por C.A. - Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 15:17
A criação do blogue da Petrobras deve ser compreendida pelo que é e pelo que vende ser.
O que é: intimidação grosseira [tentativa de tornar vulnerável a prática jornalística e os pactos da profissão] e abuso do poder público para tentos privados e políticos, a serem lidos e sublinhados à sombra da já abafada CPI.
O que vende ser: organizada e mui profissional […], nadando em bilhões de barris do pré-sal ainda longe de vencido – e de resto um modelo exemplar de transparência na maneira como presta as contas e lida com o dinheiro público… – a empresa, referência mundial na área do auto-marketing, agora quer nos ensinar a fazer jornalismo, e crê, de verdade, que já promove uma revolução ética, um marco histórico* capaz de recriar as relações viciosas entre jornalistas e fontes. [* os petistas, como sói à canalha, conceberam o tempo-real na história – e funciona assim: os fatos ainda nem aconteceram, mas já são balizas morais e passagens decisivas, históricas!, para a evolução da humanidade]…
De fato, a cousa, que julgo grave, deve ser discutida para muito além dos valores fundamentais da liberdade de imprensa e do direito ao sigilo nas relações jornalísticas. Restringir o debate a esses nobres conceitos seria não debater e não derrubar o que importa, concretamente: a perigosa idéia segundo a qual um blogue estatal que defende interesses político-partidários – e que nasceu estabelecendo a imprensa como inimiga número 1 – possa fazer algo próximo do que seja jornalismo.
Não pode. Não faz. E não fará.
Assusta-me, sem me surpreender, que a Petrobras e os jornalistas-publicitários [estão em toda parte e podem nos enganar por anos…] que lhe portam a voz, tenham a pachorra leviana [criminosa] de escrever e veicular por aí, com prazer, que o tal blogue vingativo, de conteúdo medíocre, terá decretado o fim de expedientes obsoletos e desonestos de apuração, edição e publicação de matérias jornalísticas…
Eu juro que gostaria apenas de falar sobre a pretensão desses caras, mas não dá. O leitor entende, para além dessas quimeras megalômanas, do que se trata? Saca o que vai oculto nesta presunção?
Não há dúvida de que o jornalismo praticado hoje no Brasil – no mundo – está carregado e sobrecarregado de vícios não raro inadmissíveis. Tampouco se pode negligenciar os limites informativos, a cada dia mais evidentes em face do galopar tecnológico, do velho jornal de papel. (A internet é muito bem-vinda e joga sempre a favor, não contra, e o jornalismo vai se adaptando bem, muito bem, a ela, ao dinamismo dela; porque é assim, de forma saudável e em permanente diálogo com a sociedade, que deve ser, com o jornalismo a criar soluções – parece óbvio, mas não é – para os problemas jornalísticos).
A questão, porém, é outra, e grave!, dissimulada por esta conversa fiada de jornalismo e ética e futuro: é a Petrobras a se configurar numa entidade totalitária, com pretensões [e ganas] de tudo fiscalizar e, por fim, controlar – o Brasil inclusive, de que se julga bem maior… Como já escrevi algumas vezes antes e conforme nos ensina a história, esses troços sempre têm as mangas arregaçadas – sempre dão os primeiros sinais – sobre a imprensa e a sua liberdade; é batata!
E eis, então: a Petrobras reinventando e abrigando o jornalismo – mas sem jornalistas!, uma condição muito particular a esta generosidade redentora…
O jornalismo que se apresenta hoje – com linhas editoriais nem sempre jornalísticas – é velho [ultrapassado] e muitas vezes velhaco. A Petrobras – que crê e investe no controle social pela mídia, e que tem, claro, horror à iniciativa privada – quer depurá-lo e, afinal, extingui-lo. E mais: quer acabar com o “oficialismo privado dos aquários das redações” para – assumindo o lugar [a Petrobras quer ser o jornalismo] – plantar, com manchete, lead e tudo mais, a burocracia pública e sindicalizada dos gabinetes e repartições aparelhados em dois mil escalões; e quer que acreditemos que tudo isso é muito bom e novo, um futuro promissor, quando sabemos [ou deveríamos saber], bem, no que dá, sempre.
No que dá: Franklin Martins – o ministro da propaganda e da verdade – como modelo de jornalista.
Aqui, não.


Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 16:07
Perfeito, Andreazza.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:40
Andreazza, Andreazza… eu sou Petrobras Futebol Clube.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:48
Edu, a gente joga no mesmo time: o do Brasil.
Abraço!
C.