por João Paulo Duarte - Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 13:50
Eu sei que tem muita gente que faz de tudo pra não me encontrar – por me achar figura insuportável – e, por isso, não dá as caras nos bares, restaurantes (e na praia) do Leblon. Pois os tranqüilize, caso conheça algum deles. Há, no momento, alguns lugares que eu não entrarei em hipótese alguma no meu bairro de estimação. Pior: pensam que o Leblon talvez não tenha mais a cancha que me apaixona desde que me tenho por pensante.
Não sou capaz de escalar o time do Fluminense de 1998, nem mesmo listar, com
exatidão, os nomes desses locais; o que me acarreta é a repulsa que estes arrolamentos me causam – por combalirem meus amores. O Leblon repleto de lugares sem estirpe, de pessoas frugais de espectro boêmio é Fluminense na terceira divisão: incoerências culturais e sentimentais do Rio de Janeiro.
Há dez anos, faço rotas interessantes pelas ruas do Leblon – sempre a pé. Saio da Selva de Pedra, passo pela Humberto de Campos, onde encontro o incontornável Victor Gomide, paramos juntos na calçada em frente ao Bracarense e papeamos, antes de seguirmos para o Baixo Leblon. Posso também descer com meu irmão Marcos André pela Conde de Bernadote – sob gargalhadas – contando mulheres interessantes nos bares de lá, até chegar à Dias Ferreira, para cruzá-la inteira, rumo ao Embalo Bar. Tem ainda as vezes que me encontro com o Andreazza no Esch, e juntos vamos beber a saidera no Jobi – passando entre a Guanabara e o Diagonal – já meio cambaleantes pela quantidade de uísque. Fato é que eu fazia isto sempre com a cumplicidade dos amigos e do bairro, anônimo, como até os artistas mais famosos conseguiam, há alguns anos – quando a intenção destes era justamente não aparecer. Mas já faz um tempo que quase-famosos começaram a usar o Leblon para “manecar”,
e tudo para mim começou a degringolar.
Suportei durante alguns anos – enquanto tinha que aturar, apenas, os “manecos” freqüentando os mesmo lugares que eu. (O que é justo, todo mundo tem o direito – e deveria ser um dever – de conhecer e aproveitar a noite do Leblon). Mas tentam dominar o bairro os empreendimentos dos aparecidos. Gente que quer ficar ali com atendimento de São Paulo, com a cara da Barra da Tijuca, e reclamar que não tem estacionamento. Uns equivocados que não têm a mínima noção do que aquilo significa pra mim, pro povo do Embalo, pros fumadores do Esch, pra quem fica na dúvida entre o aperto do Jobi e a luz branca do Diagonal, ou demora pra escolher onde comprará um pãozinho (Garcia, Rio Lisboa ou Talho?); que escolhia se a nova conquista valia um Manekineko ou um Sushi Leblon; para quem gosta de beber um morango-com-cacau e depois procurar um novo livro tranquilamente durante uma madrugada de insônia, ou para alguém que antevê a ressaca e encara uma pizza de calabresa com o sol já aparecendo.
Não consigo aceitar o subproduto do mundo real. A fast-boêmia na alimentação rápida inventada para satisfazer quem não consegue viver o mundo real porque não entende que é bem melhor quando as coisas são naturalmente interessantes. O Leblon é agora formado por apaixonados por lugares-travestis – daqueles com peitos de silicone, cabelos esticados e que ainda satisfazem os enrustidos. O Leblon era repleto de tarados por lugares-mulheres, que amavam os defeitos e sabiam aproveitar as delícias de cada qualidade peculiar a elas. O restaurante que abriu ao lado do Embalo (e todos aqueles estabelecimentos novos na Ataulfo entre a Praça Cazuza e a General Artigas) é aquele travesti que desfilou sei lá onde e enganou um
monte de gente que não sabe o que é mulher de verdade. O Jobi é aquela namorada linda, gostosa, inteligente, companheira e que tem uns defeitos que nenhum homem entende, mas se apaixona; uma mulher de verdade.
O pior é que esses lugares se fincam no Leblon por causa de quem circula por lá, para aproveitar a aura boêmia, e acabam atraindo quem não conseguia se adaptar ao bairro. Enforcam a atmosfera que os atraiu e me impõem o estilo Barra da Tijuca de noitada. Nunca fui à Barra, mas ela veio até mim.
Mas o Leblon vencerá. Venceremos. E continuarei fazendo uma tabelinha com o Andreazza, como uma hipotética jogada entre Fred e Íbson, enquanto os Ronaldos pensam que estão no comando.


Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 14:36
” Jobi é aquela namorada linda, gostosa, inteligente, companheira e que tem uns defeitos que nenhum homem entende, mas se apaixona; uma mulher de verdade.”
Bem, só posso dizer que você é apaixonante e apaixonado, parabéns pelo texto, infelizmente a mediocridade anda se alastrando por todos os lados…eu e uma amiga fizemos um tour por SP na quinta feira de manhã, subimos ao Banespa, CCBB, Joquey, Páteo do Colégio, Largo de São Bento, Pinacoteca e descobrimos a cidade sob um certo olhar, o nosso.
Me lembrou meu tour por Laranjeiras, Catete e Urca, descobrindo pessoas e lugares que só os sensíveis vêem.
Parabéns novamente.
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 19:38
Puxa, quem diria que o mais novo entusiasta da yoga, meditação, ex-fumante e ex-boêmio ( sic ) escreveria um texto exaltando os pilares da boêmia lebloniana!!! Adorei!
Obrigada por me apresentar ao Jobi anos atrás… Gosto tanto do lugar que nem a minha perna quebrada me impediu de ir até lá tomar o meu chope semanal!
bjs
I.
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 17:06
Fábio Noronha, Adriano, Adilson, Yan, Cadu, Bebeto Campos, Gil Baiano, Paulo César, Jorge Luís, Roni e Magno Alves.
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 01:17
Bem, só posso dizer que apesar do irmão e da mídia, Fred é cruzeirense.
E que o Flamengo está para o Botafogo, assim como o Cruzeiro está para o Flamengo.
E que o Bar do Sávio é bem mais interessante que o Leblon. Garantido.
E que é bem melhor fazer da vida um filme com roteiro original do que uma novela que se repete a cada dois anos.
E que mesmo assim adoro João Paulo Duarte.
É berjo.
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 10:53
N., o grande Cruzeiro é uma força meramente regional, assim como o glorioso Botafogo. O Flamengo é de outro universo. Acima; bem acima, claro.
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 17:20
João,
Enobrecido pela sua menção no depoimento sobre o nosso jardim, só seria capaz de fazer uma correção - correção essa que seria, inevitavelmente, censurada pela Lei Bravo Chato 24024. Ouso fazê-la, pois:
(…) “Posso também descer com meu irmão Marcos André pela Conde de Bernadote – sob gargalhadas – contando mulheres” (…)
(…)Posso também descer com meu irmão Marcos André pela Conde de Bernadote – sob GARGAlhadas – contando mulheres (…)
P.S.: Posso ser o Edcarlos, na retaguarda da tabelinha entre Ibson e Fred?
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 19:44
O bom-gosto por lugares e pessoas herdou da mãe……….
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 00:54
O Leblon pode ser o lugar das mulheres ou até dos metafóricos travestis. Mas certamente não é o tradicional bairro boêmio carioca, como quer fazer crer o autor.
O português escorrreito e o ritmo marcado fazem o texto gostoso de ser lido e quase me convenceram de que o Leblon teria a característica da afamada boemia carioca.
Mas não. Definitivamente não. Quem percorre semanalmente, no fim dos exaustivos dias de trabalho ou durante as noites dos finais de semana, as ruas Mem de Sá, do Lavradio, a Riachuelo ou a Rua dos Invalidos sabe que a boemia carioca morava, mora e sempre morará na Lapa.
É de lá que saem os tortuosos mas sonoros acordes do samba malandro e descompromissado que sacode a alma do carioca. Na marcação das suas levadas, a Lapa deixa seus frequentadores apaixonados e revela um estilo de vida.
É lá que se entende o que é de fato a democracia. Em uma mesma calçada, diante de um mesmo pé sujo, em mesas muito próximas, podem ser encontrados os tradicionais malandros lapenses, os travestis que exercem o seu mister na Glória, as boêmios vindos de todos os cantos e, até mesmo, os Patrícios e Patrícias do Leblon e de Ipanema.
O Leblon, de fato, é lindo, tem seu charme e chama a atenção de quem por lá passa. Mas a alma e a boemia cariocas continuam morando na Lapa.
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 09:55
Felipe, cada um tem a sua boemia. No meu caso e no do autor, ela tem, felizmente, centro no Leblon, sim, mas se espalha, no meu caso particular, indo até Madureira, berço do meu Império Serrano; nunca, porém, passando pela Lapa… Questão de gosto, não de boemia - porque há boêmios e boemia, acredite, até na Barra da Tijuca. E outra coisa: calçadas repletas de gentes diferentes bebendo e convivendo em harmonia é coisa natural, demonstração talvez de civilidade, mas nada tem a ver, por favor, com democracia, este termo ora tão perigosamente banalizado. Um abraço!
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 15:47
“os travestis que exercem o seu mister na Glória”.
Foi o comentário mais hetero que eu já li nessa casa.
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 22:09
Isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais.
Segunda-Feira, 11 de Maio de 2009, às 05:37
Nossa, que problemão cara! O que vai ser dos moradores “tradicionais” do Leblon com essa invasão? Fala sério! Deixa de ser bairrista. Você é do tipo que não sabe o que acontece fora do seu mundinho da Zona Sul. E ainda se acha melhor que os outros.