por C.A. - Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 12:38

Talvez ainda não tenha ocorrido ao leitor tribuneiro a real dimensão - a importância maiúscula - do que ora se passa em Honduras, mas não tenho dúvidas em escrever que se trata, a despeito da barbaridade mentirosa levada a cabo por boa parte da imprensa mundial, de um dos momentos máximos da defesa da democracia na América Latina, para o qual devemos abrir os olhos: pela primeira vez na história um exército depõe um presidente constitucional e democraticamente eleito para restaurar o Estado de Direito - e não para romper com ele.
Como escreveu [a tradução livre abaixo é minha, pela qual peço perdão…] a extraordinária professora Margarita Montes, cidadã hondurenha, no referencial blogue La Honduras posible [aqui]:
(…) Este caso não pode ser catalogado como um “golpe de Estado”, já que não obedece dois traços fundamentais desse fenômeno político: o assalto do poder pelo estamento militar e o rompimento do Estado de Direito. A ação empreendida pelas Forças Armadas de Honduras foi baseada em uma ordem judicial e seu propósito foi restabelecer o Império da Lei [rule of law], o qual estava sendo violentado consistentemente pelo próprio Presidente do Poder Executivo, ao desconsiderar as disposições do Poder Judiciário e do Poder Legislativo [checks and balances]. Com a intervenção militar, a Constituição Política segue vigente, já que se respeitou plenamente a sucessão de poder definida pela Carta Magna, em nome da qual se nomeou um novo Presidente Constitucional.
Do ponto de vista da ciência política, Honduras abriu um precedente que, sem dúvida, passará a ser caso de estudos universitários, diplomáticos e políticos no mundo todo. Pela primeira vez na América Latina, o povo se rebela, sem derramamento de sangue e sem violência, contra um Presidente Constitucional e democraticamente eleito, por violar disposições legais e a ordem institucional vigente no país.
Por isso é que a imprensa internacional, os organismos internacionais e os governos ao redor do mundo não compreenderam o contexto e a essência do que ocorreu em Honduras, pois o estão analisando com base em conceitos típicos do velho paradigma dos golpes de estado durante a época da Guerra Fria. A comunidade internacional, pública e privada, ainda não teve o tempo, nem os elementos, para perceber que em Honduras, no domingo, rompeu-se um modelo e que se trata de um evento completamente sui generis.
A lição dada por Honduras ao mundo é clara: ainda que um Presidente tenha sido eleito democrática e legitimamente, não tem o direito de desobedecer a Constituição e as leis da República. A população já não está disposta a tolerar esta sorte de abusos de poder dos Presidentes Constitucionais, que muitas vezes se consideram intocáveis apenas por terem sido eleitos pelo povo. A mensagem de Honduras é simples: o voto popular não inclui uma licença para delinquir, e todo o esforço para governar pelo bem comum deve estar dentro do marco da lei. (…) [Montes, Margarida; Honduras rompe paradigma en America Latina - a íntegra do texto em espanhol está aqui, mas todas as peças publicadas no blogue são imprescindíveis]
Pós-escrito [13h12] - e ainda Margarita Montes e o seu La Honduras posible:
Leitor, estou absolutamente encantado com o blogue de Margarita Montes, esta hondurenha maior - e me sinto impelido a traduzir [poderia traduzir todos, o dia todo] mais um texto de rara valentia, o emocionante Honduras marcha [aqui]:
(…) Como todos os hondurenhos, nossa vida normal se interrompeu nos últimos dias, não porque estejam militarizadas as ruas ou tenhamos perdido nossas garantias constitucionais, como falsamente dizem muitos meios de comunicação internacionais, mas porque estamos na luta, seja nas ruas ou diante de nossos computadores, para contar ao mundo a verdade do que aqui está ocorrendo.
Desde ontem [30 de junho, terça-feira] estamos saindo maciçamente às ruas nas principais cidades do país, homens e mulheres de todas as classes sociais, para mandar três mensagens contundentes ao mundo inteiro:
1. A imensa maioria dos hondurenhos não apoia, repito, NÃO apoia José Manuel Zelaya Rosales, e não permitiremos que regresse ao poder, venha escoltado de quem vier, e nos imponham as sanções que nos impuserem.
2. Exigimos aos meios de comunicação internacionais, especialmente a CNN, que tenham a decência de cobrir objetivamente o que se passa em Honduras, pois que terão chegado ao extremo de mostrar cenas de manifestações CONTRA Zelaya Rosales como se fossem a favor.
3. A comunidade internacional está cometendo um dos maiores erros na história da defesa universal da democracia, ao querer mandar-nos de volta um ditador sumamente impopular. Com o tempo o descobrirão.
A todos aqueles que apoiam nossa luta, e mais ainda os que não, convido-os a ver hoje e amanhã, nos meios de comunicação, as monumentais marchas e vigílias que realizaremos pela paz, pela democracia e pela Constituição. Somos fáceis de identificar: vestimos azul e branco e levamos nas mãos a bandeira nacional.
Deixo-os, amigos, estou em San Pedro Sula, e me vou a marchar.
VIVA HONDURAS!
Viva a democracia, leitor tribuneiro!
E estejamos atentos para a “tiranização da democracia” - inclusive no Brasil… Esta farsa segundo a qual um presidente da República, porquanto eleito democraticamente, torne-se assim intocável e receba carta-branca para burlar seguidamente a Constituição e as leis de seu país.
Não!


Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 14:32
Andreazza,
Ao ler este e os outros artigos pró-golpe, fico pensando de que lado você estaria quando em 1969 o Império Serrano lançou o enredo os Heróis da Liberdade, época em que a Beija-Flor tecia loas à nossa Ditabranda.
Na democracia de Honduras (vide Pedro Dória)
1. O chefe do Executivo tem que ter sido deposto legalmente pelas Forças Armadas.
2. Tem que ter sido imediatamente exilado do país.
3. Após sua deposição tem que ter sido imposta censura total da imprensa.
É provável que a ONU esteja repleta de comunistas.
Este blog apesar de imperiano está com uma carinha de beija-flor.
Um abraço de um imperiano do lado oposto.
“Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim:
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou …”
Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 14:40
Extraordinária cobertura, escritor, extrordinária. Um aprendizado, pelo menos pra mim.
E impressiona a sensatez dessa professora hondurenha. Principalmente quando diz “Por isso é que a imprensa internacional, os organismos internacionais e os governos ao redor do mundo não compreenderam o contexto e a essência do que ocorreu em Honduras, pois o estão analisando com base em conceitos típicos do velho paradigma dos golpes de estado durante a época da Guerra Fria. A comunidade internacional, pública e privada, ainda não teve o tempo, nem os elementos, para perceber que em Honduras, no domingo, rompeu-se um modelo e que se trata de um evento completamente sui generis.”
A título de restaurar o Estado de Direito muitas arbitrariedades foram cometidas, muitas ditaduras se concretizaram, e como bem diz o velho ditado, gato escaldado tem medo de água fria.
Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 14:46
Eduardo, estarei sempre ao lado do Império Serrano e da democracia, mas devo dizer que alguns sambas da Beija-Flor, desses que teciam loas à ditadura, são obras de arte supremas do gênero. (Duvido, porém, que você os conheça, como certamente não conhece o texto da Constituição de Honduras)…
Meu pensamento é independente. Mas eu estudo, eu leio, pesquiso. Uma grande farsa - aqui defendida por você - está em curso, e não faltam blogues onde, para teu gosto, seja encenada… (Vide Pedro Dória). Aqui: não.
Não me venha patrulhar.
Se acho que a ONU está errada - e está! - eu digo. Não tenho alinhamento compulsório senão com os meus valores, que são os da democracia; e portanto defenderei, eternamente, o teu direito de escrever essas bobagens irresponsáveis. Porém, sugiro: desliga a CNN e vá se informar.
Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 15:36
Discordo da sua opinião Andreazza, simples assim.
Sem patrulhamento, e sim divergência.
Se toda a crítica a seu discurso você considera patrulhamento, OK.
Um Abraço.
Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 16:33
Eu não faço discurso, Eduardo. Não estou em palanque. (Pra mim: nunca houve ditabranda no Brasil; houve, sim, uma ditadura, terrível como todas, de esquerda e direita - e ponto final). Você pode - sempre pôde - escrever o que quiser aqui, como quiser. E assim será sempre. (Botando a cara, lançando o nome verdadeiro etc., comentários críticos serão sempre bem-vindos).
Não gostei, porém, do tom de teu comentário, botando carnaval e escola de samba [no caso, o Império Serrano] onde não cabem - em política. Mas não me deixou de ser útil a provocação: porque - talvez você não saiba - nem todo o imperiano é bom e honesto, e esta é uma das razões pelas quais a escola não vence desde 1982.
Em suma: não basta ser imperiano para me enganar.
Um abraço!
Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 18:01
Andreazza,
Ainda que a minha preocupação com Honduras continue bem menor (mas bem menor mesmo) do que com a Rua do Catete e o Largo do Machado, não posso deixar de dar os parabéns pela excelente e esclarecedora cobertura da Casa com relação aos acontecimentos de nossos amigos hondurenhos.
Confesso que ainda não tinha me debruçado sobre o assunto, nem mesmo parado para ler ou assistir o que a grande(?) imprensa tem falado acerca do tema.
Nem a minha CartaCapital desta semana eu tive tempo de apreciar.
Porém, lendo com calma os posts e comentários aqui publicados(o do Sr. Daniel está, de fato, um primor), devo dizer que minha opinião já encontrou subsídios suficientes para ser formada.
O próprio amigo Eduardo, através da indicação de Pedro Doria e de seus comentários, contribuiu bastante para que o leitor(leia-se eu mesmo) pudesse analisar a situação sob diversos ângulos.
Parabéns pela pesquisa, pela tradução de textos de ensaístas Hondurenhos e, principalmente, pela veia crítica e independente do teu pensamento.
Peço perdão ao Professor Simas, mas é este aqui o melhor blogue do Brasil!
Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 20:12
Bom Pian,
Talvez, do ponto de vista convencional, a considerar um país vizinho como a Argentina ou uma potência mundial como os EUA, Honduras não tenha mesmo muita importância para nós.
Parece-me porém - e este é o ponto, dramático, ao qual quero chamar a atenção geral - que a democracia na América Latina, e logo o futuro saudável desta, está em jogo em Honduras, e a cada dia, pela incompreensão profunda do que se deu naquele país, com chances maiores de derrota…
Forte abraço,
C.
Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 20:53
Eu, assim como Gramsci e Mino Carta, sigo pessimista no pensamento e otimista na ação.
Acho que, infelizmente, o impacto dessa ruptura de paradigma de Honduras não terá o efeito mundial merecido.
Mas sigo convencendo meus interlocutores (a maioria domésticos, como minha mãe e meus cupinchas), através do diálogo e subsidiado pelos comentários desta Casa, de que em Honduras não houve golpe, e sim estado de direito devidamente protegido e fortalecido.
Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009, às 18:03
Pian, valeu pela menção, mas esquece isso de Sr.Daniel.
abraço,
Daniel