por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 4 de Fevereiro de 2010, às 10:28
Eram tantas caixas espalhadas que dava preguiça de abrir, jamais conseguiria colocar tudo no lugar certo. Foram ficando ali, como se fizessem parte do normal, até que a quantidade de tralhas reviradas começou a prejudicar a movimentação na casa. Além do quê, era bem difícil encontrar o necessário em meio à tamanha bagunça.
Depois da palestra daquela manhã em uma escola cismou de rever as camisas dos últimos dias de aula, cheias de assinaturas dos amigos, declarações hiperbólicas, desenhos e cores. Tinha sido a primeira vez que entrava em um colégio como adulta, e não como aluna. Não que sejam palavras opostas, mas quando sentou na coordenação para conversar sobre outros jovens e não sobre ela teve mais uma prova de que alguma coisa acontecia naquele coração. “Meninos, essa é a palestrante que veio esclarecer suas dúvidas sobre profissões”. Esclarecer dúvidas? Crianças, não ouçam o que essa moça tem a dizer, ela tem pouquíssimas certezas. Aliás, certeza é coisa que vai se perdendo com o tempo, ou vai evoluindo e ficando um pouco menos impositiva. Um pouco mais pessoal e intransponível. Um pouco mais tolerante.
Desde que levantou daquelas carteiras enfileiradas circundadas por pressões e regras de comportamento já sofreu mais por arrancar certezas do que Band-aids para passar Mertiolate. Como assim “não é bem isso?” Quem você pensa que é para “mudar de idéia”? É muito fácil dizer “ah, não sei”. E não é. E é quando não sabemos que arriscamos e de repente dá certo. Ou tentativa e erro. E nova tentativa. E movimento. E um passo pra trás com mais um pro lado e um largo para frente gera uma dança e dançar faz bem!
Achou a mensagem escrita por um adulto a quem ela própria recorria quando precisava esclarecer dúvidas sobre profissões:
“Vou tentar não decepcioná-la. Sempre procurei orientar minha carreira obedecendo a três princípios: trabalhar com prazer, senão não serve. Onde poderia ter mais possibilidades de crescer profissionalmente? And last but not least, tentar ganhar o que me permitisse viver com razoável tranqüilidade. Às vezes um caminho parece o mais prudente, mas não sei quanto isso vai consumir você internamente se trabalhar não for divertido”.
Se aos setenta anos a lição é essa, copia o que está no quadro e aprende.
Não achou as camisas, mas não perdeu a lembrança daqueles momentos no pátio quando ainda comia hamburger às dez da manhã. Pôde rir daquelas preocupações, dores e delícias. Achou uma fantasia de bailarina, meio empoeirada, precisando de uns remendos, mas que ainda daria para um Carnaval. Achou que poderia ser quem quisesse naqueles quatro dias e nos outros mais de trezentos a seguir. Vestiu a roupa e foi pra rua dançar. Na volta arrumaria as caixas, mesmo que nem tudo ficasse exatamente no lugar certo.


Quinta-Feira, 4 de Fevereiro de 2010, às 15:33
Nice!
Quinta-Feira, 4 de Fevereiro de 2010, às 20:21
Bruna,
Belo texto.
Também tenho minhas caixas. E não consigo imaginar me desfazendo delas.
Bjs,
André
PS.: Fiquei com frio na barriga ao chegar na escola hoje. Não sei se fiz tanto sucesso. No final não pediram meu telefone.
Quinta-Feira, 4 de Fevereiro de 2010, às 22:52
Prefiro quando tu falas dos homens que te dão bolo.