por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 13:18
Restaram pela casa três corpos a serem recolhidos em cena que lembrava o dia seguinte de uma chacina. Estavam ali, jogados no chão faltando só aquela marca em volta do defunto, duas baratas e um besouro. Ela, de galochas, com as mãos em luvas, armada de pá de lixo e vassoura, rezava para nenhum morto ressuscitar. Besouros são legais se comparados a baratas, as cascudas cheias de patas não são tão terríveis quanto lagartixas, catar aquilo seria melhor do que desentupir ralos e um parágrafo desses só poderia descrever punições.
A menina estudou, foi tão boazinha que impressionava Papai Noel, sempre entendeu, perdoou, o que não nos mata nos fortalece. Tem um arquivo de contas pagas organizadas em pastas e noites em que respira fundo e diz: não tem ninguém na sala, ladrão não escala parede. Ela não poderia mais ser o tipo de mulher que sai correndo da aula sobre expressionismo para assistir à estréia de Grey’s Anatomy enquanto duela com invertebrados sem poder se desesperar por um ou pelo outro. Não poderia só transformar as agruras de morar sozinha em textos irônicos, não poderia mais fazer textos! A Disney reformulou a imagem do Mickey, era hora de fazer alguma coisa pela sua.
Talvez o calor de 40 graus quando ainda nem é Natal na Leader Magazine tenha derretido parte dos miolos, mas a decisão tomada na segunda-feira - dia internacional de se por em prática idéias que tem tudo para dar certo – era radical. Não se matriculou em cursos variados, começou a yoga nem cortou o cabelo porque essas baboseiras sempre fez. Alisou, que mulher com cabelo natural hoje em dia é reacionária. Nada de academia, todos os dias entraria em uma máquina de dar choques que se não acabassem com as celulites certamente neutralizaria alguns nervos, mais uma hora de massagem modeladora faria com que Michelangelo a olhasse e exclamasse “parla!”, o que ela, obviamente, não faria. Esse, aliás, passaria a ser tão somente uma tartaruga ninja. Seria burra! Ingênua. A meta era parecer indefesa. Nem teria mais metas, só sonhos, tudo seria o sonho e ela a-ma-ria qualquer coisa, sílabas bem destacadas com exclamações!!! Queria inspirar crônica de Juveninho.
Pediu alta na terapia, bastava de se conhecer, só queria olhar no espelho e reconhecer que aquele par de pernas nascera para ser cruzado em um interrogatório. Faria cara de paisagem diante das palavras óleo de freio e filtro de ar, reclamaria que está muito frio nesse escritório, fingiria que barba arranha o rosto e teria sede o tempo todo – pega uma Coca Zero pra mim? Ah, eu não queria gelo! Todas as sacolas seriam pesadas e sim, ela precisaria de ajuda, não dirige à noite, não vai ao cinema nem dorme sozinha. Nunca!
No começo enfrentaria certa dificuldade para sorrir o tempo inteiro, usar roupas decotadas em pleno inverno e achar qualquer homem “gatinho”. Não provocaria mais debates ou comentários de como é especial! Precisaria ter “casinhos” e não discordar, mas tal qual Scarlet O’Hara jamais passaria fome novamente nem dividiria a conta. Seria mais fácil toda essa transformação do que se convencer de que não é ridículo ter medo de barata. Ou do que provar ao mundo que mais vale querer do que precisar, e a nobre razão para se compartilhar uma vida é o amor, não medo de barata. Medo se supera, amor não.


Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 14:05
“(…) mulher com cabelo natural hoje em dia é reacionária”, então cuidado: dizem que o Juveninho adora uma reacionária.
Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 22:21
“Medo se supera, amor não”??? Sou poeta e adoro exagerar na dor pra escrever, mas sou muito prática na prática. Pra mim, o amor acaba quando não se é correspondido. É uma questão de amor próprio. Pode até demorar, mas chega uma hora em que o amor próprio tem que falar mais alto. E olha que eu já amei muito um dia!
Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 22:22
Ahhh. Esqueci de dizer que fiquei feliz com esse novo texto, Bruna. Estava com saudades dessa tão agradável leitura!
Beijo
Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 19:49
Juveninho de volta, JP mandando notícias do exílio e Bruna de volta à casa. Ufa. Só falta o C.A na coluna da direita.
Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 21:33
Julieta, a volta - retumbante - do Andreazza é o momento mais esperado deste fim de ano.
Ninguém pensa em mais nada até que ele escreva novamente na nobre Coluna da Direita.
Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 10:43
Estamos pensando até em organizar uma passeata na orla.
Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 10:51
Promete voltar - um dia - a escrever na Coluna da Direita.
Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 16:38
Eu estou pensando em fazer uma passeata em frente ao Esch mesmo.
Quinta-Feira, 12 de Novembro de 2009, às 18:35
Puxa, Bruna… Seus escritos são divertidos e gostosos de se ler. Parecem uma linha de pensamento que vai fluindo da tua mente e que é bacana de seguir…
Eu imagino uma guria sentada na relva, al alto da colina, sob uma arvore só imaginando…
Eu gosto de ler, ver e sentir as coisas pensadas de ti.
Vai com Deus, pelas veredas dessa vila divertida que é a vida. Sentindo e fazendo sentir amor, todo aquele que é poeta fingidor!