por João Paulo Duarte - Quarta-Feira, 16 de Setembro de 2009, às 11:58
Gesticula como se estivesse desequilibrada, e linda de rosto e corpo e tudo. Eu arrasto meu sotaque, chegando à alameda Lorena. Ela arrasta tudo, após o mundo que misturou no corpo que nem penso em querer decifrar. [Que cousa!] O vestido clássico misturado num tênis rosa choque (daqueles que as meninas usavam no colégio, mais de vinte anos atrás). Explica-me coisas que nunca vou entender, invade meu espaço e desfaz meu entendimento. Restou-me observar, poucas vezes quis falar tão pouco.
Ela conhece toda a cidade; a farra e cada sub-humano. Estamos apenas eu e o uísque, e ela. [Lembro-me todo o tempo da distância que estou do Leblon]. Não reflito nem um passo e arrisco a incumbência de desafiar minha experiência – meu conhecimento – e circular por quilômetros na madrugada vazia paulistana. E, mais uma vez, não é-me mais mistério, me rendo inteiro à beleza, ao sorriso, aos olhos. Não tenho outro motivo que não seja a farsa da esfuziante beleza; não quero outro impulso.
[Deitada no meu colo, dentro dum táxi, ela canta. Quantos dias podemos amanhecer acordados?]
Estou embriagado e passivo ao mundo que ela despeja na minha mente e recorro ao que passei antes; dos exageros que vivi, dos erros que errei e de toda confusão que cometi. Continuo sem entender e me arrisco – sempre! – à próxima dose. Aqui em São Paulo, prefiro não terminá-las; vou até estear.
Ela reflete estupidez, entorpecida, e clama minha companhia. Sigo porque meu limite ainda está distante. Reconheço minha capacidade de enganar a sofreguidão do álcool, e continuar aqui [seja lá onde eu esteja; estou]. Ontem, desisti. Hoje, ela acordou na minha cama. Espreguiçando São Paulo, ao meu lado. Do outro lado, o copo de uísque aguado, o cinzeiro lotado, o livro com marcas de copo e o jornal de anteontem. O tempo muda, ela continua do meu lado. Eu não mudo e, agora, é ela aqui.


Quarta-Feira, 16 de Setembro de 2009, às 12:19
O Leblon sente tua falta, Reizinho.
E não nos serve de consolo saber que São Paulo agora é digna de ser objeto/cenário de suas aventuras pela madrugada.
(…)
“Ela reflete estupidez” / “Hoje, ela acordou na minha cama”.
Sensacional. Você é dez, mano!
Quarta-Feira, 16 de Setembro de 2009, às 13:10
Que maravilha!, João Paulo. Que primeiro parágrafo! E que junção extraordinária: linda e louca!
Agora, na última cena, ficou faltando o cachorro.
Adorei!
Quarta-Feira, 16 de Setembro de 2009, às 13:35
Sem exagero, grande JP, uma das melhores de tuas prosas já publicadas aqui.
Quarta-Feira, 16 de Setembro de 2009, às 13:37
O cachorro, Olga?
Quarta-Feira, 16 de Setembro de 2009, às 13:38
E muito obrigado pelos elogios.
Quarta-Feira, 16 de Setembro de 2009, às 15:59
João Paulo Duarte que, em plena forma, volta ao Rio de Janeiro - depois de quase dois meses - para curtíssima temporada escocesa no Esch Café. (A partir de amanhã - e já estou com sede)!
Quarta-Feira, 16 de Setembro de 2009, às 16:32
Não sei se é o melhor texto do João Paulo na Casa, mas é o texto que eu mais gostei. Me senti que nem pinto no lixo, diante de tantas frases geniais (achei genial mesmo e pronto!).
Quarta-Feira, 16 de Setembro de 2009, às 00:29
Aplausos!
Coisa boa ler o que São Paulo te inspira!