por C.A. - Quarta-Feira, 6 de Maio de 2009, às 00:30
Eu não choro; nunca chorei. Sinto, às vezes, a angústia do choro, a angústia transbordante do choro, de se desanuviar, a represa prestes a se romper, sucumbida à pressão daquela correnteza minha – mas não.
Esta dor, que me comove – porque eu me emociono, eu sei me emocionar, eu alcanço –, ela simplesmente não se materializa, não chove em mim, não rega; não desafia, por mangue, o cerrado preto de minha barba seca, o cerrado escuro de meus espinhos.
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Há, contudo, uma explicação científica – médica – para o meu choro inexistente, para a estiagem nordestina, sertaneja, de minhas lágrimas. Quando criança, bem pequeno ainda, eu tinha descontrolada a glândula lacrimal, segundo me contavam os mais velhos; e era, portanto, um bebê marejado, que chorava sem dor o tempo todo, que chorava ao bastar dos olhos abertos – os “olhos de banheira”, como dizia a minha avó –, e me foi preciso uma pequena intervenção cirúrgica, brevíssima, simples, mas que, excedendo-se, lacrou de vez a nascente de minhas águas.
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Muitos anos depois, a perder esta avó querida, ao vê-la morrer, ela que era o meu carinho todo, ao senti-la entregar-se, decidida, de mãos enlaçadas em mim, com as últimas forças todas naquele aperto-adeus, senti que chorava, que extravasava-extrapolava o erro médico, que as lágrimas me ocorriam, corriam, e não, não – não havia lágrimas, sal nenhum, mas eu chorava, não havia quem dissesse, mas eu chorava, eu me desaguava, todo, por dentro, eu sentia, a enxurrada interior, eu chorava, eu chorava, lágrimas mudas, lágrimas de devastação, e me culpava por que não houvesse quem me pudesse perceber a dor, a minha, o afogamento, porque eu não me inundava da imagem da dor; e então que tive a compreensão definitiva, a experiência-caatinga da solidão.
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Escrevi bem antes que cedo me desliguei, após uma ação fracassada, do que fosse coragem, o que será verdade, porque coragem pressupõe desafiar a tragédia, possível, sob a confiança no triunfo, à consciência do triunfo, o desejo imperativo do triunfo – e venho de me lembrar do dia em que, deliberadamente, lancei-me à morte, simplesmente, à morte, sem mais, sem coragem, sem desejo, sem querer restar de pé, glorioso, à morte.
Eu talvez [talvez] me quisesse mitificar, ser um herói frente a meu irmão e os amigos, de juventude fabulosa, gênios da bicicleta, veículo que nunca comandei, que se jogavam, à velocidade automobilística, numa ladeira, sem freios, que a justa lembrança impõe que se diga aos 90º, ao fim da qual pareciam ter descido um escorrega de piscina, todos de pé, triunfantes senhores da montanha; e eu fui acompanhá-los, para morrer.
Meu irmão diz que se recorda apenas do instante em que eu, pouco adiante dele, perdi o controle e voei, de todo entregue, ido, de todo, oferecido à ralidão de pedra e terra, àquele chão encravado, inscrito em dentes [em dentadas], eu, um boneco cuspido para o próprio sangue, do que me vestia, tragado pelos próprios ares, do que me abafava, debatendo-me eternamente até o momento horizontal em que, estirado, sem gloria alguma, mas ciente de que vivia, senti-me extraordinário.
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E havia as brigas… Não sei, honestamente, porque isso me ocorre agora; mas coisa que me aflige – que sempre me afligiu – é briga. Duas pessoas brigando, trocando socos, é a mais contundente demonstração da falência humana; é a derrota do diálogo, da argumentação, a derrocada do texto… E talvez que já me perca em especulações intelectuais, por que duas pessoas brigando é simplesmente um horror; é feio, ora.
Sempre gostei de boxe, da luta, esportiva, no ringue, mas decerto que pela consciência da mediação – do arbítrio, da lei. À rua, porém, sob os golpes do imponderável, sem regras, duas pessoas brigando é a escritura de alguma forma de morte; é a expressão mais imprevisível da decadência, e eu resto sempre temendo por que alguém lance mão de uma garrafa de vidro quebrada, ou de algum porrete, e que o confronto se derrame num lento definhar, talvez num corpo desacordado, mole, inconsciente, espancado, que se esvai aos poucos… Ou que talvez sobreviva, aleijado, entrevado… E eu resto sempre esperando – torcendo – por que alguém saque uma arma de fogo e dê cabo logo daquilo.
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Uma vez, aos doze anos, eu briguei – no colégio. E briguei com um então bom amigo, que me provocava muito – não me lembro por quê –, estimulado pelos colegas brigadores experientes, os mesmos que me compeliam à reação. Bati muito e apanhei muito [sem saciar a claque], cansei-me sobretudo, porque não éramos de briga e despendíamos energia excessiva, para o deleite – a luta patética dos amadores, mais ou menos como ficou conhecida – dos curtidos brigões da platéia, que nos dias seguintes, em termos mui pouco heróicos, repercutiriam, penso hoje que com razão, o espetáculo vexaminoso que fora aquele combate sem vencedores.
Não saberei dizer de meu oponente, a quem nunca mais vi, mas lutei, já então com esta consciência, para me integrar – para ser aceito entre os mais fortes, os que se mediam todos os dias, brigando na rua, em bandos, entre gangues. Sem sucesso.
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Houve meu velho avô, a árvore frondosa, pai de papai, sobre quem foi sombra decisiva – e talvez que meus gostos, meus vícios [caros], tenham fé nele, em meu velho avô; porque das minhas memórias de moleque a mais forte é aquela em que ele, corpo imenso sob o sol, de que era todo o bronze, pedia-me que lhe preparasse o uísque, muito gelo, um pouco d’água, no copo curto, cristal maciço, como um troféu.
E eu então ia, claro, cuidadoso-orgulhoso; e ele assim, mexendo os cabelos desalinhados de prata, estimulava-me – teria sete anos – a provar o scotch que servira, criticando-me [o mais comum] quando erradas as medidas, elogiando-me ao acertar das doses; e, de qualquer maneira, olhando-me longamente, ensinava-me que o bom uísque, para além das marcas e anos de maturação, era aquele, qualquer um, que se nos bem descesse ao primeiro gole, que nos correspondesse ao primeiro gole, sem dúvidas, imediatamente; e que se a este primeiro trato, ao segundo no máximo, o encontro se mostrasse forçado, melhor seria não beber.
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Ele apreciava especialmente o Buchanan’s, de que possuía muitas garrafas, algumas das quais conservo ainda hoje, não raro abrindo uma e a bebendo inteira, sozinho, arrebatado pela noção cristalina de passado que um tão antigo uísque fundamenta.
O poder de uma bebida curtida pelos anos, anos já incontáveis, decerto que imprecisos; este poder dos tempos no líquido, na garrafa velha, poder dos meus tempos, herança do meu sabor original, este poder é sentimento que ainda hoje me comove; porque, de alguma maneira, encontro-leio nessas garrafas a concretude da minha linhagem, a genealogia dos meus goles, dos meus goles afetivos, do meu malte sangüíneo; a materialização do passado, do legado, dum passado meu, dos meus, os subsídios para acreditar, talvez feliz, certamente apaziguado, que, de algum jeito breve, terá valido.
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Era um homem lindíssimo, o meu avô, de uma presença magnética, enorme, largo, espaçoso, embora não fosse alto. (Embora não fosse alto, era – se me explico). Transformava o ambiente em que chegava, para melhor, onde quer que fosse, estivessem lá as pessoas mais cativantes do mundo – ele chegava e era.
Com aquele sorriso, ele chegava e era, com aquele sorriso absurdo, aquele sorriso de que jamais me esqueci e que, quando otimista, em meus melhores dias, penso reproduzir.
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E como fumava!
Em suas fotos, sem exagero, não há sequer uma em que o cigarro não apareça; e era de fato um atrás do outro, inclusive no automóvel [um Galaxi!], trancado, ar-condicionado ligado, do que me lembro muito bem, eu no banco de trás, e ele achando graça de que todos reclamassem – menos eu, que lhe era solidário, que lhe era cúmplice: eu gostava.
Depois, ele parou; teve de parar, por grave motivo de saúde, ainda que inútil, pois que morreria, pouco mais tarde, de câncer no pulmão. (Não houve um dia de sua fase terminal em que não se anunciasse profundamente arrependido pelos meses em que deixou de fumar – e então gargalhava). Interessa ora contar que, neste interregno – porque logo voltaria ao cigarro, que fumaria até morrer –, dedicou-se, por extraordinária recomendação médica, ao charuto, que, no entanto, acendia um no outro, e tragava, genialmente.
Destas lembranças – do período em que fumou charutos como cigarros – nunca me esqueci; nunca me esqueci daquele cheiro ruim, eu menino ainda, cheirando mal a fumaça, desconfiado daquele hábito bruto, ao mesmo tempo atraído por aquele prazer tão misterioso, algo secreto, prazer do mais velho, do paladar revelado-apurado, gosto maduro, experimentado, conquistado, e eu queria, eu desejava aquilo pra mim; não o cigarro, que considerava vulgar, comum, rasteiro, ordinário, mas o charuto, eu desejava aquele prazer pra mim, aquele prazer que fechava, que encerrava alguma coisa, que me montava um sentido, e bem cedo decidi que me forçaria aos charutos, que os fumaria com entrega, que lhes conheceria o sabor, as nuances, as raças todas – até possuí-los, até que fossem meus.
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Pelos sete, oito anos, derrotado pela juventude que invejava, meu pensamento-desejo mais constante já era por envelhecer – pela velhice, por me livrar dos pesos, das cobranças, das pressões por crescer e construir…
É engraçado, mas sinto, muitas vezes, a saudade ao mesmo tempo arrebatadora e pura das minhas pequenas e raras coisas de menino, de adolescente, de jovem homem promissor – das miudezas e espaços breves que, com esforço, conquistara, arrebanhara para mim; a possibilidade, por exemplo, de passar sozinho uma noite de sábado, quando, para todos, aquilo era um absurdo, uma excentricidade.
Hoje, não mais. Hoje é comum.
Envelheci por fora, afinal; em certa medida, como sempre desejei, aos sete, oito anos, e aos quinze, aos vinte, aos trinta anos, como sempre desejei: a aparência alinhou-se enfim ao espírito ancestral, e me pego então saudoso dum tempo que, salvo essas brechas de silêncio íntimas, foi-me, lá fora, duro e dorido, mas em que, nunca entendi por quê, a despeito de ausente, sempre fui requisitado, convidado, querido… E hoje não mais.
As pessoas – os meus poucos e tão bons amigos – habituaram-se à minha solidão, à minha tão almejada solidão, habituaram-se, para o que talvez tenha contribuído a idade avançada e, certamente, a doença.
Faz pouco escrevi um conto, que julgo ruim [e depressivo], em que o personagem, tipo cerrado, desde criança envelhecido, mais do que desejar a velhice física e o sossego da idade – valores que podem ser [e são] sempre questionados –, deseja e afinal encontra a paz, insuperável, na doença, no câncer que o legitima, que lhe avaliza a alma; e isto é [seria] um pesadelo.


Quarta-Feira, 6 de Maio de 2009, às 11:52
Não sei se você está com câncer, meu amigo. Dada a jovialidade que apresentas em cada sábado de tapas mexicanos e jobi, duvido muito.
Mas a ausência de lágrimas pode ser Síndrome de Sjögren.
(…)
E lindas as palavras sobre teu avô.
Quarta-Feira, 6 de Maio de 2009, às 18:09
Todas tão boas as “Mémorias inventadas”, que ressinto ser a última.
Uma das piores coisas da velhice, como disse Chaplin, é que os velhos ficam sem defesa.
E o seu avô, o da vida real, era uma figura impactante mesmo. Não dá pra lembrar dele sem pensar no sorrisão aberto. E na cor linda também.
Quarta-Feira, 6 de Maio de 2009, às 21:34
Sera que de nenhuma forma sai uma lagrima dele? Conheci alguem que teve isso, mas um dia a lagrima saiu…