por C.A. - Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 13:16
O excelente blogue Buteco do Edu, do carioca maior Eduardo Goldenberg, publica hoje um texto - Cenas tijucanas [aqui] - a ser lido com urgência, mormente pelo parágrafo, de resto hilário, em que descreve, com precisão antropológica, os cidadãos que, visitando [por exemplo] o bairro alternativo de Santa Teresa, transfiguram-se, artificialmente como sói, em outras pessoas, incorporando hábitos e vestes daquilo que o nosso Felipe Moura Brasil chama de “sujismo”.
Tomo a licença, caro Edu, de copiar um trecho:
“[…] O casalzinho jovem mora em Ipanema e resolve ir a Santa Teresa no sábado pela manhã. Tomam um táxi e saltam no Largo da Carioca a fim de tomarem o bonde pra Santa (o habituè adora chamar Santa Teresa de Santa). Entram no bonde. O bonde parte. Atravessa os Arcos da Lapa e na primeira curva, já dentro do bairro, começa o espetáculo. Ela abre a mochila. Saca uma touquinha de crochê, tira o All Star e veste uma sandália de couro, coloca uma bata colorida sobre a camisa de malha, põe uns 6, 7 anéis nos dedos da mão, estende o anel de osso preto pro namorado, que o atarraca no polegar da mão direita. Ele rasga a bermuda jeans, como um possesso. Joga o par de tênis dentro da mochila da namorada, veste um par de havaianas surradas, despenteia o cabelo, coça a cabeça como um menino cheio de lêndeas e saca do bolso da frente o cigarrinho de maconha piscando o olho em direção à namorada:
- Máum? - é assim que essa gente fala “vamos fumar um?”.
E passam a tarde felizes zanzando pelas ruas do bairro alternativo. […]”
Em seguida, como não?, sobra também para a Lapa, a velha Lapa, hoje uma grande, uma monumental farsa, lá onde, como bem nos lembra Eduardo Goldenberg, já não se pega mais sequer uma gonorréia - o absurdo!
(Outro dia, aliás, por ocasião do texto - texto de formação, a ser lido pelos jovens, nas escolas - que Felipe Moura Brasil escreveu depurando este bairro ora medíocre e engessado, Lapa, o túmulo do sambista, merecemos, Pim e eu, as alcunhas de “topetudos”, que não compreendi, mas achei boa, e “barrenses”, logo eu, que nunca fui à Barra da Tijuca, dadas pelo mui ofendido jornalista Alfredo Herkenhoff, defensor lapeano contumaz e brilhante editor do bacaníssimo Correio da Lapa, blogue que, injustamente, quase ninguém lê; eu leio e recomendo).
Enfim, tudo para lembrar que Santa Teresa e Lapa encontram-se diariamente na PUC; e que me recordo, como se ontem, do dia em que vi, no estacionamento da Pontifícia, uma adversária política [sim, eu fiz movimento estudantil], infantil e lindamente alternativa, descer de seu jipe pajero importado, repuxando e alargando a saia rodada e a blusa sem sutiã, em seguida desgrenhando artisticamente os cabelos loiros e lisos, corar longamente ao dar de cara comigo, perplexa, afinal desmascarada… Até hoje eu lamento não ter sabido capitalizar politicamente aquele momento.


Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 13:48
O blogue do Herkenhoff é, de verdade, muito bom.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 13:52
Foi o que disse, bom Pian.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 15:00
Se eu sou topetudo, o Andreazza é a Rapunzel.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 15:10
Não lamente, C.A. Fazer política com caráter é uma virtude que você deve manter. A tal adversária merecia o golpe, mas você foi um nobre oponente.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 15:11
Sobre a PUC, pronto, falei: eu discordo completamente do endeusamento do BOPE, mas achei linda, linda, linda a cena em que o PM surra um pseudomilitantezinho da faculdade.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 15:19
Secchin, o grande momento - o maior - do cinema brasileiro desde a pornochanchada.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 16:36
C.A, concordo. Só não foi melhor do que a fala de Lima Duarte em “Os sete gatinhos”: “Quem desenhou caralhinhos voadores na parede”.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 16:43
Acho que os “Diversos” da PUC mereciam um texto à parte, de tão ridículos em sua esquerdice burguesa. E olha que eu sou um cara bem simpático à esquerda, eleitor fiel do Lula e tudo o mais. Mas aquela hipocrisia de hippie que dorme no ar-condicionado é patética. E o discurso contra a violência de gente que financia o tráfico é assustador. Eu defendo, sim, que se discuta a legalização da maconha. Mas que se legalize antes e fume depois. Fumar enquanto é ilegal é ser sócio do crime.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 16:47
Mais irritante ainda era a preguiça intelectual desse povo. Por que, como disse, eu tenho simpatia, sim, por várias idéias da esquerda. Mas não conseguia respeitar certos elementos. O mínimo que eu esperava de quem se dizia marxista é que tivesse lido Marx. É condição básica. Só deixar de lavar o cabelo, pra mim, não faz de ninguém um respeitado teórico de esquerda.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 18:07
Andreazza, meu caro: grande sacada, grande sacada! Eu, egresso da PUC e violentamente afrontado por ser da Tijuca, e já nos idos de 1987 (fui coleguinha de nosso atual prefeito), sei e-x-a-t-a-m-e-n-t-e do que você está falando. Maconha na “vilinha”, combinações sórdidas no Pilotis com relação aos programas descolados do final de semana, os carinhas esfregando a sola do pé na terra dos jardins para ganharem aspectos de sujos, as patricinhas rodando bolsas Louis Vitton atrás do melhor partido. Vomitante. Forte abraço, obrigado pelos elogios, imerecidos.
Sexta-Feira, 22 de Maio de 2009, às 18:10
Edu, esta da rapaziada a esfregar os pés na terra eu perdi. O pessoal hoje fica sujinho com bem menos trabalho, pagando caro, porém…
De resto, esta Casa tem imenso gosto em divulgar as coisas boas da tão apoucada internet - e o Buteco do Edu está entre as melhores páginas da rede, com certeza.
Forte abraço!