por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 28 de Janeiro de 2010, às 12:08
Juveninho recebeu uma declaração de amor de uma mulher extraordinária. Ela tem 85 anos. Foi numa lanchonete, em Ipanema, enquanto Juveninho comprava seu açaí com morango. “Meu filho!”, disse ela, séria, com o dedo em riste, ao que ele anteviu uma bronca por entrar sem camisa: “Que olhos lindos você tem!”. Juveninho agradeceu, aliviado e tímido, sob a atenção risonha de fregueses e balconistas. “Se eu fosse mais jovem”, gritou Dona Elza, “eu casava com você!”. [Juveninho cogitou pedir o messenger de Dona Elza, mas temeu seu offline]. Soerguendo-se no banco, ela deu-lhe o braço: “Anda, meu filho, me ajude a levantar.”
Não sabe, Juveninho, por que as moças - especialmente as bonitas - demoram 85 anos para ficar inteligentes assim. [Ou sabe: elas passam 40 ouvindo essas coisas e, com sorte, demoram mais 45 para aprender a dizê-las. Não é o caso de Dona Elza, claro, mulher de atitude desde a mais tenra e bela mocidade, segundo a imaginação de Juveninho.] Em todo caso, a cantada das senhoras, ele diz, é como a das feias: existe para dar confiança em encarar as bonitas. Copo na mão, Juveninho chegou à praia de olho na morena dos panfletos: “Que linda bunda você tem! Eu me caso com você!”. Mas desistiu. Precisava de mais 60 anos ou menos morango no açaí.
Juveninho anda preguiçoso. Nada lhe dá tanta preguiça hoje quanto uma moça bonita. As de sua idade (as feias também, mas Juveninho é rapaz de foco), ele as divide em cinco tipos básicos (não raro cumulativos): as anoréxicas, que não assumem a doença nem para si; as piriguetes da night, que ficam com todo mundo; as semi-solteiras enroladas com ex-namorados eternos; as superindependentes, que moram sozinhas e levam homens pra casa como um sabonete; e as recém-casadas (com aquele sujeito tão “fofo” quanto a última bolsa da moda), todas – antes dos 30 – já com seu amante. Acha, Juveninho, que o destino de sua geração é mesmo a micareta no asilo: comprando o abadá do primeiro lote, você já leva um babador.
O abadá é o símbolo da Era das Possibilidades. E onde tudo é possível, ele diz, nada é possível. Onde nada é impossível, tudo é impossível. Onde ninguém termina coisa alguma, ninguém começa coisa alguma. Onde se volta do supermercado com um mamão, um sabão em pó e um marido, jogam-se no lixo a casca, a caixa e o compromisso. A missão de Juveninho: colocar o impossível de volta em circulação. Seu plano: fundar a EDECI - Escola Dona Elza de Consciência das Impossibilidades, cujo primeiro dever de casa será analisar a brilhante frase: “Se eu fosse mais jovem, eu casava com você!”. A expectativa (alta) é de que, em 5 ou 6 anos de graduação, as moças descubram onde está o impossível na relação com seu primeiro ex-namorado.
Enquanto uma aluna nota 10 não se forma, Juveninho procura uma exceção autodidata. “Transforma-se o amador na cousa amada”, escreveu Camões, e Juveninho não quer transformar-se num polvo. O poeta notou que, apesar de termos em nós o que desejamos, o amor jamais se completa sem a correspondência material, física, da amada - com o que concorda Juveninho, embora não encontre corpos morenos e graciosos sem uma lista de sócios-proprietários. Os amigos dizem que as bonitas é que não querem saber dele. Que, nesse clube, Juveninho só recebe bola preta. Que ele é apenas um peso médio, como o Rob, de Alta Fidelidade, e “You gotta punch your weight”. Que seu destino, portanto, é ser o galã do Retiro dos Artistas. Juveninho ignora. Aprendeu com Ovídio: “É o ápice que provoca a inveja”. Mas, na dúvida, comprou a camisa do Retiro dos Artistas.
Se todo mundo está disponível e indisponível ao mesmo tempo, o segredo é… Bem, Juveninho não sabe o segredo, e continua procurando uma exceção morena. Na praia, segurando o panfleto de uma festa eletrônica, a única certeza de Juveninho é que 11 DJs não fazem um verão. É preciso, no mínimo, dispensar 10, e ensinar o outro a tocar um chocalho. Mas em terra de mal resolvidos, ele diz, todo DJ é um rei. Sabe, Juveninho, que a confusão mental de seus conterrâneos tem origem num ambiente cultural onde o essencial e o irrelevante, o eterno e o efêmero, a realidade e a moda, se misturam alucinadamente, deixando a massa perdida entre o que presta e o que não presta, o que dura e o que não dura, o que se sustenta e o que não se sustenta, e por quê. A onda é escolher o marido por critérios como fofura, portabilidade e status, porque a funcionalidade pode ficar com o amante. Amamos tanto o ecletismo, ele diz, que nosso coração virou um DJ.
O primeiro passo de Juveninho para acabar com isso é proibir a frase: “Fulano fez o impossível”. Se foi feito, não era impossível: era falta de imaginação de quem disse - contribuindo para a crença geral de que nada é impossível. E deduzir, do desconhecimento da coisa, a inexistência dela aliena todo mundo. Nada – além da verdade - foi mais difamado em nosso tempo que o impossível. Hora do direito de resposta. Para Juveninho, o impossível numa escolha amorosa tem mil e uma formas, dependendo do desejo de cada um: está num hálito ruim, num beijo destrambelhado, num sexo insosso, numa beleza aquém, num humor faltante, num charme perdido, num descompromisso existencial, num desinteresse profissional, numa diferença intelectual, moral, de educação ou de ambição, nos pais que você não quer como avós de seus filhos, ou – principalmente, diz Juveninho – num excesso de blush nariz acima.
Sem recursos mentais para analisar essas coisas [sobretudo o blush] até o fim, esgotando as possibilidades de um relacionamento para dele ao menos saírem bem resolvidas, as pessoas hoje, segundo Juveninho, quando estão diante de uma dificuldade qualquer ou já do próprio impossível em carne e osso, o que fazem como solução? Dão “um tempo”! [De modo que há pessoas dando um tempo em três namoros ao mesmo tempo.] São, para ele, como o peladeiro seriamente contundido que, em vez de fisioterapia, passa duas semanas sem jogar [ou jogando futevôlei]: quando volta, sabe Juveninho, machuca-se mais ainda. No verão carioca, então (a estação dos “tempos”; a farsa sazonal dos indisponíveis), achar um grande amor só não é impossível porque a Juveninho não faltam imaginação nem atitude. A essa hora, dizem, ele já está na internet, pesquisando se Dona Elza tem uma netinha morena.
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Quinta-Feira, 28 de Janeiro de 2010, às 15:29
Adorei! O problema do Juveninho é só considerar as menos de 30. Eu, por exemplo, tenho 35 anos (corpinho de 25!), não me falta atitude (às vezes tenho até demais) e não me encaixo em nenhum dos perfis acima. Sou da tribo das divorciadas, sem amantes, sem ex-namorados eternos, mas igual ao Juveninho, apesar da diferença de idade, está difícil arrumar alguém que preste, por isso venho curtindo muito feliz minha solteirice. Ahhh. Sou morena e não sou feia (soa mal eu me definir bonita, né não?) Ai, ai, por que será que me senti agora num anúncio de site de relacionamentos? Tudo bem, já chutei o balde da vergonha de falar besteira pela internet há tempos… Pra você ver o que a minha adoração pelos belos textos desse delicioso site causam em mim… Que mais donas Elzas (e suas netas) apareçam para inspirar o nosso nobre autor!
Quinta-Feira, 28 de Janeiro de 2010, às 19:56
Vou até malhar mais glúteos depois dessa..
Quem sabe o excesso de cerveja carnavalesco já seja o suficiente pra despertar a sabedoria juvenal nos homens(certos). rs