquela coisa antiga com nome, sobrenome, gostos, afazeres, infância, sonhos, graça)
Tão bonito isso!
Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 19:19
Sempre culpa da agua neh Juveninho? rs rs rs
Mesmo nao sendo fa de carnaval de SSA adorei a cronica!
Bjs, Jo F.
Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 23:05
Muito bom!
Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 23:11
Gostei tanto que recomendei o link lá no meu Facebook. Aliás, vocês têm facebook?
Muitas vezes chego aqui através da “propaganda” do Pim naquelas atualizações do orkut que ficam revelando pra gente o que os amiguinhos fizeram (pelo menos essas tribuneiras são atualizações úteis!). Tenho a impressão, comparando os amigos que tenho no Orkut e os amigos que tenho no Facebook, de que no face tem mais vida inteligente. Seria legal receber notificações tribuneiras por lá.
Agora só falta a Bruna escrever sobre o carnaval… Eu quero, eu quero…
Bjs!
Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 08:54
Juveninho esqueceu de falar e procurar os amigos da boa terra pra auxiliá-lo.
Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 14:33
Juveninho,belo texto,fala sobre o grande mal que vivemos na humanidade…o afeto,e a falta do reconhecimento…fala também de sua auto qualificação…adorei.
Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 23:07
Como ler esse texto e não tecer um comentário
Como SSA pode ser tão boa e tão ruim
Hà quem ame e quem odeie
Juveninho deve ter gostado, pelo menos retornou. Belo texto.