por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 7 de Maio de 2009, às 12:05
Na semana passada uma operadora de telefonia reuniu treze mil pessoas em uma praça de Londres para um karaokê coletivo. A multidão cantou Beatles, Britney Spears e as cenas captadas farão parte da campanha “A vida é para ser compartilhada”.
Não lembro se foi durante a brincadeira de “Qual é a música” ou depois do nosso karaokê, só que ele pegou o microfone, um tanto embriagado pelo vinho, outro tanto pelo momento, e confessou como queria que sempre estivéssemos reunidos ali. Foi para isso que o pai construiu a casa, e em breve os nossos filhos estarão presentes jogando Wii. Vai ser engraçado ver crianças com um videogame no jardim da fazenda, e mais inusitado uma delas chamar a mãe e ouvir “peraí, mamãe está imitando o vôo de Dirty Dancing”. Mães não pulam ao som de Trem da Alegria, pais não se jogam de joelhos no chão para escorregar até o outro lado da sala. Mães e pais são adultos e adultos são sérios.
Já houve a moda do pogobol, bambolê, show do Araketu, poucos meses atrás dançávamos em cima da mesa, quem puxou o coro de “quer casar comigo”? Como de repente passamos a falar em contas, casa, crianças, quem vai cuidar dessas crianças? Não sei se o anti-spam bloqueou a mensagem, mas não recebi meu aviso de adultice.
Ela tinha 26 anos quando eu nasci. A não ser que tenha lido um manual, não tinha a menor idéia do que fazer com aquela pessoinha chorona. Na primeira vez em que a pessoinha chorou um pouco mais por um coração partido ela própria tinha vivido a mesma situação não muitos anos antes, e não muitos anos antes daquele coração partido ela corria pra casa da mãe pedindo ajuda, repetindo uma cena que acontecia há gerações. A maior mentira que eles – os adultos – contam não é sobre Papai Noel, a bomba é que são bem pouco diferentes de nós. Vai ver meu pai tinha vontade de me colocar no carrinho de rolimã, minha mãe fazia comigo o que tinha feito com as bonecas de pano. Como em um passe de mágica eles aprenderam a tomar decisões.
Vai ver nunca estamos completamente prontos. Ninguém sai da faculdade formado nem tem certeza se vai bancar o financiamento, não existe no tabuleiro “avance vinte casas” nem todas as casas têm cartão de instruções, é de pouquinho em pouquinho. Vai ver todos os presidentes de multinacionais jogam Guitar Hero quando dizem que não querem ser interrompidos e os grandes líderes mundiais brincam de pique-esconde nas reuniões do G-8. Preocupante seria eles nunca pensarem nisso.
O texto do dia das mães acabou parecendo texto do dia das crianças. Vai ver é porque agora eu sei que em alguma parte delas existe uma menina igual a mim. Elas sabem que mais tarde vai esfriar, que a gente não está bem apesar de dizer que não é nada e o melhor remédio pra febre, mas também sabem dançar em cima da mesa. O que elas dominam e ensinam é a arte da vida ser compartilhada. Se for em uma fazenda com karaokê e Wii fica bem mais fácil.


Quinta-Feira, 7 de Maio de 2009, às 18:04
Esse teu padrão de vida está ficando muito elevado pra mim, Bru.
Fazenda só se for um sitiozinho em Macuco e Wii só se for da uruguaiana.
Quinta-Feira, 7 de Maio de 2009, às 18:19
Sensacional como sempre, Bruna!!!!!! Adorei!
Beijos
Quinta-Feira, 7 de Maio de 2009, às 18:46
“Você me diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais… Você culpa seus pais por tudo. Isso é absurdo. São crianças como você. O que você vai ser quando você crescer…” Pais e filhos - Legião Urbana
Quinta-Feira, 7 de Maio de 2009, às 21:44
É filha , nunca estamos prontos, mas ao mesmo tempo estamos, o importante é amar voces e ter um dia maravilhoso com os quatro rindo e brincando. Ana
Quinta-Feira, 7 de Maio de 2009, às 14:24
Bruna e Ana Demaison,
“A arte da vida ser compartilhada” tão bem descrita por você, como uma menina lembrando saudosa do confortável útero materno. É verdade. Crescemos e neste processo confuso e paradoxal, muito rápido, vamos perdendo a ternura, pois no jogo da vida só há lugar para os ganhadores, os perdedores e os medíocres. Que merda,não? Poderia existir um 4º lugar, talvez a comunidade alternativa em que nasceu, referida na sua pequena biografia do site os tribuneiros?
Nem todas as mães “dominam e ensinam que a arte da vida é ser compartilhada”. Você possui este talento e está pronta pra ser mãe, além de, naturalmente, escrever, escrever e escrever.