por Pim - Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 16:14

O leitor Gustavo cola na seção de comentários do texto Juveninho da Paz umas palavrinhas de Fidel. Eu ia responder por lá, mas é que eu já estava quase com saudades de Cuba… Então ei-las aqui (e comento abaixo, numa espécie de editorial tribuneiro):
Fidel defende candidatura de Evo Morales ao Nobel da Paz
16 de outubro de 2009 • 10h10 Comentários
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O líder cubano Fidel Castro defendeu em um novo artigo a candidatura do presidente boliviano, Evo Morales, ao Prêmio Nobel da Paz, recentemente concedido ao governante americano, Barack Obama.
“Se o Prêmio foi concedido a Obama por ele ter vencido eleições em uma sociedade racista, apesar de ser afro-americano, Evo o merece por ganhá-las em seu país, apesar de ser indígena, e além disso por cumprir suas promessas”, escreveu Fidel, segundo a agência Ansa.
Ao longo do texto, o líder cubano narra a trajetória de Morales até chegar ao poder, em 2006, e destaca realizações da gestão do boliviano. “Em menos de três anos, erradicou o analfabetismo: 824.101 bolivianos aprenderam a ler e a escrever; (a Bolívia) é o terceiro país livre do analfabetismo, depois de Cuba e Venezuela”, diz o texto.
“Presta atendimento médico gratuito a milhões de pessoas que nunca o haviam recebido; é um dos sete países do mundo que nos últimos cinco anos mais reduziram a mortalidade infantil”, continua o líder cubano em seu artigo.
“Por que não se dá a ele o Prêmio Nobel da Paz?”, questiona, para logo depois considerar: “compreendo sua grande desvantagem: não se trata de um presidente dos Estados Unidos”.
Comento:
Num ponto, Fidel tem (quase) razão. Se o Nobel foi para Obama (e Arafat, e Carter, e Al Gore…), Evo (e Zelaya, e Chávez, e o Coringa…) também o merece. Afinal, Evo mantém a Bolívia como o terceiro maior produtor de cocaína do mundo, e até recebe presidentes em plantações, como aconteceu com o nosso em agosto. [Na ocasião, Lula chegou a vestir um colar de folhas de coca - talvez para brindar à nova região de cultivo da planta, na fronteira com o Brasil, e aos parentes dos 50 mil assassinados ao ano por aqui, boa parte vítima do narcotráfico. Saúde!]. Acontece que, dessa vez, também concorria ao Nobel a embaixadora das Farc, o que deixaria Evo em situação delicada. Ele ainda está atrás da Colômbia (lê-se Farc) no ranking do pó. Precisa treinar mais um pouquinho, construir novos “campos dos sonhos” no quintal… If you build, he will come, Evo!
Sobre taxas de analfabetismo e mortalidade infantil, ninguém mais confiável que Fidel, não é mesmo? Os sujinhos do mundo inteiro adoram exaltar as conquistas de sua revolução (aquela que matou uns cem mil, prendeu outros 500 mil, e fez um quinto da população fugir para Miami)… Mas, em 1957, dois anos antes dela, Cuba já tinha a menor taxa de mortalidade infantil da América Latina, e a taxa nacional de alfabetização era de 80 por cento. Depois, o ídolo dos sujinhos distribuiu uns diplominhas e tratou de alfabetizar (e realfabetizar) o resto (e o todo) em fidelês, cada aluno tendo que rezar dois Ave Castro e três Pai Fidel por dia antes das aulas… Como Evo faz agora na Bolívia. Como Chávez na Venezuela. Como Correa no Equador. Como Lula no Brasil. Como Obama [tenta] nos Estados Unidos, falando diretamente com as criancinhas das escolas sem a presença dos pais, coisa que o Sr. Luis Fernando Verissimo acha absolutamente normal, condenando os críticos (sim, lá eles existem) como “direita histérica”. [Como se esta achasse normal um político de direita fazer o mesmo.] Quando não se pode combater os fatos, melhor atribuir rótulos aparentemente repugnantes. Eu mesmo xingo Aristóteles, quando ele está certo demais. Cara chato, pô!
Paixão-mor de uma legião de pseudointelectuais pelo mundo, Fidel também deu sua parcela de contribuição ao apelo de chamar de racista!, fascista!, direitista!, quem quer que se opusesse a um negro, a um índio, a um operário. Não bastasse que presidentes fossem eleitos assim no continente inteiro, nesta semana uma porção de empresários e dirigentes esportivos tentou impedir o radialista Rush Limbaugh - o mais popular crítico de Obama - de participar da compra de um time, o St. Louis Rams, mesmo como minoritário, chamando-o de racista. No afã de justificar o epíteto, eles citaram um episódio de 2003, em que Rush (então comentarista da ESPN) acusou a mídia de dar tratamento especial ao quarterback Donovan McNabb em função de sua cor (negra, claro). Ou seja: Rush denunciava que o medo de ser taxado de racista impedia os jornalistas de dizer que McNabb jogava mal à época. E, como numa prévia futebolística da infantilização obâmica dos EUA, acabou ele mesmo taxado de racista. Eis a argumentação esquerdista, com um pirulito no pátio: “É você! É você!”.
Verissimo, outro dia mesmo, escreveu: “Hoje se diz que o líder de fato da oposição é Rush Limbaugh, cujo programa de rádio em cadeia tem um público estimado de 15 milhões de pessoas, todos, supõe-se, reacionários furiosos como ele”. Primeiro, não são 15, mas cerca de 30 milhões de ouvintes por semana, aumentando a cada dia. Sozinho, Rush tem umas vinte vezes mais ouvintes do que o New York Times inteiro - o centro de desinformação favorito da imprensa brasileira, ao lado da CNN - tem de leitor. Rush fala três horas (sim, 3 horas!) por dia, argumentando ponto a ponto, com a ironia de que a esquerda atual não é capaz. Mas é evidente que Verissimo não o ouve, nem se arriscaria a analisar seus argumentos. É bem melhor reduzir Rush e mais 15 milhões de americanos a “reacionários furiosos”. Não fez muito diferente André Petry numa edição da revista Veja (de março), cuja cobertura internacional é toda limitada pelo provincianismo à moda Times, pelo qual a defesa da Constituição de Honduras também foi chamada de golpe.
Há meses, aliás, escrevi [aqui] que o uso da expulsão do presidente automaticamente deposto, o cidadão comum hondurenho Manuel Zelaya (na verdade, uma concessão, posto que ele devia ter ido em cana) como justificativa para chamar o governo Michelletti de golpista era nada mais que a inversão habitual de mentes sujismundas - essas mesmas que [local e globalmente] nos governam, nos desinformam, nos contaminam e nos difamam, disseminando o medo do isolamento e da desaprovação social como a conduta ideal de vida, em detrimento das verdades; e criando, por conseguinte, um mastodôntico rebanho de bocós, como os que aparecem com freqüência em nossa seção de comentários [veja aqui]. Toda concessão a essa gente é um tiro no pé. E esta Casa, sempre que preciso, vai defender até Honduras e futebol americano(!), para garantir o pé nas peladas do fim de semana.
Que vivam os Impérios!


Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 16:42
Sabia que vc ia gostar, C.A. rs
Mas eu não entendo nada desse assunto. Só sei falar de samba. rs
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 16:53
Gustavo, meu caro, não é porque os textos do C.A. normalmente são meus, de fato, que este texto meu [está lá: “por Pim”] é dele. Mas ele agradece de coração.
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 17:06
“Quando não se pode combater os fatos, melhor atribuir rótulos aparentemente repugnantes. Eu mesmo xingo Aristóteles, quando ele está certo demais. Cara chato, pô!”
Pois, você anda certo demais, Pim. Tá chato, pô!
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 18:13
Será que o Fidel merece esse escárnio todo? Será que ele não tem importância histórica alguma? Será que o que ele fala sobre Evo Morales é totalmente despropositado? Será?
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 19:17
Quem disse que Fidel não tem importância histórica? Ele tem muita. É um dos grandes exemplos do quanto o socialismo é um regime genocida, que espalha a miséria: material e moral - esta, aliás, como se vê naqueles que, sobre fatos e cadáveres, tripudiam com “será? será?”.
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 06:52
Realmente, você tem razão: com a música (e principalmente o estribilho) do “Que será?”, Chico Buarque de Hollanda e Milton Nascimento tripudiam sobre fatos e cadávares.
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 07:02
Aliás, não só Chico Buarque e Milton Nascimento,mas todos aqueles que sonharam (um dia que fosse) com o socialismo representam a “´miséria moral”. Jorge Amado, Graciliano Ramos, Ferreira Gullar, Brizola, Lula, Portinari, Batistinha, Mercedes Sosa, Victor Jara e outros…tudo farinha do mesmo saco.
Tenho muita pena de quem não era nascido quando se podia sonhar e desdenha do sonho alheio.
E tenho muito medo da “reserva moral” que restou.
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 20:46
Gostei, Pim.
Estava com saudade de um textinho reacionário escrito por ti.
Quanto às estatísticas apresentadas, duvido (desconfio) tanto das que o Fidel nos mostra para defender Evo quanto das suas sobre a época do Fulgencio.
De onde tiraste estes números? Fiquei curioso.
Além do mais, acho que para essa discussão, estatísticas são irrelevantes. Só servirão para defender de maneira superficial um ponto de vista.
Fidel tem sua importância sim. E cada um atribui a importância que quiser a ele.
O Claudio Renato, por exemplo, enxerga no Comandante Castro virtudes históricas que, de verdade, não podem ser relegadas.
Por outro lado, você prioriza o preço pago por uma revolta popular armada: mortes, ideologia sob à guisa de doutrina forçada, etc.
E a razão está com dois. Porém, reduzir Fidel Castro a um herói revolucionário ou a um ditador homicida é, ao meu ver, uma generalização das mais apressadas.
A Revolução Cubana é um episódio de nossa história que pode (é) analisado sob à luz dos mais variados prismas.
Fidel e o povo cubano fizeram suas escolhas. E quando falo povo cubano, estou me referindo tanto aos que pegaram em armas naquele reveillon de Havana quanto aos que fugiram em balsas para Miami.
A história, Pim, é magnífica. Seja ela contada por um filme do Benicio Del Toro ou por um neocon (adorei, adorei)!! como você e o Andreazza.
E cada um escolhe os fatos que quiser.
(…)
Agora me ajuda: quem é o gremista do desenho que ilustra teu texto?
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 19:46
Gostaria imensamente de ter escrito este texto deslumbrante. Tenho orgulho de editar esta Casa ao lado de Felipe Moura Brasil.
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 06:50
Hoje eu posso dizer.
Eu acho a direita uma bosta.
Eu acho a esquerda pior.
Se eu gostasse de fedor, ia direto pro centro…
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 11:00
Oh, como sou mau!, eu desdenho daqueles que sonharam com o mundo melhor de Marx, Lênin, Mao, Guevara e companhia, a turma das ótimas intenções… Vejamos como era lindo esse sonho na palavra de seres tão inspiradores, no tempo em que os comunistas eram, ao menos, mais sinceros: [Vou ficar só com os mais famosos, porque os sujinhos - como se sabe - não lêem nem seus próprios gurus, que dirá o resto].
“O melhor revolucionário é um jovem desprovido de toda moral.” (V. I. Lênin)
“Precisamos odiar. O ódio é a base do comunismo. As crianças devem ser ensinadas a odiar seus pais se eles não são comunistas.” (V. I. Lênin)
“Somos favoráveis ao terror organizado – isto deve ser admitido francamente.” (V. I. Lênin)
“A principal missão dos outros povos (exceto os alemães, os húngaros e os poloneses) é perecer no Holocausto revolucionário… Esse lixo étnico continuará sendo, até o seu completo extermínio ou desnacionalização, o mais fanático portador da contra-revolução.” (Karl Marx)
“O comunismo não é amor. É o martelo com que esmagamos nossos inimigos.” (Mao Dzedong)
“O ódio intransigente ao inimigo, que impulsiona o revolucionário para além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar: nossos soldados têm de ser assim.” (Che Guevara)
“Até agora os camponeses não foram mobilizados, mas, através do terrorismo e da intimidação, nós os conquistaremos.” (Che Guevara)
Lindo, não?
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 13:10
Pim,
O momento do mundo era outro.
E você, dono de uma retórica que beira o brilhantismo, coloca essas declarações descoladas de seu devido contexto histórico.
“Reacionários furiosos” compram, de cara, essa tua dialética conservadora.
Já os “revolucionários” (tanto os frustrados de antigamente - que não sabem a diferença entre um 38 e uma 12 - quanto os sujinhos do Democráticos) querem é quebrar a tua cara.
Eu, terceira via que sou (leia-se hipócrita e “encimadomurista”), me divirto bastante.
(…)
Sei que você não é muito de responder seus fãs aqui do blogue, mas peça ao menos para que o estagiário da casa me responda sobre a ilustração.
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 00:51
Não beira, é brilhante.
Sexta-Feira, 16 de Outubro de 2009, às 21:57
Quem sabe você associa o seu blog ao Merda Sem Mosca, do Olavão ?
Saudações Imperianas!