por Bruna Demaison - Sexta-Feira, 4 de Dezembro de 2009, às 14:00
A lembrança mais distante que tenho de futebol envolve crianças picando papel para jogar pela janela na hora do gol em uma época em que ainda não existiam sustentabilidade, atitudes politicamente corretas e a Comlurb simplesmente catava tudo no final. Daí para frente, partidas passaram a significar possíveis comemorações no Clipper ou Baixo Gávea, o que já são ótimos motivos para torcer. No Maracanã mesmo só vi grandes craques como a Madonna e o Rei.
Depois de vencido o trânsito para chegar, o palco da batalha parecia o Shopping Leblon. As escadas, pelo menos. Atravessei a portinha que leva às cadeiras, achei o meu lugar sem ajuda de lanterninhas e de repente olhei para frente. Não existia mais diminutivo. Nas arquibancadas as pessoas faziam coreografias e mosaicos que tenho certeza que eram efeitos especiais, sem metáfora.
Os times foram entrando em campo e pensei em que tipo de auto-ajuda é aplicado aos que vão enfrentar aquele estádio sob vaias. Eu não sairia do vestiário nem que acenassem com milhões, minha auto-estima jamais se recomporia nem com uma taça em solo inimigo. Quase pedi – gente, vaiar, não! Mas descobri que vaiar é muito legal.
Aos dois minutos de jogo um homem caiu ao meu lado. “Pronto, agora vou perder o espetáculo porque um espírito cristão não larga mortos sem assistência”. Antes que eu pudesse ajudar, o cidadão levantou a cabeça e gritou “Conca” de um jeito que me fez ter certeza de que algo terrível tinha acontecido ao jogador, mas ele estava lá correndo em campo, sem muito a fazer em tão pouco tempo de bola rolando e que pudesse causar tamanha reação em alguém. Tenho vontade de gritar várias vezes na semana, é essa a grande inveja que sinto dos torcedores fanáticos. Se eu gritar “Carolina” ao modo “Conca” no meio do escritório obviamente o RH vai intervir, mas ali pode. Então me taquei no chão e berrei “Ronaldo”, o único nome futebolístico familiar pra mim até então. Ninguém notou, o orgulho de ser tricolor era ensurdecedor, mas eu comecei a pular.
É difícil em noventa minutos aprender nome e número de vinte e dois jogadores e isso é fundamental, urrar “p*&^-que-pa-riu-A-de-il-son!” é muito mais eficaz do que “p*&^-que-pa-riu-seu-idiota!”, assim o Adeilson não entende e continua não vendo o outro cara livre aqui na esquerda. Teriam sido cinco gols se eu berrasse nominalmente as ordens. A partir disso listei melhorias que poderiam ser implementadas. Crachá gigante em cada atleta atrapalharia muito o desempenho? Por que não distribuem as letras das músicas como nas quadras de escolas de samba? Levei meio tempo para aprender “Quero gritar campeão”, e por sorte o set list foi pequeno. O hit “a benção João de Deus”, inclusive - e com todo o respeito - eu contextualizaria para os novatos. Dá a impressão de que Marcelo Rossi vai aparecer, animaizinhos vão subir de dois em dois, João de Deus é o artilheiro? Perdoem a gafe, vou melhorar.
Setinhas apontando quem está com a bola seria outro avanço, os vídeo games já fazem isso desde… Atari? O torcedor que fica apontando um laser verde para o gramado podia ao menos ajudar e fazer as vezes da setinha, quando voou um papel no campo me desesperei pensando ser outra bola! Ou eu poderia ir ao oculista.
Pelo que entendi das regras o melhor que pode acontecer é falta. Mais do que o gol, a cada uma marcada pelo juiz a platéia delirava, meu vizinho que caía mais no chão do que o time da LDU repetiu o gesto dezenas de vezes por causa disso. Não houve pênalti, o que deve motivar a torcida a dar volta olímpica na arquibancada.
No intervalo um senhorzinho invadiu o campo e ficou fazendo embaixadinhas solitariamente, fofinho. Ninguém reparou e por isso o deixaram ali, uma pessoa mais experiente disse que ele é o recordista da modalidade, mas duvido, quase atropelaram o idoso. Jogadores voltaram, a partida fica tensa a ponto de começarem gritos de “é guerra”. “Peralá, povo, olha o que está acontecendo no Pavão-Pavãozinho, a área aqui é complicada, vamos voltar a cantar João de Deus”. Como conseqüência do belicismo, o capitão se irritou com o juiz e fez coisas que não entendemos porque olhos não têm zoom e o Galvão Bueno não estava lá para explicar (um radinho de pilha faz mais falta no estádio do que durante o apagão). Cartão vermelho aparece nos telões. É guerra. “O Fred vai te pegar”. Lembro-me da Cuca.
O tempo acabando gerou em outro homem ao meu lado descontrole total: “Juiz, você vai morreeeeeeeeeer! Vamu torcê, gente.” Isso me pareceu ameaça grave, aparentemente todos pensaram o mesmo e começaram a pular e gritar e bater mais palmas como se nossas mãos já não estivessem a ponto de verter sangue. Fim de jogo. Perdemos o campeonato. “Alerta: essa gente vai invadir o Equador”. Mas não: aplaudiram o time e voltaram para casa se abraçando. Alma lavada. “Time de guerreiros”.
Domingo eu vou ao Maracanã.


Sexta-Feira, 4 de Dezembro de 2009, às 15:00
Ah, se eu estivesse aí…. Na ultima final contra a LDU tb vi aqui sozinha e deu no que deu. Tenho certeza de q a culpa é minha. cer-te-za.
Maravilhoso o texto!! Mas ir a jogo de rival não pode, Fia. Se bem q vc é meio pé-frio né, vai sim! ;)
Sexta-Feira, 4 de Dezembro de 2009, às 17:05
Muito Bom! Domingo tb vou, mas dessa vez sem o bandeirão =)
Beijso
Sexta-Feira, 4 de Dezembro de 2009, às 20:59
Como eu perdi essa estréiaaa, vc e o vizinho que caía mais no chão do que o time da LDU !!
Mas pooo, fluminense…
Sexta-Feira, 4 de Dezembro de 2009, às 22:03
Fico impressionada como você escreve naturalmente o que pra mim é tão difícil de verbalizar.
Sou flamenguista e estava no maracanã quarta feira.
Vaias, mosaicos, laser verde, ‘Fred vai te pegar’, musiquinhas que eu não conseguia acompanhar, ‘quero gritar campeão’, ‘time de guerreiros’.
Tudo ia bem, até o ‘a alegria de ser ru … (bro negro!) TRICOLOR ! Onde, quem estava comigo, me olhou com uma cara não muito legal …
Belo espetáculo.
Mas, não me comove.
Mengão do meu coração.
Não consegui ingressos pra domingo. Mas a certeza é que não tem preço torcer pelo que faz seu coração vibrar.
Hexa.
*Precisava desabafar.
=]
Sexta-Feira, 4 de Dezembro de 2009, às 13:42
que lindo, só o Fluzão mesmo!!!
a torcida do Flamengo, apesar do time ter sido campeão, armou uma guerra entre si no Clipper… não dá para entender… bater em algupem DA MESMA TORCIDA e com o time tendo ganho o campeonato!!!
só a torcida do Fluzão perde e ainda sai na paz, com dignidade, fazendo festa e cantando!! eu prefiro ser derrotada e da segunda divisão do que pertencer a uma torcida vergonhosa como a do flamengo
Sexta-Feira, 4 de Dezembro de 2009, às 04:44
Se ver a vitória do Fluminense te fez escrever esse belo texto, imagina se você tivesse a sorte de ser hexacampeã como eu!! Como também não entendo nada, não conheço os nomes, mas também adoro torcer, me identifiquei muito com o texto. Muito bom como sempre. Me deu vontade de ir ao Maracanã.