por C.A. - Quarta-Feira, 29 de Abril de 2009, às 12:54

O Brasil receberá, em poucos dias, com pompa de estadista [de democrata], o terrorista Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, uma ditadura racista sanguinária; e como se a vergonha já não me fosse imensa, incontornável [como podem!?], convalesço mal da forma espúria, rasteira, inaceitável, com que o presidente da República explorou [explora] - eleitoralmente - o câncer da primeira-ministra e candidata ao trono Dilma Roussef, a quem desejo a melhor e, como deve ser, a mais privada recuperação.
Tive ânsia de vômito diante da entrevista coletiva - sob aparato de propaganda oficial - em que esta senhora anunciou, com coragem!, a doença e os passos do tratamento; e ali antevi o desdobramentos, inclusive jornalísticos [incrível!], do evento, as manchetes, as viagens pela nação, os pedidos por que lhe rezassem à recuperação: Dilma Roussef, valente ex-guerrilheira, poderosa ministra de estado, comandante do [ficcional] PAC, que, triunfando afinal sobre um câncer, está pronta para ser a primeira mulher, a heroína, a presidir o Brasil.
Não deu outra. E é triste, leitor tribuneiro. Nós pioramos; vamos piorar ainda. A vala é logo ali - e vamos com tudo.
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A propósito, O Globo publica hoje um excepcional artigo de Elio Gaspari - “Com essas coisas não se brinca”, em que nos lembra das enfermidades, de resto fatais, que derrubaram Costa e Silva e Tancredo Neves.
Sobre este último, porquanto muito me lembre da senhora Roussef, gostaria de registrar que nunca na história deste país houve um político mais vaidoso e egoísta - o que jamais dará certo. Tancredo queria ser presidente - e ponto final. Não estava nem aí para o Brasil. Era ávido - cego - pela presidência, para a qual, tarado, julgava-se nascido e destinado… Queria a faixa - e faria de tudo por ela: pela posse, pelo poder. Doente, muito doente, fazia mais de ano [mais!], amarelo a cada dia mais [morto-vivo, como se vê na foto], tomando agulhadas diárias para aliviar a febre que não o deixava, mal capaz de caminhar, enganou a todos, comprometeu uma enorme equipe médica com a mentira de que sobreviveria [de que poderia assumir o governo], levou adiante a farsa, e deu no que deu, num período de ilegitimidade grave, em José Sarney ademais, o pior presidente da história deste país.
(Tancredo, consolo-me, teria sido pior).
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Eu teria quatro, quase cinco anos [faltava pouco para a convenção do PDS, era 1984], quando vi Tancredo Neves chegar em minha casa, lamentavelmente escorado, para um encontro com meu avô, ao cabo do qual, lembro-me com clareza, ouvi minha mãe dizer: “Ministro, este homem está muito doente”; ao que o velho Andreazza retrucou: “Ana Maria, o doutor Tancredo tem a saúde de uma criança”.


Quarta-Feira, 29 de Abril de 2009, às 15:43
Sejamos justos, C.A: a doença da Dilma foi tratada de forma indelicada dos dois lados: tanto pelo governo quanto pela imprensa. O Globo praticamente a matou.
Quarta-Feira, 29 de Abril de 2009, às 15:48
C.A, por coincidência, terminei de ler um livro ontem, cujo último capítulo relata a tensão pré-posse do Tancredo. O autor justifica a farsa com o argumento de que Tancredo precisava tomar posse, não por vaidade, mas porque se não o fizesse, jogaria o país num vácuo que comprometeria a redemocratização.
Quarta-Feira, 29 de Abril de 2009, às 15:50
Nesse episódio do Tancredo, é interessante observar como um grande número de políticos que apoiavam os militares no passado deram as costas a eles e pularam do barco, como se grandes democratas fossem. A lista, que vai de Antônio Carlos Magalhães ao próprio Sarney, é de assustar.
Quarta-Feira, 29 de Abril de 2009, às 15:51
Eu nunca fiz esse elogio antes, mas devo fazê-lo: gosto muito de como são ilustradas suas notas, C.A. Você sempre escolhe uma boa foto ou ilustração.
Quarta-Feira, 29 de Abril de 2009, às 13:10
Andreazza, recordemos que o velho Tancredo, nos bastidores, jogou contra as eleições diretas, enquanto nos palanques foi um baluarte da causa.
Quarta-Feira, 29 de Abril de 2009, às 22:37
Exatamente, mestre Simas. Nem o Paulo Maluf desejava o colégio eleitoral mais que o Tancredo…
Quarta-Feira, 29 de Abril de 2009, às 10:34
Hey Andreazza, depois de muito abandonar este sítio, cá me encontro com seu pequeno texto sobre a Dilma.
Aqui em Paris, tem gente que já torce para Dilma Rousseff! Com diretio a artigo no “Le Monde” à la mode femme revolutionaire!
Mesmo acompanhando a política brasileira de longe, não me estranha nada ela até mesmo fazer cirugia plástica, andar sem óculos e só com lentes para “viajar pela nação”.
Para a mídia, Dilma Rouseff era mais do que “Zé Ninguém” ontem mesmo.
Quarta-Feira, 29 de Abril de 2009, às 10:35
Antes tarde do que cedo: PArabéns aos flamenguistas!