por C.A. - Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 12:14
Dirão que sou saudosista e o escambau, que gosto do samba só pra mim - o que é absolutamente falso, como bem há de mostrar minha atuação neste site.
Aliás: das minhas maiores alegrias foi o dia em que Zeca Pagodinho cantou pela primeira vez no Metropolitan, que nem sei como se chama hoje, e a casa estava lotada como se a ver Frank Sinatra. (O povo ainda não sabia que Zeca era muito melhor que Frank).
Pouco antes, ainda que enfileirando discos memoráveis, Pagodinho mal enchia o Teatro Rival, e me lembro mesmo da vez em que um amigo, de tão vazio o show, perguntou, como se a bater papo, se Zeca tinha um pente, ao que o notável caciqueano respondeu, interrompendo a banda, que já dava partida num novo samba: “Tenho, sim, meu amigo, mas só no camarim” - e eis que imediatamente pediu ao assistente: “Chico, busca lá um pente pro garoto”; e só então recomeçou o espetáculo. (Lembra, Pim)?
Enfim, isso tudo é pra dizer que Zeca Pagodinho continua sendo o maior cantor do Brasil, que continua produzindo muito bons discos [a despeito dos excessos orquestrais do Rildo Hora etc.], sempre com pelo menos três pérolas; mas que suas obras maiores, seus discos incontornáveis, seus discos de batuque, de percussão, de partido-alto, de sacanagem e ao mesmo tempo de amor, de machismo e ao mesmo tempo de fascínio pela mulher, seus discos tão politicamente incorretos quando irresistíveis, aqueles de se levar a uma ilha deserta [e assim dou partida à cafonice], aqueles de justificar a paixão que quase nos afoga, aqueles de cultivar a saudade do que sequer foi vivido, aqueles de nos lançar a cantar de repente, aqueles de nos dar esperança […], esses foram mesmo gravados nos anos 80 e na primeira metade dos 90, quando o couro comia à vera no estúdio; e é de um desses - “Um dos poetas do samba” [1992] - que extraio a beleza de canção [por favor, ouçam a letra!] que recomendo, homônimo do disco: aqui.
Em seguida, desta vez em homenagem à Olímpica Olga, com quem comentei sobre este samba faz pouco, a bacaníssima crônica de Zeca para o Largo da Carioca - gravada no mesmo disco “Um dos poetas do samba”: aqui.


Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 13:35
Acho que foi 1996(ou terá sido 1997?) o ano em que eu comecei a ouvir o Zeca.
Estava na sexta série quando ganhei de um funcionário de meu pai, um pagodeiro conhecidíssimo do Banco do Brasil que morava em Ramos, uma fita gravada com várias de suas músicas.
Na K7, escrito à mão, estava: Patota de Cosme.
Eram pérolas atrás de pérolas, imperiano.
A partir daí, virei fã do cara!
Toda homenagem a esse portelense alvinegro é justa!
(…)
Agora, falando em justiça, deixo aqui meu (humilde, modesto e talvez desnecessário, ou quem sabe, colonizado) parecer:
Quando o assunto é música, seja ela qual for, ainda não conheci ninguém maior do que Francis Albert “Blue Eyes” Sinatra.
Ele foi a maior expressão musical de todos os tempos.
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 13:50
De caixa de fósforos e cuíca - eis o samba. [E claro que me lembro, C.A.: ver Zeca no Rival era como assistir a Marlon Brando no Shopping da Gávea].
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 13:53
Pagodinho, portelense e tal, é bom que se diga: aprendeu samba lá na Serrinha, no Cajueiro, com o povo do Império Serrano - e sobretudo com o genial o imperiano Laudemir Casemiro, o gigantesco Beto Sem-Braço.
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Pelo menos aqui nesta Casa, bom Pian [e sei que vais compreender], o monumental Sinatra pedirá sempre licença para engraxar o cromo bicolor de Zeca Pagodinho.
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 14:17
É lógico que compreendo, Andreazza.
Além do mais, são dois gigantes.
Dois gigantes!
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 15:08
Zeca Pagodinho é um nome que, de cara, me remete à minha mais remota infância, ali na Rua Piauí, em Todos os Santos, pelas imediações da avenida Suburbana e da 24 de maio, por onde eu caminhava – sentido Méier – em companhia do meu avô, que nunca deixou de levar fé nos sambas do Zeca.
O nome do sambista de Del Castilho sempre me foi familiar por conta do meu primo Elias, de Jacarezinho. Não sei hoje, mas, à época, Elias era a cara do Zeca Pagodinho. Entre os dois, além da magreza e de alguns traços faciais, havia uma certa semelhança quanto à malemolência, à malandragem suburbana. Vai ver era isso: moravam próximos.
Vira e mexe, ele pintava lá no nosso apê, sempre às tardes, para pedir bênção e conselhos à minha avó. Devia ter eu, se bem me lembro, uns cinco ou seis anos. Nunca mais o vi, desde então. Talvez o tempo – ingrato para tantos, às vezes – tenha se encarregado de apagar boa parte dessas semelhanças. Ou não.
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 15:23
Que beleza de depoimento, Bezerra.
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 15:32
Obrigado, meu compadre! De fato, esse meu primo se parecia mesmo com o Zeca. Boas lembranças.
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 15:33
Muitíssimo agradecida, escritor. Realmente o troço é de “fazer inveja a Orlando Orfei”.
O Zeca Pagodinho é um absurdo. Além do talento e carisma inegáveis, fascina a enorme sinceridade. Ele canta o que gosta, absolutamente o que quer. Apesar do sucesso, se mantém, de verdade, fiel ao mundo em que viveu e vive. Suas músicas falam de mulher, amor, desamor, de bebida, macumba, pagode, bolada nas costas… Talvez o fato de ter feito muito sucesso nos anos 1980 e em seguida sofrer uma queda, tenha lhe preparado pro enorme e estrondoso sucesso atual.
Ele só não é “o cara”, Andreazza, porque “o cara é você”. (rs)
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 15:36
Olga, neste momento: tenho a face ruborizada… (rs)!
Bom que gostaste; fico satisfeito assim.
Um beijo!
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 15:43
Ô, amigo querido, bom te saber com a “face ruborizada”, porque igual ao cronista maior eu também “Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam”.
Quinta-Feira, 23 de Julho de 2009, às 19:00
C.A., é o seguinte: Zeca, a despeito de algumas (só algumas) escolhas um tanto infelizes nos últimos discos (principalmente em termos de repertório, mas - repito - só em alguns casos), é um grande, um enorme, e só não o chamo de “o maior” porque este título aplico cotidianamente a Almir Guineto.
Zeca sabe tudo e mais um pouco e é pena que quase não componha mais. E, ao contrário de muitos, a mim me fala mais fundo o Zeca da “dor de cotovelo”, ou melhor, da dolência tão cara ao samba, a grande música que é o samba. É aí, no meu modesto ver, que ele alcança o sublime, naquela divisão maravilhosa em que canta, atrasando-adiantando versos, “joãogilbertiando” dentro da levada do samba.
Dele, guardo comigo especialmente um momento que nunca mais sairá da minha cabeça (e já me alongo, desculpem-me, mas ando precisando falar): era algum mês de 1997, antes da “grande volta” dele (no pós-boom de 85), já passava das 4h da matina e uma quadra da Portela (não era dia de ensaio, mas de shows soltos) absolutamente abarrotada o esperava ansiosamente. Quase 5h, o homem pisa no palco e desfila uma coleção impressionante de sambas maravilhosos, lindos de doer, dos quais cantava quase que só a primeira frase - porque o povão, en-lou-que-ci-do, levava o resto sozinho. Foram 50 minutos, se tanto, de show, que acabou com o dia claro e a gente querendo segurar o tempo com as mãos e - como o Super-homem - fazer a Terra girar ao contrário pra vivenciar aquilo de novo.
Viva - e que dele não falem mal - o imenso Zeca Pagodinho!
Um abraço.