por C.A. - Quarta-Feira, 15 de Abril de 2009, às 12:42
De minha tatataravó materna contam que possuía os mais belos seios da história do comércio escravo da colônia, com píncaros de desafiar [desdizer] as forças da física - da gravidade, do tempo. Era da costa-velha, negra mina, de uma tribo cujo talento maior [ou não] consistia em farejar ouro.
Minha tatataravó, como meus parentes africanos [não posso revelar por quê, mas sempre intuí que os tivesse], era cheiradora de ouro e, particularmente, preta fibrosa, de um queimor que, segundo a lenda, plantava febre às partes masculinas mais apressadas; e é então que entra o velho padre meu tatataravô, um espanhol, rufião poderoso, afeito aos riscos da alma e às riquezas, as materiais, de pedras e carnes, que, apaixonando-se [quem dirá que não?], veio fazer família, fé e capital nessas terras brasileiras, à região que hoje se chama, por estado, Espírito Santo.
Não o quero julgar, mas meu tatataravô, homem-de-deus [servo do senhor] convertido ao prazer e a conturbação, foi, a despeito de marido amoroso, gigolô pioneiro, senão aos outros oferecendo o calor da esposa, explorando-lhe os dotes olfativos até que erguessem, juntos [o amor, o companheirismo], um império de ouro - um quarto, trinta metros quadrados, de ouro maciço.
A empresa, de caráter ambulante, saía, chão sem destino, a seguir o norte do nariz da mulher, sob confiança absoluta naquele sentido, até que paravam, subitamente, ali, ela apontava, ali, indicava, governava, e então de imediato se punham a cavar os escravos, fosse onde fosse, à dificuldade que fosse, à mais íngreme encosta - e era batata, sempre: ouro, muito ouro, sempre.
Meus dotes [inexistentes] de pesquisador não saberão dizer quando o ouro todo foi, por lei, confiscado pela banca oficial, ao pretexto do patrimônio público defendido, dos dotes e vigores naturais da mãe-gentil reunidos - mas o fato é que assim foi, e que ficaram pobres já ao final da existência, logo depois morrendo, juntos, de mãos dadas, num casebre da Vila Velha. (Uma versão menos difundida da passagem, porém, dá conta de que, falecendo de fato juntos, não foram unidos exatamente pelas mãos que se esvaíram os corpos - e eu apostaria)…
Muitos anos depois, porquanto mudasse a lei, estabeleceu-se que os herdeiros das famílias lesadas pelo ouro teriam direito a uma indenização, em dinheiro, equivalente ao peso da opulência tomada, bastando que se manifestassem - e aos meus seria uma fortuna, portanto.
Seria…
Seria; porque, progressivamente embranquecidos, aos poucos bem sitos à faustíssima sociedade capixaba, não reclamaram o direito, calaram-se, apenas, avento [estou quase certo], para não reconhecer a antepassada africana e a origem mestiça da família; que aí ainda está, plena em pose e sem um puto furado, da qual, em índole, decorro inegavelmente, covarde maduro, assumo, mas, mesmo que ora chafurdando a honra-fundação do sangue, incapaz de resistir a essas histórias de profecia, negação e desejo [de amor!], ao legado imaterial-imaginal de meus tatataravós, à distante memória dos quais, nestas minhas, presto [pago] homenagem [inveja] afetiva [literária].


Quarta-Feira, 15 de Abril de 2009, às 14:37
A série “Memórias Inventadas” está marcando a história desta casa, quiçá da literatura cibernética.
É o momento de maior maturidade do Andreazza como escritor.
Todas são espetaculares, a primeira é coisa de gênio.
Que cousa!
Quarta-Feira, 15 de Abril de 2009, às 15:00
A descrição da tataravó (”era cheiradora de ouro e, particularmente, preta fibrosa, de uma queimor que, segundo a lenda, plantava febre às partes masculinas mais apressada”) tá sensacional. Que imaginação!!
Totalmente de acordo com o João Paulo.
Quarta-Feira, 15 de Abril de 2009, às 18:28
Realmente muito bom.
Espero as memórias sobre as partes árabes e italianas da família.
Quarta-Feira, 15 de Abril de 2009, às 16:33
Sem dúvida, Pian. O trajeto da Sicília até o Brasil deve ter rendido boas histórias.
Quarta-Feira, 15 de Abril de 2009, às 20:20
Iei! Gostei.