por João Paulo Duarte - Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às 14:45
Meu bom amigo,
Muita coisa mudou desde que nos conhecemos. Hoje, poucos meses antes de você
ir novamente estudar na Europa, não sou mais o mesmo – finalmente ou infelizmente.
Agora não fumo mais. Bebo bem menos e não posso ser mais o teu amigo dos exageros. As bravatas e as brincadeiras espalhafatosas ficaram para trás e somos bem mais sérios. Sonhávamos escrever, começamos a escrever, a trabalhar escrevendo e, em todo esse processo, você sempre foi melhor escritor que eu. É justo por você ser um grande leitor e eu não teria lido tanto se não fosse pela nossa amizade. Mas, mesmo assim, não conseguimos ser felizes com o trabalho. Sempre parece ser menos que deveria. Estamos confusos, sem saber como encher o bolso de grana e como se faz pra viver com o que temos. São todas opções e nenhuma ao mesmo tempo. Sentimos-nos tão perdidos, meu bom amigo, porque estamos perdidos.
Quando você chegou aos trinta, desesperado, me perguntava as dúvidas de quem não sabia o que ia fazer e tinha ressalvas do que tinha feito. Eu, agora, me aproximo, combalido, dos trinta, descrente das certezas, num oposto do que sempre pensei ser. “Eu é um outro”. A força que aparentei por todo esse tempo desmoronou quando minha pleura rasgou e me diagnosticaram ser desapercebido das defesas do pulmão.
Quando nos conhecemos, você debochava que eu nunca queria sair do Leblon. Tentava me arrastar pra Lapa. Hoje, eu não tenho certeza se vale tanto a pena ficar preso aqui, a este bairro que sempre quis que fosse meu. Eu deveria sair e tentar outras ruas, outros bares, outra praia, outra gente. Mas não consigo me ver longe daqui. Nem em Paris.
Bem, meu chapa, fomento cá meu ensejo de perambular contigo por Paris. Você estará ambientado, talvez com uma namorada parisiense, e vai me dizer como é ruim estar em Paris com apenas uma madama. Que queria todas as outras. Ou você, na solterice escorreita, vai me explicar como seria melhor se tivesse uma mesma francesa deliciosa te esperando todo dia na cama. Uma mulher incrível, inteligente, só tua, no inverno.
E, claro, vamos falar das mulheres de sempre, das que estão conosco e das que estavam. Há alguns anos, no seu apartamento na Conde de Irajá, enchemos a cara de uísque até amanhecer, imaginando almoços de domingo com nossas futuras mulheres espetaculares. E, mais pra frente, uns moleques correndo pela casa. Mas, hoje, quão distante estamos disso?
Escrever tem sido muito difícil pra mim. Mesmo as frases idiotas do hard news me escapam. Acho que estou no abismo duma nova reviravolta, Paulinho. Caí já outras vezes e me apresento pra próxima derrota na esperança de vencer em contra-ataque. Estou à flor da pele. Há poucas horas, debulhei-me em lágrimas no colo dela. Mas não acho que deixei de ser forte como antes. O fato é que minha força muda novamente de foco. E não sei onde parará desta vez.
Fique com Deus e boa viagem,
JP


Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às 10:39
Gostei muito do tom desse texto.
É como se as dúvidas, crises e frescuras existenciais acometessem até quem é protegido pela Realeza Divina.
Vossa Majestade também é de carne e osso. E nada melhor do que suas palavras para demonstrar isso.
Seu caminho, meu grande amigo grande, será (muito) mais exitoso do que o tal de Thiago Neves a quem comumente (e equivocadamente) você se compara.
Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às 16:02
Brilhante carta, meu irmão!
Quinta-Feira, 9 de Abril de 2009, às 15:15
Meu amigo João,
Há um livro “A Crise dos 25″ que aborda algumas dessas questões. Antes que dê de ombros, digo que apesar do título o livro pode ser interessante para quem beira os 30.
O caminho é esse que a gente está vivendo, parceiro. E só depois de velho você vai poder olhar pra trás e, rico ou não, dizer que foi aquele que você “traçou”.
Abraço.