por C.A. - Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 17:04

Vou logo dizendo: sou a favor da abertura - irrestrita - dos arquivos [todos os arquivos] da ditadura militar brasileira.
Sou contra, porém, o decreto covarde [violentamente inconstitucional] assinado pelo presidente Lula e que estabelece, sob vigarice ímpar, que os torturadores da ditadura [os assassinos da direita] sejam julgados pelos terroristas do mesmo período, os assassinos da esquerda.
E pergunto, já com a resposta pronta: o que é isso?
Um inacreditável - e asqueroso - tribunal de exceção; que viola a Constituição Federal brasileira e oferece ao limbo o equilíbrio institucional em que o país [ainda com razão] se acredita.
Chamada de Comissão da Verdade, traz a mentira [a farsa!] já no nome - e extrapola os limites do que seria um grave golpe revanchista para desembocar naquele cenário convulsivo e imprevisível, não raro incontrolável, de quando as instituições democráticas são subjugadas por aloprados ideológicos e vingativos, e que se dane o Brasil!; porque não há, e desafio que me provem o contrário, norte jurídico algum na revisão da Lei da Anistia [um direito adquirido, que de resto pacificou a questão e trouxe avanços inegáveis], e ainda que houvesse uma só fresta legal para tanto: torturadores não podem ser julgados por um tribunal político formado por terroristas e guerrilheiros.
Antes de ser uma questão moral [que esta gente ignora], é inconstitucionalidade cafajeste - que só pode ter [e tem] origem na canalha.
Paulo Vannuchi, Dilma Rousseff, Franklin Martins e Tarso Genro, essa turma da pesada não tem limites… O negócio deles é Cuba, o modelo!, e devemos estar atentos para o que pode vir por aí.
Lula é péssimo, autoritário, compreende a democracia representativa como massinha de modelar, mas seu personalismo - o culto messiânico à sua personalidade - acabou por esmagar, a não ser pelo bilionário [e grotesco] aparelhamento do Estado, o PT ideológico que esta galera representa e quer expandir.
Eles estão com sede, testam as cordas; e lamento dizer: se Dilma Roussef for eleita, assusto-me em dizer, sentiremos saudades de Lula…
Dilma não busca justiça - como tampouco este decreto assinado pelo presidente -, mas pura e estúpida vingança, custe o que custar, e [repito] que se dane o Brasil. Dilma procura tumulto; crise, reação, desordem, convulsão - o ambiente propício para o tipo de política que sabe fazer.
E o que mais me espanta nesta barbaridade espantosa: são ministros de Estado, dos quais se deveria esperar respeito incondicional à Constituição e um espírito ponderado, de conciliação, que resguardasse o Brasil antes e sobretudo, mas que, ao contrario, ainda se comportam como membros [como vagabundos delinquentes] do MR-8, do VPR ou da ALN, e que se valem dos cargos estratégicos que ocupam para, lançando ao fogo o equilíbrio institucional, vingar-se de algozes que, a bem da verdade e com toda a razão, vêm sendo punidos - estão banidos da sociedade - há mais de 30 anos.
E eles? E Dilma Roussef, Franklin Martins e Paulo Vannuchi, entre tantos outros do primeiro escalão lulista? (Eles são os vencedores desta história toda; estão a cada dia mais poderosos-corajosos, enquanto, por exemplo, as Forças Armadas, defensoras últimas da ordem constitucional, vêm sendo progressivamente sucateadas e desqualificadas).
E eles? E Dilma Roussef? E Franklin Martins? E Paulo Vannuchi? (A Anistia, que ora atraiçoam, permitiu que voltassem legalmente à ativa, que fossem heróis, que criassem partidos, que se transfigurassem em democratas e que até se lançassem à Presidência da República, eles que apenas queriam trocar uma ditadura por outra).
Querem derrubar a Lei da Anistia? Querem mesmo?
Então, que devolvam à União as indenizações que receberam [que recebem] e sentem também no banco dos réus.
É tempo de falar a verdade, toda a verdade; de abrir todos os arquivos, de todos os lados, com todos os nomes, com todos os sangues, com todos os mitos - e de dar nome aos bois e às vacas, mesmo às premiadas.
Não serão poucas as surpresas. Não haverá heróis.


Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 17:44
Com algumas ressalvas em relação ao Lula e à Dilma, concordo plenamente com você. A Anistia foi para todos. Pelo menos, sempre a entendi assim.
Esse nome, “Comissão da Verdade”, me fez lembrar daquele salto relucionário chinês, O Grande Salto em Frente.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 18:38
Concordo!!!!
A tal da comissão da mentira é idealizada por Dilma Roussef e seus vagabundos. Detalhe, hoje Dilma é titular de uma pasta chamada Casa Civil, atente para o nome: CIVIL!
Se hoje, ministra da Casa Civil, Dilma planeja levar torturadores para o banco dos réus, para que esses, sejam julgados por terroristas, imagine em uma eventual presidência da república.
Abraços,
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 19:11
Andreazza: permita-me voltar aqui, território hostil na matéria, para discordar de você com veemência absoluta. Pareceu-me, quando terminei de ler, a história do Boris Casoy ao contrário. Ele manifestou seu preconceito odioso para depois pedir desculpas. Você abre seu texto dizendo-se favorável à abertura irrestrita dos arquivos da ditadura militar brasileira para depois lançar seu ódio (mais uma vez) contra o Presidente da República, um dos maiores (ou o maior, sabe-se lá) de nossa fresca História, exitoso absolutamente em todos os setores sob sua responsabilidade, mas não é disso que venho falar.
A Comissão a que você se refere pretende abrir os arquivos da nojenta ditadura que nos estuprou por longos 20 anos, um bocado mais. Foi o GOVERNO (aí é que você peca, penso eu) que cometeu os crimes que se pretende esclarecer, foi o GOVERNO que vasculhou e ceifou vidas, e é obrigação do GOVERNO (ainda que deste que você tanto despreza, na contramão da avassaladora maioria do povo brasileiro) esclarecer as nojeiras e as ignomínias cometidas pelos macacos, pelos generais, pelos beneficiados, pelos porcos que destruíram mais de uma geração. É obrigação do GOVERNO fazer isso, já que tais arquivos encontram-se sob a proteção, justamente, do GOVERNO.
A grita histérica dos comandantes do Exército e da Aeronáutica, heloisahelenicamente ameaçando pedir demissão (pois que peçam!) caso Lula não revogue trechos do plano que cria a comissão contra a qual você agora grita, que terá o dever a obrigação de apurar todos os casos de tortura e de desaparecimentos durante o nojento e asqueroso regime militar, revela apenas isso: histeria e pequenez. Parece não terem se dado conta, as duas figuras a que me referi, que o esclarecimento dessa fase obscura de nossa História é imperiosa.
Viveu-se - você bem sabe - o inferno no Brasil. Voltar aos porões do inferno para esclarecer tudo, minimamente, é básico para que tenhamos a memória do Brasil rediviva e a democraria consolidada - a democracia, que você tanto preza - não?
Chega a soar patético - me perdoe - sua menção à Cuba. Modelo para quem, Andreazza? Falemos sério, ou não foi sua intenção? Se não foi, perdoe-me de novo.
Os que se dizem ameaçados de vingança ou de revanche são os mesmos covardes de sempre.
Lembre-se de que Tarso Genro, igualmente agredido em seu texto, disse claramente que a intenção não é buscar uma prestação de contas (que seria até devida…) das Forças Armadas. Os torturadores, sabemos todos, foram (são) porcos que, calcados em poderes paralelos, montaram aparatos paralelos ao GOVERNO e - ressaltou o Ministro - e eram, em grande parte, civiis.
Sobre a questão da anistia, melhor decidirá o STF. Ou você acha realmente que não se deve dar às famílias vítimas dos canalhas o direito de saber, com o maior número de detalhes possível, o que aconteceu com seus parentes?
Ou você não acha que cabe processo buscando a identificação dos autores de todos os crimes contra os que foram presos naquele período sem saudade?
Paro por aqui. À mesa, se for o caso.
Abraço.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 20:00
Edu, nenhum território sob meus cuidados te será hostil.
Outra coisa: não gosto do presidente Lula e o critico com severidade por motivos políticos e intelectuais. (E não por preconceitos de classe etc., que desprezo). Não o considero um democrata - e este é o meu motivo principal. Não gosto da forma como tenta diminuir a imprensa, como a censura veladamente, e me incomoda que a tenha, sob o trabalho de Franklin Martins, cooptado com tamanho vigor. Não gosto da forma como o Estado foi aparelhado e da maneira como as empresas públicas se comportam, sempre a serviço da propaganda e dos interesses de um partido, de um programa - e não do país. (O governo Lula privatizou - para o PT - as empresas públicas; e o prejuízo nos custará anos e mais anos vindouros). Não gosto da maneira como incorpora exclusivamente para si, com imensa fome, conquistas cujas bases foram plantadas em gestões anteriores, algumas ainda sob a ditadura… (Isso sem falar nas conquistas futuras, que também já são dele). Não gosto da maneira autoritária como Lula se impõe mesmo à Presidência da República, esmagando os Poderes e [não raro] enfraquecendo as instituições democráticas.
Estou convencido, porém, de que Dilma será muito - muito - pior para o Brasil.
Dito isto, adiante…
Sou a favor de que todos os arquivos da ditaduta militar sejam abertos, de forma irrestrita, e acho que esta é uma obrigação do Governo e um compromisso para o melhor futuro do país. Que isto te fique bem claro, Edu. Quero tudo aberto e já teria escancarado tudo, há muito tempo, se assim pudesse.
Minha questão é simples, moral: não admito que terroristas e guerrilheiros - que também mataram inocentes [boa parte em nome de outra ditadura] - julguem torturadores. Tribunais de exceção não são permitidos no Brasil, felizmente, e é a isto que tal decreto se propõe: julgar e condenar [sob critérios político-ideológicos] apenas uma parcela dos criminosos daquele período, o que é inconstitucional à luz de pelo menos três artigos de nossa Carta.
Cuba é o modelo para Tarso Genro e Dilma Roussef, entre outros menos importantes, e isto está bem claro no meu texto, Edu. (E, justiça seja feita, tampouco eles o escondem). Nunca omiti minha opinião sobre a ilha: uma ditadura sanguinária, que destruiu gerações de cubanos e arruinou o porvir de pelo menos três gerações futuras. Sou muito direto, claro, dou nome aos bois - e a minha intenção foi esta: dar uma porrada em Cuba e nos ministros de Estado brasileiro que a tem como referência.
Sobre a questão da Anistia, quero saber se o STF também revisará os crimes cometidos, por exemplo, pela então terrorista Dilma Roussef?
Os crimes cometidos pela esquerda também merecem apuração e as famílias das vítimas igualmente querem saber quem os MR-8 etc. mataram friamente.
Para além da inconstitucionalidade evidente, minha questão, pertinente, é que os terroristas de esquerda [que queriam implantar outra ditadura, é sempre bom lembrar], que também mataram e que também são asquerosos, julguem os torturadores da ditadura militar. Isto, eu não admito.
À mesa, quando você quiser.
Abraço fraterno,
C.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 20:32
Não haverá heróis. É triste dizer isso, mas não tenho qualquer dúvida. Eu, que com dezoito anos de idade tatuei um Che Guevara na perna, fiz movimento estudantil e o escambau, fui vencido [[in]felizmente] pelo tempo e pela história - e a história que me interessa pensar e ajudar a construir hoje passa muito ao largo de qualquer exercício de poder.
Não havia ali luta alguma pela democracia - escolham a ditadura que lhes for conveniente.
Dilma será para Lula o Figueiredo do Geisel - e pra bom entendedor meias palavras bastam.
Abraço.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 20:44
Simas, mestre, teu comentário é definitivo. Uma aula.
“[…] a história que me interessa pensar e ajudar a construir hoje passa muito ao largo de qualquer exercício de poder. […]”
Frase absoluta, incontornável, sólida - monumental!
Uma aula, que aplaudo de pé.
Forte abraço imperiano,
C.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 21:16
Permitam-me dizer que o ano tribuneiro de 2010 começa da melhor maneira possível.
Carlos Andreazza e Eduardo Goldenberg, sujeitos sem par donos de pensamentos políticos quase que antagônicos, desfiam talento em seus argumentos.
Eu, aspirante a político, subproduto de cupincha - vaselina e puxa-saco - achei sensacional a discussão.
Caso forem à mesa, dou uma de entrão e já peço para ser convidado, nem que seja para ficar no cantinho só espiando.
Agora, se decidirem não me convidar, é bom que a tal mesa não esteja na calçada irregularmente. Do contrário, eu apareço com o Choque de Ordem para acabar com o borogodó só de sacanagem.
(…)
Brincadeiras à parte, recomendo o filme “Cidadão Boilesen”, documentário de Chaim Litewski. Um pouco parcial, mas um relato bem rico desta época.
Muito bom para assistir da condição de espectador privilegiado da nossa recente história democrática.
Abraços,
R.Pian
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 21:22
E vem o Professor e realmente dá números finais a discussão.
Você são donos da legítima dialética carioca.
O buteco, o hisbrasileiras, os tribuneiros…Demitam Mainardi, Ricardo Amorim, e Lucas…
Aqui se faz a verdadeira conexão carioca.
(Porque se eu falasse “Carioca Connection, vocês certamente me mandariam à merda)!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 22:12
Bom Pian, você certamente teria [terá] lugar nesta conexão.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 22:41
Argumentos e razões à parte, e ainda não li o projeto a fundo a ponto de expressar a minha, o que mais indignou nesse imbróglio foi a posição dos chefes militares. Que poder delegado pelo povo eles têm para querer emparedar um presidente democraticamente eleito e fazer valer suas vontades? Essa atitude lamentável, tosca, digna de repuliqueta, mostra o quanto Exército, Marinha e Aeronáutica ainda se julgam donos do país. O que o Lula deveria ter feito era aceitado sumariamente a demissão de todos os três. Porque o tempo deles, felizmente, passou.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 23:04
Marcelo, o fato de o presidente da República ser eleito democraticamente - é sempre bom lembrar - não o permitir fazer tudo o que quiser. Ele também está sujeito às leis, à Constituição - e deve obedecê-la.
Neste caso, mais uma vez, a nossa Carta foi traída, violentamente - basta consultá-la, como fiz. E a tentativa de nos tornar novamente uma republiqueta - você verá - terá origem no Planalto.
A questão dos chefes militares é curiosa. Eles defendem, aqui, o equilíbrio, a ponderação, as condições mínimas para que não tenhamos uma crise institucional grave - aposta inequívoca dos que propuseram um absurdo tribunal de exceção.
As Forças Armadas do Brasil - estrutura democrática importantíssima - há mais de 20 anos vêm sendo punidas pelos erros do passado.
Está na hora de pararmos com isso. Aquele tempo passou; e não pode ser invocado, sob risco de um gesso perigoso, toda vez que um militar se posiciona de maneira dura e enfática.
Nada no Brasil é mais destratado, sucateado e abandonado do que as Forças Armadas - e isto é um erro lamentável.
Todos foram anistiados - menos os militares.
Exército, Marinha e Aeronáutica são instituições gloriosos, com histórias centenárias, e precisam ser respeitadas e valorizadas. E ouvidas, sim; porque o rancor [justo] contra a ditadura militar nos faz desconfiar das Forças Armadas e lhes acusar de golpismo a qualquer manifestação pública.
Neste caso, como na maioria das vezes ao longo dos tempos, elas estão certas.
Forte abraço!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 00:01
Grande professor de História Simas! Com poucas palavras (quase uma “twittada”) resumiu a questão.
Quando li os argumentos do Edu, como sempre contundentes e bem escritos, que chegam a me confundir, esperei pela resposta do Andreazza, porque sabia que seria à altura. Como bem disse o Pian, antagônicos, mas igualmente grandes.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 11:25
Prezados, queria apenas fazer um acréscimo à resposta ao Edu, porque me passou despercebida à comparação com o Boris Casoy [talvez porque ainda não tivesse conhecimento do caso].
Seja como for, é descabida; e pelo seguinte…
Casoy fez uma observação abjeta - preconceituosa etc. - sob a segurança de que a coisa restaria como “piada” interna, em off, fora do ar. Foi traído pelo áudio aberto.
Eu, ao contrário, escrevi um texto franco, aberto, e o publiquei para que todos o lessem - com as minhas opiniões e argumentos, os mesmos que usaria em qualquer ambiente privado.
Saudações!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 11:33
Permita-me discordar, Andreazza. Se há rancor contra os militares, caro, ele se justifica pelo que aprontaram. Não se pode agora querer dizer que esse rancor, se existe, nasceu do nada. A desconfiança rem razão - e muita razão - de ser.
As Forças Armadas são uma instituição centernária, decerto, mas não tem legitimidade, como parece pensar ter, em “representar” a sociedade. Essa representação, numa democracia, se expressa através de mandatos delegados pelo voto. A história mostra que não raras vezes os militares se julgaram donos dessa prerrogativa (por delegação divina?).
Que ponderação há quando, em vez de debate, testemunhamos um faniquito com ares de chantagem institucional? Se oficilizar o projeto, a gente não brinca mais, foi o que eles disseram. Não vi argumentos concretos contra o projeto, a não ser platitudes como “Querem revogar a lei da Anistia!”. Argumento mesmo, não vi em lugar algum.
Mas prometo que vou ler a proposta, até para fechar minha posição.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 11:38
Compadre Marcelo, um argumento que me parece incontornável: o decreto é inconstitucional.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 11:41
Caríssimos: a posição de Luiz Antonio Simas, professor máximo de História do Brasil, é a de um anarquista - que é como ele, inúmeras vezes, se define.
Não tenho a carga de L.A. Simas para rebater a frase curta, de efeito, que no fundo, no fundo, é a frase de um - repetindo - anarquista.
É impensável dispensar o EXERCÍCIO DO PODER.
Em poucos meses teremos eleições no Brasil e elegeremos os homens que exercerão, queiramos ou não, o PODER que governará o Brasil.
Dito isso, não posso deixar de dizer que continuo achando fundamental que se abram os chamados (oh, os chavões) porões da ditadura.
É (e foi) desigual a luta entre os porcos militares que enrabaram o Brasil por mais de 20 anos e os (vá lá, oh, os chavões) guerrilheiros que pegaram em armas para combater o regime. Estamos falando de um APARATO poderosíssimo acobertado pelo Estado de um lado e utópicos guerrilheiros (eram quantos?, 300, 500, 1.000?) do outro.
Aqueles que se sentem ainda feridos pelas ações da guerrilha armada que busquem na Justiça seus direitos. Os mesmos direitos que têm as famílias que viram filhos, pais, mães, irmãos, irmãs, torturados e mortos pelos porcos que cumpriam ordens dos macacos que exerciam o PODER no Brasil, de saberem tudo sobre o período.
E somente o ESTADO (que foi quem praticou os crimes a que me refiro) pode esclarecer isso.
Não se trata de revanchismo (outro chavão dos bobos). Trata-se de passar a História a limpo. De esclarecer tudo o que o ESTADO fez em nome sabe-se lá do quê (governabilidade, inviabilização de oposição etc).
Caberá à Justiça, soberana, ao STF precipuamente, decidir o que ainda é, ou não é, punível.
Alguém aí teve pai, mãe, irmão, parente torturado, morto, estuprado, empalado, submetido a choques, afogamentos? Teve?
Eu não tive - que se diga.
Mas tive acesso, após um processo de habbeas data, aos arquivos dos militares relacionados com a atividade de uma mulher, hoje amiga minha (e tenho tudo digitalizado), e o troço é de causar engulhos. Natural de Volta Redonda, ficou por 3 anos presa na Ilha Grande, sujeita às mais sujas crueldades cometidas - ressalte-se - PELO ESTADO.
Repito a equação que me é muito simples.
É como o “cidadão de bem” que é contra os organismos que defendem os direitos humanos sob o chavão “direitos humanos são para humanos”.
O ESTADO tem de zelar pelos direitos humanos. Quem os viola particularmente, longe das asas do ESTADO, deve ser punido justamente pelo ESTADO. E tal punição, por óbvio, sempre dentro da legalidade.
O que em apertada síntese significa que os guerrilheiros são responsáveis diretamente pelo que fizeram e pelos crimes que cometeram. Mas quem é responsável pelos crimes cometidos em nome dos governos militares no Brasil é, sim, o ESTADO.
E um ESTADO democrático, como é o Brasil, tem por obrigação passar sua História - a História do ESTADO - a limpo.
À sua pergunta, Andreazza, “sobre a questão da Anistia, quero saber se o STF também revisará os crimes cometidos, por exemplo, pela então terrorista Dilma Roussef?”, creio que seja desnecessário respondê-la.
Não é esse o papel do STF - e você, que ao que tudo indica bem conhece a Constituição - sabe bem disso, não?!
Suas eventuais vítimas que busquem, pelas vias legais, a reparação devida.
Dilma está à esquerda de Lula.
E é disso que tem medo a tucanalhada vendilhona. Criada nas hostes do PDT de Leonel Brizola - que hoje não é mais o mesmo - a Dilma representará, por certo, um avanço nos avanços que todos verificamos hoje.
Por enquanto, é só.
Abraços!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 11:59
“Utópicos guerrilheiros”, Edu?
O caras queriam vencer uma ditadura asquerosa para implantar uma outra - talvez ainda mais assassina, como bem mostram os 50 anos da “revolução” em Cuba.
A resposta à minha pergunta retórica, Edu, eu bem sei, é impossível. E pelo motivo central de meu texto: bem antes de chegarmos ao olho-por-olho, temos um decreto inconstitucional - que será [felizmente] rechaçado.
Que se abram - já - todos os arquivos do período, que tudo seja esclarecido; mas sem tribunal de exceção, sem o estupro à Lei da Anistia, sem revanchismo, sem a ideologização do Supremo.
Forte abraço!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 12:13
Andreazza: evidente que eram “utópicos guerrilheiros”, ou não teriam tentado a trapalhada que tentaram - e digo isso sob a razão de hoje, sabe-se lá o que vigia à época. Mamãe, p.ex., sempre agradece o fato de eu ter nascido em 69. Em sua opinião, balizadíssima de mãe, eu teria engrossado as fileiras da guerrilha por conta de minha natureza.
A “ditadura asquerosa” a que você se refere - repito - era do ESTADO. A “outra - talvez ainda mais assassina, como bem mostram os 50 anos da revolução em Cuba” - não chegou a ser implantada e trata-se apenas de suposição - ou não? É impossível pensar em Cuba sem pensar nos tremendos avanços mesmo sob a pressão nojenta e covarde do embargo. Não falo sobre Cuba. Falta-me, sinceramente, base para discutir Cuba. Tenho, entretanto, profundo respeito pelas figuras que de lá enxotaram os que faziam daquilo prostíbulo, cassino e fonte de lucro às custas do povo cubano. São inegáveis a conquista da Revolução sem aspas - mas não é do que tratamos aqui.
O decreto, quero dizer, não é inconstitucional. Mas discutir aqui filigranas jurídicas também não é meu objetivo.
“Que se abram - já - todos os arquivos do período, que tudo seja esclarecido; mas sem tribunal de exceção, sem o estupro à Lei da Anistia, sem revanchismo, sem a ideologização do Supremo.”, é um desejo impossível de sua parte.
Quem tem ARQUIVOS a serem abertos é o GOVERNO FEDERAL. Em cujo nome foram perpetrados crimes hediondos que lei nenhuma salvaguardará.
Abraço.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 12:14
Certo, Andreazza. Mas se é inconstitucional o Supremo é que tem que dizer, não os chefes militares. Assim funciona numa democracia.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 12:56
Não sei se o objetivo era implantar uma nova ditadura.
Mas acredito (eu) que no final das contas, aconteceria isso mesmo.
(…)
O relato do Professor Simas é mais do que simplesmente anárquico. É, de certa maneira, desiludido e profundamente realista. (Desculpe te colocar no divã sem sua permissão, Professor).
Ser um democrata é um expediente muito mais fácil quando se está fora do poder do que quando se está dentro dele.
O ser humano é complexo. Porém, no fim das contas, acaba sendo muito previsível.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 13:09
C.A.,
Desculpe a ignorância, mas onde se encontra, no texto Constitucional, o respaldo jurídico para defender a tão alegada inconstitucionalidade do Projeto?
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 13:14
Caro Nelson, abaixo alguns incisos - mais que conhecidos - do Artigo 5º da Constituição:
XXXVI - a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada;
XXXVII - não haverá juízo ou tribunal de exceção;
XL - a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu.
Escolha um dos incisos - há outros, mais discutíveis - e eis a inconstitucionalidade do decreto; que deveria ser lido, por favor, para podermos discutir a sério e com base legal.
Abraço,
C.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 13:21
Marcelo, você está certo. O STF define a parada; mas os militares, como eu, podem expor e defender livremente uma leitura - aliás, claríssima - da Constituição.
Saudações imperianas!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 13:30
Perfeito, Andreazza. Podem expor e defender (e nisso estamos totalmente de acordo). O que não podem é fazer uma chantagem mesquinha como a que fizeram. Meu ponto é este, não o projeto em si.
Saudações, camarada. E sábado estareilá.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 14:11
Andreazza: perdoe-me, mas NENHUM (com a ênfase szegeriana) dos três incisos por você colacionados se aplica à coisa. Quem já os havia brandido como uma bandeira foi o patético e escroque Reinaldo Azevedo, essa excrescência em forma de jornalista. Não caia nessa esparrela. A tortura é imprescritível, poderia eu dizer. Mas tudo se resume a isso: o GOVERNO tem obrigação de esclarecer todos os crimes cometidos por ele mesmo em sombrio período, 64 a 85. E só. O resto é grita. Abraço.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 14:18
Edu, não sou pautado por outras opiniões; mas Reinaldo Azevedo está certo neste caso. O artigo 5 da Constituição - e acho ótimo que outros também tenham recorrido à Constituição - desmonta a legalidade do decreto revanchista.
É claríssimo - com ênfase goldenberguiana!
Tenho a nossa Carta aberta aqui nas mãos. Ando sempre com ela e costumo lê-la: “a tortura é imprescritível”, você tem toda a razão, como o é - aliás, no mesmo inciso - a guerrilha e o terrorismo.
E estamos de acordo: o governo tem obrigação de esclarecer todos os crimes cometidos por ele mesmo em sombrio período, 64 a 85 - mas sem desqualificar a Anistia, sem tribunal de exceção e sem que criminosos de esquerda julguem criminosos de direita.
Abraço!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 15:38
Andreazza: eu não disse que você é pautado por quem quer que seja, apenas disse que esse tem sido o argumento dos que não toleram os homens deste GOVERNO. Vamos lá (quero crer que encerrando…):
Ninguém vai julgar ninguém, não repita isso.
Não são os “criminosos de esquerda” (quem são, hein, Andreazza?, não seriam criminosos [e mais ainda por conta do manto do GOVERNO] os que tungaram o Brasil, que enriqueceram durante a ditadura militar, os que mataram, e quem matou foi o GOVERNO) que vão julgar os “criminosos de direita” (as aspas, em ambos os casos, são suas).
O GOVERNO vai abrir os arquivos do GOVERNO.
O que advirá daí, só o tempo dirá.
Abraço.
Abraço!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 15:56
Edu, há quem não tolere os homens deste governo por motivos [diariamente expostos aqui] políticos e intelectuais - é o meu caso. (Mas você jamais me verá gritar “Fora, Lula”, ou golpismos do gênero petista).
Sugiro que você releia o decreto: está claro que se configura um tribunal de exceção, em que influentes ministros de Estado, outrora terroristas de esquerda, dirigirão um processo obscuro, que só se ilumina em seu revanchismo, e que por fim resultará num julgamento ideológico dos criminosos torturadores. E isso, antes de inconstitucional, é imoral.
Estou convencido, embora não conheça pessoas que tenham enriquecido nem com a ditadura militar nem com o petismo de Estado, que nunca se tungou tanto o Brasil como no governo Lula. (Mas o presidente é inocente e não sabe de nada - ressalvo).
Abraço!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 17:02
Andreazza: lida a piada
“Estou convencido, embora não conheça pessoas que tenham enriquecido nem com a ditadura militar nem com o petismo de Estado, (…)”
paro por aqui.
Abraço.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 17:04
Não é piada, Edu; mas, por favor, explique-me porque assim considerou o meu comentário. Gostaria de saber.
Abraço!
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 17:31
Não, Andreazza, não irei fazê-lo. Soou-me patética a afirmativa e por mais que eu a releia não conseguirei deixar de achar (triste) graça. Admito debater com o mais ferrenho dos debatedores, e quanto mais aguda a oposição de pensamentos mais interessante fica o debate. Quando vem o deboche, ou a piada, ou a falta absoluta de senso, ou os antolhos, ou a peneira na frente do sol, ou a negativa da mais óbvia das evidências, o troço perde a graça. Há uma vara que enriqueceu com a ditadura militar. Haverá sempre, meu caro, exceções. Mas os próprios porcos militares, seus porcos presidentes, seus porcos ministros, seus porcos apadrinhados, os porcos donos dos meios de comunicação que foram porta-vozes da ditadura militar a qual chamavam (e ainda chamam) de “revolução”. Lembre-se (sei que sabes disso) que com a abertura dos tais arquivos a que nos referimos, aparecerá gente da área militar e muita gente civil também, gente que bancou e que financiou a corja dos torturadores, gente que enricou graças à ditadura (que são os que têm pânico da abertura dos arquivos, os que financiaram a ditadura). A geração atual, Andreazza, tem o direito de saber que canalhas e assassinos também envelhecem, e essa triste constatação será inevitável com esse processo. Um abraço.
Terca-Feira, 5 de Janeiro de 2010, às 11:33
Judeus formarem comissão para caçar nazistas (ou supostos nazistas) em todo mundo pode, não é? Independentemente da lei própria dos países…
Tudo bem: revanche, não. Mas quem perdeu parentes nessa guerra suja precisa saber o que aconteceu. Sou a favor de que a família do tenente assassinado pelo Carlos Lamarca, no Vale da Ribeira, tenha esses direitos assegurados. Como qualquer cidadão brasileiro.
Mas quero saber exatamente o que aconteceu com o Bacuri. Farsa foi essa ditadura escrota, esse governo Médici, o pior momento da história do Brasil, esse massacre institucionalizado. Farsa é se torturar meses uma pessoa e depois simular fuga, tiroteio, suicídio.