por C.A. - Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 09:50

Escreverei [pretendo escrever] mais sobre o assunto - neste mesmo post [ainda hoje] - tão-logo me vire em tempo, mas quero desde já exaltar a decisão [8 votos contra 1] do Supremo Tribunal Federal que vem de derrubar, para sempre, a obrigatoriedade de diploma de jornalista para o exercício da profissão. (O relator da matéria, com brilhante texto, foi o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF; Marco Aurélio de Mello, sempre ele, deu o único voto contrário; e Joaquim Barbosa, decerto que ocupado em ouvir a “voz das ruas”, faltou à sessão)…
Os medíocres da imprensa - os acomodados - estão apavorados, e só pensam no emprego, pelo qual, burocratas absolutos, nada fazem. (São os “azedos” da ABI, os jornalistas de carteirinha, que se seguram mais na política miúda que no jornalismo maiúsculo; e deste time desbotado, claro, excluo alguns excelentes profissionais que se posicionam contrários à deliberação do STF não para assegurar-defender o emprego etc., mas por motivos sem dúvida honestos, embora não-jornalísticos e francamente desviados da grandeza da decisão).
Os bons - os talentosos, os que estudam, pesquisam, apuram e escrevem [isto que vai raro a cada dia mais…] - sabem que, livres da reserva de mercado, só têm a crescer [porque, com todo um novo mar de possibilidades a navegar, com novas fronteiras a serem exploradas, crescerá também a carreira], e estão ansiosos por trabalhar-dialogar, na mesma redação, com historiadores, economistas, advogados e até químicos, por que não?
É uma questão profissional; é o futuro promissor de uma profissão em jogo: ao investir no [triunfo do] talento, o jornalismo ganha, se fortalece - o que importa - e tem aí uma bela chance de responder, apostando firme na liberdade de expressão e sobretudo na pluralidade de vozes e formações, às necessidades de uma sociedade dinâmica, que afinal reconhece, sob a maturidade democrática, o papel fundamental, para muito além de simplesmente informar, da imprensa.
Sobre os perdedores, os medíocres da burocracia jornalística, os jornalistas de cartório, os “azedos” que se querem fechar porque intelectualmente fechados-limitados? Perdem - sem dó - os que tinham de perder mesmo. Estão preocupados com o poder corporativo, com o enfraquecimento da influência sobre a categoria, a classe… (E já perdem tarde; que percam logo o emprego também).
Quatro inúteis anos de faculdade de jornalismo - e desenvolverei a questão mais tarde - é farsa que precisa cair. Profissão, caro leitor tribuneiro, não é clubinho; não é ação entre amigos.
Pós-escrito [13h37]:
Se é que se deve estudar jornalismo - tenho dúvidas - a cousa deveria ser, no máximo, algo como uma pós-graduação, e dedicada ao apuro do texto, da redação, da técnica. Isso mesmo - nada de cafonalha semiológica e de ideologia barata: um curso técnico, objetivo, de não mais que um ano ou, vá-lá, dois. (O atual currículo da graduação em jornalismo, vergonhosamente ultrapassado, engessado no tempo, quase um manifesto comunista, tem base numa grade concebida e aprovada em 1918; e o que mais dizer?)… (O que mais dizer?; o seguinte, em tempo: que os cursos de jornalismo fazem, de maneira ardilosa, uma profunda e insistente pregação contra, pasmem!, o jornalismo ele mesmo - contra a imprensa).
Derrubada a reserva de mercado [este passo monumental para o porvir da profissão], a faculdade de jornalismo, como a temos hoje, particular ou pública, só servirá, engodo que é, por emprego [por cabide] de professores - salvo raras exceções - ressentidos, absolutamente viciados de academia e de todo descolados da realidade do mercado, quer porque acomodados, quer porque [com sorte] medíocres e, portanto, desprezados, graças a deus, pelas mais variadas modalidades da imprensa atual.
A tendência, bem-vinda, é que a graduação em jornalismo esvazie-se aos poucos e acabe, transformando-se naturalmente - o que será baita evolução - num curso técnico de especialização, modernamente aberto àqueles, de qualquer formação, interessados na matéria e no trabalho jornalístico.
E teremos, então, um jornalismo melhor, com mais recursos e alto sentido ético e cultural; mais próximo dos interesses da sociedade, do leitor - e não a serviço dos clubinhos de jornalistas, das diretrizes ideológicas e da mesquinharia profissional.
A minha satisfação, enorme, deve-se à constatação de que o jornalismo vive, hoje, um momento decisivo e histórico no Brasil: o jornalismo rejuvenesce diante de nós, leitor tribuneiro, e é extraordinário. Vejamos agora - estejamos atentos para - o que faremos desta juventude.
Pós-escrito II [14h46] - a palavra de João Paulo Duarte:
Sempre reneguei qualquer estudo universitário obrigatório para regulamentar o ofício de jornalista.
Podem anotar: a determinação do STF indica que, dentro de poucos anos, enfim, as boas universidades terão bons cursos de comunicação. Por enquanto, têm apenas cursos de atualização de dona de casa. Agora, ou o ensino muda ou a faculdade acaba.
Chegou a hora de parar de fingir que treinam as meninas iludidas para serem apresentadoras e começar a pensar novos formatos de telejornalismo. Parar de copiar a forma de edição da Folha de S. Paulo e começar a trilhar novas linhas editoriais. Menos Estácio de Sá e mais Berkeley (lembro-me que há mais de cinco anos esta universidade na Califórnia faz estudos massivos sobre a comunicação internética, experimental, sugerindo formas, estilos, condutas; é apenas um exemplo e não que seja fundamental, mas este é o verdadeiro sentido da escola). O jornalismo é forma, conteúdo, estilo e muito mais, sim. Entretanto, o que deve ter mais importância é a prática jornalística em si. Por isso, repudio o treinamento de apresentadores, os formatos de texto pré-concebidos ou qualquer tipo de fórmula inquebrantável. O jornalismo deve ser livre; o único sentido do academicismo na minha profissão é o debate de novas idéias (passamos longe!), ridículo ser um curso de pequenas culturas gerais e simulacro de profissionalismo.
Era doce ilusão. O diploma de comunicação nunca garantiu o emprego de alguém e a obrigatoriedade só contribuiu para o amontoamento de ignorantes nas redações. Acredite que a maioria dos jornalistas de redação não lê (alguns nem mesmo jornais), não conhece regras mínimas da língua portuguesa, portanto incapazes de ser mais que meros repetidores. São, na verdade, poucos os jornalistas que ditam as notícias, todos os outros os seguem.
Estou ansioso em poder conviver com gente de outras formações, de cultura abrangente e conhecimento específico e especializado; ansioso em ter aqui ao meu lado, no trabalho, pessoas que pensem o conhecimento por outros olhos. Quero saber de formação intelectual, seja ela qual for. Se vai melhorar o nosso trabalho, se vai agregar, sente-se aqui do lado, em igualdade de condições, ambos como jornalistas. Já comemoro a possibilidade das redações brasileiras fazerem trabalho de alta qualidade.
E sonho mais: daqui alguns anos estarão conosco os verdadeiros comunicólogos (oriundos de uma nova escola de comunicação), gente que vai sacar tudo da nossa área e nos ajudar a destruir paradigmas. Este é o nosso próximo passo, transformar a faculdade de comunicação em algo de valor. É possível.
(Voltarei ao assunto em breve).


Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 09:56
Perfeito!
Nem precisa se debruçar mais sobre o assunto!
Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 12:38
Sou completamente favorável ao fim da obrigatoriedade do diploma (sempre que defendi isso em conversas com coleguinhas, fui massacrado). Jornalismo pode bem ser um curso de pós-graduação…
Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 13:27
P.S. AGora, é necessário que haja algum tipo de regulamentação. Com a palavra, o Legislativo, que legisla cada vez menos.
Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 15:08
Concordo, Marcelo. É um passo a ser dado em seguida, sem dúvida.
Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 15:22
Que tipo de regulamentação, Marcelo?
Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 15:42
O adendo do Reizinho só me faz ter mais certeza de que esta casa tribuneira é abrigo do melhor jornalismo carioca feito nos últimos anos.
Parabéns, João. Mais Berkeley e menos Estácio de Sá foi sensacional. E o melhor: ao meu ver, foi um comentário nada elitista, apenas dotado de uma crítica embasada e muito acima da média.
É de encher o peito de orgulho saber que convivo com a nata da comunicação do Rio de Janeiro.
Aquele que é contra a decisão do STF já está assinando atestado de pequenez jornalística. Medo gerado pela incompetência e comodismo dos profissionais de hoje em dia.
Mais uma vez, parabéns aos Tribuneiros.
Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 15:49
João Paulo: regulamentação com parâmetros mínimos (deveres e direitos) para quem exerce o ofício.
Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 20:45
Concordo plenamente!
Entrei em Jornalismo na PUC com 17 anos porque adorava escrever no colégio, e o fazia razoavelmente bem.
Quando me deparei no primeiro ano do curso, tive que conviver com colegas mais velhos, extremamente politizados, com discussões sobre o tudo e o nada e, jornalismo, literatura, nada. Assumi que não estava preparada para tal empreitada por não ser madura o suficiente e migrei para o curso de Letras onde fui muito, muito feliz. Tornei-me professora de Inglês, continuei adorando ler e escrever e posteriormente trabalhei com Comércio Exterior, fruto de minha habilidade com línguas.
Portanto, faculdade nenhuma vai formar um bom escritor.
E, last but not least, ESTOU SUPER ABORRECIDA pois quero comprar o livro de vocês e BRUNA me escreveu que C.A. me informaria se eu poderia fazer uma transferência via ITAU ou utilizar o BANCO DO BRASIL do site, para tanto preciso da razão social, cnpj, etc, para fazer a transferência.
Alguém ajuda esta paulistana que adora o RIO e os TRIBUNEIROS?
Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 08:05
Andreazza: eu sempre achei, desde moleque, uma barbaridade essa exigência que sempre me pareceu estúpida. Lembro-me, inclusive, do dilema que vivi, às vésperas da inscrição para o vestibular, entre o Direito e a Comunicação (ansiava por ser advogado e por escrever para os jornais). Acabei me inscrevendo em Direito na PUC (passei e lá me formei) e em Comunicação na Cesgranrio (passei para a UERJ e nunca pus os pés lá). Meus maiores ídolos no jornalismo brasileiros eram homens bem formados acima de tudo - acho que nenhum deles (um, dois, talvez) tinha formação no troço. Veja você as redações de hoje; lotadas de jornalistas formados e um jornalismo de merda escorrendo das páginas pútridas dos jornais, salvo raríssimas exceções. Eu, p.ex., nunca imaginei que fosse sentir falta do dr. Roberto Marinho que, vivo, não permitiria a cambada que hoje pisoteia na história do maior jornal do Rio de Janeiro, por onde já desfilaram nomes da maior categoria. Só os escroques, os que não se garantem, os que “pessolizam” tudo são contra a sábia decisão do obtuso STF. Forte abraço.
Quinta-Feira, 18 de Junho de 2009, às 12:45
Edu, é curioso - mas não me surpreende - que as reações contrárias venham justamente de quem esperávamos… Creio, sinceramente, que o jornalismo só tem a melhorar - mas vejamos como se posicionarão agora, frente às mil novas possibilidades, as escolas de comunicação e as redações tradicionais. Com inteligência, a coisa pode ser boa para todo mundo - mas sobretudo, o que de fato interessa, para a sociedade.
Forte abraço!