por C.A. - Sexta-Feira, 24 de Julho de 2009, às 10:34
Fiquei contente com o sucesso do texto O maior Zeca, principalmente porque, para além de comentários tão bacanas aqui publicados, a peça foi encontrar abrigo e eco em vários outros terrenos da internet, o que apenas reforça a convicção de que devemos sempre - e cada vez mais - exaltar os grandes, os ídolos, isto que Zeca Pagodinho sempre foi para mim [para o Pim também]: um ídolo, talvez o meu primeiro, lá pelos 10 anos.
O motivo deste novo texto, porém, é outro. É fazer justiça, urgente, a uma vertente extraordinária do talento de Zeca Pagodinho que, reconhecendo e valorizando sempre, cobri de passagem e sem o devido destaque, o que ora reparo valendo-me de algumas observações que o bravo Eduardo Carvalho, do blogue Samba, boemia e vagabundos! [aqui], postou nos comentários de O maior Zeca, e que reproduzo abaixo:
“C.A., é o seguinte: Zeca, a despeito de algumas (só algumas) escolhas um tanto infelizes nos últimos discos (principalmente em termos de repertório, mas - repito - só em alguns casos), é um grande, um enorme, e só não o chamo de “o maior” porque este título aplico cotidianamente a Almir Guineto.
Zeca sabe tudo e mais um pouco e é pena que quase não componha mais. E, ao contrário de muitos, a mim me fala mais fundo o Zeca da “dor de cotovelo”, ou melhor, da dolência tão cara ao samba, a grande música que é o samba. É aí, no meu modesto ver, que ele alcança o sublime, naquela divisão maravilhosa em que canta, atrasando-adiantando versos, “joãogilbertiando” dentro da levada do samba.
Dele, guardo comigo especialmente um momento que nunca mais sairá da minha cabeça (e já me alongo, desculpem-me, mas ando precisando falar): era algum mês de 1997, antes da “grande volta” dele (no pós-boom de 85), já passava das 4h da matina e uma quadra da Portela (não era dia de ensaio, mas de shows soltos) absolutamente abarrotada o esperava ansiosamente. Quase 5h, o homem pisa no palco e desfila uma coleção impressionante de sambas maravilhosos, lindos de doer, dos quais cantava quase que só a primeira frase - porque o povão, en-lou-que-ci-do, levava o resto sozinho. Foram 50 minutos, se tanto, de show, que acabou com o dia claro e a gente querendo segurar o tempo com as mãos e - como o Super-homem - fazer a Terra girar ao contrário pra vivenciar aquilo de novo.
Viva - e que dele não falem mal - o imenso Zeca Pagodinho!”
Eduardo tem razão absoluta, e fiquei pois com vontade de sublinhar aqui o Zeca Pagodinho dos sambas-dolentes, dos de “dor-de-cotovelo” mesmo, área em que, de fato, ele é imbatível, explorando sem dó a voz de quarta dose; e o faço em homenagem a esta maneira rara de dividir o canto, que tem origem [creio] na escola de Ciro Monteiro e João Nogueira.
Para tanto - e então quero homenagear o próprio Eduardo - escolhi um samba do Zeca em parceria com Almir Guineto [o sambista completo, para mim também o maioral], “Em nome da alegria” [disco “Pixote”, 1991], gravação em que este cantor imenso brinca de atrasar e adiantar o fraseado: aqui.
Uma beleza.


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