por C.A. - Sexta-Feira, 31 de Julho de 2009, às 13:02

Recebi, perplexo, o texto do projeto de lei - contra a imprensa livre - que o canalha Hugo Chávez quer [e vai] empurrar goela abaixo da democracia venezuelana, ou melhor, do que dela resta. (Não muito, decerto).
É leitura chocante… E desde o título: “Lei Especial de Delitos Midiáticos”. É a leitura de um golpe, de um atentado contra a liberdade, em que desfilam expressões como “notícias falsas” e “notícias manipuladas”, que assim serão qualificadas pelo gosto do ditador, e sob a regra de que “falsas” serão aquelas que “prejudicarem os interesses do Estado” e “manipuladas”, aquelas que relatarem os fatos, os incômodos ao tirano, como são - o que outra coisa não quererá dizer: estão revogadas, na Venezuela, a fiscalização e a apuração jornalísticas; está revogado, em suma, o jornalismo ele mesmo, cuja finalidade de defender, pela informação, os interesses da sociedade foi grosseiramente deslocada aos interesses [de desinformação] do Estado… Um crime! (Em tempo: divulgação de “notícia falsa” ou “manipulada” valerá quatro anos de cana-dura).
Já em seu artigo primeiro, sem muita conversa mole, o projeto de lei mostra claramente ao que vem - e traduzo:
“Esta lei tem por objetivo prevenir e sancionar as ações e omissões desempenhadas pelos meios de comunicação que possam configurar delitos. Tem o propósito de lograr o equilíbrio e a harmonia entre os direitos à liberdade de expressão e à informação oportuna, verdadeira e imparcial, e o direito à segurança interna dos cidadãos, em conformidade com as disposições contidas na Constituição da República Bolivariana da Venezuela […]”
A lei tem por objetivo “prevenir”. Ah, os eufemismos dessa gente… É espantoso! E eis que “prevenir”, na língua do ditador, outra coisa não significa que “intimidar”. Mais ou menos assim… “Prevenimos: se tocar no que não nos convém, é xadrez - e sem direito à defesa”. (O pouco de espaço ao pleno jornalismo que hoje sobra à imprensa da Venezuela será esmagado absolutamente; e o mundo se cala)!
E eu fico a pensar no que será “omissão” segundo Hugo Chávez?; no que será, em matéria de jornalismo, uma “omissão” que se possa configurar em “delito”? Vem-me à cabeça então, para ficar num exemplo próximo, o tal Programa de Aceleração do Crescimento [PAC] do Lula. O programa, como se sabe [sabe?], não existe, salvo no papel e na propaganda pró-Dilma, mas é noticiado pela imprensa brasileira como extraordinária obra em curso, fato inquestionável, o progresso!, assim como deseja o presidente; e eu, que não dou voz à farsa, que não reproduzo as mentiras vendidas pelo ministro da Informação, da Publicidade e da Verdade Franklin Martins, a ser julgado pela lei de Chávez, seria enquadrado por “omisso”, traindo os “interesses do Estado”, e, sem dúvida, um perfeito “criminoso”.
Outra barbaridade deste projeto de lei é o conceito de “informação oportuna”. (É inacreditável)… A insistir no exemplo do PAC, notícia oportuna será sempre esta - absolutamente ficcional, o que importa? - que trata como programa de sucesso um amontoado de intervenções públicas eleitoreiras que, na prática, não saiu do papel em mais que 3%. Isto é “informação oportuna”, a serviço não da “segurança interna dos cidadãos” [!?], mas do governo centralizador, que assalta pra si, em movimento de desequilibrar a estabilidade entre Poderes, os valores da democracia representativa e os mecanismos democráticos de fiscalização e denúncia, de que o jornalismo é peça decisiva.
A “informação oportuna” - seguida, no texto, das palavras “verdadeira” e “imparcial” - esvazia de sentido qualquer complemento e bota em pratos limpos o que se quer por futuro à imprensa da Venezuela: ou se é jornalismo oficial, ou não se é jornalismo algum.
A censura, leitor tribuneiro, ganha texto na Venezuela. (E será logo estendida aos irmãos bolivarianos Bolívia, Equador, Nicarágua e demais países entregues a filhotes de Hugo Chávez).
Aqui vai mais um trecho [artigo 4] - de clareza agressiva:
“Constituem delitos midiáticos as ações ou omissões que lesionem o direito à informação oportuna, verdadeira e imparcial, que atentem contra a paz social, a segurança e a independência da nação, à ordem pública, à estabilidade das instituições do Estado, à saúde mental ou moral pública, que gerem sensação de impunidade ou de insegurança, e que sejam cometidas através de um meio de comunicação”.
O perigo maior deste trecho está em o ler acreditando que, na Venezuela, as instituições do Estado são estáveis. Não são. Ou melhor: não como as conhecemos, coexistindo sob o equilíbrio da democracia representativa. Não. Na Venezuela, a estabilidade obedece ao equilíbrio precário de Hugo Chávez, da figura dele, das vontades autoritárias dele, e tem aquela mesma capacidade elástica [a da geleca, lembra?] com que o ditador e seus pares compreendem [e moldam] a democracia.
Está em curso naquele país - do que aliás é fruto este projeto de lei - um poderoso esvaziamento dos Poderes da República e de todos os instrumentos de fiscalização públicos, que vão, quando não de todo destruídos, controlados e mesmo já acumulados pela Presidência e, acima mesmo dela, pelo presidente, pela figura e pelo personalismo do presidente [do imperador] Hugo Chávez. (E Lula aplaude!, sonhando com uma oportunidade dessas)…
Na Venezuela, “paz social” é paz para Chávez; e “segurança e independência da nação” são segurança e independência para Chávez, que é a “pátria” inteira.
Quando afinal se lê algo como “saúde moral”, leitor tribuneiro, compreenda logo: trata-se do triunfo incontornável da canalha.
O artigo 7, uma ode ao peleguismo, estabelece a delação como novo fundamento do jornalismo - e ai de quem se negar a revelar ao Estado o nome dos responsáveis pela “notícia falsa”, seja o jornalista autor da matéria, sejam as fontes que o abasteceram.
É o fim do jornalismo - insisto.
Na Venezuela - aprovado este projeto de lei - o jornalismo, assim como o conhecemos, será crime.
E é preciso resistir!
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A propósito: um vídeo esclarecedor contra esta Lei Especial de Delitos Midiáticos - aqui.
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Imagino uma lei dessas aqui no Brasil… Nossa grande imprensa, que tende [por formação] ao obscurantismo e ao servilismo, talvez - desafiada - até passasse a fazer algo próximo do jornalismo; mas acho improvável. Mais comum seria que se aprofundasse por porta-voz do poder oficial, este que se alinha à canalha golpista e vagabunda da América Latina, e que continuasse a omitir fatos como este - provado e comprovado - segundo o qual o exército da Colômbia confiscou armamento militar pesado, comprado pela Venezuela numa fábrica bélica da Suécia, em posse dos narcoterroristas das Farc.
Isto mesmo, leitor: a Venezuela, que sob Chávez se vai tornando um narcoestado, financia [com dinheiro e armas!] as Farc, grupo narcoterrorista colombiano, que produz e vende cocaína, que sequestra, tortura e mata…
E o que se diz no Brasil a respeito - nos jornais e revistas etc.?
Nada.
Pós-escrito [15h46] - uma palavra sobre Honduras:
O governo constitucional de Honduras, por meio do presidente Roberto Micheletti, reafirmou que o presidente deposto, o golpista Manuel Zelaya, não terá autorização para retornar ao poder.
Micheletti, seguro na posição que respeita e defende a Constituição do país e o Estado de Direito, declarou que Zelaya pode entrar em Honduras quando quiser, com todos os seus direitos constitucionais garantidos, mas apenas se para responder [com plena defesa] aos processos judiciais que lhe pesam - de abuso de poder e de alta traição à pátria. “Sob nenhuma circunstância, porém, o deixaremos tomar posse do governo” - disse Roberto Micheletti, no que está correto.
Honduras nos dá um belo exemplo de exercício da democracia representativa.
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Um excelente artigo - em espanhol - sobre o novo modelo de golpe [o chavista…] em curso na América Latina: aqui.


Sexta-Feira, 31 de Julho de 2009, às 17:32
Assino embaixo de quase tudo, quando você se refere à Venezuela, ao cartapácio chavista sobre a imprensa, a condescendência com o narcoterror e ao culto à personalidade daquele sujeito, mas não vejo esse paralelo com o Brasil.
Lulista nunca fui, petista já, tô fora há muuuuito tempo, no entanto basta a leitura diária e tranquila dos onlines (grandes portais, versões eletrônicas dos principais jornais e vídeos - tal qual o que você colocou no blog), sem preocupações partidárias, com o mínimo de isenção que temos todos os normais, para perceber que o que chega ao impresso do dia seguinte nem sempre traduz o que aconteceu. É mais fácil e divertido brincar com a tal da verdade.
A grande imprensa faz jogo, apostas, elege ou deselege, e foda-se o avião. Cansei de ver isso, a favor ou contra o que na época eu pensava ou deixava de pensar.
A leitura atenta do Correio Braziliense, por exemplo, está mostrando que o deus da raça agora é o Aécio Neves, aquele sempre que vivia sempre cercado dos playboys pegadores.
Sou, talvez, mais otimista do que você em relação ao Brasil. Me recuso a enxergar que tudo de bom só acontece no atual governo ou só aconteceu nos anteriores.
A história do petróleo é, na minha opinião, um exemplo das bobagens que fizeram esse país se atrasar para cumprir um puta papel que vem pelaí. A vida inteira a gente (os que se consideram de esquerda e de direita) dividiu o mundo em preto e branco.
Não vimos que os civis e militares nacionalistas e idem idem esquerdistas estavam certos quando defenderam o monopólio com unhas e dentes. Não vimos tampouco que os civis e militares “entreguistas” e liberais estavam também no rumo certo quando defendiam a modernização e quando atacavam os ingênuos que ficaram putos com o geólogo americano Link por ter dito que não havia petróleo no Brasil… em terra!
Em nome da defesa de uma tese, a segunda parte da frase do “mister” Link não era citada. E o cara estava certo: o petróleo existia sim, mas no mar.
É desonesto e prejudicial ao país olhar apenas um lado da questão.
Quanto a Honduras, me desculpe, mas aquilo foi e continua sendo uma ópera bufa. Uma trapalhada dos dois lados. Me recuso a tomar partido, pois todos são farinha do mesmo saco.
Sexta-Feira, 31 de Julho de 2009, às 11:08
engraçado que se falou sobre direitos humanos em Honduras
por meses, mas aqui no Brasil não se falou , ou nao deixam
que falem sobre os abusos de poder, perda das garantias democráticas,
da liberdade de imprensa e abusos de prisão, e até mesmo o exílio de uma Jornalista.
Ontem mesmo procurei o Sindicato Oficial dos Jornalistas do RIO DE JANEIRO
e ninguém pode me dar informação!!!
Mas que são Jornalistas ou Jornaleiros?
um Açougueiro nao tem sindicato por que nao estudou nem se sindicalizou, mas eu os respeito mais que aos que da Tribuna a ocupam pelos seus vis motivos e torpes “ideias”n pois se sentem
que meio Deuses..