por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sabado, 4 de Abril de 2009, às 14:41
Alerta! Vem aí o romance O caçula
Você define um dos personagens centrais do seu livro como um puppy. É um tipo muito comum no Rio de Janeiro?
É um tipo muito comum no Brasil. A gente vive numa cultura puppy. Escritores puppies, políticos puppies… Mas quando eu falo em puppy as pessoas pensam logo nos viados, que tomaram o Rio de Janeiro também, mas são outros tipos. O que tem de mulher, aliás, namorando e casando com viado não é brincadeira… Pergunte a um ginecologista por casos freqüentes de mulher infectada por HIV, e ele dirá que o maridão, querendo fazer o passivo, pega o vírus de um travesti e depois vai lá plantar na esposa. Isso acontece no meu livro. Eu não tenho nada contra gay, nem mesmo contra esses viadinhos que namoram mulher. É um direito deles namorar e trair quem quiserem. Mas a maioria das moças não quer saber, não quer enxergar que namora um viado, elas são piores que aquela esposa do Brokeback Mountain. E as pistas são tantas… Mas você me perguntou dos puppies. Então, em primeiro lugar, é preciso distinguir os puppies dos viados. A começar pelo fato de que os puppies não são homossexuais. Eles são puppies. Podem até ser homens grandes – altos, bonitos e fortes, eu digo -, mas são uns “fofos”, ou, pior ainda, uns “foffies”. “Fulano? Ah, fulano é um amor”… Os puppies são “um amor”, entende? Mandam vídeos de crianças fofinhas pro e-mail de trabalho da namorada, carregam a bolsa dela no shopping e, claro, dão um cachorrinho de presente para coroar a relação. Daí o nome: puppy, que quer dizer “cachorrinho” em inglês. É um presente que o define, que o representa, é como se ele desse uma parte ou uma xerox de si mesmo ao seu grande amor.
Mas não é bonito um homem carregar a bolsa de uma mulher?
Olha, se é bonito eu não sei, eu sei que é puppy. E aquilo é o segundo sinal de que o relacionamento vai desandar, ou pelo menos vai desandar a fidelidade. É mais ou menos assim: depois do vídeo das criancinhas, o namoro dura 1 ano; depois de carregar a bolsa no shopping, são 6 meses; depois do cachorrinho, alarme vermelho! O cachorrinho é a versão adulta do ursinho de pelúcia, o maior erro que os adolescentes cometem com suas primeiras namoradas: o incentivo à infância eterna, à não-diferenciação do que é um pirulito e do que é um… homem. O cachorrinho é um erro retardado, que pode funcionar a curto ou médio prazo, mas a longo é um tiro no pé. Quer dizer: o sujeito não aprendeu nada, não quis aprender. Ou então faz isso de pura canalhice só para namorar um pouquinho. Mas aí a gente já entra no território dos canalhas, que são outros tipos. As diferenças são muito sutis, e às vezes um recai no outro, como acontece no livro. Mas estamos falando de tipos, quer dizer, de recortes, de parâmetros. E repare que a diferença entre puppies e viados também é sutil. Enorme sim, mas sutil. Como toda mulher adora ter um amigo viado, eu diria que o puppy – mesmo que inconsciente ou involuntariamente – se disfarça um pouco de viado para obter o carinho daquela moça de quem já despertou uma atração. Não à toa o puppy costuma ser bonito. O fato é que, hoje em dia, tem muita mulher recalcada maldizendo os homens, dizendo que eles não prestam e coisa e tal. Sabe como é: homem de verdade é chato, dá muito trabalho, elas precisariam olhar para si mesmas, ajeitar um monte de coisas em suas vidas, então não querem. Preferem ser paparicadas por um puppy, acham – ou fingem para si - que encontraram um verdadeiro gentleman. Mas é só um poodle.
E por que exatamente as relações desandam? Você falou que os puppies não são vi… homossexuais. Então o que falta? Quais são as conseqüências?
Boa pergunta. De fato, eu não acredito em namoros ou casamentos de puppies e de viados. De viados com mulher, eu digo, porque viado com viado pode ser feliz pra sempre – e eu nem os chamaria de viados. Mas o que acontece com os puppies? Ora, é uma questão de tesão, basicamente. Uma mulher tenta, tenta, mas não pode enganar seus desejos por muito tempo. E o puppy, por mais que queira transar e seja até um tanto eficiente na cama, será sempre o amiguinho viado na vida real. Pior, na verdade: uma caricatura do amiguinho viado. Porque amigos viados são úteis, ensinam às moças coisas que elas precisam aprender, falam até algumas verdades que elas precisam ouvir. Mas o puppy não ensina coisa alguma, e está muito longe de dizer verdades. Seu terreno é a moderação, a prestatividade, a fofura. É o terreno anti-sexual por excelência. O avesso da incisividade. Mesmo que a mulher goste de transar com ele, ela começa a não ter mais vontade de fazer isso, porque o tesão, no fundo, é anterior à cama, vai muito além dela. E não há outro motivo pelo qual a sedução é necessária. Então, como diz um personagem do livro, o sexo acaba virando banho de criança. Sabe como é banho de criança? Depois que elas vão pro banho, que elas já estão lá, elas até gostam, ou não é tão ruim, ou mesmo não gostam, mas o que elas mais detestam é ir pro banho. E, se ir pra cama também é um sacrifício, a coisa começa a degringolar. O personal ou o professor de spinning ficam mais atraentes. Porque a diferença é que todo mundo precisa tomar banho, e por mais que se troque o chuveiro, água é sempre água. Mas namorado ou marido é uma escolha, e pode haver opções menos puppies por aí. No trabalho, nos amigos, na academia de ginástica…
No livro, você define um dos melhores amigos do puppy como um obaminha. Quem são os obaminhas?
O obaminha é o melhor amigo de todo mundo. É o grande ator da vida real, está sempre sorrindo o mesmo sorriso. Um sujeito carismático, simpaticão, agregador, aparentemente interessante, que fez disso seu próprio trabalho, e ganha um bom dinheiro assim: capitalizando a falsidade. Normalmente, é um agitador, um promoter de eventos, um empresário, um engenheiro de produção, um negociador, um político. Tem um conhecimento superficial de tudo, e profundo de nada. Está ali para conquistar pessoas, fazer negócios, obter mais poder. No livro, ele é aquele sujeito da galera, muito popular, supergente boa!… Chama todo mundo de “irmão”, abraça, dá beijinho em quem mal conhece. Tem uma falsidade exemplar. Ele adora fazer esse papel do garotão superfeliz, bem resolvido, de bem com a vida! Cheio de dentes, ele. E as pessoas acreditam, principalmente os puppies e (suas) mulheres alienadas. Só que os obaminhas são muito mais perigosos do que os puppies. São canastrões, fogo de palha, dizem que vão quando não vão coisa nenhuma, mas preferem alegar um imprevisto mais tarde a perder a animação do momento, porque a intenção – para eles – é mais importante do que a realidade. A intenção declarada, pelo menos. É a intenção declarada, afinal, que conquista as emoções alheias mais imediatas: a intenção de fechar Guantánamo, a intenção de retirar as tropas do Iraque em tempo recorde – não importa como, nem o que fazer com os terroristas, o que importa é a intenção, é ela que rende o voto. Como os jornais não separam mais o que é desejo, intenção ou comentário, do que é fato, notícia, realidade, a maioria das pessoas tampouco consegue fazer isso. Então elas raciocinam cada vez mais distantes do mundo real, das experiências reais e de suas próprias experiências, cada vez mais distantes de si mesmas. Ouse dizer que um desses obaminhas é um impostor, um farsante, que comete – na prática - um monte de barbaridades, e virá um monte de bocós protegê-lo, hipnotizados por suas intenções humanitárias e divinas. A verdade, principalmente no Brasil, é coisa de radical, de extremista…
Mas, voltando ao livro, o obaminha também enfrenta problemas amorosos, não?
“Enfrenta” é modo de dizer. O casamento do obaminha entra em crise em plena juventude, e todo mundo acredita que a crise vem da moça, ela é a culpada, é “muito instável”, achou que não amava mais o obaminha e, como dizem os puppies, “fez umas besteiras”. Essa tal “instabilidade” é a única explicação que eles conseguem dar ao ver uma longa angústia explodir. Quando alguém não entende nada do que se passa na vida do outro chama logo de “muito instável”. Quer dizer: o rebanho não aceita que uma ovelha se desgarre, que não siga sua vidinha maquinal de felicidade aparente, que queira algo mais para si, como, por exemplo, um homem. E ninguém melhor do que um obaminha para bancar a vítima numa situação como essa e ganhar a opinião pública bocó. Ele pode alegar que deu tudo pra ela, que foi fiel do início ao fim – mesmo que não tenha sido, quem vai saber? -, e que ainda foi o melhor genro, o melhor cunhado, o melhor amigo, essas coisas de obaminha. Mas imagine a situação dessa moça. Não há ninguém para chegar perto do ouvido dela e dizer: “Olha, você pode estar certa, viu? Por que não segue seu instinto?”. Ninguém para dizer que, em vez de ceder aos olhares de reprovação de puppies e afins, ela deveria enxergar o castelo de areia em que estava metida, e - quem sabe - sair correndo! Mas, justamente quando ela estava indo de mal a melhor, muito melhor, buscando sua emancipação moral, acaba imersa em discursos de pais, mães, irmãos, padrinhos, amiguinhos, coleguinhas, toda aquela gentama há muitos anos – e literalmente - arrebanhada pelo obaminha. É uma campanha histérica e desleal, uma chantagem emocional coletiva para que ela volte ao grande partido, seu ex-marido, um homem tão elegante, tão batalhador, tão companheiro, tão, tão, tão… Todos o adoram, mas só ela foi esposa dele. Só ela viveu aquela posição, aquela experiência, e se não viu, ao menos sentiu que havia algo errado. Mesmo assim, ela não resiste ao apelo geral. Você torce: “Vai, vai, vai! Estava tão bem! Só mais um pouquinho!”, mas não vai. É o típico potencial brasileiro desperdiçado. Desesperada, sentindo-se culpada da própria lucidez, ela se rende e corre atrás daquele atrás do qual vai se esconder para sempre, como uma sombra tímida, opaca, sem voz individual: lá vai ela atrás do seu obaminha, que, como bom obaminha, está decidido a não mais voltar. E assim ela passa o recibo que ele tanto queria, a confirmação ao mundo de que a culpa foi toda dela, sim, é mesmo muito instável, fez por merecer…
Mas a história não acaba aí…
Não, não acaba. Acontece muita coisa que prefiro não contar. Mas o livro acompanha esses e outros processos sob o olhar de um terceiro personagem –
Juveninho!
Ele mesmo. Que se acha o único capaz de orientar a moça, mas mal a conhece e não sabe como fazê-lo. Ele está angustiado por assistir àquilo a distância, impotente, sem conseguir intervir. E nada poderia deixar Juveninho mais angustiado do que a impotência. Até que…
“Até que”… é melhor deixar para o livro…
Pois é.
Mas cabe ao Juveninho, muitas vezes, esse papel que você chama de outsider?
Não é exatamente que caiba a ele esse papel. Juveninho é O caçula do título, um menino que vai crescendo observando o mundo ao seu redor, tentando aprender com os acertos e os erros dos mais velhos e também dos seus contemporâneos e até mais novos do que ele: essa gente que vai na frente, queimando a largada, fazendo um monte de escolhas que não correspondem aos seus desejos (elas não conhecem seus desejos), tomando um monte de decisões que não se sustentam. Ele pena muito para se descontaminar dessa ansiedade toda, erra um bocado, sofre o diabo, mas vai encontrando o seu lugar, pagando também os preços da espera, mas com muita paciência e humildade. Humildade é um dos conceitos mais deturpados do país, aliás. Brasileiro sempre pensa com as categorias erradas, então, quando vê um cara que sabe dizendo o que sabe, ou um cara bom dizendo que é bom, acha isso arrogância, falta de humildade. Isso se chama autoconsciência – justamente o que falta ao brasileiro em geral. Com este sentido de humildade, não existe nada mais ridículo do que um gênio “humilde”. Um gênio – seja valorizando-se ou depreciando-se - pode ser, no máximo, auto-irônico, nunca um bocó dizendo aos outros um “obrigado” constrangido, como fazem os medíocres. Um gênio inconsciente da sua genialidade não é gênio coisa nenhuma. Mas humildade não tem nada a ver com isso. Humildade é justamente aquilo que ele teve para tornar-se bom ou para tornar-se sábio, ou seja, a predisposição a aprender, a abrir-se a novas possibilidades de compreensão. O sujeito, quando não sabe nada, e não quer saber, diz logo que aquilo não existe ou, então, como a mulher do obaminha, sai fazendo cagada atrás de cagada, ouvindo os piores conselheiros do mundo, em vez de ouvir a si mesma. “Ah, mas eu ouço a mim mesmo!”, pensaria logo um bocó. Ouve nada! Para ouvir a si mesmo, sobretudo numa cultura puppy, com essa oratória histérica por todo lado mandando você fazer o contrário do que muitas vezes seria nada mais que o óbvio, é preciso buscar ajuda.
Aí entra o outsider…
Olha, a primeira vez que ouvi essa palavra foi naquele filme do Kevin Spacey com o Samuel L. Jackson, como era mesmo o nome?… A negociação! Isso. Eu não me lembro direito da história, mas, basicamente, o negão é um negociador da polícia, desses que vão conversar com o seqüestrador, mas alguém arma um golpe pra cima dele e, como dizem aquelas vozes no trailer, “ele fará de tudo para provar sua inocência”… Então ele também faz uma porção de reféns num prédio bacana, a polícia chega, mas ele só admite falar com o Kevin Spacey. Ninguém sabe por que ele mandou chamar o Kevin Spacey, que é negociador também, mas mora em outra cidade e não tem nada a ver com a história. Na verdade, eles se conheceram rapidamente anos antes e não têm qualquer intimidade. Mas por que ele faz isso? Ora, porque não confia em ninguém do departamento dele, em ninguém de toda a polícia da cidade, porque armaram pra cima dele e ele não tem idéia ainda de quantos podem estar envolvidos. Quer dizer: o Kevin Spacey é um outsider, alguém que pode ouvi-lo, analisar tudo de fora, e quem sabe ajudá-lo. O filme é divertido, porque tem aquela coisa de dois negociadores se enfrentando, e um conhece todos os procedimentos protocolares do outro, sabe bem quando o outro quer enrolá-lo. Mas isso não importa. Importa é que o outsider é fundamental para evitar aquela desgraça. E o que falta à mulher do obaminha? Um outsider! Mas não é um Zé das Couves, o seu Manuel da padaria, ou a vovozinha que só porque está velha parece experiente, tem que ser alguém competente, que tenha estudado e entenda do assunto, ou seja, que esteja ancorado em valores e conhecimentos perenes, fora desse provincianismo espacial e temporal da cultura puppy. Uma boa terapia faz isso. Um bom Juveninho pode ser o começo. Qualquer filme B americano tem a figura do outsider, mas aqui as pessoas vão ao cinema e não aprendem nada, só sabem dizer se gostaram ou não, é a hegemonia do prazer, só conseguem pensar com a categoria do prazer, este atraso nacional. Todo mundo precisa de alguma espécie de outsider para evitar desgraças, e é uma pena que só o procurem, se tanto, quando ela já aconteceu. Porque tem isso também: brasileiro, quando tem um problema, fica olhando pro teto. Pensar, no Brasil, é isso: olhar pro teto. Deve ser por isso que só se pensa deitado… O cara fica lá, esparramado, e não vai resolver nada, não vai ver nem a infiltração no teto. Então quer dizer: é como se ele fosse o primeiro sujeito na história da humanidade a ter aquele tipo de problema. Ora, sobre um problema, estuda-se. Sobre um problema, lê-se tudo a respeito. Sobre um problema, busca-se um especialista ou um sábio. Depois, se a solução já não for óbvia o bastante, é que se “pensa” a respeito.
Você não tem medo de julgar seus personagens?
Olha, uma coisa é o que eu digo nessa entrevista, outra é o que está no livro, e como o livro é contado. Mas, com todo respeito, meu querido, esse medo de julgar personagens é a mais pura viadagem intelectual brasileira. No Brasil, você fala em julgar, todo mundo sai correndo. É como o pique-alerta, lembra? Alguém tem que ficar pra pegar a bola e acertar essa cambada.
[fim da primeira fita]
*****
[Leia também: Da arte de curtir a vida - aqui.]


Sabado, 4 de Abril de 2009, às 19:22
Sensacional Pim!!!! Estou curiosa e ansiosíssima pela chegada do livro. Quando e onde será o lançamento? Estarei com certeza presente para te prestigiar.
Sabado, 4 de Abril de 2009, às 09:35
Fabuloso!
Sabado, 4 de Abril de 2009, às 12:49
Carregar a bolsa de uma menina muitas vezes é apenas um ato de cavalheirismo que dispensa análises psicanalíticas baratas que fiquem projetando situações para este ou aquele relacionamento.
Mas que fique claro que eu não carrego bolsa de mulher nenhuma. Isso é coisa de frouxo!
Sabado, 4 de Abril de 2009, às 14:33
Isso aí está com cara de auto-ajuda pras miguxas!
Sabado, 4 de Abril de 2009, às 14:26
Com certeza, “um bom Juveninho pode ser o começo”…
Maravilha Pimzão! Que venha logo esse futuro Best-seller!
Sabado, 4 de Abril de 2009, às 15:03
Juveninho, com sua vulgaridade adorável, personagem de livro, mal posso esperar… Oba! Oba!
Sabado, 4 de Abril de 2009, às 09:33
Muito bom, Pim.
Ah, ela precisa de nome próprio - a “mulher do Obaminha”. Não sustentar nome próprio é, no mínimo, desperdício de vida.
Sabado, 4 de Abril de 2009, às 19:51
Excelente! E tome psicotapa !