por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 2 de Junho de 2009, às 17:37
Há algo de Itaboraí no Reino da Dinamarca. Ou de Vargem Grande. Ou de Guapimirim. O Hamlet a que assisti domingo é mais do que uma experiência, é mais do que duas: é uma XXXperience. Nossos diretores estão cada vez melhores em legitimar a histeria coletiva como obra de arte. Depois de Luiz Fernando Carvalho transformar Machado de Assis numa micareta televisiva, Aderbal Freire-Filho transformou Shakespeare numa rave teatral.
O método é simples: ignorar distinções e sutilezas, e ganhar no grito. No original, Hamlet fala em prosa quando supostamente louco, e em verso quando em condições normais. Aqui, o príncipe fala sempre em prosa e parece louco do início ao fim. Mas por que deixá-lo sozinho nesta loucura, não é mesmo?
- Quem grita mais alto aí?
- Eu!
- Quem é mais afetado?
- Eu!
- Quem é mais espalhafatoso?
- Eu!
- Quem quer parecer mais louco do que Hamlet?
- Eu!
- Quem quer fazer o Fantasma do pai?
- Eu! Eu! Eu! Eu! Eu!
- Então liberta, DJ.
Na rave do DJ Aderbal, Polônio esperneia, Cláudio tem espasmos, Hamlet dá faniquitos, os fantasmas se divertem, e Gertrude e Ofélia só não passam mais vergonha do que o texto – este detalhe incômodo, desagradável, retrógrado, que só atrapalha nossos diretores. O texto está para o teatro como a bola para o futebol. A gente precisa se livrar desse problema.
Como se faz isso? Ora, com textos de apoio: aquele monte de letrinhas aleatórias que, em qualquer projeto gráfico, ocupam o espaço onde vai entrar o texto final. O Brasil tem uma produção riquíssima de textos de apoio passíveis de memorização. Para montar um Hamlet brasileiro, por exemplo, basta substituir as palavras do bardo inglês pelos versos de Djavan. Em lugar de matar Polônio dizendo “Adeus, mísero tolo, intruso e temerário!/ Tomei-te por alguém mais alto; aceita a sorte”, nosso Hamlet gritaria “Açaí, guardiã/ Zum de besouro um imã/ Branca é a tez da manhã”! Ninguém notaria a diferença. O importante é a teatralidade. No fim, a platéia aplaude a “garra”, a “raça” e o “sangue” que os atores (como um histérico e contorcionista Wagner Moura) deram no palco.
A primeira crítica a ver Marlon Brando atuar na Broadway, muito menos empolado que os demais, disse ter esquecido que estava no teatro. Eu, sempre que vou ao teatro no Brasil, tenho a sensação de que os atores estão me lembrando desde a primeira fala: “Ei, você! Está me vendo, rapaz? Olha que legal! Eu faço teatro! Você está no teatro!”. E eu, que jurava estar na Space Mountain, da Disney, agradeço comovido. [É a versão dramatúrgica do “Eu sou uma pessoa” assim-assado, do orkut, a que também agradeço, pois que – mui distraído - jurava se tratar dum elefante.]
O artificialismo é o elemento mais presente na cultura brasileira. Numa carta a Fernando Sabino, Mario de Andrade falava de certos rapazes que saem, no domingo à noite, com a mão no bolso da calça, acariciando o pau. “Uma certa dignidade impede eles da masturbação total. Então ficam nessa semi-masturbação dolorosa e indiscreta.” Pim-sicólogo que sou, preocupo-me muito com essas coisas. Por isso quero libertar nossos diretores de seus últimos vínculos com a realidade, das últimas travas morais que os impedem de montar uma rave completa. Se o texto original é a calça com que eles insistem em se cobrir, abaixo o texto!
Itaboraí não perde por esperar.



Terca-Feira, 2 de Junho de 2009, às 19:20
Não vi a peça.
Para falar a verdade, com exceção da obra que li numa daquelas edições que se compra em banca, a única versão de Hamlet que tive contato foi aquele filme do Zeffirelli com o Mel Gibson, que por sinal eu acabei gostando.
Mas olha, PiMainardi, está muito bom o teu texto.
Engraçado e muito inteligente.
A tua defesa da prosa e do verso shakespeariano é pra fazer sorrir da Bárbara Heliodora ao James Lipton.
Terca-Feira, 2 de Junho de 2009, às 11:31
Brilhante, Pim. Com efeito, a histeria é a melhor forma de enganar.
Terca-Feira, 2 de Junho de 2009, às 12:50
E o enganador deita na fama de ser um dos melhores atores do país. A peça chega a irritar - e o pior é a platéia que entra no clima.
Vergonha alheia do início ao fim.
Pareceu-me que Wagner Moura, o diretor e todo o resto não entenderam uma palavra do texto.
Talvez, meu caro Andreazza, seja melhor recomendar a eles um certo curso na Austrália.
Em tempo: Andreazza, os tribuneiros devem saber que, há muito tempo, falamos que a encenação de Shakespeare sempre é um atentado ao texto. Muito antes desta peça (que parece superar negativamente qualquer estimativa que fizemos sobre o assunto).
Terca-Feira, 2 de Junho de 2009, às 17:07
Este final de semana aqui em Brasília tem estreia: Zaratustra
Um bocado de gente ainda desconhecida
+
texto intenso
Vamos ver se o resultado é melhorzinho. Mando notícias.
Terca-Feira, 2 de Junho de 2009, às 20:58
Eu vi o tal Hamlet. E odiei.
Terca-Feira, 2 de Junho de 2009, às 17:09
Mariana e demais,
O teatro era o da Caixa cultural, o texto era Zaratustra, o figurino era ótimo, som, iluminação, ar condicionado, tudo perfeito e funcionando; um encarte muito bem feito, de papel de qualidade, continha o que prometia ser uma excelente peça.
Tudo começava lá fora, com o público ainda na fila de espera; o texto, questionando a massa…
Tudo pra dar certo! Mas 15 minutos de espetáculo tornaram-se insuportáveis. A montagem não era pouco ruim. Era MUITO ruim, sem enredo, sem conexão com o texto, com o contexto, com nada.
Aos 20 minutos, todos reclamando que a peça era horrível. Ora, então vamos embora!!!
LEVANTEMO-NOS…
Ah não… melhora…
Melhora o escambau! Sou a favor de levantar e sair, olhar bem para a cara de todos e ir embora! Rebelde, revolta, triste com os críticos, chateada com a massa.
Sou do partido do LEVANTE!
LEVANTE E VÁ EMBORA DO TEATRO quando a peça for ruim!!