por C.A. - Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 14:16

Vi, não faz cinco minutos, um bicheiro deficiente-físico. (E não terá sido o primeiro). O leitor compreende?
Um apontador do jogo-do-bicho cujas pernas são inúteis!
Um agente - a ponta mais visível do sistema - de um poderoso emaranhado ilegal, de uma monumental rede criminosa, que pode prescindir das pernas, que se locomove numa cadeira-de-rodas; porque sabe que jamais terá de correr da polícia.
É espantoso… (Ou seria, se já não estivéssemos tão anestesiados diante desses delitos cotidianos, miúdos - mas nem um pouco triviais). E acabamos por nos esquecer: o jogo-do-bicho, esta onipresença carioca, é proibido - é crime - neste país! (Ou a lei terá mudado? - é de se duvidar mesmo).
Eis uma representação bastante fiel - complexa, inclusive - do Brasil, o país da impunidade absoluta: o bicheiro que não pode caminhar, que deveria temer-desconfiar, que se deveria esconder, mas que, tão acomodado e seguro, monta uma banca, um escritório, em plena rua, à luz de um bonito dia de verão, e vende, como quem vende rifas!, talões e mais talões [vende ações] do crime organizado.
E não me venham dizer que o sujeito está trabalhando, ganhando o pão, que não tem culpa, que é vítima e o escambau - uma ova!
Aquele homem é um contraventor, instrumento fundamental - não raro [e estupidamente] romantizado, o “malandro maneiro” - de um esquema marginal obscuro, essencialmente corrupto e assassino, cujos tentáculos se estendem [a perder de vista] pelos poderes públicos. (Não me acostumo - fico mesmo indignado - a ver um policial fardado, um representante da lei, batendo papo, à sombra, com um apontador do jogo-do-bicho; aquilo é um escândalo, um escárnio à legalidade, e as pessoas no entanto a lhes cruzar como se diante da mais plácida cena urbana).
Tenho asco pela maneira tolerante - carioca, cheia de jeitinho, comumente orgulhosa - como admitimos o banditismo [às vezes sem reconhecê-lo] em nossas vidas.
Aquilo é um crime, ora!
Jogar no bicho - e saibam que não exagero - tem o mesmo efeito degradante de se comprar drogas, embora as pessoas o façam sem vergonha e com indisfarçável prazer, noto até uma aura de nostalgia, como se prestassem inestimável contribuição ao cultivo de uma importantíssima tradição cultural.
Que merda, hein!
Nem toda a tradição é boa, deveríamos saber; mas, no Rio de Janeiro, a noção de cultura se folclorizou para que, do mate-de-galão [com todos os coliformes fecais] ao jogo-do-bicho [com todos os assassinatos, passados e futuros], tudo fosse patrimônio cultural da cidade…
Fato incontornável: jogar no bicho é financiar a construção de novos ramais criminosos, que vão, rapidamente falando, da multiplicação de caça-niqueis ao comércio de armamento, aí onde - mas não só - os bicheiros se associam aos traficantes. (Alguém pode contestar isso)?
É a desgraça social - a tessitura de um Estado minado, viciado, inviável - diante de nós… E daí?
A relação superficial [mas não menos promíscua] que se estabelece com o apontador de bicho da esquina, aquela camaradagem tão descolada quanto irresponsável [vão me chamar de elitista, preconceituoso etc.], é a origem do processo que legitimará, no carnaval, os grandes bicheiros como benfeitores das comunidades de Nilópolis, Vila Isabel etc. - e que nos obrigará a vê-los honrosamente tratados, sob a mais inacreditável omissão dos governantes, como autoridades, como competentes administradores e respeitáveis gestores do dinheiro público.
Uma ova!
Os bandidos assinam contratos com a prefeitura!; e meu estado de perplexidade - ainda bem - é constante… (A propósito, azar de quem pense que esta minha insistência em bater nos contraventores do jogo-do-bicho se deva a rusgas de carnaval e escolas de samba; é o Rio de Janeiro - o Brasil, por que não? - que está em questão).
E aqui quero manifestar um conceito: não faço distinção intelectual entre criminosos [do ponto de vista prático, que a Justiça lhes estabeleça as penas em consonância com o código] e não estou entre aqueles que são simpáticos a um tipo de bandido, pois que pobre, sofrido pelas desigualdades etc., ou supostamente ideológico. (Todos têm o meu desprezo; todos são vagabundos).
Não acredito em “causas” para um crime, não creio que um delito possa ter uma finalidade edificante, não me engano com sociedades - eufemismo para projetos de poder totalitários - construídas pela ilegalidade e sob a opressão, não mitifico porcos guerrilheiros, não endeuso terroristas assassinos, e só vejo mentira e barbárie tanto em “recursos não-contabilizados” quanto nos mais [muito mais] de 100 mil mortos pela ditadura cubana. Sei, porém, que destes pontos discordarão os mentores do “mensalão” e o Frei Betto - e acho ótimo: é assim que a civilização se distingue.
(Batedor de carteira, Cesare Battisti, torturador da ditadura militar, Alberto Cacciola, terrorista de esquerda, governador do DEM ou tesoureiro do Lula - é tudo bandido).
Criminoso é criminoso e merece a cadeia, seja Paulo Maluf, ladrão contumaz, ou Fidel Castro, assassino contumaz.


Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 15:12
C.A.
Parabéns pelo que escreveu. Sou um carioca nascido, criado e inconformado com esta cidade.
Vivo me batendo contra quase a unanimidade (já dizia mestre Nelson…) contra este conceito do “deixa levar” que impregnou a sociedade carioca e, porque não, a brasileira.
A leniência perene das autoridades com a contravenção, o crime e o anti-social(no sentido do que vai contra aos interesses da sociedade) acabou por transformar-se em cultura disseminada entre os cidadãos e numa doença auto-degenerativa que, dia a dia, carcome o Rio de Janeiro e o Brasil.
Desde as invasões das encostas, hoje quase que totalmente repletas de barracos o que é tolerado como “direito”, “fato consumado”, “parte da geografia da cidade” até a tolerância com camelôs que vendem produtos piratas e comercializam comida sem as menores regras de higiene nas ruas, passando por bicheiros, corrupção policial e a tolerância com atos de incivilidade como urinar e jogar lixo nas ruas, este caminho nos trouxe até aqui: uma cidade caótica, violenta, favelizada, suja, mal-cheirosa.
O que vemos no Sambódromo anualmente, com aquele espetáculo de sub-celebridades, turistas e bicões tomando o lugar da gente do samba é apenas mais um dos sinais claros dessa degeneração de valores.
Um desfile que se inicia às margens de um canal fétido e termina num cemitério sob montanhas repletas de favelas, patrocinado por contraventores e criminosos que expõem ali todo o seu poder, sob os olhares não apenas desatentos, mas subservientes de nossas autoridades.
E o pior, apenas para concluir e não tornar meu comentário maior do que o texto que o originou, é que essa tolerância ao ilegal e ao imoral levada às últimas consequências gera, como um negativo, uma intolerância contra aqueles que defendem o certo, o justo, o dentro da lei.
A inversão de valores assim está praticamente completa e, nessa ótica embaçada, nós é que acabamos sendo tomados por errados.
Um forte abraço,
Marcus
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 15:49
Andreazza,
Sinceramente, continuei achando que a implicância com o bicho vem de sua preocupação com o carnaval.
Azar o meu, como bem disses.
Eu entendo seu argumento que compara quem faz um jogo no bicho com quem compra drogas. Ambas iniciativas são ilegais e fomentam a criminalidade que sustenta essas atividades.
Não vou entrar no mérito das drogas, assunto sempre muito bem debatido por aqui.
Porém, gostaria de traçar algumas opiniões pessoais sobre o jogo de azar.
Sinceramente, acho um absurdo que tal atividade não encontre composição com a legalidade aqui no Brasil.
É inegável a pré-disposição do brasileiro para a aposta. (Assim como para o alcool, o fumo, etc).
Não fazer disso uma fonte de receita é algo que, para mim, representa um desperdício enorme.
Entendo e sou obrigado a aceitar que uma possível legalização do jogo representa entregar esse segmento de mercado a um feixe específico de empresários que comandam esse nicho secular e que são altamente envolvidos com a criminalidade.
Ainda assim, acredito que a legalidade do jogo nos traria uma imensa mais valia, incrementando o turismo, gerando postos de trabalho e, como disse anteriormente, uma imensa fonte de receitas.
Minha única dúvida reside no seguinte fato: a legalidade interessa a quem controla esse mercado? De verdade, não sei.
O que eu sei é que tratamos essa questão de forma velada, hipócrita, moralista e ineficiente.
Por que dizer que o jogo é ilegal e deixar esse monopólio nas mãos do governo, que o trata com grotesca inoperância através da CEF?
Alguém ai já apostou na falida TIMEMANIA? Um fracasso!!
Concordo que criminoso é criminoso.
Mas acho primordial que se faça uma revisão quanto a legalidade do jogo.
Sou um entusiasta dessa atividade e não tenho o menor pudor em assumir essa posição publicamente.
Abraço,
R.Pian
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 16:03
Engraçado, vim pro trabalho escutando o Zé Luiz. E escutei a música “Malandros Maneiros” refletindo mais ou menos sobre isso. Lembrando de uma discussão aqui, na seção de comentários, sobre contravenção, carnaval, jogo do bicho, tradição e tal. Acho que o leitor Mitke, se não estou enganada, colocou a questão do culto ao jogo do bicho.
Sinceramente, não tenho uma opinião fechada sobre a responsabilidade do apontador. Porque na verdade desde sempre somos impelidos ao sentimento de simpatia, até porque o jogo do bicho, se não estou novamente enganada, nos primórdios, era somente um jogo de azar, assim como os cassinos, não? Mas não tenho conhecimento profundo sobre o assunto, e estou comentando só porque achei curioso mesmo esta sintonia com a Casa.
E claro que o texto vai muito além dessa questão.
Agora, “Vi, não faz cinco minutos, um bicheiro deficiente-físico. (E não terá sido o primeiro). O leitor compreende?
Um apontador do jogo-do-bicho cujas pernas são inúteis!
Um agente - a ponta mais visível do sistema - de um poderoso emaranhado ilegal, de uma monumental rede criminosa, que pode prescindir das pernas, que se locomove numa cadeira-de-rodas; porque sabe que jamais terá de correr da polícia.”, só mesmo você pra atinar um troço desse.
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 16:10
Bom Pian, não me interessa discutir se o jogo-do-bicho é gostoso de se fazer etc., e se deveria ser legalizado ou não. Esta é, agora, uma questão menor. (Em todo caso, lá vai: não gosto de jogos de azar e sou contra qualquer ampliação de seus atuais limites).
Meu ponto é que, hoje, trata-se de contravenção, com graves implicações criminosas, e que deve ser combatida pelo poder público. Ponto final.
********
Olga, minha querida, obrigado pela leitura atenta. (Estava sentindo sua ausência tribuneira neste começo de 2010).
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 16:18
E só mais uma coisa, meu querido amigo Pian - porque te sei bem inteligente: o brasileiro não possui pré-disposição alguma, nem para o bem nem para o mal.
Apostas e excessos de todos os tipos são vícios pessoais, não raro genéticos, mas que nada tem a ver com nacionalidade etc.
Abraço!
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 16:29
Andreazza,
Em momento nenhum classifiquei a aposta, o alcool ou qualquer outro vício como “bem” ou “mal”.
Mas eu continuo a discordar de você, meu fera.
Lógico que acabo incorrendo no sofisma da generalização apressada quando atribuo ao brasileiro, ou a que nacionalidade for, uma pré-disposição ao jogo.
Porém, o volume da jogatina realizada por aqui (e que fiquemos só no caso do Rio de Janeiro para ilustrar nosso papo) me faz sim acreditar nessa pré-disposição.
Um abraço.
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 17:12
E já que sua intenção é fazer do ano de 2010 um pouco mais “engraçado” (ainda que tenho certeza de que não acharás graça nenhuma no meu relato), lá vai:
Ontem coordenei mais uma operação de choque de ordem no Parque do Flamengo, o lindo e conhecidíssimo Aterro.
Ao final desta, o líder da equipe da Guarda Municipal que me acompanhou, no intuito de elaborar seu relatório, solicitou o número de minha matrícula.
Após acompanhar cada número cantado por mim, percebi que ao lado do anotado, o Guarda fez uma composição com os algarismos que havia acabado de lhe dar.
Hoje, em mais uma operação, ele veio até mim com imensa felicidade agradecendo-me. Havia jogado no bicho com minha matrícula e abocanhou uns tostões, veja só.
(…)
Sei que o ocorrido só dá mais margem para que você e tantos outros critiquem ainda mais a Prefeitura, o envolvimento de agentes da lei com a contravenção e tudo mais que tu desfiaste com teu habitual talento para a escrita.
Mas apelo a tua inegável ironia e afiado senso de humor para compreender o fato com um pouco mais de relaxamento, deixando de lado, se é que é possível, tua contumaz defesa do que é legal.
Até porque, foi contigo mesmo aqui nesta casa, que aprendi que a defesa contumaz da legalidade esbarra, ocasionalmente, em algum exagero.
Forte abraço.
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 17:21
Bom Pian, não quero fazer um 2010 mais engraçado, não. Ok?
Sobre a passagem tua com o guarda municipal, inegavelmente curiosa, aponta para como o governo do [teu] prefeito Eduardo Paes paga mal a seus servidores - obrigados a jogar [ou, numa hipótese muito pior, extorquir o cidadão] para aumentar a renda…
Abraço!
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 18:38
Andreazza: quando me referi a território hostil, ontem, referia-me a isso, eu, teimoso, que volto aqui. Repugnante - permita-me - o que lanças aqui. O jogo do bicho é contravenção penal, o que em nada se assemelha ao crime do tráfico. A banca do jogo do bicho da minha esquina, o mate da praia (coliforme fecal tem até nas mais altas rodas), a feijoada (higiênica?????) do teu Império e do meu Salgueiro, as quadras de escola de samba sem alvará, as mesas nas calçadas sem autorização na cidade inteira, os charutos contrabandeados à venda nas tabacarias do Rio- tudo, tudo, tudo isso - faz dessa cidade (e desse país) um lugar que não é para principiantes. E discordando (para terminar, dessa vez não volto para o salubérrimo bate-boca, tudo tem limite), o brasileiro, tem, sim, predisposição para esse abraço sem-tamanho que a todos sempre recebeu e continuará recebendo à nosso modo, por mais que tentem nos impingir um modo dito civilizado demais, para essa generosidade sem-fim. E não misture alhos com bugalhos. A leniência da polícia (municipal, estadual e federal - que é pouca, ainda mais nos últimos 8 anos) nada tem a ver com esse jeito fascinante do povo brasileiro, do carioca zona-norte especialmente. E coerente seria não participar da festa do carnaval no Sambódromo, ainda que desfalcando o Império, que faz parte (queiramos ou não) do império da LIGA e mais-que-tais. Abraço.
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 07:43
Fecho nessa questão com o Pian e o Edu. Acho que aí o buraco é mais embaixo. Vou escrever alguma coisa sobre isso lá no Histórias.
Abraço!
Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 08:16
Mestre Simas, leitor fiel seu, não mudarei justo quando discordamos.
Abraço!