por C.A. - Quinta-Feira, 10 de Setembro de 2009, às 16:34
Sou contra reeleições e, portanto, contra o conceito de terceiro mandato – incondicionalmente. Não é questão ideológica, que varie por afinidades ou oportunismos partidários. Mas intelectual. (Absolutamente intelectual – ressalto). Não importa quem o reivindique, Chávez, Lula ou Uribe [um bandido, um manipulador ou um estadista], minha posição, sempre contrária ao terceiro mandato, tem e terá a mesma fundamentação: não existe governante, por maravilhoso que seja, que compense a inversão de valores que, sob a lógica personalista, põe um indivíduo à frente da política [dos partidos políticos] e das instituições.
(Não se muda as regras do jogo no meio do jogo).
O aperfeiçoamento da democracia, como a compreendo, não estará jamais num nome poderoso, centralizador, mas no conjunto representativo horizontal ao longo do qual se distribui – com equilíbrio, pesos e contrapesos – o poder; em que a impessoalidade das instituições, com base nas leis, acolhe e aplica, ou rechaça e pune, formalmente, as idéias e os desejos do homem público. Nesta ordem.
Sou pela alternância de poder, admito o risco – democrático – da eleição de maus governantes, mas prefiro esta troca constante, que mantém ativa [alerta] a ordem institucional e a máquina pública [os instrumentos de fiscalização], que minimiza os vícios [as acomodações] de gestão e a extensão de tentáculos à corrupção, e que restringe o peso do braço financeiro [não raro o público, indiretamente] numa campanha eleitoral.
Para me valer de um exemplo que fuja aos clichês – altamente ideologizados – da América Latina, cito o bom prefeito de Nova Iorque Michael Bloomberg, cujos índices de aprovação são lulistas, e o faço a partir do excepcional artigo “O intocável”, que o jornalista Ben McGrath teve publicado na New Yorker [de 24 de agosto].
O autor parte de questão decisiva, que pode e deve ser aplicada [ampliada] a qualquer governante altamente popular e consequentemente poderoso [e nem sempre excelente…] que, uma vez reeleito, lance-se ao pleito por um terceiro mandato: um grande prefeito pode ser nocivo para a cidade que administra?
Sim, pode.
E o que dizer, então, de um presidente, cujo alcance, muito maior, ombreando-o aos demais Poderes da República, permite a proposição de emendas constitucionais, o manejo de milhares de empregos estatais e o trato de vultosas verbas públicas?
Chamá-lo de imbatível será pouco… Mas, vamos adiante.
Fica claro, em Bloomberg, que a constatação do próprio sucesso, inegável, fez com que se cresse imprescindível a Nova Iorque, como se a cidade – Nova Iorque, leitor! – não pudesse resistir sem o toque genial de sua administração. Com mais ou menos razão no que compete à qualidade das gestões, constata-se facilmente que todos os governantes que se lançam ao terceiro mandato o fazem sob a mesma convicção equivocada: a de que não há futuro sem eles.
Uns certamente mais bem-intencionados que outros, todos, sem exceção, desconsideram a democracia para, seduzidos pelo personalismo, flertar com a eternidade. (Quase todos – Lula é o exemplo – tornam-se bem maiores que seus partidos, com os quais fazem o que querem, e trocam de legenda à primeira contrariedade; Bloomberg era Democrata, elegeu-se como Republicano, e ora vai de todo desfiliado). Julgam-se assim, pelo excepcional de suas capacidades, a excepcionalidade que valerá – justificará – quatro aninhos de ocultação da democracia. (E sequer concebem, nos melhores casos, os tantos anos mais de aridez – de retrocesso na cultura política – que decorrerão deste desvio antidemocrático). O que virá depois, sempre ruim, dependerá do caráter do governante e, sobretudo, das oportunidades que se lhe ofereçam. Uns são Hugo Chávez; outros, Alvaro Uribe. Não são iguais; mas erram igualmente. É do humano, da diversidade humana… Uns, reeleitos pela segunda vez [e logo para sempre], censurarão a imprensa, achatarão a oposição e confiscarão direitos fundamentais ao cidadão; outros jogarão um belo trabalho, por pura vaidade, no lixo, sem jamais refletir sobre os motivos pelos quais a sociedade moderna, optando pela democracia representativa, sempre insistiu em limitar as possibilidades de reeleição: porque a permanência no poder – mostra a experiência – simplesmente resulta mal.
McGrath escreve que Bloomberg, em quase sete anos de mandato, acumulou tanto poder e respeito que parece mais um Medici que um prefeito. Pouco respeito meu, contudo, merecerá o governante, bom ou muito bom, que acumule deliberadamente um poder capaz de, em benefício de um projeto pessoal, travar os movimentos da democracia e, particularmente, a ascensão de novas lideranças políticas – e aqui falo de Michael Bloomberg e Alvaro Uribe. (Ora, claro, não menciono Lula, porque a solidez institucional brasileira lhe podou as asas continuístas; mas não deixa de ser curioso que, tão poderoso e popular como é, não tenha preparado – ou querido preparar – um sucessor competitivo). (Lula não poderá disputar o terceiro mandato; mas crê piamente que só Lula pode se seguir a Lula).
Ao acúmulo imperial de poder de Michael Bloomberg se deve somar, decisivamente, o fato de se tratar de um homem multi-bilionário, dono de uma companhia que domina o ramo da informação financeira, de resto conhecido – para o bem e para o mal – como um dos maiores filantropos dos EUA, cujos dólares estão em quase todas as obras sociais de Nova Iorque, o que não raro [e não sem razão] lhe rende acusações de que outra coisa não faz que comprar consciências, apoios e votos. E eis que chego de novo a Lula e, sobretudo, Chávez. Talvez, em se tratando de Bloomberg, atenuante seja o fato de que aplica para tanto uma fortuna pessoal; mas os resultados políticos aferidos por ele assim não se afastam daqueles decursivos do uso impróprio [abusivo] do capital público de uma Petrobras ou de uma PDVSA.
A avidez com que o prefeito de Nova Iorque se jogou ao terceiro mandato apenas aprofundou a questão; mas não deveria surpreender. Michael Bloomberg, já por ocasião de sua primeira eleição, quebrou todos os recordes de gastos em campanha – e nunca mais parou, embaralhando, na propaganda de sua gestão, os limites entre público e privado. (Como se fosse um petista histórico).
Quem mora em Nova Iorque habituou-se a receber, pelo correio, volumes e mais volumes, sempre caudalosos, em que o prefeito fala de suas conquistas para a cidade, de seus pré-sais particulares; e é comum vê-lo à tevê, na mesma linha. Não se sabe exatamente qual é a voz ali em relevo, a do homem público que presta contas [ainda que do porvir…], ou a do político em campanha, mas uma certeza logo se consolida: Michael Bloomberg age – e está certo – como quem não tem adversários. Aqui, outra vez, é impossível não pensar em Lula [que ainda os tem] e, mormente, em Hugo Chávez, que os caça.
É embriagante o clima para quem não possui críticos… Bloomberg, bom prefeito, parece muito-muito melhor, porque os agitadores usuais – grupos que se organizam para enlouquecer um governante – foram, de um jeito ou de outro, calados, digamos, pela sua filantropia onipresente. Os que insistiram-resistiram mais um pouco foram de tal forma esmagados que aviso mais claro não poderia existir. Melhor será ficar quieto… Anthony Weiner, representante distrital do Brooklyn e do Queens, postulante à prefeitura até março último, desistiu de concorrer depois da campanha pública que lhe arruinou a reputação. (Como a democracia dos EUA não é aquela massinha da Venezuela, impossibilitado portanto de perseguir e fechar umas emissoras de tevê por aí, Bloomberg, desprezando a importância democrática da oposição, perseguiu e fechou uma carreira pública promissora).
Graças a seu dinheiro, o prefeito de Nova Iorque – e esta é a mensagem subliminar que ocupa a mente do eleitor – pôde e pode, mais que qualquer outro, governar exclusivamente para o bem e para o melhor, acima da política, dos políticos e dos partidos; e como se isso fosse a melhor coisa do mundo! E não há, temendo talvez o destino de Weiner, quem contra-argumente o óbvio: graças também a seu dinheiro, ele essencialmente corrompeu o sistema político de uma cidade desde sempre elitista, comandada por um núcleo reduzido e de acesso quase impossível, este mesmo que, concentrando num único homem o poder financeiro e político, ora está ainda menor e mais cerrado – desgraçadamente.
Os índices criminais estão baixos, a qualidade do ensino melhora anualmente, tensões raciais raramente tomam vez… Bloomberg – repito – é bom administrador; muito melhor que Lula e Chávez, próximo de Uribe. Mais do que se considerar insubstituível, porém, considera-se, como “O Cara” no Brasil, uma espécie de marco-zero na cidade, ponto revolucionário onde tudo começa [e termina?]; e ignora o conjunto de prefeitos que o antecedeu e o trabalho consistente empreendido por Ed Koch e Rudolph Giuliani, por exemplo. Assim, tomado por esta fé messiânica, natural foi que se mobilizasse pelo terceiro mandato, desejo que encontrou pretexto na crise econômica mundial, sob a seguinte frase – uma tragédia para a democracia: “Eu não queria que alguém pensasse que fui embora quando o bicho pegou”, como um pai que abandona os filhos no berço… (Alvaro Uribe, na Colômbia, usa, sim, argumento diverso, próprio à condição colombiana, mas com a mesma estrutura emocional alienada e rasteira, que não esconde a incompetência, ou a negligência, em formar ou investir em, com vistas à sucessão, novos líderes democráticos: valendo-se do êxito da política de combate ao tráfico de drogas que implementou, vende-se como o único capaz de conduzi-la aos desafios futuros – talvez sem perceber que desse jeito arrogante, estupidamente, expõe-lhe a fraqueza).
Decidido a lutar pelo direito de concorrer ao terceiro mandato, Bloomberg botou o bloco na avenida e fez a imprensa [o New York Times, poderosamente] vestir, de maneira acrítica, a camisa por mais uma reeleição; e teve, a rebaixar [comprometer] o legislativo [e qualquer Poder que lhe fizesse fiscalização e equilíbrio], a leitura perfeita e oportuna do cenário político-fisiológico da cidade, a mesma que fez Lula ao dar destaque a escroques como Renan Calheiros e Fernando Collor, e tratar por “tropa de choque”, manada mesmo, gado barato, um punhado de Senadores da República: sem o direito a mais um mandato, dois terços do City Council seria despejado do gabinete no mesmo dia que ele… Batata! (Apoiar a aprovação da emenda de reeleição para o prefeito seria, portanto, apoiar a própria possibilidade de se reeleger ao Conselho – e então ficaram todos acordados, e o direito ao terceiro mandato foi aprovado).
Por fim, uma recente pesquisa de intenção de votos em Nova Iorque merece especial atenção, de início a sugerir [talvez] alguma esquizofrenia no eleitor, mas afinal claríssima em seu significado: “a maioria da população prefere um novo prefeito; contudo, considera que o atual é o melhor disponível para a função”.
Ah, os vícios da acomodação…
Os valores da democracia arrefecem se não cultivados diariamente, lição relevante esta; e eis que a maioria da população prefere um novo prefeito, sim, cultiva algum vínculo com a alternância de poder, ok, mas já vai desabituada a identificar [procurar] novos líderes, e acaba por se resignar, confrontado ao duvidoso, com o mais ou menos certo – Michael Bloomberg, no caso, o melhor disponível para a função; quando a questão urgente seria saber se não é o único? E por quê?


Quinta-Feira, 10 de Setembro de 2009, às 19:19
O poder deve ser mesmo embriagador.
Quinta-Feira, 10 de Setembro de 2009, às 17:01
“A continuação da autoridade num mesmo indivíduo freqüentemente foi o término dos governos democratas(…)porque nada é tão perigoso como deixar permanecer longo tempo em um mesmo cidadão o poder. O povo se acostuma a lhe obedecer, e ele se acostuma a mandar; de onde se origina a usurpação e a tirania”.
A citação, por mais estranho que pareça, é de Simon Bolivar, inspiração máxima do Comandante Chavinho.
(…)
Andreazza, grande texto. Deu gosto de ler.
(…)
No entanto, deixo registrado que continua pendurada em minha varanda a faixa com os seguintes dizeres: “EU QUERO UM TERCEIRO MANDATO”.
Quinta-Feira, 10 de Setembro de 2009, às 17:03
Obrigado, bom Pian. Acho que é de fato um texto a ser lido.