por C.A. - Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às 11:28
Faz pouco, na Itália, por ocasião de um lançamento, um crítico me perguntou [estranhamente, porque jamais escrevera a respeito] sobre a relação futebol x literatura em minha vida, em minha obra; e eu lhe disse que, como jogador, acima de qualquer outro esmero da existência, eu me dedicava à precisão, ao toque exato, à lapidação do fundamento, à excelência técnica, à economia; a transformar em toque de primeira o que aos demais valeria três ou quatro tratos – porque eu não podia errar, porque eu, fisicamente, não teria outra chance, não teria como recuperar a bola, e então deveria ser preciso e também rápido. (Eu sabia que não era um craque; eu era simplesmente aquilo que, útil, os outros não eram, e que não logravam reconhecer).
Todos os excessos, eu lhe disse, como meus livros comprovam [comprovam?], eu os agitaria, mais tarde, por escrito, em meus textos, os exageros, o vigor irrefletido, a prosa bruta, assomada, não raro pesada [barroca], verbo em riste, amontoado, o vento forte das vírgulas, esta respiração mal-asseada, de energia inesgotável e desprendida, adjetivada e repetida, tão própria à juventude, adjetivada, empilhada, infinita, repetida, nunca desperdiçada, sempre renovada; eu os exerceria por escrito, os sobressaltos.
E assim cá se relacionam futebol e literatura: o primeiro, apenas memória e passado, como eu fui e sou; a segunda, memória e tão-só presente, quiçá futuro, urgente, como eu gostaria de ter sido e sou.
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Nota pós-escrita:
O meu editor, a quem, contrafeito, mostrei alguns esboços dessas memórias, se disse incomodado – “não digeriu muito bem” – à passagem, talvez ligeira demais [simples demais, em termos de dotação literária], em que o perna-de-pau, tipo ridículo em campo, autor de repente de um tento redendor [de fato, “um episódio único”], à mesma pressa se torna um craque, um Sócrates.
Bem, não terá sido tão rápido assim; e tampouco sem esforço. É possível que eu não me lembre muito bem daquele período. (É mais possível que eu não me lembre muito bem do tempo, contável-formal, daquele período). Talvez fantasie, talvez exagere… Eu tinha pressa – este é um valor absoluto: eu tinha muita pressa. Vislumbrei-me uma chance, uma passagem de nível, um tempo, quiçá efêmero, de me consolidar em algum talento, real, de juventude, e lhe mergulhei, imediata e exaustivamente. Eu me preparei; edifiquei-me. Durante muitos meses, treinei – fabriquei-me, racionalmente. Não creio que tenha então feito outra coisa. Medi cada uma de minhas capacidades técnicas, projetei-as entre o futebol de meus amigos; e acaso encaixassem, eu era, eu conquistava, eu ocupava.
Talvez, para o tempo de meu editor, não tenha sido [não devesse ser] tão rápido. Para mim foi. Eu acelerei o meu tempo – e não existe pressa [velocidade] mais desmedida que a visceral.
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Ah, o sexo… O sexo – que mal há? – também foi uma construção mental minha. Uma obra de extravagância.
Eu tinha catorze anos, recém-cumpridos, e simplesmente fui, sozinho, como sói aos de meu caráter. Atravessei a rua e fui. Já ouvira, dos mais velhos, difusamente, histórias de puteiro – e queria erguer as minhas.
Não tinha, como ainda hoje, a menor idéia do que fazer; supunha, porém, que fariam por mim – e fui. Norteava-me, que mal há?, pelo desejo de materializar a iconografia – a brasilidade – de minha infância, as mulatas do Di que nos tomavam as paredes e pelas quais, acima de qualquer menina do colégio, eu me excitava e masturbava tardes múltiplas; e então gozei incontinente, não se quedava minuto, à boca de uma mulata em cujos mamilos, cor de café [colombiano], tão velhos íntimos meus, eu finalmente tocava, concretamente, solidamente, auge daqueles seios da minha vida inteira, pelos quais, larva quente, eu me escorria. (E não é que fossem bonitos, não eram; mas reais, vivos, duros-ardidos, nacionais, e ali, diante deles, à palpação deles, ao tato daquela pedridade, senti-me brasileiro e ativo, um patriota!, pela primeira e decerto que última vez, brasileiro e promotor da integração racial, um canalha!, eu, um senhor de engenho, enquanto apertava com sofreguidão aqueles bicos pretos, ao me ver jorrando à boca de uma mulata de seios iguais aos pintados pelo Di Cavalcanti, a iconografia de minha infância, sobre a qual, numa intervenção pós-moderna, ejaculava profusamente).
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Escrever, sim. Ser escritor, não; nunca foi uma obsessão, sequer um sonho, um plano – e eu nunca pensei a minha escrita, o seu desenrolar, em termos de uma carreira; o que sempre me pareceu vulgar.
Jamais, nem ante meu primeiro livro, impresso, pude pensar [admitir] que escrevera um e, sobretudo, que escreveria outros. A idéia de um percurso a construir, cujo acúmulo resultasse num sentido de obra complexa e, o horror!, estudável, academicamente legível-apreciável, sempre me pareceu pretensão de arquitetos de vocação desperdiçada em extensas plantas literárias… (Em vez do palácio dos arcos simplesmente, definitivo, intenso, uma brasília, àquela diluição)… A idéia deste conjunto, ademais, parecia-me francamente dispersiva, concorrendo para que, em função de um amplo e prestigioso panorama [coerente; o horror!], se negligenciasse o detalhe, o pormenor, a dissecação do presente, do texto presente, do parágrafo atual, da linha exata, imediata, da palavra perfeita, experimentada, testada, intensamente, descoberta: a palavra perfeita. Não. A pressão, alheia e estrangeira, por que se corresponda a uma expectativa, por que se responda ao tijolo, previsto e sem arestas, de uma construção habitada pelos outros… Não. (Não se pode, neste instante, ter noção alguma de conjunto, de conjunto exterior, senão a daquele em que terá existência a palavra perfeita – a frase, a oração; mais tarde o livro inteiro, mas só ele, só aquele).
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Escrever, linha que seja, é-me um processo tão necessário, tão urgente, quanto corrosivo. Impossível pensar que, depois daquela frase, ainda possa vir outra; e assim, tanto mais violento, é também com os livros, com o ponto-final: um que me tortura, que me corrompe durante meses integrais, estancará em mim, eu creio [por favor, para sempre!], qualquer outra escrita, qualquer outra trama futura. (E, por que outros venham-virão, outras tramas, e traumas, é preciso se enganar, por motivo de sobrevivência).
Escrever é-me caminho de morte, de morte iminente, de falência dos órgãos, de sufocação abissal, de fôlego exaurido, sem esperança de ar, ao fundo, preso, do oceano mais escuro… Eu anoto; tomo nota de tudo, o tempo todo – e me desafio, pondo à prova o escritor [o mergulhador] que sou, a quanto sou, a quanto vou, e às vezes, muitas vezes, dezenas por dia, guardo o bloco, dou partida a outra atividade, mas logo me vem a escrita, de repente, as idéias da [de] escrita, desafiando-me, exigindo, e eu preciso retomar, retornar ao caderno, dar-lhes voz, esboço [rouquidão, que seja], anotá-las todas, onde estiver, e isto vezes sem fim, o que se tornará tanto mais destrutivo à luz [à sombra] de que escrever profissionalmente sempre me foi, e ainda hoje [será?], trabalho menor, clandestino por certo, ofício de se exercer envergonhado, de forma que, dramaticamente, a título das aparências [sempre elas], eu deveria dar seqüência ao meu dia normal, à rotina, e assim seguir à editora, ocupar-me dos livros alheios, e deles me desocupar seguidamente, completamente afinal, para abrigar em segurança, de imediato, sempre, as minhas idéias, as minhas teias, os meus personagens, ou meus, e só o que me importa…
E eu era então, aos 25 anos, inteiramente desonesto – comigo e com quem me pagava.
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Escrevi faz pouco que, ao criar meus exércitos de infância, confrontava-os de maneira equilibrada, com soberano senso de justiça – o que, não sendo absoluta mentira, tampouco será irrefutável verdade… Minha questão inicial era prolongar ao máximo as contendas, as batalhas, por meio das quais me encontrava e justificava e era. Portanto, um certo equilíbrio – a balança – era-me conveniente.
Hoje, entretanto, não sem orgulho autoral, lembro-me de que sempre pendi para o lado do mal; e que, ao iniciar do combate, bastava que – sem que deliberadamente eu quisesse – algum lado se sugerisse, ao acaso, em maldade maior para me levar a discreta simpatia; porque eu julgava aborrecido aquele discurso politicamente correto [amplo, vago] de salvamento do planeta, de defesa dos grandes valores [em que ninguém tocava, de que todos falavam sem compreender], da justiça em prol da humanidade abstrata e cordeirinha, de resto sem face; e me agradava, genuinamente, diante das pretensões delirantes e egoístas, materiais, concretas, de se dominar o mundo, de se conquistar, mesquinhamente, todos os territórios como um fim em si, sob o desejo puro e assumido de poder e simplesmente poder, e pronto. O mal, em seu desenvolvimento lúdico, sempre me fascinou, sempre me foi mais humano; e talvez me tenham fascinado muito mais os personagens do mal, o líder do mal, o vilão cerebral, a mente tarada e tirana que mobilizava, para o benefício de seu poder exclusivo, um exército de amorais… O déspota monstruoso de minha meninice sempre esteve em melhor consonância com os meus sentimentos de mundo – e eu talvez fosse criança mais saudável do que ora considero.


Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às 14:12
Engraçado, a expressão “Eu me preparei; edifiquei-me. “, que o autor usa para o futebol me pareceu uma metáfora para sua própria formação como escritor.
Ou talvez seja uma pretensão minha querer ficar interpretando o texto.
Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às 15:59
Em grande forma, compadre!
Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às 18:53
Imprimi ontem pra ler melhor, o monitor não tem dado trégua às minhas vistas cansadas. Cansaço que não impede que eu me deslumbre com a sua escrita. Rabisquei o texto todo. Uma cousa!