por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 13 de Julho de 2009, às 17:33
Com quantos anos um brasileiro pára de evoluir? Sim. Supondo que começa. Com quantos? É o que me pergunto toda vez que escuto a frase mais brasileira do Brasil: “Tem que gostar de mim como eu sou”. Com quantos anos um brasileiro decide que “é”? Que é daquele jeito e nada mais fará – muito menos para “agradar” alguém. Com quantos? E com quantos anos um brasileiro decide que os outros “têm que” gostar dele? Assim: como um dever incondicional. Com quantos? Eu, de muito boa vontade, chutaria uns 7. Sete anos. Com sete anos, um brasileiro estaciona a mente na garagem e deixa a chave com o manobrista.
Quem é o manobrista? O principal: Antonio Gramsci. Em vez de tomar o poder pela força, sua estratégia revolucionária era conquistá-lo através da hegemonia cultural. Como? Penetrando militantes comunistas nas artes, na educação, no jornalismo, nas editoras e demais centros disseminadores de idéias, para subverter os sensos comuns e manobrar discretamente a mente do povo em função dos objetivos do Partido. Adestrando o povo para o socialismo, a Revolução [hope and change…] viria naturalmente. [Gramsci é como o sujeito que queria beijar as moças na rua, não conseguia, e inventou a micareta]. É a política Don Juan - mas um Don Juan pedófilo, seduzindo criancinhas para o abate eleitoral, e vampiresco, transmitindo um vírus invisível que elas passarão adiante sem se dar conta, achando-se o máximo.
Eu nunca me interessei por política. Na adolescência, uma assembléia partidária me chamava tanta atenção quanto uma banda de forró. A única coisa que sempre me interessou profundamente, além de Rocky Balboa, foi o amor. Eu só cheguei à política [e à psicanálise, e à filosofia, e ao diabo – principalmente ao diabo] porque havia alguma coisa errada com ele. De onde vinham afinal frases como “Tem que gostar de mim como eu sou”? Quem inoculava no ambiente idéias tão paralisantes? Ou eu descobria ou enlouquecia junto. Então descobri que o Brasil era uma fraude. Uma fraude gramsciana. O Show de Truman. A Vila. Só me restava enfrentar o bicho-papão, atravessar a floresta, pular o muro e cair na estrada. Gostar de mim como eu sou? Cruzes. Eu podia ser muito melhor.
Acontece que melhorar no Brasil é um pecado imperdoável. Ou pior: é uma possibilidade inexistente. Você não pode fazer isso, que dirá sugerir aos outros. Você tem que gostar de você como você é. Ao estender o conceito de “intelectual” a qualquer Gilberto Gil que servisse à propaganda ideológica e o de “cultura” a qualquer berimbau que se expressasse, a esquerda gramsciana destruiu toda diferenciação do melhor e do pior, do mais e do menos elevado, seja condenando-a como discriminatória, seja afirmando sua impossibilidade em milhares de livros, teses e artigos, como o mais Zuenir Ventura da obra de Zuenir Ventura, na semana passada: “quando fico na dúvida entre quem é o mais importante, prefiro os dois”. Fofo, não?
A fofura é o maior valor da nossa cultura puppy. Onde falta [ou se inverte a] hierarquia, sobra idolatria. A gente ama impostores, canalhas, bandidos e terroristas. É a idolatria da diferença. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. “Olha, meu amor, se você nunca me beijar, vai ser difícil namorar você”, “Tem que gostar de mim como eu sou!”; “Olha, meu amor, você está chegando aos 200 quilos, será que não pode malhar um pouquinho?”, “Tem que gostar de mim como eu sou!”; “Olha, meu amor, você está descontando em mim problemas que não me pertencem, que tal uma terapia?”, “Tem que gostar de mim como eu sou!”; “Olha, meu amor, não acha que vale a pena aprender uma língua e se aprofundar na sua carreira?”, “Tem que gostar de mim como eu sou!”. Quanto mais comum e ordinário é o brasileiro, mais apegado ele é à sua “diferença” – e mais orgulhoso da sua “felicidade”.
Aqui se criam uma auto-imagem e uma imagem alheia aos 7 anos e é isso: um abraço. “Não vai apresentar seu trabalho?”. “Não, eu sou tímido”; “Não vai ler? Não, eu tenho DDA”. Vá jogar bola com seus amigos, e eles vão “equilibrar” o time de acordo com a imagem que têm do futebol de cada um… de 20 anos atrás! Àquela época, já errada, inclusive. As idéias de esforço, evolução, crescimento, ou – por outro lado – desperdício, retrocesso, desvanecimento, são perturbadoras demais para quem se guia pelo carpe diem, pelo mantra do “Viva cada minuto como se fosse o último!”. Brasileiro não tem projeto de vida, porque está desde os 7 anos vivendo cada minuto como se fosse o último. Vai morrer sem assoprar a velinha.
Meses atrás, David Horowitz publicou nos Estados Unidos o livro One-Party Classrooom (algo como “Sala de aula de um só partido”), em que ele mostra – universidade por universidade, caso a caso - como as propostas de Antonio Gramsci – somadas as de Herbert Marcuse e Paulo Freire - de usar a educação como plataforma para a conquista da hegemonia transformaram o ensino acadêmico americano em doutrinação esquerdista. De acordo com uma pesquisa de 2007, as ciências sociais e humanas têm 9 professores de esquerda para cada professor conservador; e, em campos como antropologia e sociologia, eles ganham de 30(!) a 1. Jornalistas, editores, advogados, juízes, políticos, estão todos saindo prontinhos das “salas de aula de um só partido” para fazer dos EUA um novo Brasil. O Brasil obâmico.
Barack Hussein – para quem Lula é “o cara” – passeia pelo mundo igualando a democracia americana às ditaduras mais escancaradas, enquanto – internamente – “espalha a riqueza” através de impostos, tirando dos realizadores para dar aos mamadores, até arrancar de vez a ambição do povo e formar uma nação de parasitas à espera [hope] de uma esmola do governo [change…], como um direito inalienável. De que vale lutar pela democracia, se uma ditadura light já está de bom tamanho? De que vale trabalhar, se deitar no sofá dá dinheiro? De que vale a honestidade se a bandidagem é protegida por lei? De que vale ser um Aristóteles se você já é um Zuenir Ventura?… Que o rompimento das hierarquias resulte no nivelamento por baixo, é só a ordem natural das coisas. Que este nivelamento geral incapacite as pessoas para a distinção, a escolha e a renúncia, também. Que isto resulte no apego à mediocridade, na repulsa ao desejo do outro e – portanto – na fuga de responsabilidades, até o amor comprova.
De muitos anos pra cá, toda vez que desço da torre e converso com alguém, acabo contando a historinha de Gramsci (ainda com mais detalhes) e do nosso one-party country, onde basta respirar para espirrar petismos - isto quando ele não entala no cérebro como um câncer. Truman, quando descobriu que vivia numa novela dirigida, tentou atravessar o cenário e fugir. Quanto termino a história, então, espero a reação dos meus conterrâneos: interesses súbitos; providências urgentes; pesquisas filosóficas; pedido de listas de autores, jornais e terapeutas confiáveis; filas acampadas na porta da minha casa; um desejo incontrolável de averiguar seu grau de contaminação; todos gritando suas opiniões para que eu as revise uma por uma oralmente alertando para as informações faltantes; e – last but not least - aquela vontade de telefonar para seus grandes amores e dizer: “Eu posso ser melhor! Eu descobri!”.
Mas nada. Nada disso acontece e eu saio cantando alegremente: “Forever seven/ I wannabe forever seven…/ Do you really want to live forever?/ Forever…/ Forever seven…”.


Segunda-Feira, 13 de Julho de 2009, às 18:37
Primeiro de tudo, eu gostaria de te agradecer por ter escrito mais sobre Gramsci e o “mundo obâmico”.
Este é um dos melhores textos que eu já li de sua autoria.
Lógico que está cheio de hipérboles e generalizações apressadas, recursos sempre muito usados na tua (excelente) escrita, mas eu gostei demais. Demais mesmo.
Apesar do ânimo para o debate(ainda mais depois de ler um texto que te motiva a uma boa troca de idéias), não quero ser chato e me alongar demais.
Fica, quem sabe, para uma próxima ocasião.
Parabéns pelo talento.
Fico, como sempre, esperando mais textos como esse.
Um abraço.