por C.A. - Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009, às 17:01

O livro - mui secreto - em que ora trabalho me tem apresentado imagens deslumbrantes do Rio antigo. Esta, fotografada por Peter Fuss em 1936, é uma delas, belíssima, embora - essencialmente artística [vejam o jogo de sombras impresso na água; vejam, à direita, a sombra da sombra!] - não me sirva à pesquisa, de caráter urbano. (Razão pela qual a mostro aqui, com gosto).
Não há construções - e isso, ontem!, em 1936, senhoras e senhores. Reparem, à direita, no que hoje é o parque da Catacumba e, à esquerda, na curva do Calombo, ambos logradouros ainda sem o aterro que os afastaria [ainda mais] das margens da Lagoa.
Uma beleza.


Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009, às 18:22
Uma ótima imagem para a nossa nova campanha olímpica: “Rio 1936″ - à qual se seguirá a minha: “Madri 2016″.
Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009, às 23:00
E eis: Felipe Moura Brasil - em grande forma!
Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009, às 10:37
Bonito mesmo e impressionante.
Confesso que espero ansiosamente o dia em que as águas da Lagoa voltarão a ser próprias para o banho…
Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009, às 12:52
Eu confio no nosso Eike Rockfeller Batista, Fernanda.
Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009, às 15:38
Fernanda, não acho que a Lagoa, ainda que completamente limpa [para o que igualmente torço], sirva um dia aos mergulhos da população. O carioca gosta de praia, de areia etc. A Lagoa, isto sim, pode ser um vasto campo - saudável, afinal - para os esportes aquáticos. A conferir.
Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009, às 15:55
Então vou deixar escapar em primeira mão:
Estamos negociando a realização de uma etapa do nacional de Wake Board na Lagoa.
Tomara que aconteça.
Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009, às 15:56
Excelente notícia, bom Pian, uma vez que esta é a vocação da minha mui amada Lagoa Rodrigo de Freitas. Que a prefeitura tenha sucesso na empreitada!
Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009, às 20:38
Para quem ama o RIO DE JANEIRO e gosta dos textos do Jabor, uma linda e triste crônica da cidade publicada ontem no ESTADO DE SÃO PAULO que se aplica à degradação de SAMPA também….
Nunca mais voltará Leila Diniz
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Tom Jobim nadava com força na Lagoa Rodrigo de Freitas naquele verão de 1944. Parou um instante, já chegando ao Sacopã, e olhou em volta, imaginando como seria Ipanema dali a 20 anos. A Lagoa era clara, cheia de peixes e garças. Ipanema era uma promessa de vida em seu peito molhado.
Leila Diniz estava rindo no Bar Jangadeiros, em minha mesa 20 anos depois. Nós éramos jovens, na luz de Ipanema; como Joyce escreveu, estávamos “felizes, moços, perto do selvagem coração da vida”. E eu pensava: “Meu Deus, que alegria! Até quando seremos assim?”
Tínhamos uma espécie de paraíso social ali entre Copa e Leblon. Tom Jobim diria anos depois: “O Brasil será feliz quando tudo for uma grande Ipanema.”
Hoje, estou na Rua Visconde de Pirajá com Joana Angélica, espécie de cruz privilegiada da cidade. Vejo o Rio à minha volta. Tudo parece em câmera lenta; na Lagoa percebo que as árvores cresceram. Moro mais em São Paulo e eu não via isso quando morava só aqui. Hoje, vejo a natureza linda e corruptora - “ah… mas é tão lindo… - grande álibi para a miséria que ferve nas ruas. A natureza corrompe.
Hoje, nos afligimos com tantos pobres que expõem suas feridas nas esquinas, com tantos vagabundos descendo dos morros.
O que incomoda a população branquinha não é só o assaltante; é o “passeante”. Pardos passeantes de chinelos e calção enchem a zona sul. Eles pressentem o medo dos “classe-médias” e desfilam com garbo. O carioca branco se indigna, como se só ele fosse nativo. Vejo que meu mal-estar diante do caos carioca é um mal-estar de classe. Sim, há um horror de classe nos cariocas “brancos”; querem mudar o Rio para ontem, querem que o Rio “volte” a ser algo de “antigamente”. É mentira que tememos apenas a violência. Tememos também a promiscuidade.
O Rio é hoje a saudade de algo que já foi. Ninguém ama o Rio como ele é. Só os miseráveis que hoje ocupam as praias amam o Rio - são seus anos dourados.
O Rio atingiu seu ponto de “perfeição” (para os pequeno-burgueses) por volta dos anos 50 e 60, quando o acaso deu um tempo na “in-volução” da cidade e o mito cruzou com o real. A beleza parou um instante entre o erro e a decadência, entre a economia do “milagre” e a tragédia da exclusão das massas, e se equilibrou por alguns anos entre o Posto Nove e a Praça General Osório, criando uma ilha utópica da esquerda festiva (eu estava lá) que não contava ainda com a miséria que se reproduzia nos morros.
Hoje, nas ruas de Ipanema, parece que ando num rio do inferno. O ritmo lento dos desocupados se cruza com os olhares trêmulos de madames e aposentados correndo para trás das grades, biquínis em frente de mendigos, população branca temerosa, movendo-se entre a “folga” da “crioulada” e os mendigos que jazem nas portas de igreja, criancinhas brincando na sarjeta, mamadeira e esmolas, caixotes e pernas abertas.
O Rio virou o escândalo dos cariocas. Mas o horror de nada serve; é só angústia vazia. A miséria dos outros tem sido para nós um problema existencial. O “escândalo” parte do equívoco de que os miseráveis são um “erro” da natureza. O erro está em nós. Escandalizar-se é se salvar. Mas somos parte do escândalo.
É como se toda esta invasão de pardos (não só na pele - pardos na alma, na vida parda) fosse apenas uma “amolação” na vida “branca”.
No entanto, esta mutação da cidade é definitiva. Voltar a ser o quê? O reduto da bossa nova, a ilusão dos filhos da PUC?
Eu vejo as velhas negras de 100 anos vendendo arruda na feira, como escravas-de-ganho do século 19, vejo esta mistura baiano-persa dos camelôs e barraquinhas, vejo a malandragem dos feirantes disputando uma risonha luta de classes com madames e velhotes. Vejo isto tudo e entendo que não vai voltar mais nada.
Nunca mais voltará Leila Diniz! Do ponto de vista excludente, de uma administração tradicional, a situação é insolúvel.
O Brasil não virou Ipanema. Ipanema virou o Brasil. Silenciosamente, as 600 favelas que o egoísmo construiu fizeram a revolução parda. A democracia já desceu o morro.
Esta revolução silenciosa dos excluídos é um trailer, sim, do Brasil, mas não somente como deflagração de violência.
Uma luta social molenga se instalou no dia a dia, nas esmolas, nos assaltos, nas chacinas, nos ataques do Exército. E não é só a incúria dos governantes ou o egoísmo dos ricos; no fundo, não é culpa de ninguém. Nossa crueldade é a tradição escravista desta burguesia de ex-negreiros.
O que houve foi uma bolha que cresceu, que estava aí havia décadas se formando, uma “bolha antropológica” que provocou uma revolução social suja. Já houve. Ninguém vê isso? É só andar na rua. Um pobre para cada remediado, no coração de Ipanema.
E como reformar as mentes de planejadores e urbanistas “clean”? A bolha antropológica não pode ser explodida. Tem de ser obedecida. A bolha sempre esteve ali, desde o tempo das Memórias do Sargento de Milícias. Ela sempre esteve aí, só que se arredava nos morros, nas periferias.
Só uma ideologia de reforma que “inclua”, que democratize, pode mudar o Rio. Ficou claro: qualquer ideia de reverter a situação é absurda. A ideologia nostálgica só conduz à ideia de genocídio. Para fazer voltar o chopinho dourado na paz dos sábados, só matando os morros. Há 30 anos era fácil. Havia dinheiro e menos gente. Até hoje, só houve soluções “brancas” para problemas “pardos”. Agora, só dá para fazer um plano de salvação social para o Rio a partir da aceitação da ideia do “insolúvel”. Os marginalizados têm de ser participantes da reforma.
Não há solução. A partir daí, pode-se começar a pensar. Tudo indica que os novos governantes do Rio já estão pensando assim, como foi a amostra do morro Dona Marta.
É assim que o Brasil terá de ser replanejado: aceitando a senzala, os pretos de ganho, os forros excluídos, os ignorados nos planos de mercado, pois o Rio não vai mudar. Já mudou. Já aconteceu, já está ocupado.
A bruta face da miséria desmoralizou a sentimentalidade branca.