por João Paulo Duarte - Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 11:27
O interessante de escrever em folhas de papel é que muitas vezes percebo-me dislexo, ignorante da mais simples sintaxe. Erro tanto que me envergonho.[(…) Nunca estive tão bem no meu papel de editor. No jornalismo, estou em grande forma, escrevendo rápido e ao vivo. Relacionando como nunca os acontecimentos, amadurecendo minha forma de escrever.(…)]
Meu momento é interessante: agora compro, junto com livros, cadernos. Estou maníaco-obsessivo por este dueto, leio dois livros e compro um bloco por semana; escrevo e leio compulsivamente. Comprei três livros que não sei quando vou ler e um bloco onde, acho, nunca escreverei. Tenho evitado as livrarias que vendem bons cadernos; minha mesa de cabeceira virou uma pilha de loucuras. (Mas estes cadernos não são lindos?)
Minha caligrafia tem vida própria. Às vezes arranco elogios pela letra bonita, os números bem desenhados. Noutros momentos são coisas horrorosas que ninguém entende – como se algo implorasse para que eu volte ao laptop.
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[(…) Rodrigo saiu de Barbacena com uns seis anos e veio para o Rio com um tio que tentava a sorte. O tio morreu oito meses depois de eles chegarem. Na época, tinha tantas dificuldades de fala que não conseguiu explicar pra ninguém o que tinha acontecido; foi encaminhado pra um orfanato no Flamengo. Comportado, ficou no abrigo até poucos meses antes de completar dezoito anos.
Há nove meses perambulava pelas ruas do centro. Tempo suficiente para ficar dependente de crack, ser espancado e violentado duas vezes. Rodrigo foi preso por roubo em dezembro e em fevereiro, e nas duas ocasiões foi liberado porque ninguém registrou queixa.
Ele estava completamente desorientado – poucas vezes teve oportunidade de fazer o que quisesse, sem ter que voltar pra lugar algum. A cidade era toda dele. Carregava uma mochila velha com uma calça jeans surrada, duas bermudas e três camisetas. No bolso tinha sete reais e quarenta e cinco centavos (uma nota de cinco, o resto era em moedas – duas de um, uma de vinte e cinco e duas de dez), a carteira de identidade – nova em folha – e uma carteira de trabalho. Ele foi orientado a procurar (frase não terminada)] (“Fogo no Viaduto”; Tribuneiros. Criado em: quinta-feira, 15 de maio de 2008)
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[I’m gonna sit right down and write myself a letter
And make believe it came from you
I’m gonna write words, oh, so sweet
They’re gonna knock me off my feet.
A lotta kisses on the bottom, I’ll be glad I’ve got ‘em
I’m gonna smile and say “I hope you’re feelin’ better”
Then close “with love” the way that you do
I’m gonna sit right down and write myself a letter, ah-huh
I’m gonna make believe it came from you] (Joe Young/Fred E. Alhert)
Eu nunca recebi uma carta de amor sequer. Já recebi, por escrito, desabafos, desaforos, elogios, cantadas e telefones. Declarações, entenda, nenhuma nesses anos todos. E a primeira vez que me declarei para alguém em folhas de papel – lembro-me – foi porque precisava receber uma carta daquelas. Desde daquele dia frio, longe de casa – e desde aquelas folhas brancas, sem pauta – não parei mais.
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O método não me importa. A coesão é paradigma da minha organização mental. Tenho lido a respeito de escrever e não chego à conclusão alguma. “Leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência” Escreverei em breve sobre o último livro que li de Italo Calvino [nota extra às Anotações vespertinas: ao fim da leitura pareceu-me que desistirei de escrever a respeito de “Lezioni americane – Sei proposte per il prossimo millennio, 1988”. Ainda não decidi.] “Há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar” (I.C.).
Não escrevo “como um arquiteto constrói”; ao contrário, escrevo como a maioria: “da mesma maneira como se joga dominó”.
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Enfim, voltei à rotina de leitura e, então, forço-me a escrever – movimentar-me – mas não consigo juntar idéias coerentes. Meu cérebro funciona expansivamente e não tenho encontrado poder de coesão.
Assim, justifico pela única vez algo a quem me lê: resolvi escrever estas Anotações vespertinas por não agüentar mais o cemitério de textos que escrevo no computador. E tem sido cada vez mais interessante escrever em cadernos – o que já faço há algum tempo, em textos mais pessoais, que já cheguei a publicar.
Parece-me um momento crucial na minha parca literatura: quando penso em escrever romances, meu cérebro me omite a capacidade lógica de escrever o que pode ser mais simples. Volto ao início, quando era incapaz de tirar uma nota razoável nas aulas de redação. As Anotações vespertinas resumem o momento e publicarei todas juntas. Meus textos terão coerência se lidos agrupados, mesmo que aleatoriamente.
[(…) aleatória para os que pensam que escrevo apenas realidades não tentarem relacionar, desta vez, o texto com minha vida particular. (…)]
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“O princípio condutor da estilística deveria ser que o homem só pode pensar com clareza uma única idéia por vez” [Sobre o ofício do escritor, Arthur Schopenhauer]


Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:05
O amadurecimento enquanto escritor é nítido…O paralelo feito entre o eu escritor e o eu leitor fica interessante até para quem não lê ou não escreve.
(…)
No futuro (distante, com certeza), onde já terás voltado a fumar e a beber, apressando o caminho que te levarás a ser doce lembrança em nossas vidas, venderemos (Eu e Marcão) esse baú de cadernos velhos com tuas obras inacabadas e/ou inéditas.
Certamente faremos dinheiro.
Gastaremos metade de todo este quinhão com mulheres, bebidas e jogos de azar.
A outra metade, no melhor estilo George Best, desperdiçaremos.
E assim te tornarás imortal, meu amigo.
Pelo menos para mim.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:07
Que beleza de comentário, bom Pian.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:13
O texto é que está bom, Andreazza.
O chicote tribuneiro deveria cantar mais vezes no lombo do Reizinho, forçando essa “pilha de loucuras” a sair do limbo do não dito.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:22
Rodrigo Pian é, atualmente, o maior comentarista da casa.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:24
Aliás: apenas por motivo do imenso trabalho, que me desencoraja, ainda não fiz a seleção dos melhores comentários tribuneiros de todos os tempos.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:28
Eu conto sempre com a colaboração do departamento de edição desta respeitada casa de jornalismo.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:53
Tamanha a beleza das anotações vespertinas, JP, prefiro me abster de quaisquer comentários, os quais - se bem me conheço - soariam piegas.
E acho que, dessa maneira, bem no sapato mesmo, sem me estender, terei encontrado a melhor forma (ou a mais pertinente, quem sabe) para lisonjeá-lo.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 12:57
Quem podia imaginar que tinha o desejo de receber declarações escritas de amor ? O amor que tinha por corações nada dados a escritas…
No rosto faceiro cheio de amor ,olhar iluminado que não percebo em muitos olhos acredite menino amado alguns nascem para declarar amor .Ofício digno e duro que poucos tem .
beijos
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 20:45
“alguns nascem para declarar amor .Ofício digno e duro que poucos tem”
Falando em comentário, que beleza de comentário, Ieda!
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 14:45
Muito obrigada.
Aceite um abraço carinhoso.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 11:59
Se servir de consolo, eu até que recebi cartas de amor, mas acho sinceramente que nunca ninguém me amou. Nunca ninguém foi capaz de ceder por mim, de abrir mão de algo, de se dedicar a mim, de me ver como realmente sou. Nem meu marido, nem meus antigos namorados. É por isso que o homem da minha vida continua sendo meu pai …
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 13:43
Larissa,
Acredite no amor.
A Bruna Demaison acreditou e me achou.
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 13:58
Adorei lê-lo!!!!
Quarta-Feira, 10 de Junho de 2009, às 18:41
Hey, não te escrevo cartas de amor, nem te amo, mas te dedico uma poesia boba e bonitinha, espero q fique feliz:
Chansons pour elle
XIII
Es-tu brune ou blonde?
sont-ils noirs ou bleus,
Tes yeux?
Je n’en sais rien mais j’aime leur clarté profonde,
Mais j’adore le désordre de tes cheveux.
Es-tu douce ou dure?
Est-il sensible ou moqueur,
Ton coeur?
Je n’en sais rien mais je rends grâce à la nature
D’avoir fait de ton coeur mon maître et mon vainqueur.
Fidèle ou infidèle?
Qu’est-ce que ça fait,
Au fait
Puisque toujours dispose à couronner mon zèle
Ta beauté sert de gage à mon plus cher souhait.
Verlaine
—-
tá no feminino, mas ok.