por Bruna Demaison - Quarta-Feira, 24 de Junho de 2009, às 18:03
Se você não tem mais de sessenta anos nunca vai chegar ao caixa eletrônico, porque tem que ceder a vez na fila. A agência não tem caixas humanos ou gerentes e eu maldosamente desconfio que ou a administração do Banco do Brasil é burra ou ninguém teve paciência para trabalhar ali (caixas eletrônicos são muito complicados para quem não cresceu com a Apple). Também desconfio que o Banco do Brasil seja o preferido entre os idosos porque só tem ele e a Caixa Econômica no Leme.
São mais cachorros por metro quadrado do que velhinhos e, acredite, são muitos velhinhos. Só perdem em número para os cachorros porque poucos têm só um bicho. Passam todo o tempo na rua – os velhinhos e os cachorros – e não por acaso as ruas são cheias de pet shops, farmácias e cocôs. Assim como o cinto de segurança, catar a sujeira dos cachorros é um hábito das novas gerações, uma mania que pegou, e tento imaginar como seria o Rio se todo ele fosse como o Leme (seria o alto da Gávea, C.A.?).
No restaurante em frente à praia o prato executivo custa doze reais. Você senta de cara para uma vista avassaladora e paga doze reais para o garçom falar uma língua incompreensível, onde “o seu Matte é diet” parece “tomate diet”, e trazer uma travessa de comida ao invés de um simples prato. Além de gigantesco, nunca é quiche com salada. No Leblon se come quiche com salada. No Leme só sai das panelas arroz à piamontese, batata frita, bifes e outras comidas que se servem com duas colheres, uma técnica que os garçons antigos aprenderam no La Mole. Nem todos são ranzinzas, alguns são tão fofos que roubam frango da cozinha só para você quando acaba o do buffet. No Leme o que acaba no buffet não é reposto: acabou, acabou. A sobremesa incluída é doce de banana e se você quiser manjar ou pudim precisa esperar a hora de substituírem a iguaria esgotada. Ou pode colocar todo o doce de banana no prato pra próxima pessoa dizer – olha lá, acabou! E aí comer manjar. No Leme ainda se come manjar.
Os pombos também freqüentam todos os lugares, mas eu foco nos cachorros já que, além de serem mais fofos, é preciso andar olhando para o chão a fim de desviar dos obstáculos escatológicos. Esse cuidado faz com que se perca atrações divertidíssimas, e então se desenvolve o método de andar em duplas: um olha para o chão enquanto o outro alerta para as aberrações locais. Muitas pessoas usam pouca roupa e as cores cítricas nunca saíram de moda, assim como a lycra. Homens, em geral, usam só sunga. Estão sempre a caminho da praia e levam cadeiras. Algumas vezes não dá para dizer se são homens ou mulheres: o caso mais assustador poderia ser resolvido se trocasse a lente verde e assim parecesse menos com um mutante e mais com uma dama. Na minha próxima ida ao salão onde ele/ela fica eu dou esse toque.
Os estabelecimentos comerciais são de difícil identificação. O Zona Sul com certeza é um supermercado, mas a loja ao lado vende bola de futebol, cartão do Garfield, porcos de plástico, capas de chuva e imposto de renda. A locadora de vídeo vende suplementos alimentares e peças de porcelana. No meu escritório o faxineiro canta. Os prédios vizinhos têm crescente movimento ao cair da noite. Dizem que na galeria em frente existem salinhas onde se paga para tirar um cochilo na hora do almoço. Ainda não fui lá, mas acredito. Depois de alguns meses trabalhando no Leme você acredita até que pode se acostumar.


Quarta-Feira, 24 de Junho de 2009, às 19:50
Bruna,
Talvez você tenha sido um pouco debochada e crítica no teu texto, mas eu ainda agradeço por nem todos os bairros da Zona Sul serem iguais ao Leblon.
É muito bom termos ainda um honesto e bem servido PF em frente ao mar, papelarias daquelas que se pode encontrar um bom botão de galalite junto com cartões do Garfield e do Ziggy e, principalmente, legítimos e adoráveis pé-sujos.
Flamengo, Laranjeiras, Botafogo, Leme…Sorte nossa não terem virado (ainda) imitações do Leblon.
Juro que me mudo para Indaiatuba se abrirem um Yoggi ou um Venga! na Senador Vergueiro.
De qualquer maneira, Bru, espero ansioso seu convite para almoçarmos uma bela travessa de arroz a piemontese com bife e fritas no lá no Leme.
E você, mesmo sendo a mulher moderna e a frente do seu tempo que é, nem precisa fazer charminho na hora da conta.
Custando R$ 12 mesmo, pode deixar que eu pago!
Quarta-Feira, 24 de Junho de 2009, às 12:03
Faltou dizer que o cimento é tacado desde o chão até o teto, com direito a espirros para todos os lados. Quase que um tiro ao alvo, muito adequado quando se quer nivelar uma parede ou o teto. E que uma das 5 ruas do Leme tem mão inglesa, mas a gente nunca sabe quando ela muda de sentido. É só no erro e acerto. É, Leme, Leme! Sem ele o trabalho não seria tão divertido!
Beijos!
Quarta-Feira, 24 de Junho de 2009, às 13:53
Bruna voce mora no Leblon?
Quarta-Feira, 24 de Junho de 2009, às 14:29
Oi Alice,
não moro no Leblon, só trabalho ali na barraca da Vanda nos fins de semana.
Quarta-Feira, 24 de Junho de 2009, às 17:34
No Leme tem um lugar com salinhas para dormir? Eu quero trabalhar no Leme! É sério, eu sonho com o dia em que alguém vai inventar isso… um lugar pra tirar meia hora de cochilo depois do almoço. Às vezes é muito necessário.
Beijos,
Lalol
Quarta-Feira, 24 de Junho de 2009, às 13:28
O Leme continua com o mesmo jeito de cidade do interiorrr(exceto pelas balas que agora sao mais frequentes) que tinha quando ia passar ferias lah, na decada de 90.
saudades daquelas bandas
Quarta-Feira, 24 de Junho de 2009, às 13:02
hahahah ia perguntar se já tinha visto as salinhas de cochilo. Quando trabalhava ai achava surreal!!!!
A quantidade de velhinhos só perde para Copa, onde aqui, o tempo dos sinais de transito tiveram que ser alterados para atravessar, pois eles não davam conta de atravessar no tempo certo!