por C.A. - Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 14:03
Meu editor, tipo zeloso, vem de me bater um fio, mais um. Estava ele lá a pensar, preocupado com o encaminhamento editorial que daríamos a estas memórias – questão que, fiz saber, não poderia me importar menos. Ainda assim, ouvi-o; e eis que o aflige, em uma pergunta, se devemos caracterizar esta obra, a despeito do título, por um romance?
Respondi-lhe que não; que não se deve dirigir-governar, não desta maneira, não já desde a capa, os caminhos do leitor, ressecando-lhe a liberdade de se encaminhar a partir de si; que se dei ao livro, ainda que provisório, o nome de Memórias inventadas, é porque penso que tudo quanto se possa sugerir por leitura vá aí assinalado; que, hoje, ante a forma como compreendo a escrita [e a leitura], restringir-limitar algo por ficção absoluta parecer-me-á covardia e redução profunda ao espírito da literatura; que, do mesmo jeito que concebo indigente a leitura que busca em cada linha o caráter pessoal, íntimo, do autor, julgo aviltante, talvez desonesto, que um escritor apresente uma obra, qualquer uma, bradando que seja ficção, só ficção, integralmente ficção, fruto apenas da criação, e que nada de seu ali resista etc.
Se algum meu leitor achar por bem ler-me essas memórias como as minhas memórias, não lhe direi que não.
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Ainda não falei de papai. Quiçá por opção de prosa, por motivo de ritmo, não sei; mas certamente não por que me tivesse marcado especialmente.
É apanágio da juventude que os meninos, quanto mais jovens, cultivem a imagem do pai como referência, como o ideal a atingir – como o modelo, ainda que venham a negá-lo [superá-lo], sem traumas, mais tarde. Eu, ao contrário, bem cedo soube o que não queria ser: não queria ser o meu pai – o que eu apenas reforçaria [consolidaria] com o tempo.
Papai foi um homem severo, duro, frio, distante…
Eu minto.
Papai nunca foi esta presença exata, rigorosa, grave, do chefe de família padrão ao imaginário brasileiro da primeira metade do século XX – e não posso incorrer neste ridículo.
Papai foi um homem em que dava pé – um homem raso. Um homem desprovido. Assim mesmo, sem complementos. Um homem sem.
Seus interesses nunca se configuraram num interesse meu, o que jamais lamentei. (A verdade é que nunca consegui reconhecer quais fossem seus interesses, do que gostava, e nunca o ouvi falar com prazer sobre coisa alguma; papai era incapaz de desenvolver nuances, de dizer não).
Jamais me culpei por não admirá-lo, por considerá-lo medíocre. Não se pode contornar o latente por muito tempo. Mais tarde, já pelos vinte e poucos, quando saí de casa, ainda que lhe devotasse um sentimento puro [gratuito] de afeto, tinha-o na conta intelectual definitiva dos insignificantes, e sequer me ressentia por ele nunca me ter oferecido a palavra de pai, os tradicionais clichês formadores da lavra paterna. (Essas coisas que talvez nem existam)…
Há vinte anos, quando ele morreu, esforcei-me, a pedido de mamãe, para lembrar de algum gosto especial dele, para um discurso de cemitério – e não havia: papai não tinha gostos. Mas menti, a pedido de mamãe.
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Papai é, sim, admirável em certo sentido [mas só quando me vejo em desespero], pois que fosse vazio de questões, de dúvidas, de inseguranças. Não se devia cobrar; não tinha aspirações. Decerto que não criava para si pressões de mundo – e que maravilha!
De conhecimentos raríssimos, o que casava à curiosidade quase nenhuma, soube viver, com sabedoria, o esplendor da ignorância. Porque se pode saber muitíssimo… Geralmente se sabe mais ou menos – é o comum, e graças a deus, o que nos faz o pão, o vinho e a sacanagem. Difícil é saber pouquíssimo; difícil é operar no modo econômico de papai. É a verdadeira sabedoria, a paz. A clareza.
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Meu editor, tipo zeloso, vem de me bater um fio, mais um. Estava lá ele a pensar, preocupado, segundo me disse, com o encaminhamento editorial que daríamos a estas memórias – questão que, fiz saber, não poderia me importar menos. Ainda assim, ouvi-o; e eis que o aflige, em uma pergunta, se devemos caracterizar esta obra, a despeito do título, por um romance?
Respondi-lhe que não. Seco; e um abraço.
Verdadeiramente, pois que somos amigos, a preocupação dele não era literária; e ele não me precisou dizer: eu percebi, desinteressei-me, e um abraço.
Estava preocupado comigo, pessoalmente, com a imagem que, nessas memórias, eu oferecia-criava para mim – e por isso a idéia-sugestão de caracterizar esta obra, à capa, por um romance; para que escapássemos, para que eu escapasse, pela ficção, pelo reforço da invenção [mas em detrimento da literatura], ao perigo de que um leitor me lesse pelo sujeito como me aqui apresento, o que, aos olhos de meu editor fraterno, talvez me pintasse-legasse mal.
E o que poderei dizer? Que este não sou eu? Que sou eu? O que poderei dizer a este leitor real, que me lê em sua casa, que me procura nestas linhas? Que vá em frente; que me leia como achar melhor, eu o encorajo.
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Nesta altura, sim, devo falar que invejo a juventude – e também a ignorância, que me fascina. Não uma ignorância absoluta, que consista no desconhecimento total; mas algo limítrofe, misterioso, que reúna a ciência mínima, os conteúdos básicos a uma convivência [que creio] superior, apenas as informações necessárias, vitais, para que se tenha a verdadeira sabedoria do mundo, esta que simplifica, que gloriosamente simplifica, que cria atalhos orgânicos para a leitura do mundo, para a observação do mundo como ele é, superficial.
Porque é assim que funciona – e ora convido os que sabem demais a considerar se não gostariam de se esvaziar um pouco, de repente. Hein? Imaginem… Há um prazer extraordinário nesta conjectura – nesta imaginação da leveza, do peso, ao alcance, tão-somente o necessário!
Estou convicto de que, em menos, teríamos meios mais diretos, eficientes, cristalinos de compreender… Porque, basicamente, as coisas são mais simples, sempre, e se podem resolver, rapidamente, em mergulhos mais curtos, rasos, pelo enfrentamento elementar, essencial, poupado em referências, do universo, no 2 + 2 mesmo, que dá em 4, sempre; porque alguns recursos do pensamento, os mais elaborados, turvam a leitura da existência a quase cegá-la, contando dados, supérfluos, que tão-só complicam, variáveis que debilitam, que desperdiçam, despistam, e decerto que atrasam-retardam, desbotam a compreensão, engordam a lucidez ao ponto de ela ser apenas gula, acúmulo, massa amorfa, gordura, e levam-nos à fantasia, à vaidade, à psicologia, à especulação, à criação, ao engano, e é então que, excitados por múltiplas reflexões sofisticadas [pelo empilhar dos séculos, à carga das mazelas ancestrais, dos fracassos do passado, alheios], perdemo-nos de que bastaria muito pouco para a imediata noção, para a urgente leitura do que prevalece, para a evidência cavalar de que, objetivamente, desde as cavernas, somos rejeitados.


Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 23:11
O caminho para o auto-conhecimento/descobrimento é muito tortuoso, Andreazza. Seja ele inventado ou não.
Ficção, realidade, projeções, memórias e reminiscências…
E há de se ter coragem para compartilhá-las com os outros, estes que (sempre?) nos rejeitam.
A série continua a empolgar seus leitores…
Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 23:38
Seu nome era Antonio Augusto, majestoso, seu apelido Toneca, e atrás das saias de sua mãe e seus vários irmãos, se escondia.
Há pouco tempo me falaram que era “mâezeiro” (?) e que quando sua mãe faleceu, pediram - tomem conta do Toneca.
Talvez por ser mais sentimental, sem demonstrar jamais, ser mais simples, apesar de ter encarado momentos difíceis sem reclamar jamais, era uma pessoa tímida, sem expressão, “nós não podemos”, era seu lema.
Passei minha juventude até sua partida tentando provar e mostrar a ele, que “nós podemos”, e me aquieta a alma e o coração em saber que pude sim dar a ele momentos de alegria e, mais importante, “relaxamento” em um ambiente onde não tivesse que se sentir “menos”. Amava cinema, conhecia todos os atores, gostava de línguas, recortava artigos de jornais sobre restaurantes, lugares que nunca foi, amava o Rio de Janeiro, onde cumpriu sua árdua missão de soldado da FEB, amou uma mulher aos 20 e se casou com ela aos 30, foi paciente. Foi honrado,calado, resignado, amoroso mas sem contato físico, mas presente, deixando um legado de sinais, quase imperceptíveis, mas localizados nas cinzas das horas (Clarice).
Assim é o amor, dos pais também.
Lindo texto.
Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 18:02
Esse 2º parágrafo, pra mim, sua leitora-fã, já folclórica até, é um alento.
“Se algum meu leitor achar por bem ler-me essas memórias como as minhas memórias, não lhe direi que não” - Muito agradecida pela carta de alforria.
“A literatura é o lugar não onde o real está, mas de onde o real advém” - Essa história de ficção e/ou real me remeteu a essa citação, que li não sei onde. E acho que foi o Rubem Fonseca quem disse: “quem quiser saber sobre mim que leia os meus romances”. Portanto, uma mixórdia maravilhosa.
Agora, “perdemo-nos de que bastaria muito pouco para a imediata noção, para a urgente leitura do que prevalece, para a evidência cavalar de que, objetivamente, desde as cavernas, somos rejeitados”, é tão definitivo, que ousaria dizer que essa seria uma angústia maior do que nos sabermos finitos. A mim, mexeu mais que uma sessão de análise.
O cara é você, Andreazza.
Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 18:30
Humm, por favor, “sessão” em vez de “seção”. O acordo ortográfico poderia ter unificado esse troço…
Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 21:01
Humm2, “à essa citação”, acho que não tem crase, não!?
Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 09:27
Olga, como diria Ferreira Gullar: “a crase não foi feita para humilhar ninguém”.
Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 11:45
Como diria o Ancelmo Góis, “é grave a crase”.
Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009, às 17:38
Pian, não foram feitas pra humilhar, mas humilham, meu Deus, humilham… E as vírgulas, e as vírgulas?!
A minha sorte é que os escritores da Casa, que escrevem com essa belezura de português, não se incomodam com o meu atrevimento.