por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 31 de Augosto de 2009, às 12:55
Eis alguns de meus sonetinhos já publicados cá no nosso site, Tribuneiros.com.
O chefe se distraiu? Leia os Tribuneiros…
Soneto à vaidade
Dá-me pena - e não mais - tão bela dama
Por si mesma, entre espelhos, encantada;
Dou-lhe um “oi”, e ela, assim, toda empinada,
Crê-se o sonho febril de quem a chama.
Com que palácio de cristal e trama
Ter-se-á persuadido de ser fada?
Terá sido o papai que, sem palmada,
Ergueu ao pedestal a sua cama?
Quem, pois, já não se vê, senão qual sonho
De todos (homens vis, como eu, suponho),
Em sua vã conquista obstinados,
No autismo voluntário em que se encontra
Só pode mesmo amar, feito uma lontra,
A pele ameaçada por tarados.
Soneto de esquecimento
Para esquecê-la, procurei mulheres
Em cada esquina virtual, e pude
Multiplicar minhas paixões estéreis
Numa histérica e eterna juventude.
Amei com devoção e amiúde
As moças do meu tempo, como o alferes
A despeito da pátria às vezes rude
Levanta diariamente os seus halteres.
E agora, se no mundo já não cabe
A saudade de todas, que desabe
Nos meus versos a dor de cada uma!
Esquecer, não se esquece (já se sabe) -
Quer se mate, quer doa, quer acabe
Num poema de amor - mulher alguma.
Soneto do amor virtual
Por uma estranha, nunca foi tão forte
O desejo; e a paixão, nunca mais pura.
Tanto quero esta moça em desventura
Quanto, antes, no infinito, o nosso norte.
Veio a mim, como vem a nós a sorte
De repente, embalada em formosura,
Mas serena e com tal desenvoltura
Que temi sua partida, como a morte.
E assim, sonhando infâncias no futuro,
O rio em cachoeira, a paz sem muro,
Piqueniques, batuques e sotaques,
Pensei como era linda a fantasia
De sermos, pelo amor, guris de dia
Se à noite, como adultos, formos craques…
Soneto do amor discreto
Por quantos anos não a vi! Por quantas
Mulheres procurei dela as virtudes!
Mil romances, mil vidas, mil e tantas
Aventuras de amor, inquietudes…
Quantas liras ouvi, quantas gargantas
E corpos de sereia em gênios rudes
Que pântano as pariu, como se santas
Senão meu coração pobre de açudes?…
Antes sempre que tarde ao meu alcance
A mulher cujo corpo é só nuance
Das outras, num arranjo em mil saudades…
É nela que releio de relance
O quanto me perdi por um romance
Discreto, como a dor das liberdades.
Oração pelo vestido
Conservai, ó senhor, literatura
Nos corpos femininos ressentidos
De graça, patrimônio da candura,
E em máscaras e sombras denegridos.
Contra o império do olhar, erguei tecidos
Que os olhos cumprimentem com mesura;
Bordados, estampados e floridos,
Delgados, se possível, na cintura.
(Do blush e dos esmaltes cintilantes
Livrai-nos, ó senhor, o quanto antes;
Jamais a falta foi tão oportuna.)
Adeus, fivelas, zíperes, presilhas!
Mais leve a moça e nus as panturrilhas
Enquanto a camisola for diurna…
Soneto ao Flamengo
para Gigue
“Raça, amor e paixão”, da estupidez
Humana, pode ser a mais nefasta
Tríade, que, cantada, a uma só casta
De estúpidos reduz pobre e burguês.
Quer vitória, mas pede embriaguez
O povo, num delírio iconoclasta…
Sempre foi, o Flamengo, entusiasta
De tudo que, ademais, lhe faz freguês.
Virão as Olimpíadas - ginastas
Russos e americanos, pederastas,
Saltarão sobre os nossos, outra vez.
O Brasil é Flamengo, e assim se basta
Do brio mais medíocre, que devasta
Nos gênios a frieza do xadrez.
Soneto da menina cíclica
Tantos amores a menina guarda
Dentro de si e, fora de si, consulta
Que, além de amor, maturidade tarda
E a quem quer bem, em vez de amar, insulta.
Quer o mundo, a menina! E o mundo ausculta
Seu coração de mãe, sua espingarda
Que quanto mais atira, mais resulta
Num relicário de paixão bastarda.
Ama quem perde e por que perde ignora
Ama quem deixa e porque deixa chora
Deixa perder-se porque perde e quer.
Quer quem não tem e por não ter se escora
Sempre em quem teve e por ter tido adora
Ter novamente sem lhe ser mulher…
Soneto à Lagoa
Como és suja, Lagoa, e como és linda!
À superfície mal se nota o caos:
Sobre tuas águas, a beleza infinda
Dentro, excrementos destes homens maus
Que te retratam, como a ti bem-vinda
Fosse a pujança dos cartões postais
Mais que um remédio ao teu pulmão, e ainda
Que novos ventos ao teu cheiro, mais.
Eu que te vejo da varanda, sinto
Tua agonia entre xixis e merdas
(Meus e minhas, também, se te confesso).
Espelho d’água já não és – ou minto:
Tu só refletes o que bem tu herdas…
És nosso espelho de maior sucesso!
Soneto ao grande amor
Por onde andares, a teu jeito, alegre
De seres tu, vaidosamente solta
Nos teus confins, toda de ti envolta,
Avessa a regras e ao que mais te regre;
Por onde fores, sem pensar em volta,
Em dependência, independentemente
De teres medo (e quem de nós não sente?)
No fundo d’alma, onde a razão te solta;
Por onde, e quando, e enquanto, te levares
Além de ti, como se além dos mares
Sentido houvesse a te esperar sozinha;
Por onde quer que te prefiras, deixa
Um rastro, um mastro, uma sutil madeixa,
Que eu não me importo de avisar-te minha.
Soneto de maturidade
Fazer do sofrimento um combustível
Da paz, a conseqüência de queimá-lo
A cada anoitecer, cantar de galo
Que ao samba pega mal ser impassível.
Amigos, não beber pelo gargalo
Manter-se a par e à parte, se possível
O corpo e o carnaval deixar ao nível
Do mar, que é da paixão fiel badalo.
E quando à badalada mais graúda
A moça despertar, firme e desnuda
A ela, como ao sol, fingir-se alheio
E como quem dispensa a bela ajuda
Tocar a vida adiante, de bermuda,
E só depois, a dois, vivê-la em cheio.
Soneto da mulher ciumenta
Por ela, que me foi sempre o futuro
Dos braços, até mesmo quando, em dengo,
Dizia ser do samba pular muro
E abandonar mulher, de ser Flamengo;
Por ela, que me via mulherengo
A cada desapego prematuro
Dos beijos, dos olhares e do quengo,
Onde tudo além dela soava impuro;
Por ela, que, contudo, humor trazia
Em surtos de ciúme ou de vaidade
E ao mundo se dizia enamorada;
Por ela e só por ela hoje eu faria
Um samba que dissesse: “Ai, que saudade
De amar uma mulher bem-humorada!”…


Segunda-Feira, 31 de Augosto de 2009, às 00:05
Adorei a iniciativa de fazer uma página com todos os sonetos, Pim. Agora, apesar de me irritar e rir com muitas das perguntas que me fazem sobre a minha escrita, tenho que (tentar) saciar minha curiosidade quanto à sua: por que a fixação por soneto? Habilidade para outros formatos não te falta… Aliás, não é preciso se prender a formatos. Aliados à primorosa técnica, você tem os dois ingredientes principais: conteúdo e talento. O resto é secundário.
Beijo grande,
Mari